17.04.08
O relógio biológico da TV: a família faz a digestão
Depois de rir muito com o vídeo que posto abaixo, reparei em algo que todo mundo, certamente, já reparou: a televisão aberta funciona tal e qual como um intestino. Calma. Eu sei o que um intestino produz. Mas o que eu quis dizer é que a grade parece mesmo um reloginho biológico: de manhã, a mulher de 30 a 40 anos levou as crianças ao colégio, voltou para casa e ligou a TV para ouvir alguma coisa enquanto faz ginástica. Ao meio-dia, ela foi buscar os moleques. Um deles, de 12 a 17 anos, liga logo a TV para ver programas sobre futebol. Quando acaba, ele vai almoçar. Aí, a mulher de 35 a 40 anos volta da cozinha, onde ela preparava comida (ou orientava a empregada) e descansa um pouco vendo o Jornal Hoje.
Quando dá, a mulher de 35-40 vê o Video Show, ao lado da adolescente de 14 a 17 anos, e emenda com a novela em reprise, ao lado da aposentada de 55 a 70 anos.
A novela acaba e fica só a aposentada na sala. Quando começa a sessão da tarde, o moleque mais velho volta para a frente da TV e toma sorvete ao lado da avó aposentada. Os dois choram vendo "O Campeão". A idosa vai para a hidroginástica e o moleque de 17 anos segue vendo "Malhação". A irmã gostosinha dele, de 19 anos, voltou da malhação nessa hora e os dois curtem o programa e sonham com gatinhos e gatinhas.
Começa a novela das 18h, e a mãe voltou da manicure ou da reunião com as balconistas da loja dela. Ou então do endocrinologista. Essa novela é meio chatinha, por isso, a mãe de 35 a 40 anos e a aposentada de 55 a 70 deixam a TV ligada e conversam. Às vezes, uma na sala e outra na cozinha.
Novelas das 18h
Aí começa a novela das 19h, em que a empregada, a irmã gostosinha de 19 anos, a idosa de 55 a 70 e a mãe se sentam na frente a televisão para dar risadas das piadas de duplo sentido e sentir tesão pelos homens sem camisa (ainda que completamente fora do contexto - um dia vai aparecer homem sem camisa na Avenida Paulista).
Novelas das 19h
Acaba a novela, a empregada, a mãe e a irmã gostosinha se levantam para afazeres pessoais. A idosa se levanta dizendo que não quer ver o jornal regional porque "tá de saco cheio de tanta desgraça".
O homem da casa, de 30 a 60 anos, chega, emputecido, do trabalho, e começa a ver, sozinho, o Jornal Nacional. O adolescente de 12 a 17, o jovem de 21, a irmã gostosinha de 19 e a mulher de 30 a 40 interrompem o homem da casa a todo instante para pedir dinheiro. Ora, é para isso que serve o Jornal Nacional. O William Bonner diz que o governo vai prorrogar o prazo para entrega da declaração de renda. O homem suspira: "PQP, tenho que ir no meu contador". A irmã gostosinha de 19 pergunta se pode pegar o carro emprestado no fim de semana para ir ao show do Evanescence, que tem o apoio de uma operadora de celular, a mesma que faz um anúncio no intervalo do Jornal Nacional.
Novelas das 20h
Começa a novela das 20h, com temas palpitantes e quentes, próprios para serem assistidos por um casal. A TV do quarto do casal é ligada, e na da sala a garotada coloca em outro canal para ver algum esporte ou filme (lembremos que esta TV não tem operadora de cabo, senão eles colocariam na Sony, na Warner ou no SporTV).
O casal da mulher 30-40 e do homem 30-60 conversa rapidamente sobre alguns temas da novela. Nas segundas e quartas, o homem 30-60 fica na sala vendo futebol ou filme. Nas terças e quintas, a idosa, a mãe e os filhos assistem no mesmo horário aos humorístico/policiais. Na sexta, a idosa e a mãe assistem ao Globo Repórter se o tema for saúde ou emagrecimento.
No sábado, poucos vêem TV neste dia de sol. Melhor dar uma caminhada. Mas a irmã gostosinha de 19 e o adolescente 12-17 assistem ao programa do Huck - por motivos diferentes, claro. O adolescente quer ver a Dani Bananinha para começar seus exercícios, er, você sabe. E a jovem gosta das competições de soletrar - quer fazer Letras-Literatura para escrever episódios de Malhação.
No domingo, o casal vai almoçar na casa de uma das sogras, o macarrão demora a sair, assim como a salada, e aí o maridão de 30-60 tem que assistir a Flamengo x Cardoso Moreira pelo canto do olho, ainda à mesa. No fim da tarde, começam as videocassetadas, e quem não consegue entrar no assunto discutido (casamento rico de um primo distante, emprego novo de um sobrinho, cartões corporativos do Lula, insegurança em grandes cidades e emagrecimento) fica rindo sozinho dos tombos e quedas. Geralmente, esse é o adolescente 12-17, mas dependendo do clima pode ser o homem da casa 30-60 anos.
À noite, todos ficam deprimidos com a musiquinha do Fantástico. Ô vida besta. El tiempo pasa. Nos vamos poniendo viejos.
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Seus comentários
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Vida sem graça essa, né?
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O melhor foi a da música deprimente do fantástico.rs
Consegui ver minha família aí, claro com algumas exceções.
Tbm chorei d rir com o 1º video quando vi à algum tempo.
Parabéns ao casal pelo blog.
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Ah, e a música do Fantástico já foi bem pior. Me lembro quando era cantada...
Marilia, a vida às vezes é meio sem graça, principalmente com tv aberta...
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Faltou só os programas de culinária para as velhinhas a tarde ...
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