Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









1.10.08

Não aqui, na frente de todo mundo!

Há coisas estranhas para se fazer em público. Claro, escrever em blog é uma delas. Para justificar a insanidade, dizemos que estamos "brincando" de jornalismo ou literatura ou mesmo registrando algo em um diário. Mas é esquisito pacas escrever num lugar onde todo mundo pode ler e comentar, mesmo quem nunca ouviu falar de você (e vice-versa). No meu caso é mais esquisito ainda porque sou jornalista e fico brincando de jornalismo.

Jornalismo é um negócio estranho, e no fundo quem decide entrar nessa carreira tem um pouco de exibicionismo. Quando eu nem sonhava em trabalhar nessa área, tinha um cara na minha rua que me dizia, ele com 14 anos, eu com 11.

- Todo baixinho adora aparecer.

Verdade sacrossanta. Tanto é que virei jornalista. Agora, incrível como que eu já era baixinho aos 11 anos. Sou talvez um dos poucos baixinhos precoces da humanidade, disso posso me vangloriar.

Eu pensava nessas coisas todas do exibicionismo, porque, afinal, em uma eleição, o que mais importa é o exibicionismo - e acho que este tal de exibicionismo é tão-somente a Arte de Gerir o Estranhamento.

Afinal, há coisas estranhas mesmo para se fazer em público. Mesmo as coisas banais são estranhas. Exemplo: ouvir MP3 no MP3 Player. Outro dia notei. Iron Maiden tocando 'Aces High' (já disse no Blip.FM que é a minha favorita deles), e eu lá no metrô, entre a Carioca e a Cinelândia. Pessoas sentadas sem dar a mínima, Bruce Dickinson entra rasgando enquanto uma senhora de meia-idade, cabelos embaraçados e manchas pela pele entra no vagão portando uma sacola da Casa & Vídeo sem nada da Casa & Vídeo dentro.


MP3 Player é bom até debaixo d'água

Você fica completamente absorto do mundo, e com um baita olhar estranho. E o pior: estamos formando uma tribo, já que em um vagão de metrô ou ônibus, praticamente 10 por cento dos passageiros está alheio ao mundo, ouvindo música.

Há mais, há mais esquisitices. Falar alto ou ao celular (ou ambos) no cinema é uma delas. Ora, não é possível que ainda haja ser humano neste mundo que não tenha ciência de que é a maior falta de educação atrapalhar o divertimento dos outros com falação.

Mas há, de verdade, o sujeito que sai de casa com alguém do lado e talvez pense e diga ao amigo do lado:

- Ei, vamos conversar no cinema hoje? É tão agradável conversar ao som
de explosões, gritos de agonia e metais sendo retorcidos.

Claro, estamos considerando que é um filme no melhor estilo Duro de Matar. Mas há quem faça isso, por exemplo, em uma sessão de Mamma Mia. Do meu lado, claro - do mesmo jeito que a fumaça de cigarro vai sempre no nariz do alérgico, no cinema sempre o cara que mais fala se senta ao lado da pessoa que mais se irrita com falação: eu.

Uma vez eu estava em um ônibus e vi um cartaz anunciando uma peça. Destas estilo diálogo, só dois atores, etc. A atriz era Stella Miranda, o ator eu não lembro. Tem muitos e muitos anos. O cartaz estava no tampo que cobria as costas do motorista. Entra um cara no ônibus com pinta de intelectual de meia-idade da Zona Sul do Rio (destes que conseguem chegar aos 40 sem nunca na vida vestir um terno), óculos redondo, cabelo meio Bozo, branco como cera. Ou como Michael Cera. E começa a ler o cartaz, em voz alta, altíssima, dentro do ônibus:

- Stella Miranda e Fulano de Tal no Teatro Casagrande na peça Bububu no Bobobó (estou inventando o nome da peça, claro)?????

Gritou esta pergunta e desceu do ônibus. Aí fiquei pensando: ou o cara era maluco ou trata-se de uma puta campanha publicitária, super bem-bolada. Cola-se cartazes por diversos ônibus, dá-se uma grana na mão de algum ator, que sai lendo e fazendo todo mundo achar que ele é maluco. Lê, desce, e todo mundo no ônibus vai olhar o cartaz para saber o que atraiu tanto o maluco. Pronto. Feito o comercial.

Claro, um ator que tope fazer isso tem que ser pago em cabeças de gado e escravas brancas e virgens.

Outra coisa esquisita é falar alto ao celular em lugar coletivo. Metrô (de novo), ônibus, sala de espera de clínica, restaurante. Se o sujeito estiver sozinho então, é sensacional. Pequena coleção de frases isoladas que eu já vi sendo faladas ao celular por diferentes pessoas:

- Não, você tem que primeiro tirar a parada que tem dentro para depois enfiar tudo, entendeu?
- O quê? Você vai até a cidade então? Então faz o seguinte, quando chegar lá liga que eu preciso te pedir para comprar uma peça nova para a máquina de costura.
- Bebeu todas, heim? Cuidado, heim, c(*)* de bêbado não tem dono. O quê? Ué, eu não tava bêbado...
- Deixa de ser burro, Benedito! Deixa de ser burro, porra! Ah, Benedito (nessa frase quase que eu perguntei para a mulher, "Será o Benedito?")
- Não dá escândalo, Mariano, não dá escândalo, tá!
(Isso berrado dentro de um vagão de metrô).

A conclusão: o telefone celular nos torna ainda mais estranhos - e olha que os transportes coletivos deram uma grande contribuição para tal. Afinal, é estranhíssimo passar 30 minutos de viagem em um ônibus sentado ao lado de uma pessoa sem dirigir dois segundos de palavra a ela.
O mais estranho é que eu mesmo leio o que escrevi e penso: "Ué, normal".
De perto, ninguém é estranho.

*Será que a expressão c(*) tem muita busca no Google? E que tipo de gente procura?

por Gustavo de Almeida as 23:10:03

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Seus comentários

Nome: Paula Clarice
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Nessas minhas milequinhentas viagens recentes pra floripa, outro dia ouvi uma conversa no celular que foi de tirar os fones pra poder acompanhar melhor.
- Leonardo, nao tem volta. Eu tou focada nos meus estudos, teria dado certo se vc fosse diferente, agora eu nao quero mais, tou focada, Leonardo, tou focada. Leonardo, pára de chorar. Pára. Leonardo, se vc nao parar, eu desligo. Leonardo, controle-se. Ah, Leonardo... (ad infinitum)
Aí eu fiquei pensando: queria saber o que o leonardo estava dizendo... E, como tudo que eu quero acontece (pergunta pro Mau), 5min depois a menina liga pra amiga:
- Fulaninha? Voce nao acredita quem acabou de me ligar. O Leonardo. Aí ele disse que tava arrependido, chorava, eu falei que a culpa foi dele, que eu agora tou muito focada, e ele disse que... (ad infinitum de novo)
04.10.08 @ 10:52

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