17.06.08
Voar, voar, fugir, fugir - Luta insana contra a fobia de avião

Acima, a maneira mais tranqüila de conhecer Paris! É só clicar no título do post e curtir muito, deixar o mouse te levar!
Admitir isso é se sujeitar ao riso e ao escárnio geral. Na verdade, é pior do que dizer em público que dorme de fraldas ou que nada usando bóia de cavalinho. Mas está mais do que na hora de eu confessar: tenho um pavor monumental de avião, a exemplo de diversas personalidades por aí. Me lembro, por exemplo, de um secretário-lobista do Roberto Marinho, o Jorge Serpa. O cara, segundo reportagens, ia toda semana do Rio a Brasília de carro – claro, com motorista, aí é mole. Dou um desconto porque deve ter sido no tempo em que ainda não havia ar-condicionado de automóvel.
Puxando da cabeça vem mais gente. Dennis Berkgkamp, por exemplo. Dizem que abriu mão de jogar a Copa da Coréia/Japão antes mesmo das eliminatórias para não ter que encarar umas 20 horas a bordo de um cilindro metálico a não sei quantos milhares de quilômetros de altura a uma velocidade impensável para os padrões de um guepardo – quanto mais para os do ser humano.

"Fly Emirates, my ass!"
Deu sorte o Bergkamp: a Holanda sifu nas Eliminatórias e não foi à Copa de 2002. Duvido que mr. Bergkamp não tenha comemorado secretamente, dando um soquinho no ar disfarçado, acompanhado de um “YES!” meio contido, fazendo o cara na fila do orelhão achar que ele era maluco.
Mas eu sou jornalista e tenho medo de avião. Muita gente que ouviu esta minha confissão reagiu como se fosse algo tão absurdo quanto ser cirurgião e ter medo de sangue ou ser médico-legista e ter nojo de galinha ao molho pardo. Ora, conheço jornalistas que no máximo atravessam a Ponte Rio-Niterói e olhe lá. Onde os caras queriam que eu fosse? Em grande parte da minha carreira cobri Cidade, Segurança Pública e no Rio de Janeiro. Querem que eu faça o quê? Pegue um avião até Estocolmo para conhecer as balas perdidas de lá?
Bom, mas a língua queimou quando surgiu, já aos 29 anos, a minha primeira viagem de avião. Ou será que foi aos 30? Sei que foi em 1997 ou 1998, e foi Rio-Santa Catarina. Objetivo: cobrir a partida da Família Schürmann para mais uma tresloucada (na minha opinião, porém, sensatíssima) viagem de barco ao redor do mundo.
Que inveja. É como eu queria conhecer o mundo.
Mas já naquela viagem, quando os portões do Santos Dumont se abriram para eu andasse até o avião que iria para São Paulo (de lá, pegaria uma conexão Rio Sul até Floripa), um raio de luz iluminou todo mundo de frente, eu só vi sombras. Sabem o que eu pensei? A sério?
Que o raio de luz era Deus e que ele estava me comunicando que eu estava me despedindo da vida.
Agora que você parou de rir, vamos continuar: toda viagem de avião traz centenas de pequenos sinais de que tudo vai acabar mal. Um deles é a presença de um bebê. Anos e anos de reportagem, muitas vezes ajudando na cobertura de acidentes horríveis de avião, onde a gente tem que tentar saber como era a a vida da pessoa. E não dá outra: sempre tem um bebê na lista trágica de passageiros e que nos faz chorar ou pensar, que lástima, um bebê.
Aí eu tou lá na cadeira do avião me afundando, tentando não aparentar que os dentes estão cerrados e que eu preferia não ter visto a decolagem, quando aparece a cena aterradora: uma mãe brinca com seu bebê. Imediatamente me vem à cabeça a imagem dos jornalistas preparando a edição e falando: “Tinha um bebê, que pena”. Pronto. Acaba a minha viagem.
Anos se passaram e fiz a minha segunda viagem, novamente passando por São Paulo (desta vez Guarulhos, e não o aeroporto cheio de prédios que é Congonhas). Aliás, jamais fiz uma viagem de avião sem passar por São Paulo – o que gera outra coisa horrível, que é a superstição. Se eu fizer uma que não passe por SP, acreditarei em acidente durante a viagem por causa da superstição. Não tem jeito.

Nesta segunda viagem, já havia Marcele para tentar segurar minha onda. Só que na volta, baita avião da British Airways (pensamento confortante e mentiroso: “São ingleses, os caras não deixam o avião cair, é país desenvolvido”), sistema de som ligado, começa a tocar “I’ve been loving you too long” na voz de....Otis Redding.
Não dá para ouvir, dentro de um avião em movimento, um artista que morreu em acidente de avião. O difícil foi explicar isso a Marcele – já que primeiro ela teve de parar de rir.
O mais incoerente é que eu não tenho lá muito medo de decolagem e aterrisagem. Inclusive acredito piamente que posso, no caso de uma aterrisagem mal-sucedida, fazer como o Papa-Léguas, saltar quando o avião estiver pertinho do solo e pronto.
O meu problema é “lá em cima”.
Na primeira vez em que eu fiquei “lá em cima”, senti uma solidão estranha – eu estava sozinho mesmo, viajando sem companhia, a trabalho. A viagem me pareceu interminável. A angústia era basicamente o seguinte: não ter ninguém perto, nada, nada, nada, nada. Perto, talvez, só de Deus.
Não me entendam mal. Sei que, apesar das doenças, guerras, pragas, do Vasco (se é que é coisa D’Ele) e do aquecimento global, Deus é legal. É fiel, como já dizem por aí. Acredito Nele. Simpatizo com Ele. Só que não acredito em ficar muito perto do Homem. Não por enquanto. E na primeira vez em que voei, me senti pisando no terreno D’Ele.
E tive medo mesmo D’Ele resolver me convidar para ficar de vez, tomar um café, tirar dois dedos (no caso D’Ele, Dedos) de prosa, jogar um gamão. E eu nem sei as regras.
Sei que está se aproximando o maior desafio da minha vida: ir de avião até Paris. Marcele até procurou, numa demonstração de amor incondicional, saber o preço de ir de navio. Mas é algo que daria para comprar um carro e pagar a gasolina para ir até Paris passando por Alaska, Vladivostok, Sibéria, Tchita, Aral, Omsk, Dudinka, etc.
Para falar a verdade, ainda não sei se vou. Tem o fator financeiro, tem várias coisas pendentes. Mas o desafio é grande. Vou usar drogas, claro: soníferos de primeira linha. Quero pelo menos oito horas de sono. E as outras três horas, caramba, vamos que vamos.
Ah, claro: e tem a volta.
Para isso eu devo procurar navio. Cargueiro serve.
Posts similares:
De parar avião
O buraco
Medo de aviões
Comentários:
Seus comentários
Url:
Considerei o artigo bastante interessante, devido ao lado engraçado que superou o lado trágico.
Parabéns.
José Rodrigues
José Rodrigues, esqueci de mencionar isso: também enchi a cara de uisque na volta do primeiro vôo, mas me arrependi, ao que parece o álcool faz um efeito devastador lá nas alturas. Quando cheguei ao Rio, estava num estado lastimável. Quase perdi a bagagem. No táxi!
Url:
Adriana, é exatamente tudo o que eu penso: por que diabos não tem um pára-quedas para cada passageiro? Corte de despesas? E é claro que qualquer turbulência para mim é queda!
Viva Águas de Lindoya!!!
Url:
Url:
O texto parece comigo e descubro que posso dar gargalhadas de mim mesma. Como é ridículo e sério essa coisa de medo de avião. A primeira coisa que vejo é a quantidade de pessoas, ai penso: Não, este tanto de gente não pode estar marcada para morrer no mesmo dia, aquela ali com tantas joias deve ser socialite, famosa, não deve estar programada pra morrer agora junto comigo. E lá vai pensamentos sombrios. Começo a perguntar para os mais próximos: Tem medo de avião?
Uma raiva danada me dá daqueles que lêem jornais e revistas, parecem que nem estão no alto, ou não ligam para a morte.
Quero te dizer que AMEI seu texto,
um grande abraço..Ana.
Url:
Antes de embarcar, observo se a aeronave está sendo abastecida, se os pneus estão calibrados e se ñ há nenhuma avaria aparente na fuselagem.
Ao adentrar no avião, reparo logo nas suas condições de manutenção.
Aquela turbulência é mto desagradável. Acho q pagamos passagem mto cara p/ sofrer td isso ! Os aviões tinham q ser confortáveis.
Um tio meu era piloto de helicóptero e morreu em um acidente pq o combustível akbô.
Assisti a um outro tio (irmão do ex-piloto de helicóptero) cair de parapente na Pedra da Gávea e morrer.
Meu pai (irmão desses 2 tios) já foi piloto e nada sofreu.
Minha tia (tb irmã
Td isso é uma mera coincidência ?!
As tragédias aéreas são passadas pelos jornais e documentários. É ave q atravessa o vidro e acerta o comandante, ou vai parar na turbina; é avião q ao pousar ñ consegue frear e bate; é um avião q em pleno vôo consegue cortar a asa do outro; é a porta q despenca etc.
Enfim, p/ mim o melhor momento do vôo é qdo o avião toca o solo.
Url:
Url: http://interney.net/blogs/malla
E boa viagem!
Url:
Saudações...
Url: http://lucasdantas.com
Url:
Url:
Url:
Url:
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse

E meu bem, depois das viagens para Floripa, BsAs e Floripa de novo, você já tá ficando craque...
Beijos,
Marcele
Url: http://www.allguitartabs.com/
em segundo lugar, seu post veio bem a calhar porque há poucas semanas fiz minha primeira viagem de avião - sozinha, sem pais, amigos, conhecidos, sozinha mesmo.
então eu não sei se foi a emoção de viajar como uma rebelde transgressora das "leis" da minha família ou se foi o nervosismo mesmo mas eu me senti com 10 anos entrando em um parque de diversões
a sensação de voar é maravilhosa, mas confesso que esperava muito mais... avião é fichinha comparado à montanha-russa...
Url:
Agora para te deixar mais angustiado, no avião não tem paraquedas, mas tem boia de salva vidas!!! O assento vira uma bóia!! PQP!! Se a porra do aviao cair no mar você vai precisar de uma bóia??? Vai entender!
Grande abraço
e cunhada, tarefa árdua essa de colocar essa "mala" no avião, hein???
Url: http://mylifeinblack.blogspot.com
Url:
Url:
Url:
Url:
Eu também gente, tenho muuuuito medo de viajar de avião, e acreditem, viajo aproximadamente 2 vezes por mês!
Sofro demais, fico tensa...um horror!....
O mais engraçado é que sempre tive um medinho, mas nunca de turbulência... sempre foi tranquilo, o problema é a tal da subida e descida!... No entando, aconteceu um problema que mudou completamente o meu relacionamento com aviões. Voltando de Bariloche para a Argentina em agosto de 2010, peguei uma turbulência muito forte, que fez com que o avião caísse livremente por alguns segundos, tive a absoluta certeza que ele iria atingir o solo... foi uma gritaria, as máscaras de oxig. cairam (obs:no desespero ninguém colocou a máscara no rosto!rs).... Enfim, foi absurdamente terrível...fiquei completamente apavorada, e todas as vezes que fecho os meus olhos, consigo me lembrar perfeitamente da sensação....pedia a todo instante para que Deus nos colocasse em segurança no chão, e que todos pudessem voltar para suas famílias....Juro, foi a pior coisa que já senti na vida!...Não sou uma pessoa muito religiosa, mas acredito em Deus e sei que foi por ele que nada de pior aconteceu!... Hoje, peço todos os dias para Deus proteger esses profissionais que tem em suas mãos a responsabilidade de muitas vidas...
Url:
Eu também gente, tenho muuuuito medo de viajar de avião, e acreditem, viajo aproximadamente 2 vezes por mês!
Sofro demais, fico tensa...um horror!....
O mais engraçado é que sempre tive um medinho, mas nunca de turbulência... sempre foi tranquilo, o problema é a tal da subida e descida!... No entando, aconteceu um problema que mudou completamente o meu relacionamento com aviões. Voltando de Bariloche para a Argentina em agosto de 2010, peguei uma turbulência muito forte, que fez com que o avião caísse livremente por alguns segundos, tive a absoluta certeza que ele iria atingir o solo... foi uma gritaria, as máscaras de oxig. cairam (obs:no desespero ninguém colocou a máscara no rosto!rs).... Enfim, foi absurdamente terrível...fiquei completamente apavorada, e todas as vezes que fecho os meus olhos, consigo me lembrar perfeitamente da sensação....pedia a todo instante para que Deus nos colocasse em segurança no chão, e que todos pudessem voltar para suas famílias....Juro, foi a pior coisa que já senti na vida!...Não sou uma pessoa muito religiosa, mas acredito em Deus e sei que foi por ele que nada de pior aconteceu!... Hoje, peço todos os dias para Deus proteger esses profissionais que tem em suas mãos a responsabilidade de muitas vidas...
Url: http://timberlandshoesales.org
Seus comentários::


