21.04.08
Asterix e o peso de 50 anos atado nos nossos pés

“Para o lago! Para o lago com um peso atado nos pés!” – as pessoas que entendem esta frase imediatamente e sabem em que contexto ela é dita, bem, estas pessoas, eu posso dizer sem medo de errar que são da minha geração e da minha tribo. É trecho de “Asterix entre os helvéticos”, uma das imortais obras da dupla René Goscinny (roteirista já morto) e Albert Uderzo. Este último, vivo e desenhando muito bem, comemora 80 anos com um novo álbum em que recebe homenagens de outros feras do desenho, entre elas o Milo Manara, coisa que me deixou deveras intrigado – será que o italiano desenhista de obras-primas da pornografia em quadrinhos como a série “O Click” vai desenhar a Falbalá em posições comprometedoras e decúbitos imagináveis. Diz Uderzo em entrevista dada a um jornal do Rio que “Manara foi muito respeitoso”. Meno male. Asterix, leio na reportagem, fará 50 anos no ano que vem. São pelo menos duas gerações influenciadas pelos roteiros e, aqui no Brasil, particularmente, pela tradução espetacular que vem sendo mudada (para o mal) nas atuais reedições da Record.
Em “A Cizânia”, talvez o melhor álbum de Asterix, Tulius Detritus é um romano que espalha a discórdia e o desentendimento, bastando a ele estar no local, mesmo de boca fechada. Quando Tulius viaja rumo à Gália com o objetivo de instaurar a cizânia na aldeia gaulesa, embarca em uma galera típica (modelo convencional 50 A.C.: vários escravos remando e um negro númida batendo um tambor). E um dos remadores-escravos, pê da vida, vira-se para o remador do lado e pergunta:
- Foi você que espalhou para os outros que eu não uso desodorante?
Isto na tradução genial das décadas de 70/80. Na reedição da Record, mudaram a frase para:
- Você contou pros outros que eu tenho feito menos força para remar?
Bobo demais o tradutor novo. Não teve a humildade de ler a tradução anterior para respeitar a geração anterior. E provavelmente quis dar uma verossimilhança, vetando dos tempos pré-cristianismo a palavra “desodorante”.
Quem não leu Asterix não vai entender nunca algumas coisas. Aliás, recomendo que quem não leu Asterix nem leia este texto. Selecionei alguns dos momentos preferidos – não os melhores, mas os mais marcantes e influentes, onde o que foi falado permaneceu através dos tempos:

1 - “Para o lago, para o lago, para o lago com um peso atado nos pés” – Se você for a um fondue no próximo inverno e perder seu pedaço de pão, faça o teste. Diga “Ih, perdi meu pedaço de pão. Cadê o chicote?”, e veja se alguém na mesa entende. Faz parte da megaorgia em “Asterix entre os helvéticos”. Quem perde a primeira vez, leva chicotadas. A segunda vez, pauladas. E na terceira, o consumidor displicente é atirado no lago com um peso atado nos pés. Só que o fondue da historinha é em um caldeirão gigantesco com quilos de queijo.

2-“Ferpeitamente” – A palavra “perfeitamente” dita por Obelix depois de ingerir litros e litros de vinho. Nota 1000 para o tradutor. De porre, você sabe logo quem leu Asterix quando solta um “ferpeitamente”, tal e qual Obelix em “Asterix e os bretões”.
3-"Não, você não vai cantar, por Tutaris” – Em todo fim de historinha, o bardo Chatotorix faz menção de que vai homenagear o final feliz. Alguém berra que ele não vai cantar e, no último quadrinho, o bardo está amarrado e amordaçado.
4-"Moro, em um país temperado, abençoado por Tutatis...” – Sensacional letra criada pelo tradutor naqueles anos incríveis de Asterix no Brasil, adaptando “País Tropical”, de Jorge Benjor, para a Gália antiga. Vale também lembrar “Alô, javalis da floresta, aquele abraaaaaço”. Sim, é a do Gil.
5- “Vou rever Falbalá/Vou rever Falbalá/Vou rever Falbalá” –
- “Gnagnagnagnagnagnagnagnagnagnagnagnagna”
Um dos maiores momentos de dor-de-cotovelo em todos os tempos. O namorado de Falbalá – cujo nome escapa agora – começa a pular e cantar o refrãozinho e um quadrinho depois Obelix começa a imitá-lo fazendo aquele som. Impagável.
6- Os nomes dos egípcios - São extraordinários, e é mais uma do tradutor de antanho: “Timetamon” e “Pedibis” são os dois arquitetos rivais em “Asterix e Cleópatra”.

7-"Mas afinal, para que serve um menir?” – crítica sensacional de Goscinny à sociedade de consumo em “Obelix e Cia”. O gordo gaulês é seduzido pelo mercado de capitais e começa a entupir Roma de menires. Uma das peças de propaganda diz: “Seu vizinho tem um carro; seu vizinho tem filhos; seu vizinho tem uma piscina. Mas ele tem....UM MENIR?”. Genial. A sociedade de consumo tem em um de seus pilares a noção de que o ser humano quer ter o modelo que o vizinho tem. Sentimento de grupo. Ser aceito é fundamental. Ninguém quer bola preta.
8-“Quem é este ratapulgo?” – A mistura de poções em “O Combate dos Chefes” deixa o druida Panoramix alucinado, rindo de qualquer coisa.
9-“Eu sou o mais forte! Eu sou o mais bonito! Eu sou o maior!” – Espetacular citação de Muhammad Ali em “O Combate dos Chefes”, feita pelo Abracurcix, chefão da aldeia.
10-“Faça força para não feder” – Frase dita pelo ferreiro Automatix ao vendedor de peixes Ordenalfabetix enquanto os dois estão tocaiando uma aldeia romana. Em “O Adivinho”.
Estes são momentos que toda hora estamos recordando, ou mesmo citando no dia-a-dia. E, principalmente, em um bom fondue. “O chicote! O chicote!”. Você já sabe que chicote, cacete e peso para os pés agora são tão imprescindíveis a um bom fondue quanto o queijo e o vinho. Viva Goscinny e Uderzo!
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Comentários:
Seus comentários
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Eu sempre lembro do Asterix quando como fondue, mas no atual momento que estou passando - procura e estresse para novo apartamento - não posso deixar de mencionar o meu livro preferido: O Domínio dos Deuses.
Recomendo a leitura para as pessoas que ainda não conhecem Asterix ou pensam que é historinha besta.
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aliás, os tradutores, tradutor, sei lá, brasileiros do asterix são geniais mesmo, sem eles, não haveria tanta graça. E o Asteriz entre os bretões? Quando Obelix olha par ao javali cozido e pergunta-se , condoído: o que fizeram com o pobre do bichinho?...
Ou quando todo mundo oferece um pouc omais dessa quente água?
é genial
delícia de post.
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Valeu, gente, pelos comentários!
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Você cometeu um equivoco no item 2. Ferpeitamente é dita no livro "OS LOUROS DE CÉSAR" e não na aventura "ASTERIX E OS BRETÕES"
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Não sei quantas vezes já li e reli minha coleção de Asterix, o legal é que meus filhos também já viraram fãs.
Outra coisa impagavel criada pelo tradutor são os nomes dos romanos.
A cada derrota da nossa "poderosa" seleção de futebol para a equipe gaulesa comandada pelo Zidanix eu me pergunto se não haveria um modo de o antidopping detectar a poção mágica do Panoramix.
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eu até hoje nao entendo como tem pessoas que nao gostam disso... sério... tomaram que continuem fazendo novas publicaçoes nos aniversarios, hehe...
P.S.: posso estar errada, mas o ferpeitamente nao é dito na abertura dos louros de césar, parodiando o que é dito antes [mas explicado depois] quando obelix e o chefe bebem demais na casa de ortopedix, o irmao de "lilina"?
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ACREDITO que é dito uma ou duas vezes em OS BRETÕES, mas inadvertidamente
No contexto mesmo, é em LOUROS DE CÉSAR
Valeu!
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FERPEITAMENTE! VINI, VIDI, VICI, disse Julio Cesar a Vercingetorix....E eu não sei onde fica Alésia (para mim, Alésia é a Copa de 1982!)
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Asterix, chega aos 50,e continua o baixinho + charmoso que conheço!
Até hoje, agradeço ao meu pai por ter influenciado a mim e aos meus irmãos, a ler sua coleçao de Asterix.Virou até piada interna na família frases como "para o lago, para o lago"; "tadinho do bichinho"; "com mel"-adaptado para "com leite".....e muitas outras
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O nome do noivo de Falbalá é Tragicomix, ou como debochadamente diria obelix: "O belezoca?"
=]
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