Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









6.04.08

Rod Stewart: 20 anos ao mesmo tempo

O dia ainda estava claro, apesar de serem perto de 18h30 e o ano ser 1988, ou seja, ainda não tínhamos a maluquice do aquecimento global e as verdades inconvenientes. Estávamos em grupo de cinco ou seis. De ônibus. Com um ingresso de papel na mão, sem tarja magnética, sem nada. Eu via o grande arco da Apoteose e ao fundo dois morros cariocas. E entre mim e o arco, um grande espaço de concreto, que nós ganhamos correndo assim que se abriram os portões no pós-triagem dos ingressos. Estavam todos lá: eu, o Miligrama, o Portuguesinho, o Chulai e o Beto. Figuras desaparecidas, um milhão de fatos e 20 anos depois, quando subo para reencontrar o mesmo velho amigo que eu tinha encontrado na Apoteose: o escocês Roderick Stewart, ou Rod Stewart, ou Rodfather, como diz o engraçado vídeo cinematográfico exibido no telão da moderna Arena Multiuso em Jacarepaguá. Estou casado com a mulher da minha vida e trabalhando em uma profissão que eu ainda não cogitava ali na Apoteose.

Estamos muito longe da Apoteose, daquela noite então, nem se fala. A Apoteose fica no outro lado da cidade, no bairro do Catumbi. A Arena Multiuso fica em Jacarepaguá, ao lado do autódromo, e é legado do Pan. Mister Roderick Stewart entra no palco sem cerimônias ou suspenses: findo o vídeo, a banda começa a tocar e ele simplesmente entra em cena e começa os versos de “It’s a heartache”, música que daria sensação de saudade mesmo a quem tivesse acabado de nascer. São os anos 70, anos da melodia, da música de altíssima qualidade, que sobrevive a décadas. As mulheres estão histéricas diante daquele escocês sessentão, completamente galhofeiro, que dança levantando os pés e dando chutes em bolas imaginárias. Em volta dele, as histéricas e apaixonadas o banham com flashes de câmeras digitais.

Embaixo dos pés de Rod Stewart, o escudo do Celtics – em You’re in my heart, a câmera filma de cima para que o pessoal da pista possa ver a homenagem mais do que sincera. O mundo é verde. E branco.
Enquanto isso, lá na Apoteose, o Barão Vermelho entrava em cena. Cazuza tinha acabado de sair da banda, Frejat assumia a grande responsabilidade de cantar. Mulheres histéricas gritam “gostoso” para Frejat. Ele entra com “Pense e dance”, o pouco público do gargarejo delira, o dia começa a escurecer, finalmente. O Portuguesinho olha para uma menina que ele nunca viu antes. E vice-versa. Ela vem. Ele diz:
- Oi, eu sou o Eduardo.
Ela ri e eles se beijam na boca. E assim ficam até muitos meses depois do show. Aliás, o do Barão acabou. A Apoteose começa a se encher, ficar pequena até. Somos empurrados para o gargarejo, mas há uma cerca forte. E seguranças. O cheiro de maconha impregna o ambiente, apesar de estarmos ao ar livre. A uma distância de 20 anos dali, nem cigarros havia direito na Arena Multiuso. E bebíamos Pepsi-Cola, eu e Marcele. Eu usando drogas: sibutramina, para inibir apetite e emagrecer.

A voz domina os dois ambientes, em 1988 e 2008. “You’re in my heart, you’re in my soul...”, como sempre, com todos cantando. Na Apoteose, milhares de jovens que só sonham em encontrar alguém, viver um sonho. Na Arena Multiuso, empresários com seus chaveiros que abrem carrões com um bipe, mulheres com as peles repuxadas por cirurgias e separações litigiosas, meninas jovens e bonitas, algumas acompanhando os pais. Ninguém está sem camisa, ninguém está sujo, ninguém se exaspera tal e qual a menina que, 20 anos atrás, sobe ao palco em “Sailing”, abre os braços, ri, dá um pulo e, num átimo, abraça Rod, que ri aos borbotões.
Mas o astral em 2008 é alto. Todos estão numa mesma sintonia. “We're having a party/dancing to the music/played by the D.J/on the radio/the Cokes are in the icebox/popcorn's on the table/Me and my baby, yeah/we're out here on the floor, oh yeah/So, Mister, Mr. D.J./keep those records playing/coz I'm having/such a good time/dancing with my baby”.
É como se fosse uma festa. Uma festa no ar-condicionado, com coca-cola, sem suor ou lágrimas, pessoas com os hormônios aplacados pela conquista final – emprego, carreira, mulher, filhos. Lá na Apoteose, há 20 anos dali – ou será A 20 anos dali, sem agá? – o que havia era o urro do pós-Rock in Rio, quando se acreditava em algo que ocuparia o lugar do ocaso político brasileiro. “I don’t wanna talk about it”. Em vez de isqueiros acesos e queimando dedos de 1988, celulares ligados ali na festa da Arena Multiuso (que, aliás, tem o nome de um banco).
O velho – que já era velho em 1988 – Rod continua um fanfarrão. Deita no sucesso e na delícia de suas melodias simplesmente irresistíveis, de sua banda absolutamente impecável. Ri aos montes com o público cantando os refrões. Um escocês nascido na escuridão dos pubs ao lado de loucos como Jeff Beck, Ron Wood, Ronnie Lane e Nicky Hopkins tem mais é que rir mesmo. Ainda mais um ex-coveiro fanático pelos Celtics.

A banda de Rod Stewart, em 2008, é quase a metade de mulheres. Sim, os dois guitarristas, o baixista, o tecladista e os dois bateristas são homens. Mas o velho sacana colocou como saxofonista uma louraça de 1,80m com saltos finos, uma morena com cara de adolescente tocando violino, pandeiro, bandolim e violão além de backing vocal, uma ruiva com uma cítara elétrica e três negras lindas cantando absurdamente. Uma delas fez solo em “Proud Mary” e arrebatou a platéia. Magistral. O velho Rod precisa desses intervalos para se recuperar, claro. Aliás, na Arena Multiuso teve intervalo. “Para los señores beberem la cerveza, ir en los tocadores” (banheiros), avisa o telão.
A banda volta com roupas trocadas, o lourão do sax com uma roupa mais discreta, deixou no camarim o short justo que deixava as Hot Legs de fora. Aliás, neste clássico, duas bailarinas vão para as extremidades e exibem as pernas quentíssimas. Uma delas é gordinha e linda. Rod Stewart ainda dá um tapa na cara dos designers e costureiros, ao mostrar vários tipos de mulheres lindas em palco - e, pior, nenhuma delas é uma modelo fria e que não faz mais porra nenhuma além de tomar inibidor de apetite e fumar escondido. Todas fazem algo bem.
Quanto a Roderick, usa suas Hot Legs para chutar dezenas de bolas reais, de futebol, para a platéia, já encantada e completamente dominada por seu carisma. Ninguém está com o rosto tenso ou chateado. A sintonia é a mesma. Stewart consegue fazer, por duas horas, com que eu pense e sinta o mundo do mesmo jeito que uma emergente da Barra sentada duas fileiras à frente com um óculos-binóculo que nem o Bozo usaria em público. Mas está valendo tudo. Sweet little rock and roller. Como há 20 anos, o palco vira uma bagunça só, a multidão não consegue ficar parada.
Na pista, onde havia a ilusão de que cadeiras podiam ser numeradas, a organização já era – desde o primeiro minuto de show, todas correram para o gargarejo do palco, ali onde eu mesmo estava, na Praça da Apoteose, com mais cabelos, menos barriga e mais sonhos. Estou longe da Apoteose e do gargarejo.

Começa Maggie Mae, a obra-prima de Roderick, a morena com cara de adolescente arrasa no bandolim, sorrindo. Na Apoteose, éramos “Young Turks”, pulando e cantando. Young turk, na gíria inglesa, é jovem rebelde. Em 1988, todo mundo era rebelde, ninguém tinha cartão de crédito ou talão de cheques ou contas para pagar. “Stell my daddy’s clue and make a living by playing pool” é um verso magistral, uma síntese do rock and roll: a vida não planejada, vivida para o momento, o lúdico na forma de viver de jogar sinuca, como na música. É preciso ter sido um Young turk para ter composto Maggie Mãe. Entra “Do ya think i’m sexy” no bis, a música solta, todos tocam demais. O palco é uma festa.

O show termina, Rod agradece em 1988 e 2008. Da Apoteose, sem dinheiro para um táxi, andamos quilômetros até algum lugar onde pudéssemos pegar um ônibus menos lotado. Não havia um lugar aberto para comprar água ou refrigerante. Minha boca estava seca, já que no gargarejo não passava ambulante e de lá não dava para sair.
A rampa da Arena Multiuso é bem mais confortável que a saída apertada da Apoteose. Nos dois anos, estou com a alma lavada pelos acordes soltos das guitarras. Mas pareço perdido em 2008. Onde está o Portuguesinho e a menina? Onde está o Miligrama? Onde está o Beto. Não sei nem se estão vivos. Vejo senhoras de 50, 60 anos, com suas famílias, homens de meia idade com camisas pólo e celulares modernos, garotões que dali vão para alguma boate ouvir música eletrônica e esquecer as duas horas de show.
Voltamos com o amigo que nos arrumou os ingressos, confortavelmente no carro dele, com ar-condicionado. Penso em 1988. Àquela hora, talvez eu estivesse começando a chegar em Botafogo, onde virei um copo inteiro de Sprite ao chegar no Bar Braseiro – que ficava onde hoje há um bingo e uma ampliação do velho Canecão. No caminho, decidimos ir à Fiorentina, no Leme, já penso que vou pagar no débito automático.
No Leblon, um pequeno engarrafamento, olhamos para o lado. É Joana, amiga nossa, dirigindo um carro. Eu e Marcele gritamos, “Joana!”, ela abaixa o vidro, sorrindo, e diz, do alto de seus 26 anos de idade:
- Estou vindo lá do show do Rod Stewart!
- Nós também! Nós também – respondemos.
- “Hot legs” é muito importante para nós. Para minha família toda. Temos uma coreografia toda especial para essa música!
Rimos, e fomos adiante. Talvez este diálogo tenha esclarecido tudo, no sentido de que acima de 1988 e 2008, da vida em si, dos desencontros, das nossas mudanças, esteja a Música, a que fica, a que permanece.
Meu velho amigo Roderick, que eu não encontrava há 20 anos, veio para me explicar isso mesmo: que não se separa Vida de Música. Tonight’s the night, Rod. Sempre é.

por Gustavo de Almeida as 19:12:32

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Comentários:


Seus comentários

Nome: sebastiao dias pinto
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Sensacional o comentário de vocês
Mesmo estando 3.200km de distância,me senti novamente curtindo o brilhante RS
Valeu.
09.04.08 @ 09:41
Nome: Regina Mara
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Gente pessoal massa gostaria de ter tido a change de assistir a um show massa desses principalmente o com maggie Mae..a morena criada pelo Rod.stwart..musicas igual a essa sao inesqueciveis..linda matéria..PARABENS.......
09.04.08 @ 10:30
Nome: Renatao
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Gostaria de saber com certeza se Rod Stewart e irmao de sangue (Mesmo Pai e Mãe)de Ronnie Wood, pois um amigo meu teima em afirmar tal sandice . Aguardo respostas obrigado por hora .
Renatão ....
07.02.09 @ 21:57
Nome: paulo afonso
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embora a aparencia de rodo stewart e ronnie wood sejam incriveis, eles são grandes amigos e ja curtiram e ainda curtem jeuntos alguns eventos, eles mesmos afirmam que são irmãos devido a grande amizade entre ambos e a aparencia indiscutivel. contudo, eles não são irmãos. ok ? abraços, paulo. 92781860.
18.03.10 @ 09:58

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