Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









2.10.08

O freezer, esta estrutura social anacrônica

Um lar tem uma estrutura em que existem utensílios completamente anacrônicos. Hoje eu estava aqui ao computador batucando um freelance (claro, nenhum bolso é de ferro) quando de repente parei e contemplei o freezer.

Eu sei que vocês estranharam. Sim, o freezer aqui na casa do casal do Eclipse fica no quarto do computador. Taí a prova que não me deixa mentir:

Sei bem que o mais normal seria na verdade o computador ficar no quarto do freezer, lá afastado da casa, em um local no qual o bom nerd pode ser ainda mais anti-social.

- Júnior, vem dar um beijo na sua tia!

Versão com computador no quarto:

- Ai, caceta! Vou ter que largar o Grand Auto Theft no meio....Oi, tia Gertrudes (smmmasshhhlershptlupybleerrshmlertsshmash).

Sim, foi uma onomatopéia para beijo de tia velha, o que está entre parêntese.

Versão com computador no quarto do freezer ou quartinho dos fundos:

- Ué, o Júnior não tá em casa? - pergunta tia Gertrudes.

- Não, ele está morando em Harvard, fazendo direito em inglês. Mas a pós-graduação vai ser em física quântica e nanotecnologia oncológica em Massachussets - responde a mãe, desiludida, enquanto o filho nerd bate recordes no emulador de Pac-Man no computador.

Bom, a nossa versão é diferente. O freezer é no quarto. Explico: quando vieram os homens de azul escuro (os caras da transportadora), descobrimos que nem freezer nem geladeira passariam para o quartinho dos fundos. Descobri, na verdade, um pouco mais: que a geladeira não passaria para a cozinha mesmo.

Um dos caras de azul - acho que o mesmo que me ofereceu os pés da geladeira por um preço extorsivo - propôs:

- A gente tira as portas da geladeira. Mas se não der para montar de novo, a responsabilidade é do senhor.

A esta altura, diante da perspectiva que se desenhava - Marcele chegando do trabalho e desmaiando ao ver geladeira e freezer na sala - eu não tinha condições de negociar. E foi feito o esforço. Tiramos (sim, eu participei de tudo) as portas da geladeira e, depois de muito ralar e depois de eu cogitar usar dinamite, colocamos a danada na cozinha.

Ao contrário dos meus temores, os caras até que colocaram as duas portas numa boa.

Aí, olhamos: e o freezer.

- Olha, esse não tem jeito. Se tirar a porta ainda fica o friso em cima, não passa de jeito nenhum para a cozinha.

Aí olhei em volta. Vi o corredor. Comecei a empurrar. "É leve!", pensei. Em 20 segundos o freezer estava aqui, no quarto do computador.

Claro que isto traz situações inusitadas. Como quando a Cida, nossa faxineira, tirou a tomada do freezer para ligar a do aspirador de pó e, CLARO, não se lembrou de recolocar no lugar.
Quando cheguei do trabalho e pisei no quarto, além de sentir uma poça que parecia o fluido do filme A Volta dos Mortos Vivos, tive a impressão de que o freezer havia dado lugar a uma maquete perfeita do IML.

Mas, caramba, voltemos ao freezer em questão: dentre as coisas que temos em casa, hoje eu classificaria o freezer como algo anacrônico. Abstrai a tal crise nos EUA, finge que não rolou (eu sei que é difícil, mas volta uns 10 dias no tempo que você consegue).

Para que um freezer nos tempos em que a inflação não é nenhum monstro?

O freezer foi uma moda engraçada dos anos 90, fim dos 80. Era obrigatório nos tempos de inflação, tal e qual o cartão de crédito. Um amigo meu, Didi Bello, se vangloriava de beber no Sindicato do Chope no início do mês, pagar os 30 chopes no cartão e, quando chegava a conta, desembolsava um valor que dava para pagar no máximo 10 chopes.

Por muitos anos foram moda os cursos de congelamento; as técnicas de cozinhar congelados; as empresas que SÓ vendiam comida congelada; e etc, e etc, e etc. Quem comprava um freezer logo ficava com cara de espertinho. “Comprei esta carne por seiscentos milhões de cruzeiros novos, quando eu for comer, daqui a cinco anos, ela valerá talvez uns novecentos megabilhões de cruzados”, dizia o super-prevenido pequeno burguês com os ares do Esquálidus desembolsando um abridor de vulcões.

Passada a época da inflação galopante, a ficha não caiu e todo mundo continuou achando que ter freezer é normal. Digamos, é normal em uma família de 10 integrantes, ou em um lugar de churrascos constantes, em que seja necessário ter carne sempre e depois usar o bicho para gelar latinhas mais rápido.

Enfim, o freezer voltou a ser o que sempre foi: uma espécie de Bope das Geladeiras, uma unidade especial, usada só em casos extremos. Em uma condição normal de temperatura e pressão, o freezer é perfeitamente descartável. Por que diabos no segundo andar da geladeira, aquele troço enorme, não cabe toda a quantidade de papinha que seu bebê consome em um mês? Por acaso o bebê se chama Damien Thorne? Espero que não.

E, no mais, qual a necessidade de se ter quilos de pães, hamburgueres, frangos, quibes, verduras desidratadas, tudo congelado dentro de casa, a não ser que você esteja esperando um cerco de zumbis ensandecidos?

Bom, se você respondeu que está esperando um cerco de zumbis, quero que saiba que considero seu motivo para ter um freezer bem razoável.

O pior é que o meu freezer é legal pacas. E foi presente de uma tia. Da Marcele.

por Gustavo de Almeida as 22:58:56

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Seus comentários

hehehe... tô dispensando os zumbis! Nada de freezer por aqui...
Por que não vende o seu?
03.10.08 @ 00:40
Nome: Paula Clarice
Url: http://engavetado.blospot.com
Acabou de acontecer algo engraçado aqui. Eu me dei conta que faz qse 5 meses que eu moro nessa casa e não tenho freezer. Donde me forço a concordar com vc, q o bicho não faz falta.
04.10.08 @ 10:21

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