Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









31.12.08

Let's hope it's a good one - A vida sempre se renova

O difícil, vocês sabem, não é fácil. A frase é de alguma figuraça do futebol como Dada Maravilha, Vicente Matheus ou Neném Prancha, não lembro. Foi a primeira que me veio à mente quando pensei em escrever um texto original sobre Ano Novo. “Ah, sim, você vai ser o primeiro a ‘refletir sobre essa coisa de dividir a vida em anos’, vai nessa”, me diz a voz crítica do inconsciente esclarecido. “Que tal você escrever que tem uma crise existencial?”, continua a voz, golpeando firme o meu Ego enquanto o Id se mija de rir. Definitivamente, textos sobre o Ano Novo são mais manjados que versão de Yesterday. Mas o que fazer?

O Ano Novo é daqueles momentos raros em que o ser humano consegue entrar na mesma sintonia. Como isso sempre foi quase impossível, talvez tenham inventado os calendários. E o que era impossível, tal e qual na frase manjadíssima de Jean Cocteau (filósofo francês que não fazia parte dos Cocteau Twins), foi lá e foi feito. O Natal, o Ano Novo, o fim de ano, o momento mágico e às vezes terrível em que percebemos o passar do tempo.

Flashes de diversos réveillons começam a explodir na minha memória. Em tantos e tantos lugares. Copacabana sempre na maioria – mas lá no fundo, na última gaveta, há réveillons passados...em casa. Na casa dos meus pais. A lembrança do gosto da champanhe bebida pela primeira vez, ainda criança. A taça redonda, tal e qual uma pia batismal – é verdade, ainda não havia o design compridinho das taças de hoje. Champanhe se bebia numa espécie de taça-pia, semelhante às usadas pelos mocinhos de filme americano para se beber Martini com azeitona.

Eu lá ainda não sabia bem o significado da palavra reveillon. Me lembro do fascínio de ter de, na escola, mudar o ano. Outro dia escreveu de forma espetacular o Dapieve a explicação simples para estas sensações de que o tempo passava mais devagar na infância: “Um ano correspondia a uma fração maior da sua vida”. Bingo. Com seis anos, um ano era quase 20% da minha vida. Agora, bom, vocês sabem, um ano para mim é quase como alíquota de CPMF.

Minha mente sofre nesta época do ano uma espécie de Síndrome de Benjamin Button, e começa a andar para trás, em direção ao ventre materno. As toalhas brancas da mesa, as castanhas, nozes, avelãs e ameixas que eu não comia, os fios de ovos, os tios sorrindo, tudo, como diz o replicante, lost in time like tears in the rain.

A vida se renova, mesmo que a gente não queira. E depois a gente se sente meio bobo: por que eu não queria que se renovasse?

Um feliz 2009, com saúde, paz e prosperidade, apesar das crises.

E que o segundo a mais que terá 2008 seja todo seu.

por Gustavo de Almeida as 14:02:01

27.12.08

Operação Compras de Natal: missão dada é missão cumprida

Sábado pós-Natal. Ainda não sei e nem quero pensar no que vou fazer no reveillon. As possibilidades de entrar o ano de forma pouquíssimo festiva são grandes, já que perdi o saco para as diatribes de Copacabana e seus fogos tão faraônicos – se é que faraó tinha morteiro, bombinha e chuva-de-prata. Sei só que o cansaço é grande, pois o Natal foi uma maratona digna de olimpíadas de Esparta. Passei umas duas semanas com o sorrisinho esperto dizendo que iria comprar todos os presentes pela Internet. Até que no domingo, dia 21, entrei em um famoso site de compras submerso para finalmente comprar tudo. A promessa, bonita, era de entregarem tudo até o dia 24. Cliquei algumas vezes e, voilá!, tudo na minha lista, previsão de entrega em dois dias úteis APÓS O PAGAMENTO.

Tive medo de dar problema na operadora do cartão de crédito e resolvi pagar com débito automático na minha conta do Itaú. E...surpresa! O Itaú simplesmente saiu do ar na noite do dia 21! Nada de pagar!
No dia seguinte, nove da manhã, entro no Itaú e pago. E o site submerso manda um email dizendo que as compras chegariam até o dia...26 de dezembro!
Aí se seguem aquelas cenas que todo mundo adora: telefonemas para o call-center, cancelamentos, números de protocolo, prazos de devolução do pagamento (após o Natal, claro). Isto tudo porque o banco ao qual eu pago nada menos que 350 REAIS por ano, sim, isto mesmo, EU PAGO AO ITAÚ TREZENTOS E CINQUENTA REAIS POR ANO, fora as anuidades extorsivas do cartão de crédito, que passam dos 120 reais anuais. No total, os Setúbal levam uns 600 reais por ano da minha conta. No barato.
Agora, o resultado na prática, eu descobri no momento em que o site mandou o tal email dizendo que as compras só chegariam depois do Natal: eu teria de partir para a Batalha Campal das Compras de Natal em Cima da Hora.
Esta é uma guerra que não admite crianças. Nem fracos. Fazer compras de Natal no fim do ano deveria ser tarefa apenas de homens supertreinados em Forças Especiais ou mesmo Comandos Anfíbios chilenos, do tipo daqueles caras que saem de Santiago direto para o Iraque dar cabo de cães infiéis. Por muito pouco não pintei meu rosto com rolha queimada para me misturar ao ambiente.
O local: Rio Sul Shopping Center, em Botafogo. Na primeira noite, eu e minha parceira Marcele estávamos prontos para tudo. O alvo: presentes para nossas mães, sobrinhos e cunhados e concunhados. Quer dizer, tirando o meu concunhado, que raspou a cabeça ao vencer um torneio de futebol americano. Este já tinha ganho o presente, que era a taça.
O ambiente estava bastante hostil. Famílias inteiras levavam idosos com muletas perigosíssimas para transitar entre as estantes de DVDs. Grupamentos letais de criancinhas de cinco a oito anos percorriam em altíssima velocidade os corredores da seção de lingerie e utensílios femininos das Lojas Americanas.
Antes que venha alguém me patrulhar dizendo que este é um post pago e eu tou fingindo que não é, bom, vamos lá, duvido que as Americanas pagassem a alguém para fazer tais comparações.
Logo encontramos outro alvo: um par de tênis novos para a Marcele. Com muito esforço, entre centenas de consumidores xiitas, avançamos de posição e entramos numa loja especializada em artigos esportivos bacaninhas. Um hiphop insuportável em altíssimo volume provavelmente teria nos abatido, não fosse nosso treinamento duro. O vendedor veio nos atender dançando, perguntando nossos nomes e fornecendo o dele. Nestas horas sempre me lembro de Bill Bryson em “Crônicas de um país bem grande”, quando critica esta forçação de barra nas lanchonetes modernas: ‘Vim só comer um hamburguer, não buscar novos relacionamentos”.

Resolvo comprar um tênis novo para mim também. Aponto para um Diadora. O vendedor pega o Diadora e investe, furioso:
- Tem este outro modelo aqui também, da Reebok.
Meu pensamento divaga. Devem ser as armas químicas. O que será que ele quis dizer com isto?
a) Ele acha que eu não estou muito convicto de que quero o Diadora e está dando uma alternativa (mais cara)
b) Ele acha que há possibilidade de eu comprar os dois (hahahahaha)
c) Ele acha o tênis que eu escolhi muito ruim, e está oferecendo outro para me salvar do pior
d) Ele só quer vender um tênis mais caro.

Rapidamente opto pela opção D e reparo que era a correta, já que ele nos oferece meias, cuecas, camisas, e sei lá o que mais. Vou pagar pelos dois tênis e esperar empacotar. É uma longa espera. Fico em dúvida se terei água e víveres em quantidade suficiente para este período. Para me distrair, reparo nos relacionamentos entre vendedores e clientes da tal loja;

- Fala aí bródeerrrrrr
- Beleza, mano? Aí, show a parada.
- Num te falei que era tranqüilo?
- Depois eu vou querer um da Nike, beleza?
- Pode me procurar, pode me procurar – finaliza o vendedor.

Conclusão: os vendedores são idolatrados como poucos nesta loja. Os clientes realmente acreditam que só compram o melhor porque conhecem o vendedor. No momento em que ambos se encontram, existe realmente uma relação de amizade. Fico pensando no sujeito com a namorada encontrando o vendedor em algum outro ambiente, trocando abraços, cumprimentos que terminam com soquinho, e fazendo a maior festa. E a garota perguntando:

- Quem é esse? Parece ser seu amigo há anos.
- Esse cara é 10, é o cara que me vende tênis!

Extenuados, com quilos de mercadorias, vamos à seção de DVDs e CDs da Saraiva. Mais uma vez: não há porque a Saraiva me pagar um centavo sequer pelo que vou escrever. Afinal, havia duas filas gigantescas: para pagar e para embrulhar.

- Aqui é para pagar ou para embrulhar?
- Não, aqui é para pegar autógrafo.
- De quem?
- Sei lá, mais à frente alguém deve saber.

Conseguimos, a ferro e fogo, comprar quase tudo. Faltava os das crianças. Não tem jeito: back to the American Stores (De volta às Lojas Americanas). Checamos todos nossos equipamentos, sincronizamos nossos relógios e procuramos ser claros e concisos nas instruções. A Zona dos Brinquedos sempre foi das áreas mais perigosas das Lojas Americanas. Logo havia um garotinho de sete anos olhando feio para mim porque eu peguei uma Barbie que estava destinada à irmã dela. Crianças em desabalada correria esbarravam de cinco em cinco segundos nas minhas canelas.

E havia uma novidade: representantes das fábricas dos brinquedos escondidos em meio às gôndolas. Ao pegar um carrinho de controle remoto para nosso sobrinho Matheus, fomos saudados efusivamente por um cara que vestia uma camisa com o logotipo do fabricante.
- Booooaaaa noooooiteee e feeeeeeliiizz Naataaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaallll!!!!!!! – gritou o cara, de olhos abertos. Não entendi muito a festa do cara, mas ele foi gentil, solícito e deu uma orientada legal. Mas fiquei com a impressão de que no primeiro momento ele achou que eu fosse uma criança (minha altura, 1,60m, pode até confundir) e a Marcele fosse a mãe da criança. Talvez ele ainda pense isso até hoje.

Em farrapos, me arrastei até a fila da loja, que dava voltas. Ainda entrei e saí da fila ao lembrar que tinha me esquecido dos presentes de amigo oculto, o do meu e o da minha mãe. Suando, com sede, fome e frio, me arrastei quase que com uma faca entre os dentes até a fila, desta vez de forma definitiva. Paguei tudo e saí. Tinha me perdido da minha parceira, Marcele. Descobri o motivo: a mãe dela tinha chegado e elas tinham VOLTADO para as Lojas Americanas. Com toneladas de compras nos braços, tive tempo de balbuciar, trôpego:
- O horror....o horror....

Mas elas tinham ido num quiosque separado da loja, comprar um monitor de LCD que estava na promoção. Pegaram alguns brinquedos, mas o cara do quiosque permitiu que elas pagassem os brinquedos junto com os monitores – o que pode ter salvado a minha vida, já que eu estava disposto a pedir eutanásia caso tivesse de esperar alguém passar pela fila das Lojas Americanas novamente.

No dia seguinte ainda voltamos ao local da batalha. E, como lembra bem a Marcele no post abaixo, compramos um pinheiro num vaso. Peso: uns 20 quilos.

A missão estava cumprida. Agora, era ir para casa embrulhar o que ainda não estava embrulhado (como por exemplo o carrinho do Matheus, que desfez o embrulho em menos de três segundos com um puxão forte). Estava tudo pronto para o Natal.

Inclusive para o de 2009 – já coloquei no meu google reminder: “Comprar presentes até dia 15 de dezembro”.

por Gustavo de Almeida as 17:11:14

24.12.08

Feliz Natal, Feliz Ano Novo

Durante o dia, eu torço para as horas passarem logo e o expediente acabar de uma vez. Durante a semana, de segunda até quinta eu torço desesperadamente para a sexta chegar. Só aos sábados, domingos e feriados é ao contrário -- eu torço para o tempo passar devagar, bem devagar, e tento aproveitar cada minuto.

Depois de passar a maior parte do ano torcendo para o tempo passar logo, é estranho chegar no Natal reclamando que o tempo está passando rápido. Ele está atendendo as minhas preces e, ainda assim, reclamo. Mas é só impressão minha, ou o tempo realmente está passando mais rápido que deveria?

Esse prefácio é para contar que este foi o primeiro ano em que não consegui montar a árvore de natal. O problema não é a árvore, entendem? O problema é que há poucos anos eu queria montar a árvore no fim de outubro, assim que o Natal dobrava a esquina e acenava -- muito, muito antes dele chegar na minha frente. E já é a tarde do dia 24 de dezembro e eu não montei a árvore de Natal.

Gustavo e eu fomos até um shopping, compramos alguns presentes e, na saída, passamos em um quiosque de plantas para comprar um pinheirinho. O nosso primeiro pinheirinho de verdade. Ao entrarmos no táxi para voltarmos para casa, o motorista perguntou: "Vocês vão me desculpar, mas não é tarde demais para montar árvore, não?". Não, moço. Antes tarde do que nunca.

O meu desejo para vocês é que neste Natal o tempo passe devagar, bem devagar. E que em 2009 ele continue em ritmo lento, para dar bastante tempo de vocês aproveitarem cada minuto.

***

De presente de Natal, um textinho de Clarice Lispector -- para gente aprender a aproveitar bem a vida (eu, inclusive):


Dez Anos

Por Clarice Lispector

- Amanhã faço dez anos. Vou aproveitar bem este meu último dia de nove anos.
Pausa, tristeza.
- Mamãe, minha alma não tem dez anos.
- Quanto tem?
- Acho que só uns oito.
- Não faz mal, é assim mesmo.
- Mas eu acho que se deviam contar os anos pela alma. A gente dizia: aquele cara morreu com 20 anos de alma. E o cara tinha morrido mas era com 70 anos de corpo.
Mais tarde começou a cantar, interrompeu-se e disse:
- Estou cantando em minha homenagem. Mas, mamãe, eu não aproveitei bem os meus dez anos de vida.
- Aproveitou muito bem.
- Não, não quero dizer aproveitar fazendo coisas, fazendo isso e fazendo aquilo. Quero dizer que não fui contente o suficiente. O que é? Você ficou triste?
- Não. Vem cá para eu te beijar.
- Viu? Eu não disse que você ficou triste?! Viu quantas vezes me beijou?! Quando uma pessoa beija tanto outra é porque está triste.

***

Que tipo de gente tem o trabalho de comprar cartões de Natal, escrevê-los, colocá-los em envelopes, endereçá-los e não levar até o Correio? Hein, hein, hein? Este tipo de atitude define bem um traço de personalidade que eu preferia não ter.

por Marcele Fernandes as 17:48:41

22.12.08

Hoje tem show de um craque do sono

Confesso que estou tenso, pois vou fazer um exame do sono esta noite. O mais engraçado: não faço idéia de como é isso. Bom, minto. Faço idéia de que vou usar eletrodos no corpo e na cabeça, já que eles recomendam lavar o cabelo com sabão de coco antes. E faço idéia de que vou deitar em uma cama minimamente decente, embora tenha ficado claro que eu terei de levar o meu próprio edredon. Agora, o ponto nebuloso é o horário em que o exame começa: 19h30. Quem dorme 19h30? Melhor ainda: quem dorme 20h? Mais exato: quem dorme 21h? E, finalizando: que ser humano dorme antes das 22h neste país??

A médica que me recomendou - a pedido, claro, da Marcele - disse uma frase enigmática. "Muita gente vai lá (na clínica do sono) achando que não vai conseguir dormir, mas quando chega é outra história". Brrrrr. Será que usam um gás sonífero? Um anão vestido de oncinha com uma marreta de borracha bate na minha cabeça? Um mago hipnotizador? Ou a sala é inteiramente escura?

Outro pensamento que me veio à cabeça quando soube que o exame seria às 19h30: provavelmente é neste horário bizarro porque TODOS vão embora da clínica e eu ficarei lá, sozinho, de madrugada, num prédio comercial em Copacabana, tal e qual defunto em IML. Numa sala escura, completamente sozinho no prédio, posso até ser confundido com um cadáver por ladrões que, por um azar, arrombarem a clínica.

Bom, não serei confundido com cadáver porque provavelmente um cadáver não faz nem a metade do barulho que eu faço, segundo a Marcele. E se, pior ainda, a clínica tiver assombrações que se divertem entrando no sono dos pacientes tal e qual Freddy Krueger?

Telefonei para a clínica perguntando se poderia levar um livro e o MP3. A mulher respondeu um "pode, ué" com um certo tédio na voz. Como se meu esforço fosse inútil e, ao chegar lá, estivesse tudo um breu e fosse impossível ler ou mesmo enxergar o aparelhinho.
Enfim, vamos à tal da Polissonografia. O meu maior medo, na verdade, é o de me ver dormindo, afinal, eles gravam.

Tenho convicção quase espiritual de que o ser humano não foi feito para voar e nem para se ver dormindo ou nascendo. Não tem troço mais esquisito que se ver nascendo. Me ver dormindo é algo que me dá nervoso desde quando uma prima dormiu lá em casa e disse ter visto alguém em pé no local onde eu dormia. "Logo depois, olhei de novo, e você estava deitado. Voltei para olhar em cima da cama, não havia ninguém. Será que era você?", perguntou minha prima Letícia, para logo em seguida ouvir o agradecimento: "Obrigado por me proporcionar umas cinco noites sem conseguir dormir".

Vai que filmam esse negócio e me mostram? Ou processo a clínica ou lanço um DVD.

por Gustavo de Almeida as 17:52:38

20.12.08

Hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa, é de quem quiser, quem vier

Para mim, está decidido: o mês mais cansativo do ano é dezembro. Hoje não tenho mais dúvidas disto, principalmente depois da verdadeira maratona de confraternizações de fim de ano a que me submeti. Nas últimas duas semanas, a média foi de quase uma por dia. E de grupos diversos: ex-JB, O Dia, amigos que se conheceram na faculdade, amigos da Marcele, sempre nesta base. Tenho medo de um dia eu ter de ir em confraternização da “galera que se conheceu comprando jornal na mesma banca” ou “turma da parte de trás do 176 (Central do Brasil- São Conrado)”. Enfim, recomendo que com o passar dos anos você evite formar mais e mais grupos. É difícil administrar os grupos que você forma até os 30 anos. Depois desta idade, não caia nesta esparrela. Periga haver diálogos assim:

- Carolina! Você por aqui? Mas eu te encontrei ontem na festa do pessoal que trabalhou nos jogos Pan-Americanos de Winnipeg!
- Sim, bobo, mas hoje vim também! Você esqueceu que eu também faço parte da turma de Datilografia dos cursos TED?

Sim, há pessoas que fazem parte de vários grupos. Daí a importância de controlar este crescimento. Ontem, sexta-feira 19, era o dia da principal confraternização da minha agenda, que era da galera cláusula pétrea, ou seja, aqueles amigos que não dependem de onde está sua carteira de trabalho para você conviver. Não que a gente não crie amizades importantíssimas e eternas no trabalho, mas, não sei se você me entende, numa rede de relacionamentos, há aqueles que vão ficar sabendo primeiro se você partir desta para a melhor. E, dentro destes, o subgrupo “carregadores do caixão”. Digo em tese, porque se eu estiver no peso em que estou atualmente, acredito que muitos amigos de fé vão amarelar para a tarefa.

Mas, voltando à vaca fria (ou “coming back to the cold cow”, como escreveu o Tom Jobim), no dia da minha confraternização mais importante, eu já estava completamente esgotado. Foi uma maratona principalmente de cervejas, no calor que faz no Rio de Janeiro em dezembro. E eu há muito que não me dou bem com cerveja, ressalte-se. Mas, enfim, passei por uma verdadeira excursão sem guia ao Rio de Janeiro e seus principais palcos para confraternizações: pubs, casas de samba, residências particulares nos bairros mais diversos.

E não sei por quê, tenho a impressão de que o número de confraternizações aumentou muito ao longo do tempo. Talvez esta impressão seja reforçada pelo fato de eu estar trabalhando no Centro do Rio este ano, e não no Rio Comprido, afastado de toda e qualquer forma de sociedade pós-revolução ndustrial. Tudo bem que em dezembro de 2007 eu já estava trabalhando na Rua do Riachuelo, mas quem mora aqui no Rio há de convir que o local não é nenhuma Manhattan. O restaurante mais sofisticado na região é um Spoletto.


Já tá na hora da festa? Ih, vou colocar meu desodorante Tally-ho!

Pelo Centro, a quantidade de restaurantes fechado para eventos de fim de ano era incrível. E mesmo os abertos para o público continham mesas gigantescas, com 30, 40, 50 pessoas, num alarido capaz de ultrapassar em decibéis até um show do Metallica. Na informalidade aqui no Rio, claro que havia locais com mesas da Brahma invadindo a calçada, com cadeirinhas metálicas e esporrentas em torno, e sentadas nelas as figuras clássicas da mulher de meia-idade bem-arrumada e de brincos grandes e do carequinha (não eu, porra) de bigode e gravata meio desalinhada. Ambos de copo na mão e várias idéias na cabeça. É o fim de ano, minha gente!

A quantidade é tão grande de gente que pensei na hora: o Rio deveria ter um evento no sambódromo. Taí: deveriam construir o Pilecódromo. Seria o local oficial para que os bares montassem estandes com grandes chopeiras e centenas de garrafas, paramédicos a postos, quartos escuros para o caso de alguém adormecer, estacionamento amplo e vans para condução de bêbados sem condições de dirigir (praticamente todo mundo). O local só ficaria aberto entre os dias 14e 20 de dezembro, que são os mais repletos deste tipo de celebração tribal.

Por que tão poucos dias? Bom, primeiro, para possibilitar a infra-estrutura. Nenhuma empresa no mundo, nem a Halliburton, tem condições de fornecer chope a 20 mil cariocas em dezembro por mais tempo que seis dias. Aposto quanto vocês quiserem. Digo 20 mil porque é o mínimo de pessoas por dia que estão em confraternização de fim de ano no mês de dezembro. Assim, pelo menos seis dias, se fosse fechado um megacontrato com a Ambev, haveria condições. Claro que a economia brasileira daria um salto graças às vendas extraordinárias da Ambev no período. Acredito que por alguns dias a cevada se tornaria o commoditie mais valorizado e as ações da Brahma, Antártica e que tais iriam ficar mais valorizadas que as da Petrobrás no período pré-sal.

O outro motivo pelos poucos dias é a possibilidade de haver confraternizações de grupos diferentes no mesmo dia. Assim, eu sairia com uma caneca pendurada no pescoço, transitando pelos estantes, de celebração em celebração. Claro que ao fim de oito rodadas pelas festas de fim de ano eu começaria a fazer confusão e seria obrigado a parar em uma só. E agora? Fudeu.

- Vem cá, você vai ficar lá na festa dos ex-JB, é? Maior desprestígio.
- Ah, tu vai lá para a festa do Dia, né? Beleza, cara, vai na fé. Acho que é isso mesmo, é tua vida.
- Porra, não perdeu o cordão umbilical? Você não faz mais curso de música! Cai na real, vai ficar fazendo o quê lá?
- Teus amigos te vêem o ano todo. Eles são teus amigos. A gente aqui só tem chance de te ver no fim do ano. Mas você é que sabe.

Ou seja, o pilecódromo é um projeto que ainda demanda por mais discussão. Enquanto isso, tomo água mineral com gás e me preparo para outra ainda hoje.

por Gustavo de Almeida as 12:20:41

16.12.08

Meu lar já foi um botequim

“Ai meu Deus, o João não!”. Eu quase disse esta frase ontem, quando soube por uma comunidade no Orkut que o boteco onde eu tomei meus primeiros porres iria dar lugar a uma filial de uma rede de bares. Sim, um daqueles que crescem como fungos por toda a cidade. Não são ruins – longe disto. Não cometerei a insanidade de apregoar que o sanduíche de carne assada ou o ovo colorido do boteco do João é mais saudável ou higiênico que um pastel ou queijo de coalho do Belmonte, ambiente asséptico por convicção, representante etílico do mundo das franquias em mármore e paredes padronizadas. De maneira nenhuma.

O que me fez quase repetir a frase (“Ai, meu Deus, o João não!”) dita por Nilton Santos em 1990 foi quase o mesmo motivo que teve, na ocasião, a Enciclopédia do Futebol: do mesmo jeito que como João Saldanha só havia João Saldanha, como o primeiro boteco só há o primeiro boteco. É uma questão de identidade, de raiz. De ser familiarizado até com os germes do balcão. De entrar descalço, vindo da praia. Ou de pedir a cerveja ou refrigerante ali do balcão e levar para a amurada que contorna a praia inteira. Fazer isto com várias.

Me lembro de, certa feita, ter começado por volta das 11h. Os companheiros de birita, vindos de outro bairro, foram lá em casa e arrancaram a gente da cama, num sábado. Enquando bebíamos, sob o sol forte do Rio, dezenas de conhecidos disputavam uma suarenta pelada na areia, que não devia estar a menos de 43 graus. A gente, bebendo e fazendo sombra um no outro para distrair.

Acabou a pelada e veio um dizendo:

- Já estão aí, é?
- Não f(*), já é mais de meio-dia, p(*)! - era a nossa resposta.

O dono do bar – que curiosamente não se chamava João – ficava reclamando das cervejas, na verdade, dos cascos de cerveja enfileirando na amurada. Tinha medo que quebrasse um. Na verdade, o medo era de um tombar e o efeito dominó cuidar de quebrar todos. Mas não tinha jeito: tinha que enfileirar para a gente não perder a conta.

O peladeiro – vamos chamá-lo de Paulinho – passou com irmão e mãe para ir almoçar, lá pelas 14h30, e a gente ali, já na 9ª cerveja. Devagar e sempre. Nosso “almoço”, filezinho aperitivo com pão. Tem que ser pão mole, para você pegar a isca de filé e molhar no molho. Torrada não adianta. Os caras do boteco sabiam disto. E passava o Paulinho vendo o filé:

- Belo almoço, heim?
- A gente está de dieta! – respondia um.

O bar era “do João” mas o dono, como eu já disse, não se chamava mais João. Era um nome que tinha ficado. Aqui perto tem um outro bar, chamado Marcelo. Para mim, é Bar do Marcelo. Ninguém muda isso, nem que venha um McDonald’s. Se for o McDonald’s, vira McMarcelo. É a ideologia do botequim no Rio. Isto ninguém pode tirar dos cariocas. Aliás, creio que esta onda de Belmontes, Devassas e Informais seja um plano secreto de alguma agência de inteligência de estado rival. Não é possível.

Os anos foram passando, e o balconista que nos atendia foi para outro bar, na Lapa. O dono que não era João também vazou dali. Passou o ponto. Logo apareceu outra coisa triste do Rio de Janeiro, a máquina caça-níquel. Parei até de passar na porta. Preferi a memória daquele dia, na verdade já era uma tarde, quando o Paulinho passou voltando do almoço.

- Não vai ter sobremesa não? – ele perguntando.
- Estamos escolhendo....hum, acho que vou pedir cerveja! – respondia alguém.

A coisa mais importante do Rio de Janeiro, eu já entendi isto, é o distrito. Não para que um bairro tenha rivalidade com o outro, de jeito nenhum. Mas a cidade tem que ser dividida entre vários pedacinhos, sim. E cada um ser amado pelo povo que ali mora. As raízes são importantes, mesmo que haja em cada raiz uma infiltração ou parede rachada. Ou lágrima perdida em algum porre entre amigos. Aliás, toda hora parava algum dos amigos ali. E pediam mais uma. Bebiam quatro e iam embora. E a gente ali, firme, os cinco originais. Ninguém se rendia. O Paulinho passou de volta, arrumado, cabelo ainda molhado do banho, camisa por fechar, balançando uma chave, talvez a da moto.

- Vocês não foram em casa não?
- Pra quê? A cerveja tá aqui! – respondia um de nós, bêbado o suficiente para não se lembrar nem cinco minutos depois.

E lá foi o Paulinho para a noite enquanto a gente ficava ali, enfileirando garrafas de Brahma (dãããã...este não é um post patrocinado...a Brahma ainda quer ficar com o Zeca Pagodinho e por enquanto não vai trocar ele pelo blog Eclipse). O dono do bar já fazia até cortesias, mandando o balconista levar a cerveja para a gente. Não sei se era cortesia ou se ele achava que era uma temeridade um de nós atravessar a rua com uma garrafa na mão, haja vista que nosso estado não era dos melhores. Mas a gente só percebeu que tinha exagerado um pouco quando o Paulinho passou de volta da noitada, lá por 1h da manhã, o bar já com a porta meio arriada, a gente ali, pensando em começar a contagem das garrafas:

- PQP!!!! Vocês vão morar aqui, é?
- Morar eu não sei...mas se colocar três beliches ali dentro, dá para puxar um cochilo...

Dizem que existe uma foto em que estamos ao lado das garrafas. Acho que foi algo em torno de três engradados. Estava calor naquele dia. O pior é que um dos participantes certamente vai ler e me perguntar, "afinal, quem era este Paulinho?". E eu vou ter que responder desde já: "Não me lembro quem era. Não lembrava nem no dia seguinte".

O mais importante desta história é que ela não acontecerá de novo. Por mim, não acontece porque afinal de contas o meu fígado já não agüenta nem uma hora inteira bebendo cerveja, ando cansado demais e enjoado da boa loira gelada. É a idade, com toda certeza, podem falar. Mas isto é algo tranqüilo de se lidar. O chato é saber que não acontecerá de novo porque não há mais um Bar do João, não há mais a porta semi-arriada, não há mais sequer as garrafas, e sim o chope asséptico e com espuma meio forçada, aquela que parece ser uma espécie de creme, sei lá. Irei, com certeza, ao novo Belmonte.
Mas será como aquela sensação da crônica do argentino Osvaldo Soriano, aquela famosa carta enviada a Eduardo Galeano e publicada no magistral livro “Futebol ao sol e à sombra”, do escritor uruguaio. No texto, curto e maravilhoso, Soriano descreve a ida do herói de sua infância, José Sanfilippo, artilheiro do San Lorenzo de Almagro por quatro temporadas, ao local onde ficava o antigo estádio do clube – onde ele havia vivido suas glórias. No local, havia um Carrefour. Mas Sanfilippo ainda sabia onde eram as balizas.

Eu ficarei, no Belmonte, tal e qual Sanfilippo, olhando para as balizas imaginárias que a memória ergue e o tempo desvanece.

por Gustavo de Almeida as 11:02:14

15.12.08

Madonna e a tal da Cidade Partida

O domingo foi do metrô, para mim e para a Marcele. Era dia do almoço tradicional de fim de ano dos amigos que estudaram com ela na Escola Técnica Federal de Química. Taí uma revelação sobre a Marcele que surpreenderá os leitores: ela é técnica de saneamento. Não exerce a profissão, é verdade.Mas é técnica de saneamento e jornalista ao mesmo tempo. Pelo que sei, tem a formação ideal para fazer jornalismo político.
Pois o almoço foi no Valqueire. O bairro - para quem não é do Rio - é Vila Valqueire, na Zona Oeste, famosa "área das milícias", depois de Campinho e Madureira. Um bairro simpático e valorizado dentro da região, tanto que um amigo tenta há meses encontrar um apartamento que caiba no seu orçamento e não consegue por causa dos preços altos.
Fomos de metrô até Irajá, e de lá pegamos carona com um casal de amigos da Marcele de longa data.
Finda a programação, lá pelas sete da noite, os amigos nos deixaram novamente no metrô de Irajá. Pouco antes, lembramos que era dia de show da Madonna no Maracanã. E eu disse:

- Está pronta para virar sardinha em lata dentro do fã-clube da Madonna?

Marcele se apavorou com a lembrança. E ficamos numa expectativa meio tensa de encarar um vagão lotado demais. São 8 estações na Linha 2 até a Estação Maracanã: Irajá, Vicente de Carvalho, Tomás Coelho, Engenho da Rainha, Inhaúma, Del Castilho, Maria da Graça e Triagem. E na Linha 2, a linha da Zona Norte e dos subúrbios, a distância é maior entre uma estação e outra.
Isto se explica por razões simples: primeiro, os governos que priorizaram a Zona Sul, onde há público formador de opinião e indutor do noticiário - os anunciantes se dirigem a este público com dinheiro e os jornais evitam contrariar tendências dos anunciantes. Logo, se os governos fizessem o certo e investissem em metrô onde há maior densidade demográfica (ou seja, Zona Norte), logo os jornais começariam a estrilar para, finalmente, atender ao público da Zona Sul e, consequentemente, aos anunciantes.
A segunda explicação é a que eu já citei, e é mais "técnica": os engenheiros do metrô, em uma área de maior densidade demográfica de moradores (não de população em trânsito) normalmente "espaçam" as estações, senão os trens não suportam a demanda - cá entre nós, já está acontecendo no Rio de Janeiro há muito tempo. O metrô do Rio caminha a passos largos para uma hecatombe e só quando morrer alguém sufocado é que haverá cobertura sobre o fato.
Mas, enfim, quando chegamos a Irajá, surpresa!: esperamos uns 10 minutos pelo trem, que, quando chegou, estava vazio. Duas estações depois já estávamos até sentados. Viagem tranqüila. Havia sim, alguns fãs da Madonna no vagão (são facilmente identificáveis), mas nada que pudesse sequer ser comparado à torcida do América. Pouca gente mesmo. Marcele disse:

- Acho que está em cima da hora. Quem iria no show, já foi, já está dentro do Maracanã.

E seguimos tranqüilos. Até que, finalmente, chegou a Estação Maracanã. E quando olhamos para o lado, vimos uma horda só comparável às multidões geradas por Peter Jackson em "O senhor dos Anéis". Só que saltavam da Linha 2....vinda da Estação Estácio, ou seja, da Zona Sul do Rio. Eram 20h, mais ou menos.

"A que horas passa o direção Saens Peña?"

Madonna não deve saber disto, mas deu show para só uma parte do Rio. A outra provavelmente não teve dinheiro para comprar seu caríssimo ingresso e ajudar a pagar as 10 mil latas de redbull em seu camarim.

Fomos ao Espaço de Cinema, em Botafogo, ver "O menino do pijama listrado". Na Zona Sul, claro. No balcão da bomboniére, uma freguesa enchia o saco do balconista com mínimas especificações sobre o tipo de mate que ela exigia: diet, com limão, meio gelado, com canudo. A cara do balconista era de cansaço espiritual. O tom de voz da freguesa era de oficial da Gestapo.

São muitos países dentro de uma só cidade. Um dia vou precisar de um intérprete que saiba pelo menos cinco idiomas.

por Gustavo de Almeida as 10:51:22

11.12.08

O hino dos "levemente acima do peso"

"Na cama com pijama...na cama com pijama...". Taí. Assim como os punks tiveram "No future", dos Sex Pistols como hino, bem como os pacifistas de L.A. tiveram "San Francisco" de Scott McKenzie e os contestadores de 1968 tiveram "Caminhando (Para não dizer que não falei das flores)" do Vandré, creio que sem dúvida este é o hino das "pessoas-que-estão-acima do-peso-a-ponto-de-se-incomodarem-com-as-calças.
Não vou dizer o Hino dos Gordos, porque "gordo" é uma palavra que não alcança determinados perfis. "Sedentário" e "barrigudo" é bem mais completa. Além da palavra "gordo" não alcançar determinados perfis, ela também não é alcançada pela letra da música abaixo. Afinal,o personagem sai da cama, toma o café, e ainda volta para a cama dele.
O gordo mesmo, de verdade, não tem essa de "levantar para tomar o café". Ele toma o café dele na cama mesmo e que se dane o mundo dos magrelos.
Depois do comentário da Gabriela, que nos deixou muito muito convencidos, entendi que o Eclipse antes de mais nada é um blog dos que vivem em uma batalha sangrenta (na verdade, não é sangue. É catchup. E mostarda. E batata palha) contra a balança. São muitos os "acima do peso" que passam por aqui em busca de dicas sobre a Sibutramina.
Eu continuo tomando Sibutramina, se alguém quer saber.
Bom, mas o que importa é isso, mais um comercial gratuito do Eclipse: se eu um dia cometesse a insanidade de ter uma motocicleta, acho que eu compraria uma Honda só por eles terem dado ao mundo este comercial genial.
"Eu a-cordeeeeii..."

por Gustavo de Almeida as 09:54:31

10.12.08

Lições de democracia em um joguinho viciante e genial

Andei sumido, é bem verdade, daqui do Eclipse. Marcele ainda tem uma desculpa honrosa para não escrever, que é o fim de curso na faculdade, os preparativos para apresentação de monografia (é hoje! é hoje!) e tudo o mais. Quanto a mim, é trabalho e etc. Principalmente o etc. Um dos etecéteras que tomaram meu tempo diante do computador foi o sensacional joguinho viciante e alucinante chamado Oligarchy, na minha opinião a melhor aula de democracia que você pode ter hoje em dia.

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O começo de tudo, no Texas

No Oiligarchy você entende "como funciona" não só a democracia americana como qualquer outra mundo afora - principalmente a brasileira. Troque-se a extração de petróleo pela instalação de antenas de celulares e você terá o modelo brasileiro. É perfeito.
O jogo começa no Texas, onde você tem que "procurar" petróleo. É simples: basta ir na guia de opções lá em cima e achar o caminhão-sonda. Clicou ali, escolhe o terreno e deixa o caminhão cair, clicando só uma vez.
Se tiver petróleo, logo vem o aviso "new reservoir!". E aí, com a grana ainda curta, você instala um pequeno extrator de petróleo (small well). Mais à frente, pode até pensar em trocar pelo grande poço, no formato que o conhecemos. Mas esta é a parte mais inocente do jogo.
Evidentemente que a produção do Texas não é suficiente para abastecer todos os hábitos norte-americanos. Até porque você mesmo dá um jeito de mexer nestes hábitos, influenciando, com dinheiro, as eleições que acontecem de quatro em quatro anos.
Esta parte é o seguinte: existe o Partido do Elefante e o Partido do Burro. Os dois disputam uma corrida ("presidential run") e você vai jogando dinheiro em um e em outro. No fim, o ideal é que você tenha dado mais grana para o partido do candidato vencedor. Mas é fundamental dar dinheiro para a oposição.
O "congresso" obtido é "oiled", ou seja, comprometido com a causa do petróleo. Eles vão aprovar leis criando subúrbios para que os carros sejam mais necessários, e garantir o seu expansionismo. Depois de uns anos, eles aprovam leis anti-ambientalistas permitindo que você vá para o Alaska extrair petróleo, expulsando alces, renas, pássaros e baleias orcas "inúteis" que atravancam o progresso.
Como é óbvio que a produção do Texas e do Alaska juntos não são suficientes, você começa a buscar outros "mercados": Venezuela, Nigéria e Iraque. Para este último, ainda demora um pouco, pois você tem que financiar, por meio da CIA, os conflitos internos e enfraquecer a democracia local. Com sorte, terroristas atacam os EUA e aí você tem um motivo para invadir tudo e quebrar geral.

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Exploração do solo venezuelano: Hugo Chávez e os índios não são problema para a CIA

Na Venezuela, seu problema será a população indígena. Mais uma vez a CIA entra em ação e você solicita ao presidente "oiled" uma ação do serviço secreto. Os índios somem dos protestos.

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Os Ogonis, população tribal que, só porque moram há séculos no local, acham que podem impedir o progresso americano com protestos

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Basta corromper o governo nigeriano para obter ajuda armada e destruir a aldeia Ogoni

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Mulheres e crianças não são poupadas. Os soldados corrompidos queimam tudo

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Não se esqueça que é preciso cuidar dos líderes ativistas ambientalistas, esta gentalha que briga contra o progresso

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No detalhe, marcado, os três corpos pendurados: este é o destino de quem se opõe à democracia

Na Nigéria, é preciso resolver o problema dos Ogonis, população que se acha no direito de atravancar o progresso americano só porque está há centenas de anos morando em cima de preciosas reservas petrolíferas. Os Ogonis vão criando um movimento de protesto que paralisa nossos poços. Sem problemas: primeiro, subornamos o governo nigeriano e fazemos uma ação eficaz, invadindo a tribo dos Ogonis sujos, currando suas mulheres e dando coronhadas de fuzis nos homens. Malditos Ogonis!
Se eles insistirem, você paga mais ao governo nigeriano e três dos líderes são enforcados e seus corpos expostos na praça pública. Assim eles sossegam. E a democracia americana pode continuar a trazer prosperidade.

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As manchetes alardeiam: "Iraque invade Kuwait"

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A alternativa é, através do serviço secreto, iniciar a operação "Tempestade no Deserto" para garantir as liberdades democráticas dos sofridos povos do Iraque e do Kuwait

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Os mísseis Scud têm precisão cirúrgica durante a guerra intensa

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Restabelecida a liberdade de mercado, entra a Blackwater para proteger nossos poços de petróleo

No Iraque, é essencial entrar com o exército que vai garantir a liberdade de mercado e a economia livre. Só que depois de instalados os poços, adivinhe: é necessário chamar a Blackwater(repare no desenho da patinha de urso).
Se você não sabe o que é Blackwater, jogue no Google e procure a Wikipedia, já que tentei pelo menos 20 vezes linkar material aqui e não consegui. Deve haver alguma ação online que impede a propagação de links sobre a temível empresa privada que atua no Iraque e em diversos países, a pretexto de proteger diplomatas norte-americanos.
Os mercenários da Blackwater vão proteger nossos poços, assassinando estes curdos e sunitas imundos e infiéis que tentam se interpor ao desenvolvimento da economia mundial.
Claro, de quatro em quatro anos, tem que jorrar grana nas eleições. Senão, você perde acesso à Sala Secreta e não pode mais pedir favores à CIA. E, pior: logo começam a aparecer ambientalistas imundos e drogados, que, inconscientes, fazem protestos na porta da Casa Branca. Gentalha que fica defendendo índios venezuelanos, selvagens africanos e sunitas homicidas.

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A corrida presidencial: o Partido do Burro contra o Partido do Elefante

A coisa vai crescendo e, à medida que as reservas petrolíferas do mundo vão acabando, o caos vai tomando conta de tudo. Logo começam saques e canibalismo. Mas você tem um último recurso: os Human Burners, usinas de produção de petróleo à base de seres humanos. "Temos que deixar os pruridos éticos de lado e investir numa alternativa viável", diz uma das manchetes de jornai.
Oiligarchy é simples de jogar e de entender. Assim como seu "primo" Burger Tycoon, é extremamente importante para o bom entendimento de como funciona a política e o que exatamente determina seus movimentos, sem exageros, ilusões ou invencionices.
O mais interessante é que o Addicting Games tem liberdade de publicar tais joguinhos sem que uma enxurrada de processos judiciais tire tudo do ar.
Pelo menos neste ponto a democracia americana é interessante. Já no modelo brasileiro, a Justiça daria ganho de causa fácil fácil aos "ofendidos".

Ah, em tempo: sim, a musiquinha de abertura do jogo é uma paródia de "Rawhide", música-tema do velho seriado de mesmo nome, citada também no filme Blues Brothers, conforme você confere nos dois vídeos abaixo:

Agora, com licença que eu preciso devastar o Alaska.

por Gustavo de Almeida as 10:33:39

5.12.08

Uma tarde na fila do restaurante

Levei algum tempo para resolver contar os pormenores do último domingo, talvez até porque estivesse temendo admoestações da outra sócia do Eclipse, que estava comigo e certamente pediria o “off”. Mas o fato é que no último domingo, pela primeira vez, aderi a um legítimo movimento social da classe média-média carioca: a fila do restaurante À Mineira do Humaitá.

Para quem não mora no Rio é mais complicado entender. A rede À Mineira é composta de restaurantes com preço fixo no qual os glutões se empanturram da comida mais light do mundo: a mineira. Torresmos, bacon em profusão, feijões de todos os tipos, carnes de churrasco, lingüiças fritas com gordurinhas dentro e por fora, paios e, como sobremesa, toda sorte de doce açucarado e em compota. Tudo isto por 29 reais (em média).

Por causa dessa variedade de comidas entorpecedoras com alto poder de “carboidratação” é que talvez as famílias enormes escolham esta rede. E daí acontecem as filas, sempre gigantescas, sempre aos domingos.

Só que eu sabia disto porque volta e meia passava em frente à Mineira neste horário do almoço de domingo. Geralmente, tinha acabado de tomar café da manhã e estava indo para a Lagoa ou coisa do tipo. Olhava a fila e pensava: “Bando de doidos, encarar uma fila dessas em restaurante!”.
Eis que chegou o meu dia: aniversário de minha mãe, reunião de família e qual o restaurante que ela escolhe? À Mineira! E com que argumentos? “Paga um preço fixo, tem muitas comidas....e aniversariante não paga!”.

Bom, me rendi. Achei que minha mãe tinha razão e organizei a operação de ida ao famigerado restaurante gorduroso. Primeiro, tentei aquilo que é óbvio e que o Seinfeld certamente tentaria: fazer reserva.

- Senhor, a sua reserva só é mantida até as 13h.
- Ué, mas eu garanto que vou, não pode marcar para 14h? Te dou o meu telefone!
- Senhor, é que se eu mantiver a sua mesa até 14h vazia, os outros clientes que já estarão na fila a esta altura começam a ficar DESESPERADOS.
- Co-co-mo assim DESESPERADOS?
- É, ficam querendo entrar logo.

Me veio à mente a imagem de pessoas com tochas, ancinhos e tacapes, apedrejando a entrada da Mineira aos gritos:
- Porcos fascistas! Tem uma mesa vazia! Deixem-nos entrar!

Aceitei o argumento da moça. E reservei para 13h. Mas quem consegue sair de casa no domingo antes de meio-dia e meia? Ninguém, claro. Assim, perdemos a reserva por alguns minutos. Às 13h15 chegamos ao restaurante e já havia umas 25 pessoas na fila, divididas em grupos de oito ou nove. E sempre grupos heterogêneos – a idade varia entre dois meses e 120 anos. É possível ver umas cinco gerações de uma mesma família numa fila d’À Mineira do Humaitá.
Os manobristas trabalhavam mais do que chapeiro em cantina escolar, estacionando os carros (quase sempre grandes) no local próprio. Nas filas, todo tipo de conversa. Uma senhora pensou em fundar uma comunidade “Eu odeio a Maitê”. Disse isto alto e eu pensei em perguntar “Que Maitê?”. Bom, deve ser a Proença. Casais de gringos com os filhos pareciam ter mais paciência – tive a suspeita de serem sociólogos ou cientistas-observadores de hábitos cariocas. Mas não eram, depois vi o casal e os filhos lá dentro comendo com todo profissionalismo.

Uns 90 minutos depois, conseguimos entrar, finalmente. Eu havia pedido mesa para 20 pessoas, e isto deve ter retardado evidentemente a nossa entrada. Logo de cara, as garçonetes nos lançaram olhares de suave reprovação. Um olhar parecia dizer: “Se seus convidados não chegarem em cinco minutos, vamos cobrir vocês de ketchup e soltar os cães”. Não precisei temer por isto, pois logo meus parentes foram chegando e o ataque em si, à tal da cozinha mineira, começou de forma alucinante.


Fila para restaurantes, uma diversão 100% aborígine

A minha fome, evidentemente, tinha sido multiplicada por cinco, por causa do tempo na fila. O pessoal do restaurante ainda serve para o povo da fila uns pasteizinhos, nada de exagerado. Mas fila é fila. Não tem jeito. E eu nunca vi sentido em fila de restaurante. Há quem me pergunte:
- Mas que sentido você queria ver?
- Deixe-me explicar: uma coisa é uma fila para algo que demanda uma fila, por ser atividade de impacto, curta e que necessita rodízio. Digamos, uma fila para entrar em um ônibus. O ato de entrar em um ônibus é curto, você tem que entrar para que outro atrás de você possa entrar, e tem “impacto”, ou seja, se você for fotografar, tem apenas um “momento de impacto” no qual você pisa no ônibus. Entendeu? Isto é uma fila-fila.
- Sim, claro. E o restaurante?
- Ora, a fila para o restaurante é por si só uma incoerência. Como ficar numa fila esperando que alguém acabe logo uma coisa que está ADORANDO fazer? Como ficar numa fila em uma choperia? Alguém vai a um restaurante para “tomar quatro chopes o mais rapidamente possível” e ir embora? Não! É a mesma coisa!

E eu fiz o teste. Só saímos de lá às 17h. E meu irmão, ao ver o prato com doce de leite, é que disse a frase mais correta:

- Assim não adianta Sibutramina.

Ano que vem vamos num rodízio de saladas. Existe?

por Gustavo de Almeida as 01:00:30

2.12.08

Doar por doar

Um bom site (e confiável, já chequei) para fazer doações ao povo de Santa Catarina é o HotSite aberto pelas empresas BuscaPé e Pagamento Digital. Clicando aqui você escolhe como ajudar: se doando dinheiro (de R$ 5 a ER$ 100) ou se colocando em seu blog/site um selinho da campanha.
As doações podem ser feitas por cartão de crédito (método que considero duvidoso pela urgência do dinheiro) ou por boleto bancário, gerado na hora.
Heresia Loira, nossa colega de Portal do Interney fez boa postagem mostrando os dados mais confiáveis de todos para ajudar. Vale a pena ler a dela antes de decidir qualquer coisa.
Não vou informar o quanto doei, porque não é esta a questão. Vale doar qualquer coisa. Ou vale colocar o selinho. Ou vale repassar aos amigos, se não quiser (ou, às vezes, não puder) mesmo doar.
A questão é que se vive um estado de emergência muito grave. No Rio de Janeiro, também temos, em Campos, oito mil desabrigados, e espero que em breve a campanha por eles comece.
Há brasileiros, claro, que estão sempre em estado de emergência. O que não diminui a tragédia e a dor dos nossos brasileiros de Santa Catarina.
Doar roupas, agasalhos, também é de grande valia.

por Gustavo de Almeida as 19:54:35

1.12.08

Há 30 anos, o Deus da Raça

rondinelli

Me vem uma sensação de vertigem porque me lembro como se tivesse acontecido ontem. A luz da memória varia entre o sépia e o fim-de-tarde, mas as imagens continuam as mesmas, sempre. O som é que é estranho. Porque, curiosamente, eu confundo o inconfundível: na minha cabeça, o gol de Rondinelli aos 41 minutos do segundo tempo da decisão do Carioca de 1978 contra o Vasco foi narrado por Jorge Cúri, a voz potente, empostada, num gooooooooooooooooooooooooooooool profundo, gigantesco, monumental. Mas a verdade já dita (me foi dita inclusive pelo próprio Rondinelli) é que o gol foi narrado pelo não menos gigante Waldir Amaral (quando criança, eu não gostava dele, e sim do Curi).
O Waldir Amaral do "calibra o centro, executa, entra Zico de cabeça é goool".
Ambos, já desaparecidos, Waldir e Jorge Curi. Gigantescos. Inesquecíveis. E naquele momento, realmente, minhas memórias acertam quando erram: possivelmente os dois narraram na eternidade o gol de Rondinelli, depois do cruzamento no escanteio cobrado por Zico.

Isto aconteceu há 30 anos e me assusta dizer isto. Eu vivi trinta anos desde então e não parece que foi tanto. Será culpa do Rondinelli?
A imagem é clara. O rádio sendo desligado com raiva, conformados, pai e filho. Os minutos intermináveis de silêncio por causa da presunção de que o título estava perdido - o do segundo turno, e isto nos levaria a uma finalíssima com o mesmo Vasco.
E o rádio sendo religado exatamente no momento do gooooooooooool, ali no meio da palavra, um segundo sem saber de quem era o gol, até que se ouviu a vinheta "Fla-men-go-go", e o berro Rondineeeeeeeeeelli que, mais uma vez, eu achava sempre que era do Jorge Curi, mas foi do Waldir Amaral, e a eternidade me ensinou que foi dos dois ao mesmo tempo, e continuará sendo, através dos tempos.
Reveja o lance abaixo. Dê "pause" no momento em que Rondinelli sobe, depois de entrar como um aríete na área cruzmaltina. Repare no momento em que Rondi está suspenso, prestes a cabecear de forma fulminante, arrebatadora, vencendo Leão depois de uma batalha sangrenta e tão terrível quanto poderia ser mesmo uma batalha entre um homem e uma fera.

E veja que Rondi, na queda, sai correndo e não sabe para onde explodir, até que dá uma cambalhota porque não sabia o que fazer.
A torcida, em volta, enlouquece. O Flamengo é aquilo que você vê quando dá pause, Rondinelli suspenso na eternidade, o grito sendo preparado, o coração, o sangue, as veias e vísceras. Olhe nos olhos daquilo que você vê. É o Flamengo.

****
Mas você pode descobrir o que é o Flamengo também nesta quarta-feira, 3 de dezembro, quando se completam os 30 anos e os cineastas Pedro Asbeg e Felipe Nepomuceno exibem o documentário "O Deus da Raça", sobre aquele homem chamado Rondinelli. Será às 20h na Praça Luís de Camões, na Glória. É no subsolo daquela estátua da cabeça de Getúlio Vargas, ali bem perto da subida para o Outeiro da Glória. Programa imperdível para os rubro-negros.O ingresso será apenas R$ 5.

por Gustavo de Almeida as 13:23:40







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