Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









9.10.08

O Bidê - Parte 4

Marcele de férias. Eu no trabalho. Duas matérias para a edição. São 20h. Digo que não vou naquela hora, só mais tarde.
- Ih, eu acabei ficando à toa, não arrumei o problema do banheiro! - diz, meio se desculpando.
- Meu amor, não tem nada de mais, você está de férias. Se eu estivesse de férias também iria querer vários dias zapeando deitadão vendo TV e programas esportivos.
- Tá bom.
Chego em casa. O banheiro está lá. Marcele comprou um "engate" novo. Mas tudo está pingando terrivelmente. O banheiro, ensopado por causa do maldito bidê.
Tudo vem à mente, nessa hora: o encanador que não veio. Marcele reclamando. Eu mesmo reclamando. Os paninhos de chão encharcados, no chão. Os pés molhados. O bidê vazando mais e mais.
Minha mente fica turva, minha pele começa a se esticar e ficar meio verde, os olhos perdem um pouco da visão, sai um urro da minha garganta que não reconheço como meu.
Pego a chave-inglesa. Torço com fúria.
Depois de quase me borrar nas calças, a porra do bidê continua pingando que nem vesícula de idoso. Digo uns 400 PQPs e me afasto esbaforido.
- Gustavo, desiste. Você pode tomar banho assim mesmo. Vai, larga isso.
Aceito o convite, largo tudo e começo a pensar no dia seguinte, quando pretendo invadir a administradora de imóveis armado com um fuzil AK-47, um cinturão de granadas e uma baioneta, sem contar o cachorro. Lá dentro, tirarei o pino de uma das granadas e direi:
- Só recoloco se chamarem a merda do encanador para consertar aquilo lá.
Entro no banho, puto da vida. Marcele vem, olha o bidê, e diz:
- Gustavo! Você consertou! Não está mais pingando!
Estranho. Ué.
- Quando terminei ainda pingava!
- Mas agora parou. Você consertou o negócio.
Sorrio, Marcele também sorri. Tudo está bem. Nos abraçamos, chorando. O bidê está consertado.
Sobem os créditos, acendem as luzes. No fim dos créditos, câmera em cima do bidê e do engate, em close. E um barulhinho, muito baixo, baixinho mesmo:
- Fssssssssst...

por Gustavo de Almeida as 00:09:44

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