Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









5.12.08

Uma tarde na fila do restaurante

Levei algum tempo para resolver contar os pormenores do último domingo, talvez até porque estivesse temendo admoestações da outra sócia do Eclipse, que estava comigo e certamente pediria o “off”. Mas o fato é que no último domingo, pela primeira vez, aderi a um legítimo movimento social da classe média-média carioca: a fila do restaurante À Mineira do Humaitá.

Para quem não mora no Rio é mais complicado entender. A rede À Mineira é composta de restaurantes com preço fixo no qual os glutões se empanturram da comida mais light do mundo: a mineira. Torresmos, bacon em profusão, feijões de todos os tipos, carnes de churrasco, lingüiças fritas com gordurinhas dentro e por fora, paios e, como sobremesa, toda sorte de doce açucarado e em compota. Tudo isto por 29 reais (em média).

Por causa dessa variedade de comidas entorpecedoras com alto poder de “carboidratação” é que talvez as famílias enormes escolham esta rede. E daí acontecem as filas, sempre gigantescas, sempre aos domingos.

Só que eu sabia disto porque volta e meia passava em frente à Mineira neste horário do almoço de domingo. Geralmente, tinha acabado de tomar café da manhã e estava indo para a Lagoa ou coisa do tipo. Olhava a fila e pensava: “Bando de doidos, encarar uma fila dessas em restaurante!”.
Eis que chegou o meu dia: aniversário de minha mãe, reunião de família e qual o restaurante que ela escolhe? À Mineira! E com que argumentos? “Paga um preço fixo, tem muitas comidas....e aniversariante não paga!”.

Bom, me rendi. Achei que minha mãe tinha razão e organizei a operação de ida ao famigerado restaurante gorduroso. Primeiro, tentei aquilo que é óbvio e que o Seinfeld certamente tentaria: fazer reserva.

- Senhor, a sua reserva só é mantida até as 13h.
- Ué, mas eu garanto que vou, não pode marcar para 14h? Te dou o meu telefone!
- Senhor, é que se eu mantiver a sua mesa até 14h vazia, os outros clientes que já estarão na fila a esta altura começam a ficar DESESPERADOS.
- Co-co-mo assim DESESPERADOS?
- É, ficam querendo entrar logo.

Me veio à mente a imagem de pessoas com tochas, ancinhos e tacapes, apedrejando a entrada da Mineira aos gritos:
- Porcos fascistas! Tem uma mesa vazia! Deixem-nos entrar!

Aceitei o argumento da moça. E reservei para 13h. Mas quem consegue sair de casa no domingo antes de meio-dia e meia? Ninguém, claro. Assim, perdemos a reserva por alguns minutos. Às 13h15 chegamos ao restaurante e já havia umas 25 pessoas na fila, divididas em grupos de oito ou nove. E sempre grupos heterogêneos – a idade varia entre dois meses e 120 anos. É possível ver umas cinco gerações de uma mesma família numa fila d’À Mineira do Humaitá.
Os manobristas trabalhavam mais do que chapeiro em cantina escolar, estacionando os carros (quase sempre grandes) no local próprio. Nas filas, todo tipo de conversa. Uma senhora pensou em fundar uma comunidade “Eu odeio a Maitê”. Disse isto alto e eu pensei em perguntar “Que Maitê?”. Bom, deve ser a Proença. Casais de gringos com os filhos pareciam ter mais paciência – tive a suspeita de serem sociólogos ou cientistas-observadores de hábitos cariocas. Mas não eram, depois vi o casal e os filhos lá dentro comendo com todo profissionalismo.

Uns 90 minutos depois, conseguimos entrar, finalmente. Eu havia pedido mesa para 20 pessoas, e isto deve ter retardado evidentemente a nossa entrada. Logo de cara, as garçonetes nos lançaram olhares de suave reprovação. Um olhar parecia dizer: “Se seus convidados não chegarem em cinco minutos, vamos cobrir vocês de ketchup e soltar os cães”. Não precisei temer por isto, pois logo meus parentes foram chegando e o ataque em si, à tal da cozinha mineira, começou de forma alucinante.


Fila para restaurantes, uma diversão 100% aborígine

A minha fome, evidentemente, tinha sido multiplicada por cinco, por causa do tempo na fila. O pessoal do restaurante ainda serve para o povo da fila uns pasteizinhos, nada de exagerado. Mas fila é fila. Não tem jeito. E eu nunca vi sentido em fila de restaurante. Há quem me pergunte:
- Mas que sentido você queria ver?
- Deixe-me explicar: uma coisa é uma fila para algo que demanda uma fila, por ser atividade de impacto, curta e que necessita rodízio. Digamos, uma fila para entrar em um ônibus. O ato de entrar em um ônibus é curto, você tem que entrar para que outro atrás de você possa entrar, e tem “impacto”, ou seja, se você for fotografar, tem apenas um “momento de impacto” no qual você pisa no ônibus. Entendeu? Isto é uma fila-fila.
- Sim, claro. E o restaurante?
- Ora, a fila para o restaurante é por si só uma incoerência. Como ficar numa fila esperando que alguém acabe logo uma coisa que está ADORANDO fazer? Como ficar numa fila em uma choperia? Alguém vai a um restaurante para “tomar quatro chopes o mais rapidamente possível” e ir embora? Não! É a mesma coisa!

E eu fiz o teste. Só saímos de lá às 17h. E meu irmão, ao ver o prato com doce de leite, é que disse a frase mais correta:

- Assim não adianta Sibutramina.

Ano que vem vamos num rodízio de saladas. Existe?

por Gustavo de Almeida as 01:00:30

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Seus comentários

Nome: Veridiana Serpa
Url: http://www.30ealguns.com.br
hahaha, domingo lá é assim mesmo, só passo pela porta, bom é ir durante a semana depois do horário que a maioria está acostumado a comer, mas que a comida é gostosa, isso é...
05.12.08 @ 10:27
Nome: Paula Clarice
Url: http://engavetado.blospot.com
Nham! Comida mineira...
(Paula Simpson)
05.12.08 @ 16:34
Um rodízio de saladas parece ótemo!!!!
Com a sibutramina eu virei um desperdício de dinheiro em restaurantes...
Que coisa...
08.12.08 @ 14:48

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