27.05.08
Sete anos esta noite - De como o Flamengo, bem, vocês sabem

Eu não acreditava mais em cavalaria, Swat, Ultraman, Capitão América, Batman, Zorro, ou qualquer outro ser/entidade que aparecesse quando não havia mais esperanças. Não, no dia 27 de maio de 2001, há sete anos, eu já tinha 33 e era um adulto. Um adulto adolescente – como ainda sou hoje – mas um adulto, desiludido e um tanto farto. A bem da verdade, eu ainda não tinha Marcele, ainda que tenhamos de admitir: eu tenho Marcele desde 40 minutos antes do nada. Se o nascimento de um ser humano precisasse de algum documento carimbado em três vias, o meu documento provavelmente seria Marcele – que me deu um outro nascimento e provavelmente me dará outros dois (pelos meus planos, pelos dela são outros quatro).

Naquela tarde de 27 de maio, minha prima Mariana – sobre quem já escrevi aqui no Eclipse algumas vezes – tinha viajado. Não me lembro se para a França ou se para os EUA. Acho que ainda eram os EUA. Sei que não fui ao jogo por causa disso – para ir a uma decisão de campeonato entre Flamengo e Vasco, há que se chegar ao Maracanã muito cedo. Havia outro agravante: poucos lembram disto, mas a decisão começou às 15h, por causa do racionamento de energia elétrica. Como nos velhos tempos, como em 1955, na verdade 1956, os gols de Dida, Evaristo e tudo o mais. Eu achava que não podia dar errado. Mas por longos minutos, passei a achar, sim, vai dar tudo errado. E não haverá mocinho chegando no fim para colocar a porta abaixo, nem cavalaria para nos salvar.
O Flamengo, vocês sabem, precisava de dois gols de diferença. Dois gols. Vencíamos por 2 a 1 e mesmo assim dávamos adeus ao tricampeonato. Mas aí aconteceu aquilo que faz o futebol valer por uma vida, que faz uma vida valer a pena por um mágico instante, a sintonia onírica entre seres humanos, o grito, o urro, a emoção incontestável. E foi tudo em dois ou três segundos.
No primeiro segundo, eu achei que a bola não iria entrar. Estava muito longe. Muito, muito longe. E numa final de campeonato? Quê isso.
No segundo segundo (ops), a bola efetivamente entrou. Mas eu não entendi naquele segundo que a bola tinha entrado e que o Flamengo era tricampeão. Não, naquele segundo eu fiquei como o último neanderthal diante do primeiro cromagnon, como um índio diante de Pedro Álvares, chafurdando numa incompreensão vadia e delirante.
No terceiro segundo meu coração pareceu saltar da caixa torácica. Acreditem: nem o velho “Éééééé´” eu consegui gritar.
Seguiram-se pessoas se abraçando, chorando, berrando, janelas se abrindo, urros enormes, e o irmão do meu amigo endiabrado Alexandre Lalas aos berros diante da TV, gritos inesquecíveis, indignados, com a baba bovina (royalties para Nelson Rodrigues) do campeão:
- INVADE O CAMPO, PORRA! INVADE O CAMPO, PORRA! INVADE! INVADE! ACABA COM O JOGO!
Olhei de novo para a TV e 10 segundos depois destes gritos começava o tumulto. O meio-campo Beto (carinhosamente chamado pelos fãs – eu incluso – de Beto Cachaça), um leão da conquista, tirou a camisa e chamou para a porrada todo o time do Vasco. Depois, não satisfeito, chamou os reservas. Em seguida, o técnico Joel Santana. Depois, Eurico. A torcida do Vasco. O Artur Sendas. O grupo Madredeus. O Roberto Leal. O Martinho da Vila. O José Saramago. A tumba do Fernando Pessoa. Todos juntos. Beto queria enfiar a porrada em todo mundo.
Eu vi o Herói se deitar extenuado na grama. Sem acreditar. Depois, este mesmo Petkovic, lástima, jogaria no Vasco também. Mas aí é outra história. O futebol agora é isso, a gente não tem mais o Zico do Flamengo, o Careca (cracaço) do São Paulo, o Reinaldo (fora de série) do Atlético Mineiro, o Dinamite (cracaço) do Vasco, o Assis do Fluminense (e o Washington). Agora é assim. Normalíssimo o sujeito ser de aluguel.
Mas, senhores, um gol como aquele de Petkovic, na tarde de 27 de maio de 2001, subverte esse sentimento de desesperança no futebol. Porque percebemos que, ora bolas, é o Flamengo que é intransferível de nós mesmos. Podem vir leis, lei Pelé, contratos europeus, que há algo sendo Flamengo o tempo todo, independente de jogadores ou títulos, de ficar contando figurinha, de dizer que temos tal título e o outro não tem.
Ser Flamengo pode durar um segundo. Mesmo que sejamos a vida toda. Mas há um segundo em que tudo é mais Flamengo do que em todos os outros momentos de nossas vidas.
Obrigado, Dejan Petkovic, por este momento inesquecível de minha e de milhões de vidas.
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Uma sensação realemnte inesquecível.
Caio, e eu que nem lembro se eu gritei?
abs
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Me lembrou que sete anos atrás eu estava numa ressaca braba, mas que passou de uma hora pra outra. Bebi tudo de novo. Eu não tive escolha. Acho que ainda mudo meu nome pra Beto.
Viado é a tua mãe, seu...que que há...você é funcionário da Telerj é? Não parece! Tou aqui reclamando de um telefone...
Beto Cachaça é ídolo. Agora, por favor, faz o Raios Triplos registrar a data
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Aquele cobrança de falta, naquele ponto da partida, o Beto chamando todo mundo pra porrada depois, a torcida berrando e chorando... Nesses momentos eu lembro porque eu sou flamenguista.
Um grande abraço!
Marcio, acho que ser rubro-negro por um segundo vale pela eternidade mesmo. Aquele dia foi inesquecível
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Vascaínos parecem, cada vez mais, alvinegros
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Chora a cachorrada/Chora o bacalhau/E chora o tricolor!!!!!
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e se o cara tá chorando e é vice? é o que? um ser hibrido!!!?
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Cara, nesta data eu estava em Salvador, na casa da sogra do primo Cacau. Durante a semana estiva na Chapada Diamantina, no meio do nada, sem comunicação e voltado no sábado. Na hora do jogo estava "cantando" e bebendo no karaokê (acho que o karaokê é pretexto para beber...) e me lembro perfeitamente que perguntara a um vizinho sobre a decisão do campeonato paulista (pra saber se o curintia tinha perdido). Confesso que não levava fé do MENGÃO ganhar por 2 gols de diferença. E aí perguntei sobre a decisão do carioca. Quando o sujeito me disse que o MENGÃO foi campeão... PQP!!! Quase caí da cadeira, gritei, pulei, xinguei todos os vascaínos e liguei para sua casa para confirmar e não consegui falar contigo. D.Zeze me disse que vc estava aluicinado pela cidade....
Foi um dos dias mais felizes da minha vida...
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