Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









11.04.08

A volta do saudável hábito de gravar fitas cassetes - e o que é melhor: sem fitas cassetes

Por essa eu não esperava mesmo, apesar de a Marcele ter me dito, com ar espertinho, que já conhecia: o site http://www.mixwit.com/ ajuda você a criar uma ‘fita cassete’ virtual, apenas com uploads de músicas do seu computador. Você faz seu upload e envia pros amigos. Sei não, até parece armadilha do FBI para pegar quem tem MP3 armazenado no computador. Mas, enfim, admito que vai ser difícil eu resistir a este encanto.
Em primeiro lugar, gostaria de fazer análise para entender por que sinto saudade de um negócio que levava mais de duas horas para ser gravado e de vez em quando embolava dentro do gravador a ponto de você ter que jogar fora. As fitas cassete fizeram mesmo época. Nas minhas mãos, teve três utilidades:
1- Gravar ‘mixado’ para colocar em festinhas (de 30 em 30 minutos todo mundo tinha que parar de dançar para trocar a fita – quem não lembra da ‘deslumbrante’ tecnologia ‘auto-reverse’?)
2- Gravar uma fita para aquele seu amigo/conhecido, enfim, um cara que você não tem muita intimidade mas te vê com um LP dos Rolling Stones embaixo do braço e diz, com olhar pidão: “Pô, depois vou te dar uma fita, tu grava pra mim”. Sério; se eu dissesse a vocês que já passaram de mil as vezes em que eu ouvi esta frase, vocês acreditariam? Tudo bem, passaram de 900.
3- Gravar para emprestar com ar sonso a uma garota. Este uso perverso e sórdido da fita cassete é inclusive registrado no filme Alta Fidelidade, de Stephen Frears. Aliás, quando vi o filme pela primeira vez, no cinema, senti incômodo extremo quando o personagem vivido por John Cusack admite que o lance das fitas cassete é só para pegar mulherzinha mesmo.

Geralmente, este recurso da fita cassete parte de quem não tem absolutamente chongas para oferecer em termos estéticos, isto é, parte do sujeito mais feio e mais nerd. Espinhas, óculos, cabelo embaraçado, etc e tal. A esperança é a guria pegar a fita, ouvir em casa Paul McCrane cantando e tocando no violão “Is it okay if i call you mine?”, e, bem, o resto fica na imaginação do nerdzinho esperto que gravou a fita. Nos sonhos dele, a menina vai ouvir tudo, se emocionar, e no dia seguinte chegar ao colégio pensando: “Não sei por quê vou sair com o Paçoca no fim de semana, o moleque só quer saber de surfar e lutar jiu-jitsu, acho que me apaixonei por aquele nerdzinho de óculos que é quase da minha altura, tem acne e desodorante vencido”. Ok, o nerd tira dos sonhos a frase “desodorante vencido”. E tem convicção de que vai conquistar a garota só porque ela ouviu “Way over yonder”, da Carole King.
No dia seguinte, a menina agradece a fita: “Cara, a-do-rei. Eu e o Paçoca ouvimos, ele até pediu para você gravar uma para ele também”.
O nerd nessa hora tem certeza de que o suicídio é uma boa forma de adiar esse compromisso.
Eu gravei fita até depois de velho, confesso. E nem sempre gravei para mulherzinha que eu queria pegar (olha o risco que eu estou correndo escrevendo isto num blog dividido com a minha mulher, a minha Marcele). Já gravei fita para mulheres-amigas (sério, não sou cabelereiro mas tenho isso). Já gravei até fita que hoje está em poder de macho, como minha série highlights, hoje dividida entre dois marginais de primeira linha.
Eu adorava a mitologia das fitas: “TDK é a melhor. Basf? Mais ou menos. A Basf ‘cromo’ é boa sim. TKR? É lixo. Maxwell é a melhor, melhor que a TDK. mas é muito cara. Scotch? Isso é fita durex, só é bonitinha porque é transparente. Não, você não vai gravar suas músicas nessa fita Sony, vai?”

O segredo para se gravar uma boa fita cassete é sempre pensar nos finais com uma música diferentezinha. Bom, deve-se abrir a fita com o blockbuster, a música que a pessoa vai sempre querer ouvir mais, e por isso mesmo você coloca no início que é para ficar fácil de achar. Não pode ser também uma música muito curta. Digamos, “Since i’ve been loving you” do Led Zeppelin é bom para abrir uma fita. Em seguida, você entra com “One more cup of coffe” ou “Sara”, do disco Desire, do Bob Dylan. Carole King não pode faltar, além da já citada “Way over yonder” há outras opções no disco “Tapestry” como “You’ve got a friend” e “Will you still love me tomorrow?”. “Helpless”, do Neil Young, sempre dá certo em fita, vai por mim (se for a versão do disco Déja vu, com Crosby, Stills e Nash, melhor ainda). “Angie”, dos Stones, é outro clássico de fita para mulherzinha. E se você gravar uma fita sem “Your Song” (Elton John), “I don’t want to talk about it” (Rod Stewart) e “I can see clearly now” (Johnny Nash), bem, sinceramente, algo pode dar errado. Claro, a já citada “Is it ok if I call you mine?” tem que abrir o Lado 2. Você passou o lado 1 inteiro bombardeando, é hora de invadir com os fuzileiros.
Aí, “April come she will” ou “Still crazy after all these years”, da dupla Simon & Garfunkel, “You’re the best thing that ever happened to me”, da Gladys Knight, e “Let’s get it on”, do Marvin Gaye, completam a covardia que você está cometendo. Aí, se você estiver nos anos 70, encerra com a clássica “Love of my life”, do Queen. E se você já estiver nos anos 00, saia correndo e nunca mais apareça na frente da garota para quem você deu a fita.
Ela já deve estar ouvindo a fita no carro do Paçoca.

por Gustavo de Almeida as 02:02:16

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Comentários:


Seus comentários

Nome: João Marcelo
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Gustavo, eu devo ter ainda umas 100 fitas cassetes guardadas na despensa de casa. Quase nunca as ouço, mas vez ou outra dou uma fuçada lá. Elas na verdade eram uma das primeiras formas de pirataria. Já na época do CD, tinha lojas (como a Spider) que "locavam" disquinhos por um dia, com capas xerocadas e o original dentro. O sujeito levava, gravava e devolvia, pagando algo em torno de 1,80. Não dava problema porque eram basicamente CDs importados, de bandas que não eram lançadas pelas gravadoras brasileiras. Em tempos pré-downloads, internet etc, era a melhor forma de ter acesso barato a bandas, digamos, "alternativas".
11.04.08 @ 13:37
Nome: Marília
Url: http://maroma.wordpress.com/
Tô de boa! Não sinto a menor saudade das fitas...
11.04.08 @ 15:26
Nome: Márcio Teruel
Url: http://www.mteruel.zip.net
Engraçado mesmo, e me fez lembrar de meu querido avô que tem a mania de gravar todo tipo de coisa em fitas de vídeo... Algo como ficar na frente da telinha aguardando término da apresentação do programa para apertar o botão na hora certa... E da mesma forma ao aguardar o programa voltar.
Muita saudade!
11.04.08 @ 21:45
Nome: MARK GUEDES
Url: http://www.myspace.com/markguedes
Podes crer... em pleno ano 2007, vasculhei o ebay e depois de muita pesquisa, achei e comprei um tape-deck de sonhos: um deck Akai, modelo GX-65, com 3 cabeças, filtro dbx, dolby b/c, gx head (por 68,00 euros)... ou seja, um top de linha que na época em que foi fabricado custava uma fortuna. Assim posso hoje ouvir minhas 200 fitas k7 gravadas com programas de radios de vários estados do Brasil e varias rádios do exterior. e nada de passar pra mp3... o bom mesmo é ouvir a k7 no tape-deck.
12.04.08 @ 00:20
Nome: Paula Clarice
Url: http://engavetado.blogspot.br
Preciso fazer uma confissão. Quando eu tinha uns 12, 13 anos, detonei todas as fitas da minha casa pra fazer uma peruca brilhosa pra uma apresentação da aula de dança. Ainda quer ser meu padrinho?
12.04.08 @ 07:27
Nome: Paulo
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Olá Gustavo!
Confesso a você que sempre fui um apreciador das fitas cassetes pois, com elas consegui fazer verdadeiras obras de arte, utilizando o duplo deck e meu teclado eu mixava som sobre som e com isso consegui gravar músicas com vários instrumentos, uma verdadeira orquestra, isso eu não consegui fazer utilizando CDs.
12.04.08 @ 10:17
Nome: Euterpe
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Tenho um amigo que precisa de fita k-7 pra escutar o iPod...explico: ele é biólogo e tem um gravador portátil de fita k-7, onde grava sons de aves. Resolveu modernizar e comprou um iPod para armazenar os cantos gravados. Só que quando ele precisa reproduzir esses sons no mato (para atrair uma espécie, por exemplo, e o volume tem que ser bem alto), ele conecta um fio do iPod direto em uma fita k-7, para o som sair através das caixas de som do gravador (TCM da Sony). Agora parece que ele arrumou uma grana pra comprar as caixinhas de som do iPod...
12.04.08 @ 10:32
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
O legal foi sentir pelos comentários que todo mundo tem uma empatia com as fitinhas;
Agora, não me lembrava da palavra TAPE DECK!

Me lembro que perguntávamos sempre, quando víamos um System de som qualquer, tipo o System 95 da Gradiente: "Tem tape deck?"

Gostei, Paula, do uso das fitas...
12.04.08 @ 16:39
Nome: Mauricio Neves
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Eu AINDA tenho as minhas fitas. E as que melhor resistiram ao senhor tão bonito quanto a cara do meu filho (essa eu sempre gravava) foram justamente as Scotch transparentes. Fita pra pegar mulherzinha começava com Stairway to heaven, que um amigo traduziu (bêbado) como "estrela a caminho do céu". God save the eighties.
12.04.08 @ 18:10
Nome: Arthur Muhlenberg
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Claro que eu me lembro das fitas K7. Como esquecer das unicas virgens que rolaram na minha mão nos anos 80?
12.04.08 @ 18:32
Nome: Ulisses Mattos
Url: http://www.revistam.com.br
O mito da fita cromo é que comia o cabeçote. Eu ia mesmo é de Basf Hot Tape, vermelha.
Ainda tenho minhas fitas. Outro dia fui oferecer uma fita de música indie gravada em 1991 (com Pixies, etc) pra um colega de 19 anos que curte indie. Ele falou, "Te agradeço, mas não tenho essa mídia. Não tenho como ouvir fita". Caramba, como é que pode eu já estar conversando com gente que nunca ouviu fita? Achei que isso só fosse acontencer quando eu tivesse uns 35 anos. Ops, já estou com 35...
13.04.08 @ 11:17
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Diga-se de passagem - e isto eu só lembro porque tenho 40... - que quem fazia a propaganda da BASF HOT TAPE era a Virginie, da banda Metrô ("Coração ligado, beat acelerado"...)
13.04.08 @ 11:23
Nome: Teresa Cris Tavares
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Nossa, Gus, amei a receita pras fitas. Esse texto trouxe boas lembranças. Era uma delícia ganhar uma fita. Dava aquela vontade de sair correndo pra ouvir, louca pra descobrir o que o cara achava que você ia gostar...
14.04.08 @ 01:54
Nome: Carlos Braga
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Além das K-7, eu tinha uma fita k-7 limpadora. Colocava-se a fita no som, com uma flanelinha que fazia um movimento de vaivém com uma flanelinha, embebida num líquido limpante, pra limpar o cabeçote.
14.04.08 @ 13:34
Nome: Luís Edmundo
Url: http://orlandolele.blogspot.com
Bom, acho então que eu devo ser um dos poucos que AINDA ouve fitas cassete com certa regularidade, no toca-fitas do carro. Aliás, continuo achando que, pra carro, toca-fitas é melhor que CD.
16.04.08 @ 10:28
Nome: Pedro Lucas
Url: http://www.prosangue.sp.gov.br
Ao
Dep. de Vendas / Licitações:

Comunicamos que encontra-se aberta o CV-BEC 10.792/2009 - OC 091301090472009OC00169 para aquisição de gravador portátil para fita cassete comum.

Salientamos que não obtivemos exito na tentativa anterior de aquisição, portanto, não deixem de participar.

Grato e atenciosamente,


Pedro Lucas
Dep. de Compras
Fundação Pro-Sangue
Fone: 3069-7421 - Fax: 3069-7420
11.05.09 @ 14:38
Nome: gustavo Grama
Url:
...pois é tenho o aparelho de fitas cassetes com as fitas, sera que vs. sabem quem compra como saudosismo, tudo funciona, obrigado.
02.02.10 @ 10:59
Nome: J. Marcos Ataydes
Url:
Legal as dicas de todos. Gostaria de saber onde eu posso comprar fitas cassetes?

Abs- Marcos
30.11.10 @ 00:03
Nome: Fabiano Moura
Url:
eu possuo varias fitas para avenda novas e lacradas todas high bias II as de melhor qualidade basf, tdk,sony o lote esta em nonoai-RS e-mail fabiano84@yahoo.com lote com 250 fitas novas 10 reais cada
04.04.11 @ 09:34
Dentro do meu carro, tenho um rádio que é toca-CD e toca-fitas (Alpine). Acredite: Escutar fita cassette é muito mais prazeroso que escutar CD, por longo tempo. Fita cassette não dá fadiga auditiva como a música digitalizada dá. Não que eu não escute CD; mas para escutar por mais horas é melhor o som mais grave e mais quente da fita cassette, ao som metalizado do CD com seus graves de baixo "attack"; graves secos. Ah, fora que a voz do cantor ou cantora sai mais natural. No meu blog explico isso - http://fitacassette.blogspot.com/. Analógico é sempre melhor, afinal não existe som digital na vida real, todo ele é analógico; nossa voz é analógica. Aho, novidade: A partícula magnética da fita cassette de dióxido de ferro aperfeiçou-se com tratamento químico e o som tornou-se em qualidade praticamente igual a dióxido de cromo. E pra finalizar "matando": Muita gente boa não sabe, mas os "back up de servers" de provedores são feitos em fitas magnéticas, pela alta confiabilidade deste sistema, desta mídia. Abraços e longa vida às fitas cassette e fitas de deck de rolo.
19.11.11 @ 06:17

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