14.08.08
Réquiem para um mestre sátiro
Aconteceu por volta de maio de 1994, ali mesmo na Rua do Riachuelo 359, no quarto andar. Na portaria, dei meu nome: Gustavo. Do outro lado da linha pela qual a recepcionista falava, veio a resposta imediata, pode subir, sim, suba logo. Lá em cima, dei de cara com um jornalista chamado Barcímio Amaral, que, podemos dizer, foi como um padrinho. O cara para quem meu professor Antônio Theodoro de Barros, que já se foi, tinha me indicado. “Procura o Barcímio”. O Barcímio só ouviu eu dizer que tinha vindo pelo Theodoro e já passou a bola. Eu aos meus 25 anos, cabelos desgrenhados, possivelmente cansado e com as roupas em desalinho, como sempre. “Fala ali com o Monteiro”, disse o Barcímio, apontando para uma sala com paredes de vidro onde um homem de óculos meio fosco e transparente, usando suspensórios sem ser gordo, fumava um cigarro filtro branco mas long-size.

O José Alberto Cal Monteiro era o cara que efetivamente fazia as coisas ali em A Notícia. Editor-executivo: José Alberto Monteiro. Editor-chefe: Sérgio Jaguaribe, o Jaguar, genial cartunista, mas que ali era o “good cop”, o chefe dos sonhos – pena que não ficasse direto na redação, preferindo evidentemente a companhia de uma Caracu geladinha. Monteiro era o homem que colocava a mão na massa. Ou, melhor dizendo, na carne e no sangue.
Quando me disseram, há pouco mais de 15 dias (a bem da verdade, no dia 21 de julho), que o Monteiro havia morrido, eu mal esbocei reação. Já então ele era aquele senhor de quem poucos sabiam o passado, a caminhar de muletas (o diabetes lhe tomara uma perna) pela redação em direção ao fumódromo. Editor de Opinião. Um cargo condizente com quem durante alguns anos combateu no front insano de um jornal policial-pornográfico.
Agora minha mente voltou no tempo e reencontrei o Monteiro na primeira vez em que nos encontramos. “Quem é você?”. “Eu sou o Gustavo. Barcímio me mandou procurar o senhor”. Ele resmungou algo e disse, “Achei que era meu filho”. E eu: “Ele se parece comigo?”. Ele: “Não, pô. Ele se chama Gustavo”, explicou. Eu, lento demais. E nervoso. Daí a pouco, o “verdadeiro” Gustavo se faz anunciar, está lá embaixo. Monteiro diz: “Me acompanhe. Você quer estagiar aqui, né? Então vai ter que aprender muito”. Seguimos até o elevador, saímos do prédio e encontramos o filho dele.
O carro estava repleto de sacolas de compras.
Eu tinha acabado de chegar ao jornal e estava, sim, carregando as sacolas de compras de supermercado do editor.
Não sabia se isto queria dizer algo bom ou ruim. Sei que acontecia, e no segundo seguinte eu descobri que o editor morava ao lado do prédio do jornal. Carreguei as compras, enquanto conversava com pai e filho. Voltamos para a redação e o Monteiro mandou a secretária dele providenciar as coisas e me orientar quanto à contratação. Eu era oficialmente estagiário de A Notícia.
Monteiro era uma espécie de fauno, ou melhor, de sátiro hedonista. Gostava de mulher e de vodka. E de café. Com leite, da máquina. “Bom é esse aqui, doutor”, e apertava combinações de botões na máquina de café de modo a fazer uma espécie de capuccino cafeinizado. Com ele era sempre “doutor” ou “cidadão”. “Doutor” ele chamava a gente no papo cordial. “Cidadão” era para dar esporro.
Em pé, atrás do computador. Digitando teclas em pé, os dedos em forma de anzóis, ele desfilava um rosário de palavrões. Apontava para a redação, e todos os rostos ficavam tensos. Ninguém queria estar na direção dos dedos do Monteiro nesta hora.
Mas talvez Monteiro tenha sido a primeira pessoa a me ensinar alguma coisa em termos de escrever. Talvez, não. Foi ele. Não foi só porque morreu. Ele me ensinou o que é lead e ele nunca enganou ninguém quanto ao que era, afinal, esse tal jornalismo.
Certa feita, eu começara assim um texto sobre uma revolta de moradores de uma favela em Duque de Caxias, a Beira-Mar:
“Moradores da Favela Beira-Mar fizeram uma manifestação de protesto na Praça do Pacificador, em Duque de Caxias. Houve tumulto e correria, e muito quebra-quebra, etc”.
Monteiro me chamou ao seu pequeno aquário, onde ele devorava jornalistas com dentes afiados.
- Cidadão, isso que o senhor escreveu está uma merda.
- Mas por quê – respondia eu, impetuoso, com 25 anos e já querendo ter fama de valente.
- Está uma merda. Vocês saem da faculdade achando que têm que escrever que nem retardado. Que é só narrar na ordem cronológica. Porra, seu filha da puta, a coisa que o sujeito da classe média do asfalto mais tem medo na vida é de ver o morro descer para quebrar essa merda toda. Tem que abrir com “Moradores da favela desceram o morro para quebrar tudo em Caxias, causando pânico, tiroteio e correria”. Com uma merda de lead como esse que o senhor escreveu, não tem título que preste.
- Mas “seu” Monteiro, a Beira-Mar é de asfalto, não tem morro, não tem como descer!
- Foda-se! Dá teu jeito. E para de me chamar de senhor!
O lead era esse mesmo que o Monteiro tinha falado. A notícia de A Notícia precisava de contextualização. Uma notícia nunca é apenas uma notícia. Traz embutidas as emoções, os anseios de quem vai ler. Antecipa lágrimas e sorrisos. O lead, portanto, deve ser como conselhos de travesseiro. A primeira voz que fala ao cidadão. Ou ao doutor.
E volta e meia, por causa do cigarro e da vodka com gelo (seu drinque inseparável até o fim), baixava hospital. Da antepenúltima, voltou sem uma perna. Trágica coincidência: seu amigo de todas as horas, tristemente desafeto nos últimos dias, o grande jornalista Henrique Diniz, também perdera uma perna, logo depois. Também o maldito diabetes, creio.
Encontrei o Monteiro ao lado do João Pato, um líder comunitário do Leblon, um dos boêmios mais controvertidos do pedaço. Os dois bebiam aos borbotões ali no Simpatia do Leblon. Me chamam. E eu digo:
- Porra, Monteiro. Sabia que o Henrique perdeu uma perna também?
Eu ainda não sabia que os dois estavam brigados. E tive de ouvir:
- Ele sempre me imitou em tudo.
Na redação enfumaçada, havia sempre tensão quando ele estava por perto. Mas bastava Monteiro sorrir ou fazer piada com algumas das repórteres que logo o ambiente em A Notícia se tornava único – nenhum ambiente em jornalismo no Rio ou no Brasil chegava perto daquele. Até porque era um sufoco: 90% dos jornalistas fumavam dentro da redação. Monteiro ficava lá ao fundo, numa mesinha simples, com uma baita paginadora (um monitor de 18 polegadas), a mão grudada no mouse. Ou trabalhando ou jogando paciência no computador. Era difícil saber – a expressão de rosto era a mesma.
Me colocou para ser o repórter de Termas de A Notícia. Trabalho: percorrer as casas de massagem da cidade recrutando garotas para posarem peladas. Ao lado do ensaio, um “perfil” jornalístico da menina – invariavelmente o mesmo: fulana faz completo, gosta de etc, dá etc e pega em etc.
Chegaram fotos de uma negra. Linda. Corpo perfeito, fenomenal. Pensei: “Monteiro vai pirar”. Me chamou à sala:
- Ô cidadão, que porra é essa?
- Monteiro, quêisso, você é racista agora?
- Eu? Racista? Você deve estar de sacanagem. Olha quanto crioulo eu tenho na equipe, moleque!
Olhei para fora. Contei. Mais crioulo que em time da NBA. Mais da metade deles, amigos do Monteiro. Perguntei a ele qual o problema da negra então.
- Nenhum. Quero até saber onde é essa termas. Essa negona deve ser linda.
- Então, Monteiro. Não rende foto na primeira?
- Olha aqui, entende uma coisa, cidadão: eu quero é vender jornal nessa merda. Não sou eu que sou racista. É a banca de jornal. Precisa ter uma loura, uma branca na capa. Isso é científico. E não é racismo não, nosso leitor não tem nada de racista.
- Ah é? Então o que é? – perguntou o então estudante engajado em todas as causas sociais.
- É que o brasileiro come crioula mas toca bronha para loura. Só isso.
Saí da sala. Tinha medo de admitir que ele estava certo.
Quando deixei a Notícia, ele ficou puto. Mas não passou recibo. Não podia dar o braço a torcer e dizer que eu era bom ou que ele gostava de mim. Mal se despediu. Mas daí a pouco estava me chamando para fundar um jornalzinho. O “Prazer, Leblon”. O Monteiro adorava o Leblon. Queria separar o bairro do mundo, se deixassem. Mas pensou em criar um jornal de bairro, totalmente do bairro, sobre o comércio e as opções de lazer, os deliveries, os cardápios, etc. A primeira reunião do novo jornal seria no Bracarense. Eu, Monteiro e o João Pato. O jornal jamais saiu. Monteiro, naquele dia, nem sei onde foi parar. Eu e o João Pato fomos com um senhor calado, um médico respeitável, beber botequins afora. Paramos num pé-sujo tão imundo que, para falar a verdade, para ser apenas “sujo” precisaria lavar mil vezes. Era o quinto bar que passávamos. Tínhamos começado às 10h30, Monteiro nos abandonou às 14h30, e já eram 17h30. De repente, o médico caladão abriu a boca, olhos vidrados no além, e berrou, com ritmo e melodia:
- Quando eu morreeeeeer, me enterrem na Lapinhaaaa....Quando eu morreeeeer me enterrem na Lapinhaaaaa....
O João Pato gargalhava e completava:
- Calça culote, paletó e almofadinha.....
E os dois, abraçados:
- Zunzum besoooouro...
Eu peguei um ônibus e voltei para casa pensando em quão malucos eram os amigos do Monteiro. Mas descobri que, ora essa, eu era amigo dele também.
E assim os anos se passaram, até que voltei à Riachuelo, para trabalhar em O DIA. O Monteiro tinha virado “Seu Monteiro” e era apenas um editor de Opinião mas com um status de redator da antiga. Poucos o consultavam. Na verdade, ninguém tinha visto aquele sujeito no auge dos tiroteios cariocas e da galhofa típica, fechando uma primeira página com manchetes como ROLOU XOTA PRA CACETE – Até Itamar galinhou na avenida (episódio da modelo Lílian Ramos) ou mesmo manchetes polêmicas como 'NEM' MALUCO GARANTE FESTA DA PENHA e UM ROMÁRIO VALE DOIS BASEADOS.
Na primeira, Monteiro antecipou em anos a influência do narcotraficante sobre as áreas próximas de seu domínio real, a favela. Os repórteres de A Notícia tinham apurado que 'Nem' Maluco, um dos bandidos mais megalômanos da história, tinha dado autorização para a Festa da Penha, uma comemoração das mais tradicionais na Zona Norte do Rio. Mas, ora, tinha garantido, ué. 'NEM' MALUCO GARANTE FESTA DA PENHA. Na segunda, o craque Romário, então tetracampeão do mundo, fez visita à Favela da Mangueira. Deu autógrafo a diversas crianças. Algumas delas, mais crescidas, começaram a trocar o autógrafo por maconha, na boca-de-fumo. A repórter no local – hoje importantíssima produtora do programa Fantástico, da TV Globo – percebeu o que acontecera e a manchete saiu. No daí seguinte, a Mangueira em peso estava na porta do jornal querendo tirar satisfações.
Monteiro pouco havia mudado, pelo menos aparentemente. Os olhos, muito claros por trás das lentes redondas dos óculos, continuavam com a mesma expressão de seriedade e discordância. O cigarro ainda era o mesmo. Sentia algumas dores, mas parecia transmitir resignação. Creio que a última coisa que eu fiz a ele foi assinar uma requisição de transporte para levá-lo em casa, antes de começar sua licença de saúde – da qual não voltaria. Alguém assumiu interinamente o trabalho dele, mas sem muito estardalhaço. Para todos aqueles ali, assumir o trabalho daquele senhor sem uma perna que manquitolava de muletas pela redação era moleza.
E eu me sentia sozinho como ele, ao entender que só eu sabia a verdade. Não era fácil ser o Monteiro. Imagino sua expressão de desalento ao saber que sua memória permaneceu e ele terá de ser Monteiro pela eternidade.
PS - Monteiro editava uma revista de internet chamada Forum Virtual. A última e derradeira edição ficará no ar para sempre, assim como seu blog, http://calmonteiro.blogspot.com/. No Forum Virtual, a malícia e a irreverência de sempre - e, claro: mulher pelada!
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Infelizmente imitou-o na morte, quase exatamente dois meses depois.
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