18.08.08
Nova série do Eclipse: o Rio que te espera!
O Eclipse agora vai ter uma série. Digamos, uns textinhos dirigidos a duas pessoas mas que podem muito bem ser lidos e, se eu tiver sorte, apreciados pelos outros leitores deste blog humilde, um espacinho pequenino e de poucos leitores em meio a blockbusters do portal do Interney (o que nos salva é ter alguns posts a palavra "Sibutramina", mais procurada do que "sexo" na internet).
Nossa série começa assim: o marido francês de minha prima Mariana revela que sonha em um dia morar no Rio de Janeiro, nem que seja por alguns anos. O Nicolas (lê-se Nicolá) já veio ao Rio umas três vezes, e adora a cidade. E eu o entendo perfeitamente – se já é fácil gostar de uma cidade onde a gente não mora (é verdade universal), é mais fácil ainda gostar do Rio de Janeiro. Como ando meio pessimista com o Rio – por causa da violência, do desemprego e da corrupção, principalmente – vou tentar, nessa série, falar da cidade de uma maneira aberta. Tentar passar ao Nicolas (caramba, como é difícil escrever sem acento este nome) a idéia de que o Rio é uma tremenda roubada. Mas que, sei lá, venha assim mesmo, um dia. Como disse uma vez o Tom Jobim: é uma merda, mas é bom.
O primeiro capítulo não podia ser sobre outro assunto: o trânsito.
LINHAS RETAS, SÓ COM DENTES – O TRÂNSITO NO RIO
Há quem diga, no meio do quente engarrafamento carioca, que o Rio um dia vai ser como São Paulo. Claro, as imagens daqueles mega-engarrafamentos nas marginais Tietê e Pinheiros sempre nos passam a idéia de uma cidade que foi paralisada pelos carros a tal ponto que inventaram o rodízio de automóveis. Não tenho dúvida de que essa idéia nasceu em São Paulo. Só a maior megalópole da América Latina teria a quantidade de carros suficiente para gerar tal desespero nos administradores públicos a ponto de eles gerarem esta medida – proibir que determinados finais de placas saiam às ruas em certos dias.
Claro, a solução do paulistano todo mundo sabe: ter mais de um carro para nunca ficar a pé. Afinal, apesar do metrô de lá ser bom, os ônibus parecem ser destinados apenas a filmagens de seriados como Nove Milímetros ou Plantão de Polícia.
Imaginar um quadro em que o Rio fica igual a São Paulo, portanto, parece ser o pesadelo ideal. Mas eu digo, caro Nicolas, que o trânsito do Rio jamais ficará igual ao de São Paulo. Creia-me: nós já estamos muito piores.

Para começar, o Rio de Janeiro é a única cidade do mundo em que o motorista não sabe direito quem, afinal, o fiscaliza. Há coisas que são fiscalizadas pela prefeitura, tudo bem. Mas volta e meia quem multa por estacionamento é o guarda municipal, e quem multa por passar o sinal vermelho é o agente da CET-Rio. E quem multa por acelerar demais é a Polícia Militar, apesar de institucionalmente o trânsito ter sido passado para a responsabilidade da prefeitura em 2007.
Só que passaram só o Centro e parte da Zona Sul, ou seja, na Tijuca, mais à frente, já volta a ser da PM. Por enquanto. Mas as lombadas eletrônicas e os temidos “pardais” (aparelhinhos que fotografam as nossas placas) continuam a ser da prefeitura em qualquer lugar da cidade.
Se você entendeu os parágrafos anteriores, Nicolas, sinceramente, você conseguirá dirigir no Rio. Só não sei se chegará a algum lugar sem ser multado.
Há no Rio engarrafamentos certos, quase com hora marcada. A população cresceu de forma tão desmesurada nestes últimos 20 anos que o deslocamento de pessoas Sul-Norte-Oeste-Baixada Fluminense (municípios vizinhos, de população bem pobre) movimenta muito mais gente do que uma migração em massa de hebreus pelo deserto. Para se ter uma idéia, no metrô do Rio é impossível viajar sentado. Impossível. A menos que você seja muito forte e resistente, ande com tacos de beisebol ou armas medievais, e embarque numa estação terminal. Depois de um empurra-empurra semelhante ao de um grupo de pessoas querendo abandonar um barco em chamas, há chances de ir sentado. Mas na estação seguinte, Nicolas, pode acreditar: vai entrar uma velhinha e você vai se sentir moralmente obrigado a levantar e ceder lugar.
O preocupante desta constatação do metrô é que há 10 anos havia um horário para as coisas serem assim: entre 17h e 19h. Hoje, quando eu pego o metrô às 14h, já está assim. E fico sempre pensando sozinho:
- Porra, que emprego é esse em que as pessoas já estão indo embora às duas da tarde?

Ter um carro nesta cidade é algo impensável. Como você sabe, Nicolas, eu não dirijo. Mas não conseguiria dirigir porque eu não tenho talento para me manter no volante acordado durante cinco dias, que é o tempo médio usado pelo carioca para encontrar uma vaga decente na calçada sem perigo de reboque. Vaga aqui é uma coisa tão preciosa, tão cobiçada, que há motoristas beijando o meio-fio quando encontram a vaga dos sonhos – em frente de casa, sem estar na frente de uma garagem ou hidrante, sem ter um flanelinha por perto.
Mas eu soube que a última vez em que isso aconteceu o Brasil ainda era tetracampeão mundial de futebol – e não penta, como hoje.
Há ruas, Nicolas, que já foram abandonadas, eu diria, o pessoal já desistiu porque viram que não tem jeito. Uma delas tem nome de santa: Nossa Senhora de Copacabana. O trânsito nesta avenida é algo tão infernal que faz o paulista se sentir em casa e ter vontade de ir pro Rio. E aí lembra que já está lá. Ou cá. Há outras ruas, como a Mena Barreto e a Voluntários da Pátria, já em Botafogo, que tem sinais a cada 50 ou 60 metros. Em São Paulo, “sinal” é “semáforo” – mas eu particularmente acho mais inteligente escrever “semáforo” mesmo. “Sinal” é uma palavra vaga (“O quê? Vaga? Aonde? Em garagem?”).
O Rio não tem linhas retas sem dentes, ou seja, sem várias ruas perpendiculares atravessando. É sério. Não deveriam ter colocado uma cidade neste terreno cheio de charcos, pântanos, montanhas, abismos, praias, selva tropical e igrejas evangélicas. Isto posto, é natural que só tenhamos curvas ou malhas viárias semelhantes a toalhas de cantina italiana.

Há bairros, Nicolas, como a Tijuca. A Tijuca é um dos poucos bairros em que a distância entre dois pontos é uma volta de 360 graus entre eles. E o ponto de partida toma um susto quando vê que você chegou por trás. “Porra, quer me matar do coração?”, gritaria o ponto de partida. Há bairros como Botafogo, que eu já citei – ali, há ruas onde moram 40 ou 50 pessoas mas com sinais (semáforos) interrompendo o fluxo de milhares de motoristas. É a vida. Não tem jeito.
Outro negócio interessante é que, não importa o que aconteça, a culpa é sempre sua, Nicolas. O motorista do Rio de Janeiro reclama quando o sujeito passa muito rápido por ele mas segundos depois reclama do “cara lerdo que não dá passagem”. Os grandes vilões são sempre os motoristas de ônibus – pessoas abnegadas e que devem estar pagando um karma muito pesado de vidas anteriores. Passei a acreditar em reencarnação depois que fiz uma reportagem certa vez acompanhando um ônibus em todo seu trajeto – não é possível que aquela alma não tenha aprontado muito na vida anterior. Se não, no mínimo aquele sujeito de calça de brim enrolada mostrando as canelas, suado, que mexe com violência na alavanca de marchas usando uma estopa certamente voltará a este mundo como dono da cadeia de hotéis Hilton. Ou no mínimo como o cara que traça a herdeira.
São horas de engarrafamentos, passageiros intolerantes, calor infernal (não, desculpem, o inferno não deve ser tão quente) e buzinas intermitentes. Tudo bem, o resultado disto é que o sujeito se torna um psicopata capaz de fechar a porta na cara de velhinhas cegas só porque o vale-transporte vence no dia seguinte. Mas é o círculo vicioso.
Uma dica para sobreviver bem no trânsito do Rio: tenha dinheiro (não é meu caso) e ande de táxi. Escolha, claro, os que têm ar-condicionado. Fique de olho no trajeto, porque se ele notar que você é “gringo” pode querer te enrolar e dar a volta na cidade – estranhe se você notar que o Cristo Redentor sumiu de vista e estranhe mais ainda se aparecer a estátua de um índio chamado Araribóia. Significa que o cara está, bom, REALMENTE te enrolando. Você chegou em Niterói, um capítulo à parte, que ainda vamos abordar.
O que importa mesmo, Nicolas, é saber que não importa muito a direção para onde você deseja ir: vai sempre haver centenas de pessoas indo junto com você. O jeito é rezar para que pelo menos metade delas use bons desodorantes.
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A é, quanto é o mais frio que chegou esse inverno pra vocês?
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Vamos adorar saber da sua opinião,
Beijocas
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Vou sentar aqui bem na frente pra nao perder o barraco huahuahuahauahuhau
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Dirigir é coisa para quem tem força mental (Força Mental, expressão bastante utilizada na Olimpiada pelo narrador mais irritante de todos os tempos, Galvão Bueno).
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Sandra Corveloni, Melhor Atriz em Cannes 2008.
Estréia 5 de setembro.
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Nao falei que ia bombar de doido dizendo que o rio é perfeito??
E doido do melhor nível, meu número esse doido ;o)
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Beijos,
Marcele
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