15.04.08
Lá se vai o sol - Crônica de uma cidade enrugada de tanto banho

Se você, brasileiro, que mora em qualquer cidade fora do Rio de Janeiro, for abordado por um gringo que perguntar “How is Rio?”, não tenha mais dúvidas em responder: “It rains”. Você estará definindo com exatidão e precisão como é a cidade hoje. Estamos em 15 de abril e podemos dizer, sem medo de errar ou exagerar (o que no fundo é a mesma coisa), que dos 106 dias deste ano, pelo menos 75 foram de chuva ou nuvens pesadas no horizonte. Quem é carioca pode confirmar nos comments. Aquela velha cidade do “É sal, é sol, é sul” da Bossa Nova virou na verdade um “É chata, é chuva, é chute no saco”. E a coisa vai tomando tal proporção que a cultura de uma cidade semi-londrina já começa a dar seus primeiros sinais. Hoje em dia, são raros os que ainda marcam um programa ao ar livre. E mais que raros, não existe alguém que marque o tal programa sem assinalar, “bom, se chover, fica pro outro fim de semana”. Creio que estes últimos estão cada vez mais fadados à extinção – a menos que os programas culturais do Rio sejam limitados aos concursos de camisetas molhadas. Se for concurso masculino, peço que não me convidem. Se for feminino, bom, mandarei um telegrama de felicitações. Como já disse, em blog que o homem divide com a mulher não se permitem gracinhas.

Uma imagem animadora e cheia de esperança: nuvens pretas chegando
E falando em mulher, foi nesta manhã de terça-feira (normalmente um dia potencialmente ruim da semana, depois explico por quê) que comecei a ter estas constatações sombrias sobre a nossa Atlântida Tropical, o Rio de Janeiro. Um guarda-chuva Louis Vuitton para quem palpitou que eu fui levar a Marcele no ponto de ônibus, programa obrigatório para a metade do blog Eclipse que por acaso acordar antes das 8h. Aproveitei que acordei neste horário (apesar de ter ido dormir tarde como sempre) para dar aquela caminhada. Chovia fino e até agradável, uma chuva de filme. No MP3, “Beware of darkness”, do George Harrison, e “My Love”, do Paul McCartney. Tudo perfeito. Passei na casa da sogra da Marcele para filar um café e ler o jornal. E aí, claro, cumpriu-se a regra número 1 da Londres do Sul: basta recolocar o pé na rua que a chuva fina se transforma em um tornado capaz de encher o Grand Canyon em questão de segundos. Sorte do Grand Canyon ter nascido no Colorado. Se tivesse nascido aqui, já teria virado “valão” há muito tempo.
Chove pra cacete o tempo todo nessa p(*) dessa cidade
Com essas leis naturais, também é mais do que natural também a cidade ganhar essas novas características. Por exemplo: não importa em que local você esteja, há sempre uma penca de guarda-chuvas de R$ 5 escondidos em algum lugar. Às primeiras gotas, eles são sacados por camelôs e vendidos que nem água (ops). O sujeito que caiu na asneira de sair sem essa proteção hoje essencial no Rio compra sem bufar. Alguns vão mais longe e compram logo o guarda-chuva de R$ 10, próprio para duas pessoas (ou um gordo, o que vier primeiro). Sei que jamais pago mais do que isso em um guarda-chuva. Não há como investir muito dinheiro em um objeto que eu sei antecipadamente que vou esquecer em algum lugar.
Se antes tínhamos que, em janeiro, telefonar para o restaurante ou bar e perguntar se tem ar-condicionado ANTES de marcar o encontro com os amigos, hoje, com os 75% de chuva, você já liga e pergunta também se a rede pluvial em volta costuma ter bom escoamento. Imagine esse papo.
- Boa noite, vocês fazem reserva?
- Fazemos sim, senhor.
- Tem ar-condicionado?
- Claro, senhor.
- Ótimo. Só mais um coisa. Quais as dimensões da tubulação no sistema de escoamento local?
- Senhor, oscila entre bitola de 28 milímetros, com triplo parafuso sextavado e by-pass de mola com frenagem direta.*
- Ah, bom, então mesa para cinco, por favor.

Nuvenzinha light sobre Copacabana
Em uma cidade como o Rio de Janeiro, toalha se tornará em breve um acessório de roupa tão comum quanto hoje é o lenço no bolso do terno dos homens ou a faixinha no cabelo das mulheres.
- Gente, você viu a toalha nova que o Paulinho está usando? É da Armani!
- Eu não consigo entender como que tem gente que paga quase um salário mínimo numa toalha só porque é de grife e bonitinha! Eu só compro minhas toalhas na C&A e olha que ainda uso cartão, heim!
- Ah, mas para sair à noite cai bem, ainda mais se você vai num jantar mais social...
E claro, seremos todos Pingüins do Batman. Guarda-chuva vai estar no guarda-roupa, para negozinho combinar com o sapato. E vai ser parte da nossa cultura. Na nova versão do filme Tropa de Elite, o Capitão Nascimento vai dar um esporro no soldado que treina para ser Caveira:
- Senhor 02, onde está seu guarda-chuva? (aos berros)!!!!
- Senhor, deixei em cima da mesa da sala, senhor!
- Senhor 02, e se na hora do pegapracapá começar a cair um toró, alagar tudo e você ainda estiver sem guarda-chuva? Vai fazer o quê com o guarda-chuva depois? Vai enfiá no c(*)?
- Não, senhor! Até porque se abrir lá dentro eu tou f(*), senhor!

A chuva vai mudar o carioca de vez, acredite. Uma cidade onde os dias se alternam, de outubro a junho, entre calor insuportável quase egípcio e chuvas em padrão paraense. E, muitas vezes, as duas coisas ao mesmo tempo. Realmente, não posso culpar os turistas de outros países se preferirem ir a Londres, já que o tempo deve ser o mesmo. Só posso dizer a eles que o Corcovado é mais bonito que o Big Ben. Quer dizer, isso quando se vê o Cristo Redentor. A última vez que eu vi a estátua sem nuvem na frente deve ter sido no mês passado.
Uns três dias do mês passado.
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Seus comentários
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Tá parecendo São Paulo!!
(Não lembrava que vcs moravam no Rio!)
Em Sampa, eu não saio de casa sem o guarda-chuva!
Mas a culpa disso tudo é nossa, né? :S
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apesar de admitir todas as belezas possiveis nela acho que as outras coisas que prejudicam a cidade prevalecem na minha mente, mas deve ser só neura.
o que posso dizer é que particularmente acredito que todo dia deveria chover, nao horas e nem chuvas torrenciais mas como um regador em uma plantacao deveria chover meia horinha no fim de tarde, antes da hora do rush mas o suficiente pra dar aquela cochilada ou acalmar o calor abafado das 3 da tarde.. acho que deveria sempre chover...
aqui (aracaju) nao chove ha um tempo, na verdade passamos meses sem ver uma gota e quando esta surge vem acompanhada de tantas outras e passamos dias alagados, entao tudo para e passamos mais um tempao sem encontrar nossas amiguinhas... por isso acho que todo dia deveria chover, nem q fosse um pouco mas que chovesse... num horario quase que combinado por todos !
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