15.05.08
Your song
Meus amigos,
Daqui a mais ou menos 24 horas estaremos pisando por aí. Não teremos nem tempo para falar de amor. Ou de casamento. Mas como bom padrinho, farei pensamento positivo e, ao lado da madrinha, pedirei a bênção aos céus para essa nova união. Moralmente eu deveria levar para o Sul esta camisa do Flamengo pendurada um metro acima deste teclado onde eu escrevo, já que foi um de vocês que, em 2005, ajudou a emoldurá-la, quando foi a nossa vez de juntar os trapos. O pano furadinho preto e vermelho deveria ser como um cetro que fosse passado a quem tivesse uma nova missão. Mas entendo que este manto é sagrado, o Manto Sagrado, e que cada um deve assumir o peso do seu.

O Manto Sagrado na nossa parede

Detalhe da plaquinha dourada
Nada de vermelho e preto, portanto, a não ser o pequeno broche com o escudo do Mengo que eu, sem querer querendo, totalmente por acaso, achei na gaveta da estante quando já dava por perdido.
Eu jamais poderia ter a petulância de dar conselhos aos noivos. Até porque generalizar casamento é como, é, bom, é como o sujeito dizer assim, “já enfrentei o Flamengo em 1981, sei como o time joga hoje, em 2008”. Os times de futebol mudam a cada semestre. Os clubes, jamais. O casamento é isso: cada casamento reúne duas pessoas diferentes das outras duas que casaram um dia. Mas a essência do negócio permanece a mesma. Casamento é uma sociedade sem fins lucrativos e que para dar certo precisa ter prejuízo. É fundamental que em alguns meses o dinheiro acabe mas que mesmo assim o homem compre uma barra de chocolate caro ou um monte de revistas para sua amada numa dessas noites sem muito o que fazer, visitando livrarias com cafés.
Eu disse “dar certo”? Esqueçam. Casamento não foi feito para “dar certo”. Não é como um técnico de futebol ou um zagueiro, que vivem de resultados. O casamento sobrevive basicamente do talento dos jogadores. Da firula, do drible (no bom sentido), da tabelinha (ops, de novo no bom sentido, não no significado concepcional do termo). É essencial brigar. E saber, por menos de um segundo durante a briga, que aquilo daqui a pouco estará superado. Esta é a arte do negócio: o casamento faz uma obra essencial na vida dos namorados, que é a derrubada da porta que bate entre os dois. Não se sai batendo a porta e nem se pode mais deixar o telefone tocar em vão (ainda que nossa mania seja a de correr para atender no sexto toque).
Casamento é contemplação. É contemplar a mulher amada em momentos de abstração dos quais ela jamais conseguirá se livrar (aqui em casa, é quando passa Friends, My name is Earl, Pushing Daisies, Grey’s Anatomy ou algo do gênero, ou mesmo quando há qualquer livro nas mãos dela).É apreciar a eterna juventude dessas meninas, afinal, elas têm o direito: aos 12, 13 anos, elas envelheceram antes da gente, já pensavam nos filhos quando mal havíamos deixado o serviço no Forte Apache. Agora é a vez delas terem uma pequena coruja de pelúcia no quarto enquanto nós, homens, pensamos em Mianmar. Mentira, pensamos nada. Pensamos é na tabela do campeonato brasileiro.
Casamento é saber segredos e, mais do que simples segredos, conhecer o rosto do outro durante o sono. Aquele rosto verdadeiro, sem dor ou dissimulação, os olhos fechados em paz, as sobrancelhas levemente arqueadas, o sono acariciando suavemente a alma – neste caso, também a sua, que está olhando o rosto mais legítimo do ser amado.
Casamento é a serenidade triste e feliz de Pale Blue Eyes.
Casar é se preparar para de vez em quando ouvir Over The Rainbow com Ray Charles.
Viver a dois é se obrigar a ouvir You don’t know me em seu pensamento nos momentos mais difíceis (que virão, cedo ou tarde, só para fazer com que os momentos bons sejam ainda mais preciosos e maravilhosos). Mas não pense que você não conhece o outro. Ou que o outro não te conhece. Cascata. Vocês se conhecem muito.
Unir as vidas é como pintar no quarto a letra de Your Song, uma das músicas mais casamenteiras que existem, aquilo que todo homem legitimamente fanfarrão quer dizer para uma mulher que ele ama (mas discretamente, porque o fanfarrão legítimo não tem essas coisas de ficar o tempo todo falando “eu te amo” na frente dos outros, he don’t have to perfome like John Wayne in some B Feature Flick, mas também não pode mostrar que foi fisgado).
Casamento é o pós-filme, quando ele acaba com os noivos saindo da igreja ao som de All you need is love, os créditos sobem, a vida continua, mas o coração da gente deve estar regulado sempre para aquela intensidade ali, da hora do arroz.
Casamento é ter coleção de CDs. De DVDs. É um dia sair para comprar coisas inúteis de cozinha. É planejar cozinhar com uma taça de vinho ao lado do fogão. É beber uma taça de vinho todas as noites antes de dormir. Casamento é engordar e emagrecer – efeito sanfona ou acordeón. É curtir a rotina mas ao mesmo tempo combatê-la. Surpreender e não se surpreender.
Sim, olhando daqui, para este sábado, 17 de maio, me arrisco a dizer: ao saírem da festa, talvez vocês nem nos vejam, estará tudo uma confusão, música alta, muitas pessoas, muita emoção. Mas é porque vocês não estarão vendo ninguém. Apenas o silêncio do cansaço, a felicidade calma da constação “é, deu tudo certo”, e a troca de olhar antes de dormir muito, por 12 ou 14 ou 16 horas. E um último pensamento antes do sono:
“Caramba, casei”.
Depois me digam se não foi esse mesmo. Mas antes, sejam muito felizes. Era mais ou menos isso que eu queria dizer, mas acabei enrolando um pouco.
E por favor, agendem logo as visitas bimestrais (sei que mensal é complicado) ao Rio de Janeiro.
Abraços,
Gustavo de Almeida
P.S. - Ah, e não esqueçam de ver Flamengo x Grêmio às quatro da tarde deste domingo.
P.S.2 – Acho que a Marcele prefere pizza nesta sexta à noite. Eu vou suspender a sibutramina. Lages merece.
P.S.3, da Marcele - Paula e Mau: Acordei, li o texto do Gustavo e... pronto. Estou eu aqui, chorando e escrevendo, atrasada para o trabalho. Vocês sabem há quanto tempo eu não consigo escrever pro blog? Sabem, né. Pois é. Mas eu li esse texto e me deu uma vontade danada de escrever uma carta para vocês. Pelo menos um páragrafo. Pelo menos um P.S. Não vou escrever sobre o que é casamento, não vou escrever sobre tudo aquilo que já desejo a vocês e que desejarei ainda mais -- e de perto -- no próximo sábado. E, verdade seja dita, tudo o que eu diria a vocês está aqui em cima. Continuem felizes. E sejam mais felizes ainda.
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Eu ainda não durmi o suficiente para me recuperar. :o)
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Gustavo, que texto fantástico. Putz, sensacional.
Eu não conhecia o blog de vcs, ó eu perdendo tempo, né?
Espero que conste nos autos que eu sou Inara Almeida também, isso me leva a crer que nós podemos ter algum parentesco perdido, como primos em quaquilhésimo grau.
Eu fiquei feliz em tê-los conhecido, na verdade eu já sabia que existiam, pq a Paula ama vcs.
Marcele, vc é uma querida. Puxa, tão querida que eu queria ser sua amiga de infância.
Gustavo, eu fiquei de olho na sua camiseta do Reservoir Dogs, espero que naaaada aconteça com ela viu? Nada mesmo. Se acontecer que ela apareça, por engano, claro, na minha casa.
Falei demais. Beijos pros dois.
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
achei todas vocês da Fal-mília sensacionais. Um grupo maravilhoso, coeso. Quase como a Seleção de 1982.
Este fim de semana não vai ser esquecido. Ainda não escrevi sobre ele, devo escrever hoje ainda, e publicar o vídeo da entrada dos noivos.
Inara, aquela camiseta é especial, foi presente de uma prima que mora em Melbourne e que volta e meia aparece por aqui neste blog. Aliás, é Melbourne na Flórida, não na Austrália, diga-se de passagem.
E o link pros respectivos blogs????
bjs a vocês!
Url: http://engavetado.blogspot.br
Esse texto me fez chorar, é claro, e me faz ainda. Mas não são as palavras que me emocionam, apesar de elas serem perfeita, mas agora eu vejo claramente: é o sentimento forte que (desculpa a pieguice) nos une. Você, Gustavo, sempre fala melhor do que eu e, por isso mesmo, já descreveu em outro post essa ligação louca entre nós 4. Louca e linda e, não tenho dúvidas, eterna. Obrigada por terem vindo, obrigada pelo carinho (carinho se agradece?), obrigada pela dedicação. Que Deus os abençoe e que vocês sejam tão felizes quanto nos fazem felizes.
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Olá, Maloca! Muito obrigada pela visita. Eu confesso que não estou exatamente recuperada, não.
E ah, Paulinha. Cê sabe.
Beijos,
Marcele
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