Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









20.10.08

Chuva no Rio Facts

Sábado passado, eu e Marcele quase fomos soterrados pela chuva. Não tem como alguém admitir uma expressão destas, reconheço. “Soterrados pela chuva”. Mas quase aconteceu isto no sábado. Fomos dar a caminhada protocolar para tentar queimar as banhas deste que vos escreve, e na volta começou a pingar. Reação com bom-humor de sábado à tarde:
- Ah, são só umas gotas.
- Pois é. Que bom que estamos indo para nossa casa. Nosso conforto. Que importa se nos molharmos um pouco.
Começou a chover um pouco mais.
- Hum, o cheiro da chuva é uma delícia. O contato com a natureza...
- É verdade. Ozônio puro. Ozone, baby.
- Ozone Baby?
- É uma música do Led Zeppelin que eu nunca ouvi, Marcele.
A água cai mais forte um pouco. Um barulho equivalente ao de uma montanha sendo despejada num ginásio de basquete nos faz apertar um pouco mais o passo. Em questão de segundos estou ensopado até a alma.
- PQP, que p(*) de chuva FDP! Contato com a natureza é o cacete!
Marcele apenas ria.

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O novo passeio do bondinho do Pão de Açúcar agora é assim...
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...uma mistura de diversos conceitos cinematográficos...
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...no caso, WaterWorld com Senhor dos Anéis e Arquivo X.

Se um dia disseram que São Gonçalo é a Manchester brasileira (sei lá por que cargas d’água), ouso acrescentar que o Rio é a Londres. Afinal, a quantidade de dias-chuva por ano supera os limites da razão. E, claro, quando não chove, o calor é senegalês. Aí ouço Marcele ao fundo:

- Quando faz calor, reclama do calor. Quando chove, reclama da chuva! Blé, blé, blé!

É verdade. Odeio calor e chuva. Adoro lugares frios e secos. Sol de montanha. Luar com frio. Eu deveria ter nascido na Europa. Mas Deus achou melhor me jogar ali no Nordeste, e em vez de me dar físico de caucasiano, me colocou num corpo de paraibano, com cabeça de cearense e barriga de baiano. É isso aí. Só que Deus manteve a capacidade européia para resistir ao calor. E a antipatia paraense pela chuva.
Aqui no Rio, a chuva é realmente uma instituição. Pensei então em escrever, à maneira do que fizeram com Chuck Norris, o “CHUVA NO RIO FACTS”. Veja no que deu:

A chuva no Rio já não molha nada porque ainda não deu tempo de secar da chuva anterior.
A chuva no Rio cai tantos dias que muitos bebês só vêem o sol pela primeira vez aos sete meses de idade. E saem correndo com medo.
Só existem shoppings com a quantidade que há no Rio por causa da chuva. Se um dia parar de chover no Rio, vão descobrir dentro dos shoppings vários japoneses armados que acham que a guerra não acabou.
A chuva no Rio é tão constante que há pessoas mais idosas que garantem que o homem foi mesmo à Lua. “Eles não conseguiriam armar uma ida à Lua aqui na Terra. E a chuva?”, perguntam.
No Rio chove tanto que já há quem pergunte: “Por que os agricultores ficam lá no nordeste sofrendo com a seca e a gente aqui se fodendo todos os dias para ir ao trabalho? Por que não simplesmente trocamos e montamos uma cidade na caatinga?”
A chuva no Rio é tão ininterrupta que, dos 365 dias do ano passado, só parou para um cafezinho. Mesmo assim, falou com o atendente que o tempo estava uma merda.
A chuva no Rio aparece no réveillon, em qualquer show do Rock in Rio, nas grandes decisões do futebol, no Pan-Americano, nas eleições, nos aniversários, casamentos, Páscoa e em qualquer outro dia útil ou feriado. Mesmo assim, sempre tem um espertinho para dizer: “Natal não tem jeito. Natal sempre chove”.
A chuva no Rio molhou o McDonald’s e quis molhar um Big Bob. E foi atendida.
Antes da chuva começa a cair no Rio, dava para ir a pé da Nossa Senhora de Copacabana até Angola.
A chuva no Rio é tão insistente que tampou o Cristo Redentor ainda na manjedoura. E dizem que a estátua cresceu e está até de braços abertos (eu não lembro como é).
A chuva no Rio é tão chata que todos os anos o Congresso Mundial de Tortura Chinesa é realizado aqui. Ao ar livre.
Nos tempos em que não chovia no Rio, o custo de vida era mais baixo: uma coxa de pterodáctilo custava apenas três lascas o quilo.
Cientistas tentaram encontrar o número definitivo para medir o índice pluviométrico do Rio de Janeiro. Como os zeros não cabiam numa folha de papel, tiveram de construir um túnel em Genebra para colocar os zeros lado a lado.
Um dia, vai parar de chover no Rio de Janeiro. Pelo menos dentro da redoma de acrílico que cercará a cidade. Mas os cariocas que estiveram morando na colônia em Saturno nem vão perceber.

OK, eu sei: se faz sol eu reclamo, se chove eu também reclamo.

por Gustavo de Almeida as 23:02:35

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