Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes săo cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









25.01.09

Hoje é domingo, sabem como é...

É dia de vestir uma roupa mais elegante para ir à missa.

100_6957

Foi mal aê, quem não é abençoado.

por Gustavo de Almeida as 13:37:51

22.01.09

25 anos esta noite

A data não pode nunca deixar de ser lembrada. E a música era uma das preferidas dele. Curte daí, Zé Marinheiro. Seja de onde estiver.

por Gustavo de Almeida as 10:25:45

21.01.09

A intrigante música de abertura da novela Caminho das Índias

Quem diria!Depois de anos de campanha contra o cigarro, a música de abertura da novela Caminho das índias é uma festança do tabaco, uma invocação ao ouvinte para que ele acenda seu Beedi, o fumo de rolo lá da Índia!
A dica é do jornalista Eduardo Pierre, de O DIA, e colunista do Meia Hora. Ele dá boas dicas em seu blog Alto e Bom Português e descobriu que o caminho das índias passa por um fuminho natureba.
O crédito da música é "Omkara" - ninguém sabe se é um grupo, uma dupla sertaneja da Índia ou uma cantora.

Segue aí a letra da música com a tradução logo abaixo.


Naa ghilaaf
Naa lihaaf
Naa ghilaaf
Naa lihaaf
Thandi hawa bhi khilaaf Sasuri
Naa ghilaaf
Naa lihaaf
Thandi hawa bhi khilaaf Sasuri
Itni sardi hai kisi ka lihaaf lei lay
Jaa padosi ke chulhe se aag lei lay
Jaa padosi ke chulhe se aag lei lay

Beedi jalai lay
Jigar se piya
Jigar maa badi aag hai
Beedi jalai lay
Jigar se piya
Jigar maa badi aag hai

Dhuan naa nikaari o lab se piya
Ah ha
Dhuan naa nikaari o lab se piya
Je duniya badi jhaag hai

Beedi jalai lay
Jigar se piya
Jigar maa badi aag hai

Naa ghilaaf
Naa lihaaf
Thandi hawa bhi khilaaf Sasuri
Itni sardi hai kisi ka lihaaf lei lay
Jaa padosi ke chulhe se aag lei lay
Jaa padosi ke chulhe se aag lei lay

Naa kasoor
Naa fatoor
Naa kasoor
Naa fatoor
Bina juram ke hujoor
Marr gayi
Ho marr gayi

Aise ek din dupahari bulai liyo re
Baandh ghungru kacehri lagai liyo re
Bulai liyo re
Bulai liyo re
Dupahari
Lagai liyo re
Lagai liyo re
Kacehri

Angethi chadahi le
Jigar se piya
Jigar maa badi aag hai
Beedi jalai lay
Jigar se piya
Jigar maa badi aag hai

Na toh chakkua ki dhaar
Na daraati na kataar
Na toh chaa-kua ki dhaar
Na daraati na kataar
Aisa kaate ke daat ka nisaan chod de
Je kataai to koi bhi kisaan chod de
O aise jaalim ka chod de makaan chod de
Re billo
Jaalim ka chod de makaan chod de
Aise jaalim ka
O aise jaalim ka
Aise jaalim ka chod de makaan chod de

Na bulaya
Na bataya
Na bulaya
Na bataya
Mhane neend se jagaya hai re
Aisa chaukail haath mein naseeb aa gaya
Woh elaichi khilai ke kareeb aa gaya

Koyla jalai le
Jigar se piya
Jigar maa aag hai

Itni sardi hai kisi ka lihaaf lei lay
O Jaa padosi
O Jaa padosi
Jaa Jaa Padosi
O Jaa padosi ke chulhe se aag lei lay

TRADUÇÃO:

Sem cobertores
Sem lençóis
Sem cobertores
Sem lençóis
E este vento frio vem ao meu encontro
Sem cobertores
Sem lençóis
E este vento frio vem ao meu encontro
Está tão frio, pegue o lençol de alguém
Vá pegar um pouco do fogo do forno do vizinho
Vá pegar um pouco do fogo do forno do vizinho

Acenda seu cigarro
No meu coração
Como se houvesse um fogo ardendo
Acenda seu cigarro
No meu coração
Como se houvesse um fogo ardendo

Não deixe a fumaça sair de seus lábios, amor
Ah ha
Não deixe a fumaça sair de seus lábios, amor
Porque este mundo já está todo bagunçado

Acenda seu cigarro
No meu coração
Como se houvesse um fogo ardendo

Sem cobertores
Sem lençóis
E este vento frio vem ao meu encontro
Está tão frio, pegue o lençol de alguém
Vá pegar um pouco do fogo do forno do vizinho
Vá pegar um pouco do fogo do forno do vizinho

Sem culpa
Sem provas
Sem culpa
Sem provas
Sem cometer crime algum
Fui sentenciado à morte
Fui sentenciado à morte

Algum dia, me chame de tarde
Leve-me ao julgamento, me amarre à coleira
Me chame
Me chame
De tarde
Algum dia
Algum dia
Condene-me

Acenda seu forno
No meu coração
Como se houvesse um fogo ardendo
Acenda seu cigarro
No meu coração
Como se houvesse um fogo ardendo

Nem mesmo a ponta de uma faca
Nem a adaga se compara
Nem mesmo a ponta de uma faca
Nem a adaga se compara
Ela me mordeu de tal maneira que deixou marcas
Um agricultor pararia de colher
Oh, como você pode gostar de um bruto como eu?

Oh, querida
Você ficaria com um bruto assim?
Oh, minha amada
Você ficaria com um bruto assim?

Sem contar
Sem me chamar
Sem contar
Sem me chamar
Ele me acorda do sono profundo
De repente meu destino vem aos meus lençóis
E me alimenta com gengibre, vindo até mim

Acenda o carvão
No meu coração
Como se houvesse um fogo ardendo

Está tão frio, pegue o lençol de alguém
Ah, vá pegar
Ah, vá pegar
Vá vá pegar
Vá pegar um pouco do fogo do forno do vizinho

Como se pode entender da última linha, na índia também tem corno.

por Gustavo de Almeida as 16:47:25

Show do Elton John: perdi o inglês por uma música

Tudo é por dentro. Sério. Tudo é casca e ao mesmo tempo, o que acontece mesmo é por dentro, e acho que vem daí a mania de toda criança querer abrir o brinquedo para ver como funciona – muitas vezes o brinquedo é o avô ou mesmo um gato azarado o suficiente para não correr. Mas a criança descobre, o adulto vê e não entende. Eu mesmo não sei o que acontecia “aqui” dentro, na noite de segunda-feira na Praça da Apoteose. Elton John, responsável por alguns dos primeiros acordes a entrar nos meus ouvidos, dava show pela primeira vez na minha frente.
O show foi visto com milhares de olhos diferentes: teve o olho da TV, focalizando essa coisa patética e meio desengonçada que é o fã. Devoção é um negócio de doido. O cara que chega de madrugada para o show das 22h. Sei lá, cada um na sua – eu já cheguei mais cedo para Rolling Stones, Rod Stewart, Neil Young. Enfim, no fundo o fã é o que a TV mais gosta. É imagem. Um cara muito doido lá no gargarejo, berrando umas letras, e pronto Valdir, pode guardar a câmera, fizemos nossa sonora e nossa passagem, etc.
Há o olhar de quem vai apenas ver mais um show internacional. Elton John? Será que ele está velho? Em forma? Não está em forma? Vai tocar sucessos ou coisas novas?
Tem olhar a rodo, pode crer.

O meu olhar também era abstração pura: o que eu via/ouvia era aquilo, a coisa dos primeiros sons que eu ouvi na vida. Tive sinestesia quando tocou “Goodbye yellow brick road”. Senti cheiro de saudade, de casa no térreo, de geladeira velha de um andar só, de chegar da escola. Goodbye yellow brick road. Depois veio Rocket man dizendo que, bom, vai se passar um longo, longo, longo tempo.


Uma montagem simpática com cenas de Almost Famous

A cena em si, inesquecível, com Tiny Dancer

Houve também Tiny Dancer, aquela famosa cena de Almost Famous a nos assombrar o coração. Aquela cena, vocês sabem, assombra o coração. Pela liberdade monstruosa, medonha: um ônibus com sua banda preferida, uma música maravilhosa de Elton John, a estrada passando embaixo das rodas, um amor platônico ao lado que lhe diz a frase: “You ARE at home”. Em Tiny Dancer, a saudade é daquilo que nunca vivemos – nada pode ser mais perfeito para termos não-vivido do que um bom filme. Vamos não-viver os bons filmes. Para isto ainda temos tempo. Não sei se o mundo de hoje tem espaço para os sonhos contidos nesta cena genial do filme de Cameron Crowe.
E teve Daniel, Skyline Pigeons (de novo a me lembrar a infância), Your Song (a música do meu casamento com a Marcele), teve Sacrifice, The bitch is back, a deliciosa Benny and the Jets. Uma banda prodigiosa, guitarrista, baixista e baterista espetaculares, houve momentos em que pensei estar ouvindo os Doobie Brothers, banda sulista americana de virtuoses.
Mas era Elton John, aquele cara que eu conheci criança. Ele era uns 35 anos mais novo, tinha, hoje eu sei, 26 anos, quando eu ouvi sua voz pela primeira vez. Depois veio Pinball Wizard, ele interpretou quando Ken Russel resolveu filmar a ópera-rock Tommy, do The Who. Mas ali eu já me entendia por gente.

O que me perturba é que, quando criança, muito criança, eu não sabia quase nada de inglês ainda, mas entendia perfeitamente que quando cantava Goodbye Yellow Brick Road, ele estava se despedindo de alguma coisa. Sabia, apenas. Sem saber inglês. Este saber era ainda mais completo, e no entanto era ainda mais abismo.
Naquela noite de segunda-feira, eu esqueci que sabia inglês, de novo, como naquele tempo estranho e longínquo.

por Gustavo de Almeida as 00:06:48

15.01.09

Completamente inútil e.....genial!

Vai dar treta aqui em casa, pois acredito que a Marcele vá se encher de ouvir o cara gritar. Hoje imaginei o seguinte diálogo entre Mestre e Gafanhoto:

- Mestre, é possível ser genial e ao mesmo tempo completamente idiota e inútil (Marcele completa lá de dentro: "E irritante")?

- Sim, pequeno gafanhoto.

- Como tal proeza é possível?

- Basta,pequeno gafanhoto, montar um site com todos os principais gritos de David Lee Roth e espalhar geral para a galera curtir, pequeno gafanhoto. Assim encontrarás o caminho da estupidez genial.

Essa eu tenho de agradecer ao João Marcello, que achou este incrível site com gritos do David Lee Roth. Clique. É imperdível.

por Gustavo de Almeida as 23:05:39

O blog de um casal que adora comer (e não é a gente)

Tem gente que define como "concorrência". Eu e Marcele definimos como "companhia". O blog Prato para dois parece ser mais companhia ainda para a gente, porque se eu não tivesse visto que os nomes dos autores são Camila e Marcelo, provavelmente acharia que era meu e da Marcele. Só a definição do blog poderia ser perfeitamente usada aqui no Eclipse: "Dois jornalistas, pouco dinheiro e muita fome. Um blog para quem não entende nada de comida, como nós, mas adora comer. Bastante."
Dois jornalistas? Pouco dinheiro? Muita fome? Adorar comer? Peraí, isto tem que ser Marcele e Gustavo.
No entanto, é Marcelo e Camila. O blog é bem legal e dá dicas excelentes, sempre com preços e uma linguagem própria para gordo entender. O post sobre a Churrascaria Lago Sul, em Petrópolis, me deu água na boca. E fiquei arrependido de não ter lido antes - certamente teria ido à Lago Sul.
Leiam, portanto, o Prato para dois. E lambuzem-se.

por Gustavo de Almeida as 15:45:24

13.01.09

O superhomem nunca vai ao supermercado

Ando com supermercados no pensamento. Sério. Além daquele texto do Osvaldo Soriano, magistral, sobre o gol de Sanfilippo dentro do Carrefour, tenho pensado nestes lugares peculiares da nossa vida moderna – enganam-se os que encontram paralelo no mundo antigo com os mercados ou vendilhões do templo, mafuás repletos de animais vivos e escravos. Nananina. Acho que no mundo antigo há pouca coisa que pode ser comparada a um supermercado moderno, a saber, pela ordem de menos para mais semelhança: uma construção de pirâmide com escravos arrastando pedras gigantescas, uma arena de gladiadores onde só sobrevive o mais forte e uma cidadela em chamas.

Principalmente os supermercados ditos “populares”. Linguagem simples? Supermercado de pobre. No Rio, Guanabara, Prezunic, Leão Camarada (já extinto), Mundial. Em São Paulo, não me lembro. Acho que é “ABC”. Me corrijam os paulistanos.


Exemplo de supermercado de primeiro mundo, na Alemanha

Do Leão Camarada eu me lembro com muito carinho, porque fazia uma promoção simpática, com um apresentador hiperativo que parecia ter saído de outro planeta. Veja bem, não que ele tivesse orelhas pontudas ou coisa assim, mas é que, de fato, não havia como imaginá-lo fazendo outra coisa a não ser falando rápido das ofertas do Leão Camarada e, claro, da promoção em si, que era a seguinte: se você recebesse a visita do cara, era obrigatório ter pelo menos um dos produtos da cesta do Leão Camarada. Tendo um, bingo! Um cestão de prêmios.

O curioso é que os produtos exigidos pelo Leão Camarada eram de um “top of mind” tão grande quando o dos patrocinadores do Alborghetti. Em outras palavras, ninguém comprava. Do Leão, havia o suco de Maracujá Pindorama e o Sabão Neutral Pastoso, que eu me lembre. E já que eu falei no Alborghetti, quem não lembra, no início da década de 1990, dos alimentos ZAELI, da KUERTEN MADEIRAS, do FRIGORÍFICO ALVORADA, e, principalmente, mas principalmente mesmo, do BAMERINDUS (veja bem, estou colocando em caixa alta porque os “reclames” eram gritados pelo Dalborga). O banco tinha um “reclame” maravilhoso:

- BAMERINDUS! O BANCO DA FAMÍLIA BRASILEIRA DO ESTADO DO PARANÁ! QUÉ IR, VAI, NÃO QUER, PROCURA OUTRO BANCO E NÃO VENHA AQUI ENCHER MEU SACO, ÔÔÔ MEEEEEEEEEERDA!

Não, eu não acho que tenha sido o marketing do Dalborga que acabou com o Bamerindus. Acho até que deu-lhe uma sobrevida. Mas, finda a digressão, hoje eu me peguei digressionando mais ainda dentro do Mundial. Estava cheio mas não lotado. Nem peguei fila nos caixas.

Andava pelas gôndolas. Pessoas com cara de sofrimento, com barriguinhas encruadas típicas da alimentação à base de pão com carne, rostos que não ganham creme, braços flácidos, idosos, solitários, pessoas de roupas gastas, gente com pouquíssimo dinheiro. Sim, estamos em um supermercado popular. Quase sinto vergonha de ter freqüentado o Zona Sul, supermercado de riquinho fresco, onde se pedem queijos com nomes aboiolados. E, principalmente, se fala pro cara dos laticínios que é pra “cortar bem fininho”.

Maluco, você não tem idéia de quanto eu tenho asco quando vejo a relação entre a madame e o cara que corta os frios. A mão perfumada e enrugada pedindo “uma provinha” daquele camembert.
Já no Mundial, é aquela alegria: um negão supersimpático (qualé, o cara é um negão mesmo, e negão não é racismo porra nenhuma senão o Pelé era o quê) corta só os queijos minas. Outras duas pessoas cortam os outros frios, de aspecto duvidoso. É engraçado eles colocarem um negão para cortar o quejo mais branco. Sei lá se eles quiseram dizer alguma coisa. Sei que o Minas é mais difícil de cortar, deve ser. Precisa de um cara só para isso.

Supermercado diz tudo sobre a nossa classe média – já que a dita Alta já não vai fazer compras. Quando vai, é no Zona Sul do Leblon, este bairro-Suíça encravado na Bombaim que é o Rio. E não compra detergente, bombril, Omo e cebola. Compra queijinhos, pãezinhos frescos, vinhos sortidos, cervejas de qualquer país menos do Brasil, chocolates belgas. As coisas essenciais para o funcionamento da casa quem compra é a empregada do rico. E no Zona Sul, claro.

A classe média oscila entre vários estamentos quando está em um mercado. Não me canso de lembrar do postulado genial do Engenheiro Cobra, que foi o primeiro a notar quando se desce o degrau social numa ida ao supermercado:

- É quando a gente pára de comprar o doce de leite embaladinho em plástico nas gôndolas, aquele de marca, e passa a comprar na seção de laticínio, aquela colherada dentro do pote.

Perfeito. Há os outros sintomas, como a própria troca de supermercado. Nós aqui em casa trocamos de vez o Zona Sul pelo Mundial, mas a princípio não tinha sido por motivos econômicos, e sim porque tive um desentendimento sério com um funcionário de lá – um sujeito que me desrespeitou pessoalmente, algo que não posso admitir “enquanto” consumidor. Nada foi feito, claro, já que o Brasil é o país do deixa-pra-lá. Mas para não tomar providências mais drásticas, eu e Marcele resolvemos parar de ir, simplesmente.

E a diferença no orçamento foi gigantesca. Com 100 reais no Mundial você volta carregado de sacolas. Com 100 reais no Zona Sul você compra um vinho, um pão e um queijo. E torce para o pão vir cortado.

Mas toda essa lenga-lenga é para dizer que, catzo, a vida pode reservar uma cena em um supermercado, sim. Uma daquelas cenas de fim de filme, ou de início de esperança ou documentário – o que vier primeiro. Prateleiras de carnes secas, toda aquela gente triste, vivendo, sobrevivendo, gôndolas de frios e iogurtes, e eis que o sistema de som do Mundial de Botafogo dispara:

“Where trouble melts like lemon drops/High above the chimney tops thats where you'll find me”*

Sim, era o Israel Kamakawiwo Ole com um ukelele tocando (Somewhere) Over the rainbow. Ninguém ouvia. Ou, para ser mais preciso, ali naquele ponto de encontro de pessoas cansadas de vida e suadas, só eu não ouvia. Israel emenda com What a wonderful world, vocês sabem. Aí corri para os caixas, onde o barulho das maquininhas e dos leitores óticos não me deixaria ouvir Israel e nem ver de novo as peles flácidas daquelas mãos cheias de calos e adeus.
Sei lá o que eu ia sentir.


***Lá onde os problemas derretem como gotas de limão, no alto, bem acima da fumaça das chaminés, onde você vai me encontrar

por Gustavo de Almeida as 23:36:58

12.01.09

Festas Ploc, freaks de DVD, estante nova e outras ressacas

É mania da Marcele, aqui no Eclipse, abrir um post e abordar diversos assuntos. Vou experimentar. É manhã de segunda-feira, a água para o café está fervendo, e escrever bebendo café, de alguma maneira, pode me trazer de volta ao mundo. Afinal, a idade pesa e faz com que o processo de recuperação dos grandes porres seja mais lento. Se velho quando quebra o braço fica seis meses no gesso, imagine eu bebendo vodka Smirnoff ao longo de uma noite dançante na Lapa. O certo seria eu ter sido levado para um hospital especializado em tratamento da ressaca - afinal, a ressaca não tem cura, mas tem tratamentos modernos que diminuem o sofrimento do paciente.

Um quarto escurecido mas não totalmente escuro, ar-condicionado (essencial), coca-cola e muito gelo em profusão, TV no volume baixo, água com gás. Estas são apenas algumas coisas que você deve providenciar quando a ressaca for ao “Nível 1º de Janeiro” (tecnicamente e estatisticamente o grau mais alto).

Festa boa não tem jeito, você bebe e muito. E boa festa é quando você encontra muitos e muitos conhecidos – não existe para mim outra maneira de uma festa ser realmente boa. Claro, a escolha das músicas pode estragar ou salvar um evento. No caso desta última festa, quase estragou.

O DJ era do tipo que os moderninhos chamam, depreciativamente, de “DJ Juke Box”. Tocou clássicos e mais clássicos. “Boys don’t cry” do The Cure, “Big mouth strikes again”, dos Smiths, “Love shack” e “Private Idaho” dos B-52’s e claro, algumas das Stones e do Creedence. Perfeito.

Só que de uma hora para outra o DJ surtou e colocou “Camila, Camila”, do Nenhum de Nós, e “Adelaide”, dos Inimigos do Rei. Mau sinal. Era o sinal da “Síndrome de Festa Ploc”, uma doença que atinge DJs e altera seus processos mentais e sinapses de modo que ele passa a achar que festa boa é aquela em que as pessoas param de dançar para darem umas para as outras risadinhas cúmplices e dizerem, “Olha só, é a musiqinha do He-Man, eu via He-Man”.

Parar uma festa para informar ao amigo próximo que costumava assistir He-Man na infância me soa como um tipo de perversão sexual. Mas a coisa ia mais além: Balão Mágico, músicas da Angélica e até Balão Mágico...com Fábio Júnior!

Não digo nem que é uma piada que perdeu a graça. Mas como o aniversário era de gente que fazia 32 anos, a faixa etária da festa pode ter levado o DJ a concluir que, bom, “estes coroas vão adorar recordar as músicas da infância”.

Nada contra o passado. Tudo contra o passado empacotadinho e pronto para ser despejado nos nossos ouvidos (ainda que nos nossos ouvidos seja ambientalmente mais correto do que simplesmente despejar em mares e lagos sem tratamento primário).

****

Eu sou freak de DVD

Eu já devia ter chegado a esta conclusão há mais tempo. Mas no sábado, quando recebi um dos meus sonhos de consumo, a caixa BLUES, com TODOS os documentários do Martin Scorsese, percebi que sou realmente um freak de DVD. As pilhas de filmes tomam conta da estante, e posso dizer que hoje tenho um acervo maior do que o de muitas locadoras. Sei que não sou o único a ter essa mania. A minha mania tem só um diferencial: espero os preços baixarem absurdamente. Jamais pago mais de R$ 19,90 em um DVD, e atualmente baixei para R$ 12,90.

Esta mania se deve a uma rejeição extrema, que remete ao VHS: “Detesto devolver vídeo na videolocadora”. Ainda mais quando esquecíamos de rebobinar. Aí vinha o som: (Voz de taquara rachada feminina ou masculina) “O senhor se esqueceu de rebobinar a fita, seremos obrigados a cobrar uma pequena taxa”. Caramba, COBRAVAM uma grana para fazer aquilo.

Acabei virando um viciado em comprar filmes. Além de salvar dias como este domingo (em que não conseguimos colocar o pé na rua) com vários filmes e séries, ainda tem a vantagem de não precisar devolver. Ah, e “BLUES” do Martin Scorsese, oito DVDs em uma caixa de madeira com tampo de vidro, estava por R$ 130 no Submarino. Parcelável em 10 vezes.


Agora, já contei pelo menos cinco pessoas que olham para a pilha de DVDs e fazem olhar de reprovação. Ninguém vai para a porta da favela olhar feio pro cara que gasta R$ 100 em cocaína, mas para o meu vício em cinema todo mundo tem palavras de reprovação. “Assim vocês nunca vão comprar um apartamento” é o mínimo que eu ouço. E a cena seguinte é sempre a mesma: o detrator começa a manusear as pilhas:

- Hum....você tem “Chinatown”...
- Caraca, todas as “Profecias”?
- Boa essa caixa do Scorsese, heim? É a que tem “Caminhos Perigosos”?

Obviamente que sempre tem uma locação gratuita. Eu nem ligo. Uma das coisas mais legais de ter filme à beça em casa é exatamente dividir com os amigos e depois ouvir as opiniões (sempre faço questão das opiniões). Dá assunto, dá discussão. Faz bem para a saúde.
E eu sou tão legal que nem peço para eles rebobinarem na hora de devolver.

****
O verdadeiro Carnaval

Vou precisar de mais frilances este mês para levantar uma grana. Afinal, semana passada recebi, picotada em quatro partes, a seguinte mensagem de um certo casal catarinense:


Carnaval no sítio: boa música, cordeiros em suas partes nobres, picanhas salubérrimas, massas gratinadas, ar fresco balançando as arvres (somos nozes), espumantes, charutos, cognacs de madrugada, conversa jogada fora, cerveja do Sul no fim de tarde à sombra de araucárias centenárias. Acabaremos por achar que a vida vale a pena. E tem o Mau, e tem a Paula, e tem a gente reunida pela terceira vez...e a Gol parcela! Aqui faz um calor banguense: 18 graus. O quarto está reservado para vocês. Pensão completa com um espumante por dia incluído. Por dia, não. Por período.

Os autores da mensagem devem ter investigado a minha vida e descobriram que é EXATAMENTE ASSIM que eu vejo a felicidade.
Assim, fico na encruzilhada: ou arrumo dinheiro (e tempo) para ir a Lages em fevereiro ou arrumo dinheiro para quilos de Prozac, caso eu fique aqui no Rio sabendo que isto está acontecendo lá no sítio.
Ai, meu Deus: 18 graus de temperatura. É como eu acho que deveríamos viver.
Vaga para jornalistas (dois, já que Marcele está formada) em Lages? Emails para a redação.

*****
Em instantes, as estantes

O ECLIPSE 2009 vai dar uma mudada no design gráfico, daqui a uns dois meses. Mas o ECLIPSE versão casa vai ganhar três novas estantes em duas semanas. É o projeto Eclipsinho, que consiste em desocupar este quarto aqui para darmos aquela telefonada para a cegonha.

por Gustavo de Almeida as 10:41:42

8.01.09

A diferença de idade e os Moldy Peaches

É claro que eu notei olhares engraçadinhos e enviezados quando comecei a demonstrar minha curiosidade pelo casal Marcelo Camelo-Malu Magalhães, por incrível que pareça um casal para mim silencioso. Acredite: jamais ouvi a voz da Malu e do Camelo conheço tampouco a barba e nem acompanho o suficiente a obra do Los Hermanos. Não estou dizendo que seja ruim ou que não mereça minha atenção, nada disto. Apenas desconheço, não me interesso – espero que os fãs entendam que a gente não se interessar por alguma coisa não a diminui. A existência de milhares de pessoas que odeiam futebol não diminui Pelé, só para dar um exemplo.
Mas achei curiosíssimo o peito do Camelo (se fosse o da Malu eu poderia ser preso) em enfrentar a reprovação da sociedade diante deste súbito acesso de ninfomania, que pelo meu dicionário é a “mania de namorar ninfetas”. Calma. Eu sei. Ninfomania, né? Foi mal.
Camelo deve ouvir piadinhas o dia inteiro, assim como logo há sorrisinhos quando menciono tal episódio ao lado de Marcele – afinal, quando nos casamos eu tinha 36 e ela, 24. Assustador. A diferença não é tão grande quanto a de Camelo-Malu. Mas é uma diferença significativa. Ainda bem que quando eu tiver 114 anos e ela 102, ninguém vai notar.
Estas abordagens que imprensa, sociedade civil organizada e escumalha em geral dão para os episódios de semi-bestialismo (da parte da Malu, evidentemente) volta e meia me entristece. É uma mesmice só. A coisa pode ir muito além de mero “amor”, “paixão”, ou “namoro”. Malu e Camelo podem estar juntos por N motivos que não um relacionamento simples e formal.
Malu pode efetivamente ser fã incondicional de Star Wars, e para uma garota da idade dela é uma sorte única poder ficar ao lado de alguém que parece um wookie. Malu pode ser fã do Los Hermanos! Alguém pensou nisto? Se deu bem: ficou famosa e subiu ao palco sem ser agarrada pelo segurança. Não namora como “fã” e sim como “colega de profissão”. Muito mais maneiro. É como se de repente eu virasse jogador de futebol profissional, fosse para o Flamengo e fizesse um gol valendo pontos de verdade, num campeonato brasileiro, e não no time de seniores do Luciano do Valle (saudades daquelas peladas geriátricas de domingo!). É a coisa da integração, do participar de verdade.

Camelo, por sua vez, não deveria causar tanta rejeição. É dos meus, poderia dizer. Claro, eu não fui fundo como ele foi, e sequer cogitei em arrumar uma mulher que fosse metade da minha idade e tamanho (até porque para ser metade do meu tamanho ela teria que ser uma mulher-tronco). E, claro, jamais pensei em tocar violão aquela tal musiquinha do fim de Juno.

Para falar a verdade, este é o único foco que me importaria neste casal: por que diabos acham legal tocar a merda da musiquinha dos Molden Peaches? Por que não tocam “Não se vá” de Jane & Herondy? Só falta agora o Camelo mascar Tic Tac de laranja.
Todo mundo sabe que eu não sou xenófobo e nunca caí nessa de “colônialismo besta”. Mas vou usar pela primeira vez a expressão: que “colonialismo besta” a menina dizer que só consegue pensar em inglês e que colonialismo besta os dois tocarem de frente um pro outro a música do fim de “Juno”!
Sou muito mais Jane & Herondy.

Portanto, podem parar de gracinhas, quem ficar chamando a atenção para a minha diferença de idade para a Marcele: meu problema com o casal Malu-Camelo é a musiquinha do Juno, pô.

por Gustavo de Almeida as 23:28:24

6.01.09

Ronaldo Fenômeno vence o Emme Awards de 2008

Só mesmo o pessoal da revista M... para matarem minhas saudades do JB – ou seja, do ato de copiar um release e colar no espaço editorial como se fosse matéria. Bom, nem tanto assim, já que só vou reproduzir o release entre aspas. Vale a pena conferir este concurso, o novo Emme Awards. Este ano o ganhador foi o futuro ídolo da Fiel, o que por si só já renderá polêmica. A premiação, no entanto, se deveu muito mais às estrepolias dele com os travestis no meio do ano.
Segue o release-notícia:

“O jogador Ronaldo Fenômeno foi eleito pelos leitores da revista "M..." o Merda de 2008, levando o Emme Awards deste ano. A votação foi encerrada hoje e estava no ar desde o mês passado. A cada mês, desde julho, o site da revista (http://www.mcorporation.com.br) elegeu um concorrente, através do votos dos leitores em uma enquete eletrônica. Alguns desse escolhidos foram selecionados e agregados a outros nomes que se destacaram no primeiro semestre de 2008, como o padre Adelir de Carli, vulgo Padre Voador (que chegou a vencer fora do Brasil o Darwin Awards).
Ronaldo conquistou mais um título para sua carreira por ter protagonizado uma seqüência de merdas em 2008: foi notícia ao ser eleito o fiasco da temporada na Europa pelo jornal italiano "Corriere de la Sera"; depois teve uma contusão braba em pleno jogo do Milan; de volta ao Brasil, se envolveu com os travecos na Barra da Tijuca; e, no fim do ano, abandonou o Flamengo, onde estava tentando se recuperar, seguindo para o Corinthians, sem ao menos avisar a torcida rubro-negra.
O atleta venceu seus concorrentes no Emme Awards com muito aperto, conquistando 29% dos votos. Com 26% dos votos, a PM carioca ficou em segundo lugar, por ter fuzilado um menino no carro da mãe. Em terceiro, com 25%, nossa estrela-cadente internacional, o Padre Voador. Em quarto, com 13%, os pais de Isabella Nardoni, seguidos da PM paulista, que encerrou com a morte de Eloá o seqüestro da jovem (4%), e o Comitê Olímpico da China, que substituiu uma cantora feiosinha Cerimônia de Abertura e ainda perdeu a vara de uma brasileira (4%).
Vale lembrar que, esta semana, Ronaldo também venceu a categoria Mico do Ano no blog Kibe Loco. Assim, o Fenômeno se torna o grande nome de 2008 na eleição de dois mais representativos sites de humor da atualidade. "

A "M..." foi lançada no fim de 2006, com repercussão entre formadores de opinião e o seleto público que conseguiu adquirir um exemplar. No fim de 2008, chegou a ser tema de uma entrevista com seus editores no Programa do Jô, na Rede Globo. A revista (que tem uma parte disponível no site www.mcorporation.com.br, além de um blog atualizado diariamente, com colaborações de profissionais e leitores) sempre traz na capa uma personalidade conhecida sentada em uma privada (já posaram para a foto principal Clodovil, Regininha Poltergeist e Sidney Magal, além de Preta Gil, Lacraia e Carlos Moreno, em outras seções). Como sugere o título, a publicação fala sobre as "merdas" que acontecem na sociedade, mas sempre de forma bem humorada.
O parágrafo acima, reparem, é um pedaço de release que eu acabo de publicar como se tivesse sido matéria que eu escrevi. Haja vocação para fazer M....

por Gustavo de Almeida as 19:38:18

4.01.09

Crise financeira mundial: nossas primeiras medidas

Esta será uma segunda-feira tragico-engraçada, já que é a primeira da crise financeira pós-festas de fim de ano. A crise é um mistério para os brasileiros. Afinal, quem já anda sem dinheiro não consegue imaginar como será ter ainda menos dinheiro. A definição mais perfeita para esta possibilidade de recessão com inflação de que nos fala (e assusta) a imprensa especializada vem do mago Francinei Lucena, filósofo nascido em Tomás Coelho, bairro da periferia carioca, onde o filho chora e a mãe não escuta:

- (Recessão com inflação) é quando a gente não vai ter dinheiro para comprar o que vai estar caro pra caralho e que mesmo assim vai estar em falta.

Bingo. Perfeita e inesquecível, a definição. E olha que Francis (como o chamamos) nos brindou com este pensamento lá por meados dos anos 90, quando vivíamos o terror do apagão mexicano.
Eu e Marcele já começamos os cortes, a começar pelo freezer. Se você leu esta postagem, já sabe que eu andava de implicância com o freezer aqui de casa. Por mais que eu abrisse a porta, não conseguia ver nada interessante, a não ser um nhoque semi-pronto que eu comprei há alguns meses e que eu acreditava ainda poder consumí-lo em janeiro de 2009.
Acreditava, até a noite deste domingo, quando eu e Marcele resolvemos fazer uma blitz no freezer e separar o joio (fora da validade) do trigo (ainda bom para consumir). Minha idéia (nossa, na verdade) era tirar tudo, e o que ainda estivesse dentro da validade seria levado para o congelador normal, aquele em cima da geladeira.
Sabem o que ainda dava para consumir?

Nada.

Por pelo menos cinco ou seis meses a Light recebeu meu dinheiro para que eu mantivesse gelados em um freezer produtos que jamais poderiam ser consumidos pelo ser humano sem risco de botulismo, intoxicação grave ou combustão interna espontânea.
Quiches de queijo, tortas de frango à base de iogurte, carnes diversas, kaftas bovinas, raviolis de vários sabores e diversos tupperwares com substâncias impossíveis de serem identificadas sem ajuda de um bom médico-legista.
Tupperwares que, acredito, são presentes da minha mãe, que é a pessoa que eu conheço que mais usa os tupperwares na face da terra. Um dia a caixinha onde vem o tupperware (ai, que vontade de dizer teipeuér) terá o retrato da minha mãe, assim como a aveia Quaker tem o desenho de uma quaker famosa lá nos States. Minha mãe cozinha cercada dessas caixinhas de plástico. Se sobra gema de ovo, ela guarda num tupperware. Uma colher de arroz? Tupperware. Coloquei pasta demais na escova de dentes? Tupperware. Um ingresso sobrando pro show do Elton John? Tupperware, ora! É só colocar no microondas depois!
Enfim, o freezer está aqui do lado agora, paradão, parou de consumir energia elétrica. Agora teremos o verdadeiro teste do quanto esse tal de freezer puxa da energia.

Mas nenhum dinheiro economizado pagará a decepção por eu ter perdido aquele nhoque.

por Gustavo de Almeida as 20:55:36

2.01.09

Angústia de aniversário: um dia em 1968

E então, chega o dia. O tempo, marcado pelas datas, meses, anos, que se passam, cada vez uma fração menor do que já vivemos. Saudade do tempo em que um ano era um oitavo ou um quarto inteiro de sua vida, as férias duravam três meses, as pessoas entravam e saíam de sua vida como crepúsculos e auroras, e só ficavam as músicas, os poucos amigos mais fiéis, os parentes e as paredes da casa de minha mãe, erguidas e úmidas, volta e meia com alguma novidade, como um sofá novo a encostar nelas ou um quadro diferente.
O dia em que, há exatos 41 anos, eu vinha a este mundo, por volta de sete da noite. O ano era 1968. Eu era uma criatura inconsciente quando decretaram o AI-5, nem sonhava em existir hemisfério Norte, quanto mais a França de Cohn-Bendit, ou a Primavera de Praga repleta de flores mortas.
É estranho ver o tempo passar, ter a sensação de que os próximos 41 anos passarão muito mais depressa do que os últimos. Sentimos a angústia do por fazer, mas ao mesmo tempo vem ao coração a certeza de que se viveu corretamente: nunca fui preso, nunca roubei (a não ser, sim, uns quatro Supertrunfos de uma lojinha no shopping e alguns botões de um amigo que já desapareceu), não fiz nenhuma cirurgia, me apaixonei várias vezes e obtive uma das maiores conquistas que o ser humano pode obter, que é encontrar seu par perfeito, ainda que sejamos nós dois, eu e Marcele, muito imperfeitos, juntos, separados, inteiros e um para o outro.

Mas é nessas arestas que residem os encaixes.

O passado, no entanto, é como um abismo dentro do coração da gente. Estou no momento ouvindo o Concierto de Aranjuez, e me lembrando de dois livros que li no momento em que eu achava uma certa coisa da vida – uma coisa que eu não lembro bem qual era: Cleo & Daniel e Coiote, ambos do falecido psicanalista Roberto Freire. No primeiro, Freire fala em Aranjuez como a música do espírito liberto, do tesão, da vida vivida com arte, embriaguez, com a consciência da finitude e a responsabilidade de vivê-la com amor. No segundo livo, Coiote, Freire nos leva ao mundo do Adagietto de Mahler, na definição dele a representação musical da paixão, de um casal fazendo amor com paixão e entrega, a música da vida explodindo.

Me lembro destes dois livros como se fossem promessas. Volta e meio penso que lutei para cumpri-las, mas, como todo ser humano no século 21, não tive sucesso. É aluguel, é conta para pagar, é tensão no emprego, crise econômica, mundo real, mundo virtual, violência, medo, política, ódio. O mundo real é uma muralha. Volta e meia nessa muralha projetam uma cultura geek ou mesmo hábitos de consumo cinematográficos para que a dor diminua. A dor de se saber real e saber que a vida é verdadeira (como escreveu o Fernando Pessoa).
A promessa do Coiote e de Cléo & Daniel era um mundo onde a vida fosse plena, vivida, respirada, sentida. O que se sonha aos 22 anos é tão distante do que vemos aos 41 que a sensação, de certa forma, é de não termos sido leais a nós mesmos, de termos traído convicções. Mas não foi isto: apenas mudamos. Mudar não é trair. É perder o que se tinha. Muitas vezes a fórceps.
Enfim, escrevo sobre isto tudo porque no dia do nosso aniversário sempre pensamos, sempre temos a dúvida: sucesso, fracasso, se vivemos direito, se vamos viver bem daqui para a frente, se a felicidade nos espera.
É tudo como gelo fino embaixo de nossos pés. A vida é este eterno patinar. Que nem eterno é.
Um feliz 2009 para vocês todos.

por Gustavo de Almeida as 17:01:38