Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









2.01.09

Angústia de aniversário: um dia em 1968

E então, chega o dia. O tempo, marcado pelas datas, meses, anos, que se passam, cada vez uma fração menor do que já vivemos. Saudade do tempo em que um ano era um oitavo ou um quarto inteiro de sua vida, as férias duravam três meses, as pessoas entravam e saíam de sua vida como crepúsculos e auroras, e só ficavam as músicas, os poucos amigos mais fiéis, os parentes e as paredes da casa de minha mãe, erguidas e úmidas, volta e meia com alguma novidade, como um sofá novo a encostar nelas ou um quadro diferente.
O dia em que, há exatos 41 anos, eu vinha a este mundo, por volta de sete da noite. O ano era 1968. Eu era uma criatura inconsciente quando decretaram o AI-5, nem sonhava em existir hemisfério Norte, quanto mais a França de Cohn-Bendit, ou a Primavera de Praga repleta de flores mortas.
É estranho ver o tempo passar, ter a sensação de que os próximos 41 anos passarão muito mais depressa do que os últimos. Sentimos a angústia do por fazer, mas ao mesmo tempo vem ao coração a certeza de que se viveu corretamente: nunca fui preso, nunca roubei (a não ser, sim, uns quatro Supertrunfos de uma lojinha no shopping e alguns botões de um amigo que já desapareceu), não fiz nenhuma cirurgia, me apaixonei várias vezes e obtive uma das maiores conquistas que o ser humano pode obter, que é encontrar seu par perfeito, ainda que sejamos nós dois, eu e Marcele, muito imperfeitos, juntos, separados, inteiros e um para o outro.

Mas é nessas arestas que residem os encaixes.

O passado, no entanto, é como um abismo dentro do coração da gente. Estou no momento ouvindo o Concierto de Aranjuez, e me lembrando de dois livros que li no momento em que eu achava uma certa coisa da vida – uma coisa que eu não lembro bem qual era: Cleo & Daniel e Coiote, ambos do falecido psicanalista Roberto Freire. No primeiro, Freire fala em Aranjuez como a música do espírito liberto, do tesão, da vida vivida com arte, embriaguez, com a consciência da finitude e a responsabilidade de vivê-la com amor. No segundo livo, Coiote, Freire nos leva ao mundo do Adagietto de Mahler, na definição dele a representação musical da paixão, de um casal fazendo amor com paixão e entrega, a música da vida explodindo.

Me lembro destes dois livros como se fossem promessas. Volta e meio penso que lutei para cumpri-las, mas, como todo ser humano no século 21, não tive sucesso. É aluguel, é conta para pagar, é tensão no emprego, crise econômica, mundo real, mundo virtual, violência, medo, política, ódio. O mundo real é uma muralha. Volta e meia nessa muralha projetam uma cultura geek ou mesmo hábitos de consumo cinematográficos para que a dor diminua. A dor de se saber real e saber que a vida é verdadeira (como escreveu o Fernando Pessoa).
A promessa do Coiote e de Cléo & Daniel era um mundo onde a vida fosse plena, vivida, respirada, sentida. O que se sonha aos 22 anos é tão distante do que vemos aos 41 que a sensação, de certa forma, é de não termos sido leais a nós mesmos, de termos traído convicções. Mas não foi isto: apenas mudamos. Mudar não é trair. É perder o que se tinha. Muitas vezes a fórceps.
Enfim, escrevo sobre isto tudo porque no dia do nosso aniversário sempre pensamos, sempre temos a dúvida: sucesso, fracasso, se vivemos direito, se vamos viver bem daqui para a frente, se a felicidade nos espera.
É tudo como gelo fino embaixo de nossos pés. A vida é este eterno patinar. Que nem eterno é.
Um feliz 2009 para vocês todos.

por Gustavo de Almeida as 17:01:38

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Seus comentários

Nome: desestressa mano
Url: http://diariodetento.blogspot.com/
Eu lembro que em 68 eu tava chupando um geladinho no colo da mina avô, ouvinô radio, parece que passei o ano todo ali mano
03.01.09 @ 01:34
Nome: Paula Clarice
Url:
Minha vida tb muda rápido, mas uma coisa que nao muda nunca (e espero que nao mude mesmo, pq eu amo) é que dia 2 de janeiro sempre tem um texto fofo no eclipse :))))

Feliz aniversário, amigão!!
03.01.09 @ 09:20

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