1.09.08
O Rio que te espera - Verão e Inferno na Capital do Suadouro
Explico para quem chegou agora, esta nova série O RIO QUE TE ESPERA: o marido francês de minha prima Mariana revelou que sonha em um dia morar no Rio de Janeiro, nem que seja por alguns anos. O Nicolas (lê-se Nicolas) já veio ao Rio umas três vezes, e adora a cidade. E eu o entendo perfeitamente – se já é fácil gostar de uma cidade onde a gente não mora (é verdade universal), é mais fácil ainda gostar do Rio de Janeiro. Como ando meio pessimista com o Rio – por causa da violência, do desemprego e da corrupção, principalmente – vou tentar, nessa série, falar da cidade de uma maneira aberta. Tentar passar ao Nicolas (caramba, como é difícil escrever sem acento este nome) a idéia de que o Rio é uma tremenda roubada. Mas que, sei lá, venha assim mesmo, um dia. Como disse uma vez o Tom Jobim: é uma merda, mas é bom.
O segundo texto é: o tempo. Não o que passa. Mas o que fica. Ou seja, “the weather”.

VERÃO E INFERNO NA CAPITAL DO SUADOURO
Caro Nicolas:
Aí em Paris você deve ter se acostumado a ser um pouco sazonal, não? Ou seja, você sabe que em dezembro e janeiro vai sentir um bocado de frio e vai ter que criar um sistema que mantenha as meias secas. Já sabe que essa friaca toda vai embora em março ou abril (mais para abril) e que aí surgirão as flores, as abelhinhas e todas aquelas figuras mitológicas que vemos apenas em comercial de desodorizador de vasos sanitários. E entende muito bem que só depois disso é que começa um calor danado, do tipo que já fez vítimas mortais há dois anos, aí pela França.
Ah, e tem também o outono. Mas esta eu nunca vi como uma estação, e sim como uma espécie de Show do Intervalo, em que os melhores lances são repetidos sob outro ângulo. E tem mais: para quem mora no Rio de Janeiro, é até sacanagem querer falar de outono. Conta outra, vai.
Nicolas, o filósofo Marlos Mendes já definiu que o Rio só tem duas estações: verão e inferno. Ele vive dizendo que a definição não é dele, mas de alguém que ele não lembra quem é. Ouviu durante uma noitada. Minha tese: a definição é dele mesmo, mas a sacada é tão boa que ele ouviu a própria voz e riu dele mesmo na hora. No dia seguinte, de ressaca, achou que era de outra pessoa.
Bom, para quem tem só duas estações, Nicolas, realmente é perda de tempo considerar a existência do outono. Até porque estas são as chamadas e títulos que mais são usados nos jornais do Rio durante todas as outras três estações que não são o verão.
“Carioca lota as praias no primeiro domingo do inverno e temperatura chega a 33 graus”
“Veranico no meio do ano traz calor de 40 graus ao Rio”
“Primavera tem praias lotadas, arrastão no calçadão e tiroteio em Ipanema. Calor chega a 35 graus”
“Sol de 34 graus no último dia de inverno lota praias e cachoeiras das Paineiras”.
Como você pode ver, Nicolas, no Rio faz um calor dos diabos. Curiosamente, no verão é um pouco diferente: apesar de ser horrivelmente quente, dos 90 dias (em tese) do verão, em 75 chove. Muito. É comum o sujeito comprar pacotes para curtir o verão no Rio e voltar emputecido a ponto de nunca mais voltar. Quem vem para o Rio no verão deve trazer um guarda-chuva e muita paciência. E se preparar para muitos programas in-door.
Já nos pouquíssimos dias de inverno, dá muita praia. Eu mesmo prefiro usar as noites para beber vinho, Nicolas, e sei que faremos muito isso quando você finalmente realizar este sonho maluco de morar no Rio.
Agora, prepare-se para descobrir que não há nenhuma regra para essas estações. No Rio de Janeiro, você pode estar, como agora, vivendo um tremendo calor e achando que o inverno se despediu de vez. De repente, quando for a MINHA folga, Nicolas, você vai perceber umas nuvens que os cientistas chamam de “cumulus”, aparecendo lá na frente da Praia do Leme – como aconteceu na noite desta sexta-feira. E o inverno vai voltar, só porque eu estou de folga.
E eu espero, amigo Nicolas, que você tenha um emprego com folga na segunda-feira, pois é garantia de sol a pino no Rio de Janeiro. Há uns tempos atrás eu já tentei propor a grande reforma no calendário, para enganar a natureza. Seria o seguinte: em um fim de semana, todos nós viveríamos o sábado e o domingo como se fosse um dia só, compridão. A manhã de sábado seria de no mínimo 14 horas – o que deixaria as babás com musculatura mais dilatada de tanto empurrar carrinho de bebê na praça. E falando em bebê, a cervejinha da manhã de sábado iria até o sol desaparecer. Pois bem. No domingo, a gente iria dormir por volta de 23h, fingindo ser sábado. Todos. Todos mesmo. E na segunda-feira, quando o sol viesse com toda sua pompa, nós enganaríamos a natureza, fingindo ser domingo naquele minuto.
A vantagem está mais do que óbvia, Nicolas. Teríamos um fim de semana com três dias. Mas, que catzo, tudo tem seu preço. Pelo menos o incremento para o turismo compensaria as perdas econômicas desta segunda-feira que desapareceu. Sem contar que a sexta-feira chegaria bem mais rápido do que o normal. Ainda teríamos de decidir qual dia iria “dançar” nesta semana adulterada com quatro dias úteis: excluiríamos a terça, a quarta, a quinta ou a sexta? Eu voto pela terça porque meu time ainda é da primeira divisão. Pularíamos então de “segunda” (na verdade, já é terça, depois que mexemos no calendário sem São Pedro perceber) para “quarta”. E tudo ficaria ajeitado.

Ar-condicionado,capítulo à parte
No Rio, Nicolas, há vários climas. No mesmo dia você pode estar em um clima serrano e agradável, por exemplo, nas Paineiras, e de repente ser largado no meio da Rua Uruguaiana, em frente ao camelódromo, onde até gelo sua. Esta alteração brusca de temperatura ainda é agravada porque em todo e qualquer prédio se faz necessária a presença do ar-condicionado. Sim, Nicolas, prepara-te para estas negociações: em todo ambiente de trabalho no Rio de Janeiro sempre haverá pessoas completamente despreparadas para a arte de viver na Redoma com Temperatura Ideal. Sei que é chata essa alteração de temperatura: 12 graus no quarto em que eu durmo- 35 graus na rua – 11 graus no ônibus com ar-condicionado que eu escolho – 38 graus na rua – 23 graus no meu trabalho – 29 graus no meu trabalho depois que alguma garota enjoadinha ou algum Zé-Ruela argumentou que está com “dor de garganta” e que, por isso, em vez de trazer um casaquinho, prefere que os colegas suem em bicas no forno em que se transforma o ambiente.
Aí eu realmente penso na Redoma com Temperatura Ideal, o grande projeto do Rio para o Século 21. A grande solução: quatro estações normais, controláveis, com temperaturas adequadas. Oh, meu Deus, 12 meses previsíveis. E, pasmem, três meseszinhos inesquecíveis com frio, que eu poderei até chamar de inverno.

Sim, Nicolas, eu aqui chamo estes meses (junho-julho-agosto-setembro) de “verão”. Em outubro, começa o Inferno. E em dezembro, quando a temperatura estiver beirando os 40 graus e eu não conseguir dar dois passos na rua sem ficar empapado de suor, vamos comer castanhas, avelãs, nozes e celebrar uma data em torno de um sujeito com casaco vermelho de peles e que anda de trenó na neve.
Queria ver esse velhinho no Camelódromo da Uruguaiana.
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