Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









23.05.08

Palavras que voaram

São demais os perigos desta vida pra quem tem paixão: vento encanado, queda de avião, espinho de rosa, mal do coração, colesterol alto, desacato à autoridade, batida de carro e de limão. Mas o grande perigo é a própria: a paixão, que dói por ausência e atordoa na presença. Todas essas palavras foram catadas por aí, desde que, no domingo dia 18 de maio eu desembarquei no Aeroporto Santos Dumont vindo de uma rápida viagem ao Sul do país. Viagem tão rápida quanto inesquecível, tão longa quanto emocionante. Mas tinha de ser assim, com carros, aviões, ônibus. Diversas fases para se alcançar o objetivo supremo.
E de lá para cá, fiz isto: catei palavras. Não as achava. Espalhadas por aí, minhas palavras, tal e qual as roupas de nossa bagagem, algumas já na máquina de lavar, outras penduradas no secador, mas um pouco espalhadas mesmo, em ritmo de caos.
Porque meu assombro ainda é grande. Mesmo aos 40 anos, ainda não sei sobre a vida. Mesmo tendo este poetinha dito e proclamado que esta é a arte do encontro – e olha que Vinicius disse isto em um tempo no qual não havia a belíssima Internet, esta ferramenta cujo uso mais brilhante é realmente o encontro, o superar as estatísticas: qual a possibilidade de, no pequeno espaço (cidade ou bairro) em que nós moramos, estarem as criaturas com as quais nos identificamos emocionalmente? Tendo o planeta inteiro para estarem? É difícil. Claro, os amigos que vamos reunindo são importantíssimos. Aquele grupo de seis ou sete (Joey, Rachel, Monica, Chandler , Ross, Phoebe?) que sempre estarão por perto, não importa o emprego ou cônjuge que se tenha. O esforço para se escolher este é grande.
Mas há aqueles que não demandam esforço quase nenhum. Nada de olhar ou discussão, nenhuma enquete sobre política ou religião, nem a mais remota conversa sobre astros ou santos do candomblé. Apenas gente que sente do mesmo jeito, que viu a mesma coisa – pessoas que viram o mesmo disco voador ou o mesmo cometa quando passaram, apenas uma vez, sobre a Terra. Mesmo estando a quilômetros de distância, viram a mesma coisa que nós.

Eu peço desculpas por minhas palavras até agora – foram todas catadas pelo chão de nossa casa, porque, ao chegar no Rio de Janeiro domingo, eu não tinha palavras. Aliás, como vivo com a Marcele, garanto que as palavras Joey, Rachel, Monica, Chandler , Ross e Phoebe devem ter caído da bagagem dela.
Ah, a bagagem: por que é sempre mais difícil arrumar a da volta? Por que parece que as roupas “incharam”? Por que a saudade ocupa tanto espaço?
Dizia um outro poeta, este com guitarras e percussões ao fundo durante a letra, que a felicidade é um estado imaginário. Sim, começo a entender: a felicidade é quando a vida real parece filme. Não, claro que não, claro que não um filme de terror ou de ação ou de western – ainda que Claudia Cardinale ao fim de Era uma vez no Oeste leve água para os homens e mostre que a felicidade pode ser simples.
Vou apelar: a felicidade é, sim, parecida com fim ou início de comédia romântica. Daquelas inglesas, que fazem alguma musiquinha colar. Ou das novas americanas, em que Katherine Heigl está sorrindo ao som de “Daughter” do Loudon Wainright III.

Sim, a felicidade é a sensação de estar tudo resolvido e que agora podemos sorrir em paz sem nada que nos atrapalhe.
Naquela noite no Clube Serrano em Lages, no sul de Santa Catarina, nada impedia que sorríssemos em paz. Mais cedo ainda, na grande catedral, fazíamos fila enquanto um saxofonista campeão estadual de futebol em 1965 tocava “Carinhoso”, e, sim, ali também se sorria em paz, ainda que com grande expectativa.
É tudo simbólico, eu sei, minha gente. Maurício e Paula já estavam casados desde antes de Valido fazer o gol do primeiro tricampeonato, em 1944. Na verdade, eles já haviam se casado quando partiu a primeira regata, em 1895. Não, não: a primeira regata partiu muito antes disso, sabemos. Mas Mauricio e Paula casaram antes. Não importa quando tenha partido a primeira regata de algo que sempre existiu.
Porque não tem data de validade ou nascimento aquele amor que sempre existiu. E não é metáfora, este sempre existir – e sim paráfrase de Deus.

Hoje em dia, eu e Marcele somos um pouco lageanos, também. E as minhas palavras? São nossas. Words are flying out like endless rain into a paper cup/They slither while they pass/They slip away

across the universe.

por Gustavo de Almeida as 11:58:52

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Lindo seu post!
24.05.08 @ 13:44

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