27.11.08
Trocando de cama
Após meses e meses de relutância, debates e resistência (da minha parte), sem contar a demora em acumular capital, finalmente nós trocamos a cama aqui de casa. Sim, quando casamos, ainda sob os encantos da perspectiva de uma nova vida-jovem-independente (apesar de ainda receber o jornal da minha mãe), ganhamos de presente uma cama estilo japonês da Tok & Stok. Meus colegas de JB na época se cotizaram e deram de presente de casamento a cama e o colchão.
Nada como ser um casal moderninho, antenado, plugado, e ter uma cama japonesa da Tok & Stok. Para ser mais "in", só faltava mesmo geladeira com internet. Sim, Gustavo e Marcele, o casal do Eclipse.
Bom, o conto de fadas com a cama japonesa começou a ruir uns dois anos depois, quando a primeira ripa rachou tal e qual uma árvore atingida por um raio. Óbvio que tivemos de ouvir as brincadeirinhas de praxe, no estilo "Aí, heim, quebrou a cama!". Mal sabe o engraçadinho que no meu caso não há conotação sexual, e que as ripas do meu lado possivelmente quebraram por causa da minha falta de vergonha na cara e na barriga.
Logo, logo, a Marcele começou a Campanha pela Cama Nova e Comum. Estilo "box". Sabem qual é. Aquilo que antigamente chamavam de "cama americana". Bom, o tempo passou, juntamos grana e, tchantchantchantchan!, compramos a dita.
Estávamos em casa, na noite de quarta-feira, ainda deitados, curtindo a última noite na velha cama japonesa. Eu cheguei a pensar - e aí conto com a solidariedade dos machos heterossexuais conservadores e puristas que lêem o Eclipse - que toda essa história era uma frescura de mulher. Claro. Trocar cama? Coisa de boiola. Macho que é macho agüenta dor, mesmo em determinadas manhãs eu sendo quase obrigado a me arrastar até o banheiro porque minhas costelas pareciam ter furado meus rins e a minha coluna vertebral parecia ter a firmeza de uma enguia. Ah, vai. Que frescura.
As ripas todas romperam e eu improvisei com uns livros. Matemática, química, física. Só matéria que eu não gostava. Empilhei e fiz um calço, em cima do qual a ripa lateral de apoio se firmou, para que o estrado se firmasse. Perfeito. Magistral. Só mesmo os machos para chegarem a esta solução barata e econômica. Que cama box, o quê.
O problema é que quando eu me mexia na cama, dormindo, causava um terremoto nas pobres ripas que resistiam bravamente. E nessa os livros desempilhavam, o estrado "afundava" novamente, e eu acordava em um "buraco" - considerando que a densidade do colchão comprado era dirigida a um faquir da Etiópia, e não a um quase-obeso como eu.
Assim, Marcele venceu. Na verdade, nós dois vencemos, ao decidirmos pela troca de cama. Ela estava certa. Aí, como eu ia dizendo, na noite de quarta-feira, sabendo que a cama chegaria no dia seguinte, percebemos:
- Marcele, o que vamos fazer com esta cama aqui na hora em que chegar a nova? Não tem lugar na casa!
Marcele tinha pedido ao Exército da Salvação para buscar a cama velha. Só que eles não tinham horário para quarta-feira. Nem para segunda-feira. Resumindo: só tinha horário para buscar a cama DEPOIS de chegar a nova.
Assim, na manhã de quinta-feira, Marcele foi trabalhar e a minha missão foi: desmontar a cama velha a fim de empilhá-la em algum canto para que pudéssemos receber a nova. Claro que a Tok & Stok tinha que dificultar tudo e colocou, entre os mais de cinco milhões de parafusos (eu contei), oito parafusos daqueles cavados, que necessitam daquelas chaves em L, especiais. Não saem com chave de fenda.
E é claro que eu não tinha estas chaves e tive de sair para comprar. Por sorte, achei. Só que depois de tirar os oito parafusos especiais, constatei que NADA tinha se alterado.
A cama que se destruía tão fácil era o negócio mais difícil do mundo para se desarmar. Pensei naquela alternativa sábia, que era comprar uma marreta gigante e destruir tudo que havia no quarto reduzindo tudo a pedacinhos, mas creio que Marcele iria ficar meio aborrecida. Aí comecei com a missão Desmonta-Cama. Até procurei Eye of the Tiger na internet mas não achei (só a versão do Inri Cristo).
Eu suava em bicas. Rodava parafusos ocultos em vão. Martelava com uma chave inglesa tentando mover qualquer uma das partes. Descobria novos parafusos que impediam o desmonte. E o tempo ia passando solenemente, implacável.
Em pelo menos três parafusos a solução foi a força bruta: a madeira em volta estava meio podre e eles tinham ficado presos. Não giravam. Aí, saí puxando. Uma das tábuas fez CREEEEEEECCKKKRJSKWKJWKRKJKWWRTWTSTN ou som parecido na hora em que eu, suarendo, acabado, com orgulho ferido e possesso, puxei com toda a força. Suarento, acabado, com orgulho ferido e possesso, constatei que uma das coisas mais preciosas que ainda tenho é o controle do esfíncter, senão os entregadores da cama nova iriam ter uma surpresa desagradável.
Consegui desmontar tudo, e olhei para o chão vazio com o olhar que Cassius Clay dedicou a Sonny Liston na lona. Havia vencido.

A cama chegou, e o final foi feliz. Até que depois de tudo isto, eu chego em casa, vejo a cama nova, acho legal até, apesar de alta. E ouço da Marcele, com aquele sorriso lindo que só ela tem (e que a credencia a dizer qualquer coisa para mim):
- Sabe que eu senti falta da nossa cama antiga? Acho que me apeguei a ela, é a cama do nosso começo de casamento...
O pior é que ela fala isso e eu acho lindo...
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"Depois de vinte anos de trabalhos e estranhas aventuras, Ulisses, filho de Laertes, volta à sua Ítaca. Com a espada de ferro e com o arco executa a devida vingança. Atónita até ao medo, Penélope não se atreve a reconhecê-lo e alude, para o provar, a um segredo que partilham ambos e mais ninguém: a do seu tálamo comum, que nenhum dos mortais pode mover, porque a oliveira com que foi talhado o liga à terra. Esta é a história que se lê no livro vigésimo terceiro da Odisseia." J.L. Borges
"Mulher, na verdade disseste uma palavra dolorosa!
Quem é que mudou o lugar da minha cama? Difícil seria
até para quem tivesse grande perícia, a não ser que tenha
vindo um deus, que facilmente a colocou noutro lugar.
Mas não há homem vivo entre os mortais, ainda que jovem,
que fosse capaz de tirar de lá a cama, pois um sinal notável foi
incorporado na cama trabalhada que eu (e mais ninguém!) fiz.
Dentro do pátio crescia uma oliveira verdejante,
forte e vigorosa, cujo tronco se assemelhava a uma coluna.
Em torno dela construí o quarto nupcial, até que o completei
com pedras bem justas e por cima pus um telhado. "
Homero in Odisseia, Canto XXIII, 105, 170.
E é a coisa mais linda que existe, um Ulisses meu, uma cama feita com madeira pesada prá mim. E aqui, no nosso quarto de janelas fixas, que tem um a altar de cimento (desses de casa de praia da região dos lagos) onde a gente despejou um colchão, dormindo quase ao nível do mar, deitada en 'la cueva' que não dá NUNCA a lugar nenhum, suspiro de saudades da minha maloca de janelas verdes e com cama homérica. Um dia, mí gaucho Gardel (que não é italiano de jeito nenhum, é criollo) prometeu: vai nos fazer outra cama acima do chão, quando a gente se mudar de la cueva.
By the way: Vocês lembram da cama do Jack Nicholson nas 'Bruxas de Eastwick? Da Lucrécia Bórgia!... Ai que latifúndio!
Die Blutbaronin (vizinha do 101)
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