Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









27.04.08

Ter 10 anos: a ignorância que alucina

Ter 10 anos é algo que nenhuma droga, por mais alucinógena que seja, poderá reproduzir no ser humano. Se Aldous Huxley defendia o uso de drogas para abrir as portas da percepção por achar que o cérebro humano “precisa de uma química” para suportar a mortalidade, eu já acho que o cérebro humano, de vez em quando, precisa ter 10 anos de idade. Não à toa, adultos são flagrados por aí contemplando carrinhos de Matchbox, autoramas ou tabuleiros de War.

Entendam: nostalgia é o cacete. A gente, quando olha para carrinhos de Matchbox, autoramas ou tabuleiros de War, não é porque sentimos saudades de Matchbox, autoramas ou tabuleiros de War. Na verdade, desejamos ardentemente é brincar com Matchbox, autoramas ou tabuleiros de War. Três contra dois em Dudinka.
Só aos 10 anos temos a santa ignorância – a ignorância que nos faz viajar mais e mais no pensamento. Não uma “santa ignorância” no sentido da interjeição, mas de abençoada mesmo. Por exemplo: aos 10 anos, não havia ser humano que me convencesse que a pasta de dente Philips não era fabricada no mesmo lugar que os televisores Philips e os aparelhos de som Philips. Ora, como assim? Decidam-se? Vão limpar nossos dentes ou exibir a novela das oito?
Outra coisa que me intrigou aos 10 anos, pela primeira vez, foi quando, na escola, me deixaram ver o primeiro preservativo. Jontex.
- Posso abrir?
- Claro – disse o moleque endiabrado que havia roubado sabe-se lá de quem aquelas 15 camisinhas (àquela altura, camisinhas para nós seriam tão úteis quanto meias para o homem-tronco).

E veio o primeiro choque. Esticada a camisinha, me rendi aos fatos: não havia para o meu tamanho. Apertadas demais! Mentira. Claro que eram grandes demais, mas não resisti a escrever “apertadas demais”. Bom, como funcionaria isso? Eu já tinha uma idéia de como a coisa funcionava, sim, “a coisa”. Não fazia, claro, a mais remota idéia de como era a, bem, outra peça de encaixe, já que as revistas de mulher pelada a que eu tinha acesso mal mostravam o início da zona do agrião, apenas davam a entender: yes, nós temos agrião. No caso da Cláudia Ohana na Playboy, agrião pra dar e vender.
Mas nada disso se comparou ao choque de ver a fabricante da Jontex. Johnson & Johnson’s. Ora, como poderia ser verdade aquilo? A tal camisinha não era para impedir que as moças engravidassem? Como a mesma fábrica que faz Pompom com protex (que protege o neném) para os pirralhos pode assumir a responsabilidade de evitar que eles nasçam?
Era vida que seguia. Nada era pior, no entanto, do que meus referenciais geográficos. Eu achava que tempo e espaço não eram tão interligados assim. Como explicar? Bom, para mim, o mundo funcionava tal e qual a Millenium Falcon: não importa o local em que você está e para onde você vai, importa é que se você pegar o hiperespaço, você chega mais rápido do que indo pelo jeito normal.

Por causa disso paguei micos incríveis. Em uma excursão do colégio, achei que meus conhecimentos do mapa do Rio de Janeiro e da Baía de Guanabara bastavam para me tornar mais perspicaz que um sabujo (na época, GPS poderia ser no máximo sigla de time alagoano). Eis que o ônibus da escola pega o aterro do Flamengo, eu me distraio provavelmente discutindo se o Guarani seria campeão brasileiro ou não, até que um moleque me pergunta:
- E aí, Gustavo, onde nós estamos agora?
O moleque me perguntou a sério. Devia ser quase um Kaspar Hauser, completamente recluso. Bom, me achei o bonzão e olhei para o mar. Vi o Pão de Açúcar meio de lado, a Praia da Urca, o Forte São João. Relembro o leitor: estávamos no Aterro do Flamengo.
- Devemos estar em Niterói – respondi, acrescentando: - É de Niterói que se vê o Pão de Açúcar por este ângulo.
Desnecessário dizer que quase fui alimentado com alpiste depois desta explicação, me tornando motivo de chacota para o resto da viagem. Isto porque eles não sabiam o que tinha acontecido naquele mesmo ano, viajando com meu pai – ou algum tio meu, não lembro direito - dirigindo.
O carro subiu a serra um pouco pela Dutra, eu adormeci uns 20 minutos. Parece uma eternidade quando se dorme em viagem. Acordei no colo da minha mãe, olhei para fora tentando entender onde eu estava. Vi a placa do então Ministério dos Transportes, alguma obra de estrada, de 300 em 300 metros se liam, enormes, as letras M e T. MT. Deduzi: “Nossa! Já estamos em Mato Grosso! Que legal!”. E comecei a sonhar com pântanos e jacarés.

Nelson toca violão

Paulinho toca cavaquinho

Hoje, aos 40, é claro que ficou mais rara a doce sensação trazida pela ausência completa de noção das coisas. Temos, nós adultos, “chão” demais embaixo de nossos pés. Não defendo que se tome peiote contra isso ou nenhuma espécie de droga a não ser uma taça de vinho tinto no fim do dia. Mas perguntas temporariamente irrespondíveis sempre nos trazem aquele estranhamento dos 10 anos de idade. Inesquecíveis estranhamentos. Disto eu realmente tenho saudade.
A última vez que tive um estranhamento destes foi já adulto, quando me perguntaram por quê, afinal, Paulinho da Viola toca cavaquinho e Nelson Cavaquinho tocava violão. Quase fui a Santiago de Compostela tentar descobrir.

por Gustavo de Almeida as 00:13:10

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Comentários:


Seus comentários

Nome: Paula Clarice
Url: http://engavetado.blogspot.br
Adorei o texto, Gus!!
Olha só, você por acaso tem o filme do Kaspar Hauser? Se tiver eu vou querer copiar daqui a três semanas, quando a gente for se ver pessoalmente de novo (cof, cof). Beijos com saudades pra vc e pra minha madrinha standart!
27.04.08 @ 10:40
Nome: Paula Clarice
Url: http://engavetado.blogspot.br
Esqueci de comentar uma coisa: zona do agrião??? "Agrião", Gustavo? hahahahahaha!!!



Isto faz parte da série Eufemismos Verdes
27.04.08 @ 10:43
Nome: Maristela Bueno
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Ninguém merece!!!Ve se cresce e aparece!
geração jogar e bolachinha recheada, salgadinho!O bicho tá pegando tem dengue lá fora, fome e agora tremor.Vou cpoiar uma amiga...Acorda menino!!


Maristela,
sobre o que estamos falando mesmo? Abs


27.04.08 @ 16:46
Nome: Ivani Calvano Gonçalves
Url: http://www.ibest.com.br
Muito divertido e verdadeiro teu comentário. Tenho um sobrinho de 10 anos. É uma idade em que as "crianças" (?) ainda nos causam profunda ternura. Parabéns!
27.04.08 @ 18:56
Detesto hipocrisia: E com o papo de que estão preocupados com este caso fatídico! Estão é fazendo uma novela para desviar a atenção da população, do que realmente deveria ser um crime hediondo: > Que é o desvio das verbas, que deveriam ser usadas na prevenção da dengue! E com esta ganância, quantos seres humanos inocentes, não estão sofrendo, desesperados e morrendo? E quantas centenas ainda precisam morrer para este povo acordar? O país é o que é pelo fato de ter muita hipocrisia e aproveitadores descarados!Estão enganando os sentimentais ignorantes, que deveria se tocar que o caso Isabella, deve ser resolvido pela policia e pela justiça, mas não conseguem ficar sem dar Pitágoras! E incentivados pela mídia sensacionalista, continuam a tacar pedras no telhado dos outros, fazendo julgamentos precipitados! Os que são conscientes se colocam no lugar do semelhante antes de julgá-lo!... O bom juiz julga o que ouve pelo que vê, e o corrupto corrompe o que vê pelo que ouve! A no primário a ter noção de direito, e aprender a votar, para proporcionar um mundo melhor aos seus descendentes, para que eles não sigam seus exemplos e continuem a ser usados pelos mais espertos! Os políticos estão visando eleições municipais e fazendo suas alianças, só por isso não estão brigando entre si e divulgando os desvios das verbas, que deveriam prevenir o surto de dengue! Acordem! Estão preocupados com o povo? É o cassete! Só se preocupam em continuar feito carrapatos, mamando nas tetas suculentas do Estado!
27.04.08 @ 20:11
Nome: Marília
Url: http://maroma.wordpress.com/
Adorei a decepção com a Johnson!!
27.04.08 @ 21:27
Nome: Carolla Cavalcante
Url: http://www.carollacavalcante.blogspot.com
Adorei a analogia do texto embora de verdade se eu ainda tivesse 10 anos diria: Que bacana o que vc escreveu!!!sem nada de formalidade ou preocupacao com o que iam achar do meu comentario.
Mas de fato eu gostei muito da leveza das suas palavras e do humor com que tratou o tamanho do preservativo.kkk
28.04.08 @ 09:23
aihdasiuhdsai demais, adorei o texto xD

Agrião? ashuashusahu.

E sobre o fato da camisinha ser fabricado pelo mesmo cara que faz as coisas de bebes, cara, nunca tive a curiosidade de notar o fabricante. Que medo xD
28.04.08 @ 13:35
Nome: Rony Schlosser
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Muito bom o seu texto!
São lembranças assim que nos fazem ver que valeu a pena viver tudo isso.
Ainda lembro dessas dúvidas impertinentes (algumas que persistem até hoje)!

Aí fica mais uma pra pensar:
Se existe "má sorte", então existe "bom azar"?
28.04.08 @ 20:00
Nostagia o cacete! Boa!!!
Para mim o Mapa Mundi era igual do War e ponto.
O lance da camisinha deve ser parecido com a do O.B. tamanho G, para uma menina de 9 anos...

Pegou pesado na zona do agrião! hahahaha
02.05.08 @ 11:56

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