30.05.08
Ônibus no Rio: expresso para o inferno

Para quem não sabe, a Câmara de Vereadores do Rio há duas semanas tem feito da renovação de concessões das empresas de ônibus da cidade uma gigantesca pizza. E, dizem, com sabores variados e “ricos” paladares. A casa legislativa, que nunca primou pela moralidade, tem feito até “sumir” projeto antes da votação. E isso depois que o prefeito fez um certo mis-em-ceni (aportuguesando a expressão francesa)) dizendo que iria licitar as linhas. Tudo balela. O único lugar da cidade em que o prefeito fez questão de fazer novas licitações foi na Lagoa Rodrigo de Freitas, mesmo assim, dizem, para derrubar quiosqueiros que investiram 10 anos de trabalho e dinheiro no local.
O comportamento de políticos em relação aos ônibus é incorrigível. Não existe a possibilidade de, no Brasil, as empresas de ônibus serem pressionadas de qualquer forma, já que bancam as campanhas de grande parte dos candidatos. Além disto, político jamais anda de ônibus em hipótese alguma, nunca, sem a menor chance.
Agora, eu confesso, sem medo de ser tomado como um sujeito sem perspectivas aos 40 anos: eu ando de ônibus. Muito. E mesmo que tivesse carro, dificilmente teria saco de ir ao trabalho todos os dias dirigindo – além dos problemas para estacionar, dirigir nas megalópoles está se tornando programa de índio. Os engarrafamentos não têm mais hora para acontecer – das 7h às 23h você pode ficar engarrafado. E eu já peguei engarrafamento no Rio às duas da manhã, acreditem.
Digo a vocês, no entanto, sete aporrinhações comuns a quem anda de ônibus numa grande cidade:
1-A espera. Como no genial documentário abaixo, “quando mais eu espero, menos vou ter que esperar”. Mas de qualquer maneira, esperar ônibus é algo tenebroso. Além do risco de assaltos no ponto, é um tempo filosoficamente perdido, jogado fora, de sua vida. Muitas vezes eu prefiro andar, caminhar para a frente, para gastar tempo, calorias, suor, etc, a ficar parado em um ponto. Me sinto realmente um ser abjeto quando espero por mais de 10 minutos por uma condução. E no Rio isto é freqüente.
2- O preconceito social dos motoristas. A categoria de motorista de ônibus é das mais sofridas, não tenho dúvidas. E trabalham muito. E honestamente – o trabalho de motorista de ônibus é um tipo de trabalho no qual o sujeito não tem como pegar propina de ninguém. Mas o lance é que os caras têm preconceito social se você veste uma camisa melhor e pega um ônibus. Já aconteceu várias vezes comigo.
Entro, pago a passagem, me sento. Aí, minutos depois, entra um caboclo (antigamente, pela porta da frente, hoje em dia, com a inversão da entrada, pela porta de trás, por ordem do motorista) meio desleixado mas que chamou o motorista de “meu camarada”. Não paga passagem e vai conversando com o motorista sobre assuntos indecifráveis, apesar do aviso de ‘fale comente o indispensável’. Aí de repente ele faz um pedido absurdo, do tipo:
- Aê, meu camarada! Dá para parar ali no iniciozinho da subida do viaduto?
- Sem problemas, brother! Demoro!!!
O cara entrou no ônibus fora do ponto, não pagou passagem e saltou quase no meio da rua. Aí é a minha vez. O ônibus parou em um sinal de trânsito vermelho a oito metros do ponto onde eu vou saltar. Aí peço pro motorista abrir a porta. Sempre lembrando aos amigos que eu PAGUEI a passagem.
- Dá para abrir aqui?
- SÓ NO PONTO, MEU AMIGO! SÓ NO PONTO.
É o mundo informal vencendo o formal.
3- As pequenas artimanhas. Pode reparar como no horário de 11h às 13h30 há menos ônibus. Sabem por quê? Para tornar a vida dos estudantes (que têm gratuidade com fonte de custeio do governo) um inferno e para levar mais ‘gratuidades’ em uma só viagem. Abarrota-se um ônibus de estudantes, pronto, resolve o problema. Só que ainda tem o povo que espera um hora pelo ônibus. Em cinco paradas, o ônibus já está parecendo um caminhão de gado.
4-Se você está na janela, sempre alguém se senta ao lado na hora em que você vai saltar. Esta é uma regra imutável. Não importa onde você pretende sair do ônibus, sempre aquela senhora gorda e com uma criança de sete anos (grande) no colo (para não pagar passagem) vai se sentar ao lado. Isto significa que, a uma velocidade de 60 por hora, você vai ter que levantar se equilibrando e passar por um espaço menor do que aquele transposto por Indiana Jones no primeiro filme para escapar da pedra rolante. Não falha. Pode notar.

5- Se você está no corredor, sempre haverá em pé, ao lado, o passageiro com o maior índice de sudorese. Não há como errar. Basta você estar no corredor e o ônibus começar a lotar que o mais suado estará sempre postado ali do seu ladinho, exalando odores que te farão preferir estar no vestiário do Chicago Bulls após uma partida de play-offs. Neste caso, é bom estar sempre com uma cápsula de cianureto no bolso.
6- Em dias de chuva, você sempre se sentará embaixo de uma janela aberta mas emperrada. Estatísticas confiáveis dizem que em 90% dos casos a chuva aumenta exatamente no momento em que você adentra o ônibus. E não se esqueça que alguém se sentará ao lado quando você for saltar, conforme já citamos no item 4.
7- Você jamais faz do cobrador um profissional satisfeito. Se você paga em moedas, o cara faz cara feia. Se você dá uma nota com umas moedas para facilitar o troco, ele devolve as moedas (com o ônibus em altíssima velocidade) e diz que não precisa. Aí, te dá o troco em moedas de 1 centavo. Se você paga e ele tem de dar 10 centavos de troco, pede para você aguardar pois não tem troco. Se você paga em nota grande, reclama que começou a jornada agora e manda você esperar ali. Se você paga em nota média, pergunta se você não tem umas moedinhas para facilitar o troco.
Eu juro que um dia arrumo um meio de vida no qual eu tenha de andar para chegar ao batente. Enquanto isso, vou sacolejando por aí.
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vale ressaltar ainda as qualidades técnicas dos motoristas, que se comportam como pilotos de F-1 quando entram no Aterro. O 415, então, é campeão em motoristas alucinados.
A contra-partida é o lento, o famoso "deitão", que está com horário antecipado (porque correu muito em algum momento) e começa a andar como tartaruga pela Nossa Senhora de Copacabana. Irritante.
Outro aspecto típico do ponto de ônibus é o desespero que acomete o candidato a passageiro quando vê o ônibus desejado apontar no horizonte mas se colocar imediatamente na faixa da esquerda. Vai "passar por fora", ignorando o ponto. Já me vi no meio da Visconde de Pirajá fazendo sinal desesperado para o sujeito se dignar a parar...
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Um abraço, Gustavo!
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Abraços
Henry
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esta é uma realidade aqui no Rio!Sorte de vocês que ficam aí pela zona sul, porque na sexta feira 31.05.08 fiquei 3:15 hrs
isso mesmo três horas e quinze minutos para ir de Copacabana até o Méier no 455, porque o 457 já era, só tem apenas 13 ônibus por dia nessa linha!!
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