Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









16.12.08

Meu lar já foi um botequim

“Ai meu Deus, o João não!”. Eu quase disse esta frase ontem, quando soube por uma comunidade no Orkut que o boteco onde eu tomei meus primeiros porres iria dar lugar a uma filial de uma rede de bares. Sim, um daqueles que crescem como fungos por toda a cidade. Não são ruins – longe disto. Não cometerei a insanidade de apregoar que o sanduíche de carne assada ou o ovo colorido do boteco do João é mais saudável ou higiênico que um pastel ou queijo de coalho do Belmonte, ambiente asséptico por convicção, representante etílico do mundo das franquias em mármore e paredes padronizadas. De maneira nenhuma.

O que me fez quase repetir a frase (“Ai, meu Deus, o João não!”) dita por Nilton Santos em 1990 foi quase o mesmo motivo que teve, na ocasião, a Enciclopédia do Futebol: do mesmo jeito que como João Saldanha só havia João Saldanha, como o primeiro boteco só há o primeiro boteco. É uma questão de identidade, de raiz. De ser familiarizado até com os germes do balcão. De entrar descalço, vindo da praia. Ou de pedir a cerveja ou refrigerante ali do balcão e levar para a amurada que contorna a praia inteira. Fazer isto com várias.

Me lembro de, certa feita, ter começado por volta das 11h. Os companheiros de birita, vindos de outro bairro, foram lá em casa e arrancaram a gente da cama, num sábado. Enquando bebíamos, sob o sol forte do Rio, dezenas de conhecidos disputavam uma suarenta pelada na areia, que não devia estar a menos de 43 graus. A gente, bebendo e fazendo sombra um no outro para distrair.

Acabou a pelada e veio um dizendo:

- Já estão aí, é?
- Não f(*), já é mais de meio-dia, p(*)! - era a nossa resposta.

O dono do bar – que curiosamente não se chamava João – ficava reclamando das cervejas, na verdade, dos cascos de cerveja enfileirando na amurada. Tinha medo que quebrasse um. Na verdade, o medo era de um tombar e o efeito dominó cuidar de quebrar todos. Mas não tinha jeito: tinha que enfileirar para a gente não perder a conta.

O peladeiro – vamos chamá-lo de Paulinho – passou com irmão e mãe para ir almoçar, lá pelas 14h30, e a gente ali, já na 9ª cerveja. Devagar e sempre. Nosso “almoço”, filezinho aperitivo com pão. Tem que ser pão mole, para você pegar a isca de filé e molhar no molho. Torrada não adianta. Os caras do boteco sabiam disto. E passava o Paulinho vendo o filé:

- Belo almoço, heim?
- A gente está de dieta! – respondia um.

O bar era “do João” mas o dono, como eu já disse, não se chamava mais João. Era um nome que tinha ficado. Aqui perto tem um outro bar, chamado Marcelo. Para mim, é Bar do Marcelo. Ninguém muda isso, nem que venha um McDonald’s. Se for o McDonald’s, vira McMarcelo. É a ideologia do botequim no Rio. Isto ninguém pode tirar dos cariocas. Aliás, creio que esta onda de Belmontes, Devassas e Informais seja um plano secreto de alguma agência de inteligência de estado rival. Não é possível.

Os anos foram passando, e o balconista que nos atendia foi para outro bar, na Lapa. O dono que não era João também vazou dali. Passou o ponto. Logo apareceu outra coisa triste do Rio de Janeiro, a máquina caça-níquel. Parei até de passar na porta. Preferi a memória daquele dia, na verdade já era uma tarde, quando o Paulinho passou voltando do almoço.

- Não vai ter sobremesa não? – ele perguntando.
- Estamos escolhendo....hum, acho que vou pedir cerveja! – respondia alguém.

A coisa mais importante do Rio de Janeiro, eu já entendi isto, é o distrito. Não para que um bairro tenha rivalidade com o outro, de jeito nenhum. Mas a cidade tem que ser dividida entre vários pedacinhos, sim. E cada um ser amado pelo povo que ali mora. As raízes são importantes, mesmo que haja em cada raiz uma infiltração ou parede rachada. Ou lágrima perdida em algum porre entre amigos. Aliás, toda hora parava algum dos amigos ali. E pediam mais uma. Bebiam quatro e iam embora. E a gente ali, firme, os cinco originais. Ninguém se rendia. O Paulinho passou de volta, arrumado, cabelo ainda molhado do banho, camisa por fechar, balançando uma chave, talvez a da moto.

- Vocês não foram em casa não?
- Pra quê? A cerveja tá aqui! – respondia um de nós, bêbado o suficiente para não se lembrar nem cinco minutos depois.

E lá foi o Paulinho para a noite enquanto a gente ficava ali, enfileirando garrafas de Brahma (dãããã...este não é um post patrocinado...a Brahma ainda quer ficar com o Zeca Pagodinho e por enquanto não vai trocar ele pelo blog Eclipse). O dono do bar já fazia até cortesias, mandando o balconista levar a cerveja para a gente. Não sei se era cortesia ou se ele achava que era uma temeridade um de nós atravessar a rua com uma garrafa na mão, haja vista que nosso estado não era dos melhores. Mas a gente só percebeu que tinha exagerado um pouco quando o Paulinho passou de volta da noitada, lá por 1h da manhã, o bar já com a porta meio arriada, a gente ali, pensando em começar a contagem das garrafas:

- PQP!!!! Vocês vão morar aqui, é?
- Morar eu não sei...mas se colocar três beliches ali dentro, dá para puxar um cochilo...

Dizem que existe uma foto em que estamos ao lado das garrafas. Acho que foi algo em torno de três engradados. Estava calor naquele dia. O pior é que um dos participantes certamente vai ler e me perguntar, "afinal, quem era este Paulinho?". E eu vou ter que responder desde já: "Não me lembro quem era. Não lembrava nem no dia seguinte".

O mais importante desta história é que ela não acontecerá de novo. Por mim, não acontece porque afinal de contas o meu fígado já não agüenta nem uma hora inteira bebendo cerveja, ando cansado demais e enjoado da boa loira gelada. É a idade, com toda certeza, podem falar. Mas isto é algo tranqüilo de se lidar. O chato é saber que não acontecerá de novo porque não há mais um Bar do João, não há mais a porta semi-arriada, não há mais sequer as garrafas, e sim o chope asséptico e com espuma meio forçada, aquela que parece ser uma espécie de creme, sei lá. Irei, com certeza, ao novo Belmonte.
Mas será como aquela sensação da crônica do argentino Osvaldo Soriano, aquela famosa carta enviada a Eduardo Galeano e publicada no magistral livro “Futebol ao sol e à sombra”, do escritor uruguaio. No texto, curto e maravilhoso, Soriano descreve a ida do herói de sua infância, José Sanfilippo, artilheiro do San Lorenzo de Almagro por quatro temporadas, ao local onde ficava o antigo estádio do clube – onde ele havia vivido suas glórias. No local, havia um Carrefour. Mas Sanfilippo ainda sabia onde eram as balizas.

Eu ficarei, no Belmonte, tal e qual Sanfilippo, olhando para as balizas imaginárias que a memória ergue e o tempo desvanece.

por Gustavo de Almeida as 11:02:14

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Comentários:


Seus comentários

Nome: Bruno
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cara, suas historias sao as melhores!
sempre leio, mas nunca comento. Essa nao resisti- grande paulinho! tenho um amigo parecio.rsrs
parabens,o blog de voces é muito bom.


Bruno, confesso que eu já desisti de tentar ficar blasé, de fingir, de disfarçar...Confesso que a gente faz força para fingir que não gosta e não se lambuza com elogios....
Mas não tem jeito! Elogios como esse são de deixar a gente convencido mesmo, e de se lambuzar completamente! Obrigado pelo seu comentário, obrigado mesmo!
19.12.08 @ 15:56
Nome: éracles
Url: http://www.agenciaempregos.net/
É, meu caro, é a vida. Nem sempre o progresso joga a favor da vida simples. Velhos negócios se vão, velhas profissões se vão, novos bares, novas pessoas, novos gerentes aparecem.

Mas uma coisa me deixa tranquilo. Esses novos bares não podem se descolar da tradição e do que as pessoas gostam, do contrário, os velhos Bares do João voltarão a tomar o espaço.
19.12.08 @ 23:23

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