1.12.08
Há 30 anos, o Deus da Raça
Me vem uma sensação de vertigem porque me lembro como se tivesse acontecido ontem. A luz da memória varia entre o sépia e o fim-de-tarde, mas as imagens continuam as mesmas, sempre. O som é que é estranho. Porque, curiosamente, eu confundo o inconfundível: na minha cabeça, o gol de Rondinelli aos 41 minutos do segundo tempo da decisão do Carioca de 1978 contra o Vasco foi narrado por Jorge Cúri, a voz potente, empostada, num gooooooooooooooooooooooooooooool profundo, gigantesco, monumental. Mas a verdade já dita (me foi dita inclusive pelo próprio Rondinelli) é que o gol foi narrado pelo não menos gigante Waldir Amaral (quando criança, eu não gostava dele, e sim do Curi).
O Waldir Amaral do "calibra o centro, executa, entra Zico de cabeça é goool".
Ambos, já desaparecidos, Waldir e Jorge Curi. Gigantescos. Inesquecíveis. E naquele momento, realmente, minhas memórias acertam quando erram: possivelmente os dois narraram na eternidade o gol de Rondinelli, depois do cruzamento no escanteio cobrado por Zico.
Isto aconteceu há 30 anos e me assusta dizer isto. Eu vivi trinta anos desde então e não parece que foi tanto. Será culpa do Rondinelli?
A imagem é clara. O rádio sendo desligado com raiva, conformados, pai e filho. Os minutos intermináveis de silêncio por causa da presunção de que o título estava perdido - o do segundo turno, e isto nos levaria a uma finalíssima com o mesmo Vasco.
E o rádio sendo religado exatamente no momento do gooooooooooool, ali no meio da palavra, um segundo sem saber de quem era o gol, até que se ouviu a vinheta "Fla-men-go-go", e o berro Rondineeeeeeeeeelli que, mais uma vez, eu achava sempre que era do Jorge Curi, mas foi do Waldir Amaral, e a eternidade me ensinou que foi dos dois ao mesmo tempo, e continuará sendo, através dos tempos.
Reveja o lance abaixo. Dê "pause" no momento em que Rondinelli sobe, depois de entrar como um aríete na área cruzmaltina. Repare no momento em que Rondi está suspenso, prestes a cabecear de forma fulminante, arrebatadora, vencendo Leão depois de uma batalha sangrenta e tão terrível quanto poderia ser mesmo uma batalha entre um homem e uma fera.

E veja que Rondi, na queda, sai correndo e não sabe para onde explodir, até que dá uma cambalhota porque não sabia o que fazer.
A torcida, em volta, enlouquece. O Flamengo é aquilo que você vê quando dá pause, Rondinelli suspenso na eternidade, o grito sendo preparado, o coração, o sangue, as veias e vísceras. Olhe nos olhos daquilo que você vê. É o Flamengo.
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Mas você pode descobrir o que é o Flamengo também nesta quarta-feira, 3 de dezembro, quando se completam os 30 anos e os cineastas Pedro Asbeg e Felipe Nepomuceno exibem o documentário "O Deus da Raça", sobre aquele homem chamado Rondinelli. Será às 20h na Praça Luís de Camões, na Glória. É no subsolo daquela estátua da cabeça de Getúlio Vargas, ali bem perto da subida para o Outeiro da Glória. Programa imperdível para os rubro-negros.O ingresso será apenas R$ 5.
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