11.06.08
Para Nina, através do tempo

Nina, sei lá se um dia você vai ler isso aqui. O tempo é um abismo interminável mesmo, e a gente às vezes se esvanece, tal e qual névoa, no meio da queda, e outros que caem depois da gente não percebem nossos rastros. A Internet chegou para melhorar isso – um dia, daqui a algumas gerações, ou talvez daqui a uma só, um filho vai saber como o pai já ido pensava, só digitando no Google e puxando um texto de blog ou até o perfil do Orkut.
Nina, você nasceu ontem. E isto não é uma ofensa. Aliás, sei lá se você terá condições de saber que “nasceu ontem” é pejorativo para gente ignorante – afinal, talvez português seja sua segunda língua, a gente ainda não sabe. Sua mãe, Nina, é brasileira, mas fala francês como nenhum brasileiro jamais falou, posso te garantir. Seu pai é um francês dos mais bacanas que existem, um cara que só pelo olhar a gente sabe: entendeu o que é a vida.
Você nasceu ontem, e mudou o mundo todo só por nasceu. Pelo menos o meu, pelo menos o da sua mãe, dos seus avós, dos seus tios-avós, da sua tia-avó que é minha mãe, dos seus primos em segundo grau, como eu. Nosso mundo mudou graças a você, Nina.
Eu falei com a sua mãe pelo Skype. Skype é um programinha que, quando você ler este texto, Nina, provavelmente já vai ser uma marca de televisão 300 polegadas com telecomunicador automático. As pessoas vão se falar pela TV Skype e escolher o que ver, além de usar a TV para escrever. Nem sei, Nina, como você vai fazer para achar este texto: vai digitar “Gustavo de Almeida”, “Marcele Fernandes” e “Nina”? Puxa, estou torcendo.
Quando eu falei com sua mãe pelo Skype, faltavam ainda umas 48 ou 50 horas para você nascer. Talvez um pouco mais. O seu pai estava do lado com uma batata semi-descascada, estava cozinhando. Em Paris.
Eu e a sua prima Marcele estávamos no Rio de Janeiro. O Rio é uma cidade que eu não sei se você vai conhecer, Nina. Talvez ouça falar do Rio de Janeiro como eu já ouvi falar de Medellín, como um lugar indesejável. Ou talvez dê jeito – ainda que eu ache cada vez mais difícil.
A gente ficou muito emocionado, Nina, de poder falar e ver a sua mãe e seu pai antes do seu nascimento. Saiba, Nina, que meses antes, quando você estava ainda pequenina na barriga de sua mãe, nós quatro, eu, sua prima Marcele, sua mãe e seu pai, andamos numa roda-gigante que só existiu por uns dias no Rio de Janeiro e ficava no Posto Seis. Da roda-gigante, lá no alto, se via todo o marzão carioca, as favelas, morros, prédios de Copacabana, o calçadão gigante e raiado como uma cobra-coral, a areia branca sendo castigada pelas ondas.
A cabine da roda-gigante tinha som e um lugar para espetar seu MP3 Player (sim, eu sei, Nina, que é algo antiquado e nem se compara ao seu M25 Player com 200 mil músicas). Eu espetei, liguei e começou a tocar Dreamer’s Ball, de uma banda velhíssima chamada Queen, da Inglaterra. Os instrumentos que eles tocam são de época: guitarra, bateria, baixo. E um cara canta!
Pois aquilo para mim foi mágico, Nina. Parecia que tinha sido planejado. Fiz até um filminho com a máquina, que um dia espero poder te mostrar. Você vai ver na sua Skype TV, claro.
O tempo me amedronta, Nina. Há alguns poucos anos, nem cogitávamos sua existência. Eu estava andando com sua mãe pelas ruas do nosso bairro, ainda escuras, voltando de uma festa sei lá de quem. Cantamos “Suspicious Mind”. A gente não sabia onde as coisas iam dar, Nina, naquela época. Ninguém sabe.
O que me encheu de felicidade, Nina, neste dia 9 de junho, foi lembrar dessa noite isolada em que cantei “Suspicious Mind” com sua mãe e pensar que aquela angústia de não saber onde a vida ia dar, pelo menos para sua mãe, tenho certeza, se acabou. Vi a foto em que sua mãe está olhando para você, recém-nascida, mãozinhas crispadas, o corpo pequeno, os olhos ainda meio fechados, linda como uma tempestade, uma força gigante da natureza lá naquele corpo tão pequeno.
Ali eu vi: sim, sua mãe agora sabe onde a vida vai dar. Sua mãe é o Rio, Nina. Você é o mar.
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Já faz um bom tempo que frequento o blog de vocês, mas é a primeira vez que eu comento.
Simplesmente não consegui ficar quieta depois de ler a comparação de um bebê com uma força da natureza. É a coisa mais linda que alguém já disse sobre um recém-nascido e é exatamente o que eu sinto quando vejo um bebê (se alguém já ouviu um bebê de aproximadamente 3kg chorar quando está com fome sabe do que eu estou falando).
Só posso parabenizá-los por ter um dos blogs mais inteligentes do mundo (pelo menos, do meu). Beijocas
Luciana, eu fiquei completamente bobo com o seu elogio, que foi dos mais bonitos que já li. Obrigado mesmo, pelas visitas!
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