17.09.08
O Mal diverte e instrui
"Educativo" e "didático" talvez sejam palavras que em breve vão se tornar impróprias para um videogame. Sei que parece um papo de politicamente correto, e aviso logo que sou contra qualquer tipo de patrulha ideológica xiita. Até porque vou falar aqui de três jogos que eu costumo utilizar na internet. Mas nem por isso deixo de me espantar com o "realismo" e a "franqueza dos mesmos". São videogames que pregam basicamente a necessidade de se abrir mão da ética para a vida em sociedade.
Vejam bem: não estou falando dos joguinhos comuns, até porque não vejo o menor conflito ético em esmagar a cabeça de um elfo com caninos de vampiro ou estourar os miolos de um zumbi. Nem em pulverizar um cyberdemon. Quanto a isto, não há o menor problema.
Mas fico espantado mesmo é com as lições que nos dão alguns dos videogames novos, dois deles, o Burger Tycoon e o Sniper Assassin correndo em tempo real e o Street Crime como uma espécie de Hattrick da cafagestagem.
Não acho que alguém vai "aproveitar" as lições na prática e se tornar um empresário predador de hamburgueres ou um Polvo do Crime, com os braços em todos os tipos de negócios escusos. Os joguinhos de que falo nos educam para a verdadeira realidade. Desmistificam.

Lanchonete-navio de escravos do joguinho Burger Tycoon
Vejamos o Burger Tycoon e listemos algumas características. Considere que são quatro planos de atuação/gestão: o pasto onde se criam os bois, o abatedouro onde se adicionam hormônios e dejetos industriais à carne, a lanchonete onde se exploram os funcionários (dando esporro e prêmios de funcionários do mês) e o quartel-general da empresa, onde marqueteiros pensam em técnicas de merchandising e relações públicas CORROMPEM políticos, nutricionistas, médicos e líderes ambientalistas.
Para começar bem, você tem que corromper nutricionistas e médicos. Em seguida, tem que começar uma campanha na qual as CRIANÇAS sejam as primeiras atingidas. Legal, né?
No pasto, para crescer, em pouco tempo você tem que derrubar mata atlântica. Em seguida, acabar com uma aldeia indígena. Depois, subornar o prefeito da cidade para detonar as plantações de milho dos moradores para plantar soja destinada exclusivamente aos bois.

No abatedouro: hormônios e dejetos na ração das vacas
Quanto ao abatedouro, o que sobra da trituração dos bois é jogado de volta na ração deles mesmos. Volta e meia tem uma vaca louca e você é obrigado a queimá-la.

Escritório de executivos, marqueteiros e relações-públicas

Acima, 'corrompendo um nutricionista' para melhorar a performance
Uma das táticas de merchandising é usar o cinema, obrigando filmes a mostrarem hamburgueres. Desconfio que aquele hamburguer que Julius come em Pulp Fiction com uma só dentada é merchandising. Repare:
Sem contar o clássico e conhecidíssimo papo sobre McDonald's da Holanda e da França, que dá a maior fome:
Já no Street Crime, a coisa é gerida de longe. Mas você começa no crime "roubando dinheiro da bolsa da mãe". Mas você não consegue, e vai parar na cadeia por dois minutos. Tem que tentar roubar várias vezes, e só depois que você consegue investir em roubos de carros, tráfico de drogas, assaltos, tráfico de armas, assassinatos, espancamentos, extorsões, chantagem, jogos de azar ilegais, etc, etc.

No 'Street Crime', você escolhe (acima) que droga vai querer traficar
Last but not least, tem o Sniper Assassin. A missão é matar gente. Matar um idoso a pedido da mulher mais nova dele, que quer a herança. Tem que fazer parecer um acidente. Matar um maluco num prédio. Mas o detalhe mais sensacional é a aula de tortura.
Você tem três medidores: Medo, Culhões e Vida. Você tem que fazer o medidor Medo ficar mais alto que o Culhões, assim o seu personagem, que está apanhando e sangrando, vai dizer onde é o cativeiro do seqüestrado. Se você perguntar antes(acionando a barra de espaço), ele responde, "kiss my ass".

"Vai falar ou não? Não? Então toma!"
O segredo então é bater sem parar e ficar balançando a lâmpada em cima dele para ele ficar tonto. Olha só: eu estou dando dicas de tortura. Calma, gente. Nunca torturei ninguém. Só esse bonequinho aí, que eu aprendi a torturar.
É claro que muitos vão achar um absurdo a existência de tal jogo. No fundo eu também acho. A tortura poderia ficar de fora, pelo menos. Tortura sob qualquer aspecto é degradante.
À parte a tortura, são três boas idéias de jogos que usam a ironia para ensinar a ética e informar melhor. Se eu pudesse, sugeriria outros joguinho para esse pessoal elaborar: CONGRESSO NACIONAL, LICITAÇÃO FRAUDULENTA e SOBREVIVENDO AO RIO DE JANEIRO seriam outras opções.
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Aliás, falando em Rio: Nicolas, não esqueci de você não. Já já voltamos a falar do Rio...
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