31.12.08
Let's hope it's a good one - A vida sempre se renova

O difícil, vocês sabem, não é fácil. A frase é de alguma figuraça do futebol como Dada Maravilha, Vicente Matheus ou Neném Prancha, não lembro. Foi a primeira que me veio à mente quando pensei em escrever um texto original sobre Ano Novo. “Ah, sim, você vai ser o primeiro a ‘refletir sobre essa coisa de dividir a vida em anos’, vai nessa”, me diz a voz crítica do inconsciente esclarecido. “Que tal você escrever que tem uma crise existencial?”, continua a voz, golpeando firme o meu Ego enquanto o Id se mija de rir. Definitivamente, textos sobre o Ano Novo são mais manjados que versão de Yesterday. Mas o que fazer?
O Ano Novo é daqueles momentos raros em que o ser humano consegue entrar na mesma sintonia. Como isso sempre foi quase impossível, talvez tenham inventado os calendários. E o que era impossível, tal e qual na frase manjadíssima de Jean Cocteau (filósofo francês que não fazia parte dos Cocteau Twins), foi lá e foi feito. O Natal, o Ano Novo, o fim de ano, o momento mágico e às vezes terrível em que percebemos o passar do tempo.
Flashes de diversos réveillons começam a explodir na minha memória. Em tantos e tantos lugares. Copacabana sempre na maioria – mas lá no fundo, na última gaveta, há réveillons passados...em casa. Na casa dos meus pais. A lembrança do gosto da champanhe bebida pela primeira vez, ainda criança. A taça redonda, tal e qual uma pia batismal – é verdade, ainda não havia o design compridinho das taças de hoje. Champanhe se bebia numa espécie de taça-pia, semelhante às usadas pelos mocinhos de filme americano para se beber Martini com azeitona.
Eu lá ainda não sabia bem o significado da palavra reveillon. Me lembro do fascínio de ter de, na escola, mudar o ano. Outro dia escreveu de forma espetacular o Dapieve a explicação simples para estas sensações de que o tempo passava mais devagar na infância: “Um ano correspondia a uma fração maior da sua vida”. Bingo. Com seis anos, um ano era quase 20% da minha vida. Agora, bom, vocês sabem, um ano para mim é quase como alíquota de CPMF.
Minha mente sofre nesta época do ano uma espécie de Síndrome de Benjamin Button, e começa a andar para trás, em direção ao ventre materno. As toalhas brancas da mesa, as castanhas, nozes, avelãs e ameixas que eu não comia, os fios de ovos, os tios sorrindo, tudo, como diz o replicante, lost in time like tears in the rain.
A vida se renova, mesmo que a gente não queira. E depois a gente se sente meio bobo: por que eu não queria que se renovasse?
Um feliz 2009, com saúde, paz e prosperidade, apesar das crises.
E que o segundo a mais que terá 2008 seja todo seu.
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