8.09.08
O ABC do bidê

O bidê daqui de casa está com vazamento. Eu sei: bidê é coisa de quem ainda usa pomada Minancora. Caramba, o apartamento é alugado, não fomos nós que pedimos um bidê. E muito menos pedimos a ele que vazasse.
Informalmente, coube a mim providenciar o conserto, já que sou a parte masculina da casa. Na sociedade ocidental, ficou convencionado que consertar bidet, pia, chuveiro, fiação elétrica e devolver fita na locadora é coisa para macho. Às mulheres cabe o extermínio de baratas (pelo menos a minha), a criação da prole e a definição de quais canais serão incluídos no pacote de TV a cabo.
Isto é darwinismo puro: na evolução, só sobrevivem as mulheres que excluem o canal 80 do pacotão.
Mas voltando ao bidê:
- Gustavo, você ligou pro bombeiro?
- Gustavo? Ligou?
- Gustavo, e o bidê?
Os dias foram passando. Pasmem: eu liguei pro bombeiro, nesse ínterim. Mas o desgraçado não veio. Nem deu satisfação. Liguei de novo e de novo. Ele confirmou de novo e de novo. E não veio de novo e de novo. E o bidê lá, pingando, pingando, pingando, tal e qual a vesícula da Sra Fuzzibee naquele filme do Jerry Lewis ("O bagunceiro arrumadinho", o filme do hospital).
Em toda sociedade organizada é assim: o Estado (eu) falha, os cidadãos montam ONGs e se organizam para ocupar o lugar que o Estado não ocupou. No caso, a ONG é a Marcele.
Com chave-inglesa na mão e muitas idéias na cabeça, lá foi Marcele consertar o bidê.
Uma tarde inteira de tentativas, e tivemos um banheiro alagado e uma mulher extremamente emputecida dentro de casa. Lembro aos senhores que Marcele é mais alta que eu, o que torna suas alterações de humor extremamente perigosas para minha integridade física.
Comecei a refletir sobre nosso destino. Nosso? Não sei de mais gente que não consiga consertar um bidê. Não com a incapacidade única deste casal.
Saímos enlouquecidos numa noite de domingo em direção a uma Casa & Vídeo dessas que fecham meia-noite. Chegamos lá e perguntei para Marcele o nome da peça que a gente deveria comprar.
-Tem que pedir um "engate".
- Hã? Um engate?
- É.
- Ainda bem que eu vim.
- Por quê?
- Vê lá se eu sou homem de deixar minha mulher vir na Casa & Vídeo e pedir um ENGATE???? Que porra é essa?
Descobri mais uma regra da vida: quanto mais adiantada a hora e quanto mais inóspito o dia (ou seja, domingo), maior a possibilidade de "não ter do seu tamanho" ou "tem que pedir pro fabricante" ou "só tem de um modelo".
Batata: só tinha um tipo de engate, que era para gás e custava os olhos da cara.
Marcele criou uma solução: colocar uma torneira no local do vazamento. E mantê-la fechada.
- Pelo menos para que a gente possa abrir o registro. Sem abrir o registro, não poderemos tomar banho.
Ouvi esta frase da Marcele com a mesma emoção que uma pessoa adormecida ouve outras em volta falando de amenidades. Quer dizer, eu estava emocionado, mas não conseguia me mexer ou expressar nada diante da perspectiva de ir dormir sem banho por causa de um bidê.
Entrei no quarto do computador e apertei o interruptor de luz e...pluftcracszjkj. Um barulho semelhante ao de mil cascas de ovos se quebrando ao mesmo tempo. A lâmpada do quarto queimou. Era domingo à noite e tínhamos chegado da Casa & Vídeo.
Não, não tínhamos comprado uma lâmpada na Casa & Vídeo. Esqueceu que nosso problema é o bidê?
(TO BE CONTINUED)
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OBS: Marcele, vc conserta goteiras? A minha casa ta coalhada de goteiras, nos locais mais improváveis e péssimos, tipo em cima do fogão ilha (olha eu forçando pra contar que agora temos um fogao ilha, os bens materiais corrompem meu caráter)
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