23.06.08
A Grande Reorganização do Quarto Onde Ninguém Nunca, Nunca, Nunca Dorme
Eu sabia que este dia iria chegar. Sim, era o Inevitável. Chega para todos nós. Não adianta ter crise existencial. Se você já passou por este dia, sim, você já sabe e muito bem do que eu estou falando: da Grande Faxina e Rearrumação do Quarto Não Usado Para Dormir, algo comum nas melhores famílias e com variantes que não invalidam a regra: o referido quarto precisa de pelo menos oito horas – no mínimo – para voltar a ser um lugar habitável. Ou pelo menos um lugar em que seja possível um alérgico entrar sem ter de ser removido por uma ambulância dotada de escafandro.
A motivação, incrivelmente, foi a viagem para Paris, aquela de que falo lá embaixo e que já me causa ansiedade e angústia devido às futuras 12 horas de avião. Enfim, nada contra Paris (fora o preço alto das passagens, mas estamos batalhando para isso), mas tudo estaria resolvido se em vez das 12 horas de avião pudéssemos ser teletransportados. Juro que eu aceitaria ser teletransportado até mesmo com uma aranha dentro do meu aparelho. Sem problemas. Uma cidade tão bonita quanto Paris merece mesmo mais de seis olhos para ser apreciada.
Só que para ir a Paris é preciso passaporte. Eu nunca tive. Marcele tem um, vencido. Descobrimos que para renovar o passaporte vencido é metade do preço de tirar segunda via do passaporte perdido. Sei lá, eles punem com o dobro do preço só porque a pessoa perdeu. Às vezes prefiro o Islã: levaria 10 chibatadas tranqüilamente no lugar da Marcele, para ter uma segunda via do passaporte, melhor do que pagar R$ 300 de bobeira. Enfim.
E onde está o passaporte da Marcele?, perguntamos, quando descobrimos a diferença de preço. A-há!
- Não sei – dissemos, ao mesmo tempo, olhando um para o outro. E ali eu já sabia o que viria, por mais que eu tivesse conseguido adiar por dias, horas e minutos: a Grande Faxina e Rearrumação do Quarto Não Usado Para Dormir. Na nossa casa, este quarto tem o nome de Quarto do Computador (um dia deve mudar de nome para Quarto do Bebê).
Foram no total, quase 10 horas de trabalho. Nas escavações encontramos agendas velhas perdidas, revistas com a Bruna Surfistinha na capa (não eram minhas e nem da Marcele), ingressos velhos do Maracanã, livros esquecidos e, voilá, o passaporte da Marcele.
Em um dos sítios arqueológicos escavados, encontrei o meu título de eleitor, vejam só. Votei em 2006 e no plebiscito de 2005, aquele do desarmamento, sem meu título. Acho até que para prefeito em 2004 também votei sem título. E vejam que eu e a Marcele só estamos morando aqui desde nosso casamento, em julho de 2005 – mas sabe-se lá por quê, os fósseis de eras passadas nas casas de nossas mães vieram junto com a gente. Fiquei com medo de encontrar meu pato Duque, um amarelo que ficava no box/banheira – o vi pela última vez fazendo uma ponta em Toy Story. Dã. Sem graça. Mas, enfim, o pato eu não encontrei, mas achamos tesouros até então dados como perdidos.
Descobri também que o papel é nosso inimigo. Não o papel dos livros – eu e Marcele temos livros realmente demais, sendo que 70% eu ainda mantive na casa da minha mãe, no meu quarto velho, que batizei de Memorial Arthur Antunes Coimbra, em cerimônia rápida na qual estavam eu e minha mãe. Pena que ela não se empolgou muito com o projeto e disse coisas como “Memorial o caramba”.
Mas é um saco: em um dia, um sujeito pode juntar uns 10 papéis. Dois dados na rua se o cara trabalha no Centro (“Compro Ouro” ou “Gatas a 10 reais”). Mais dois recibos de débito automático, mais a nota fiscal do almoço que você guarda sem sentir, mais um jornalzinho de bairro, mais um panfleto da TV a Cabo, mais um extrato bancário, mais um folder da pizzaria com alguma promoção. Chegue em casa cansado e deixe tudo isso em cima da sua mesa.
Aos poucos, este material vai migrando para outras partes da casa sem você perceber – e aí, babou. Você terá um quarto doente que ansiará pela Grande Faxina e Rearrumação do Quarto Não Usado Para Dormir, como a que aconteceu neste sábado na casa deste Casal Eclipse.
Saldo da expedição: cinco sacos de lixo (50 litros cada) contendo papéis, revistas velhas, objetos usados, itens de papelaria, recibos inúteis, canetas, lápis, jornais velhos, cabos elétricos, peças mortas de computador. Por sorte, nada orgânico. Ainda que eu esteja desconfiado daquele fio rajado e com dois olhinhos que também foi para o lixo.
Ah, e dois sacos de sapatos e roupas a serem doados a pessoas de menor poder aquisitivo (roupas em bom estado, jamais doamos roupas rasgadas).
Acreditem: o ar mudou no quarto. Acendi até um incenso, cuja fumaça escreveu sozinha a frase ‘põe Beto Guedes agora’. Brindamos com champanhe. Pedimos uma pizza de grife. Dormimos depois das duas da manhã com a alma leve. Temos um novo cômodo da casa.
Apenas uma parte do armário ficou para depois, uma parte bem séria – onde há cabos de todos os tipos e boletos bancários e de cartão de crédito.
Ah, e uma outra parte, que eu sozinho venho adiando desde antes de conhecer a Marcele, desde antes de começarmos nosso namoro em 29 de julho de 2002 (veja a foto):
Sim, isto mesmo: a Grande Reorganização dos CDs. Quando?
Talvez quando eu me aposentar.
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e a melhor parte: o bem estar do after cleaning, o eco do quarto limpo, livre de quilos e quilos de celulose...
viva o passaporte da Marcele! d'autres bouteilles de champagne aguardam vossa chegada.
bisous!
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