21.03.08
Galicismos de casal - Francês sem mestre em quatro regras
Jeçuílêmarrí, ela é lepôze.
Não adianta, não sei patavina de francês e não tenho idéia de uma palavra. Sei desde 1998 que “marchón, marchón”, quando cantado por jogadores de futebol abraçados e vestidos de azul, significa “Vamos massacrar impiedosamente a seleção brasileira, formez les bataillon e vamo meter a porrada nesses subdesenvolvidos”. E sei que “avec” é algo como “com” ou “do lado”, mas só porque o saudoso Messiê Limá falava a expressão o tempo todo. O Ibrahim Sued também. “Cocadinhas da alta sociedade carioca avec ator francês”, ou algo assim. Messiê Limá? Na verdade, Monsieur Lima. Mas, enfim, no Discomania, programa que o baixinho apresentava, eu só ouvia músicas em inglês. Aliás, foi lá que vi pela primeira vez o clipe de Emotional Rescue. E lá se vão TRINTA anos. É assustador eu lembrar de algo que aconteceu há 30 anos.

O inesquecível Messiê Limá
Versão da Marseillaise que assusta: torcedor gravou da arquibancada minutos antes de começar a final de 1998
A mesma Marseillaise de 1998, mas em um vídeo mais longo que inclui o nosso hino
Versão da Marseillaise que arrepia: Casablanca
Sei que nesta sexta-feira da Paixão, passo em frente ao sofá da sala, e agora tem um novo amiguinho: o notebook. Não o Mac fininho desejado pela Marcele, afinal, não sou eu de maneira nenhuma o “mineiro de Uberlândia que ganhou a mega sena” na quarta-feira. Nunca fui a Uberlândia. Mas dei à Marcele (pasme, com ajuda financeira dela...) um notebook até dentro dos limites do decente. Não faz feio. É “dual core” – embora eu admita não fazer a menor idéia do que catzo seja dual core. Um amigo meu, tenente da Polícia Militar, sabe 20 vezes mais do que eu e deu a dica. “Dual Core e Celeron é como Vinho do Porto e vinho Sangue de Boi”, disse ele.

Dona Marcele, com a mente dividida entre TV, Notebook, um livro e o marido (os dois últimos estão fora da foto)
Marcele, que já era compenetrada em frente à TV quando só havia o livro no colo, agora virou uma máquina de meditação. Divide os olhinhos entre a tela da TV, a tela do notebook e de vez em quando o livro e um jornal. E, claro, o marido. Eu passo, ela levanta os olhos, e manda um beijinho, como se estivesse na janela de outro prédio – ou outro planeta. Até que numa passagem dessas do quarto – onde escrevo – para a cozinha, ouvi a frase, aterrorizante, para mim:
- Je sui lê pouse!
Tremi. Olhei a tela do notebook: Marcele está aprendendo francês. O pior de tudo é que ela tem uma capacidade de aprendizado absurda, e sempre se destacou nos colégios porque os outros tinham raiva: ela faltava a muitas aulas mas tirava nota mais alta do que todo mundo que era assíduo, na hora do vamo ver. Uma espécie de Flamengo de 1992: faltava aqui e ali, mas na hora do mata-mata era aquele negócio: “deixou chegar, agora já viu...”.
Com um site e um notebook, e, o que é pior, um site com som que ensina as pronúncias, possivelmente Marcele estará lendo Honoré de Balzac no original em um ano. E entendendo trocadilhos.
E eu, o que sou, pergunto:
- Lê marrí!
Sei lá como se escreve marido em francês.
Muita gente acha que tenho implicância com a França por causa de ciúmes da minha prima, que está no segundo casamento gaulês. Tremenda bobagem. Acho o marido da minha prima um sujeito sensacional, e sinto falta deles, queria muito que morassem no Brasil – por outro lado, ter o Nicola por perto talvez me levasse a uma cirrose num prazo muito curto.
Minha implicância com a França é, curiosamente, apenas idiomática. Não gosto da língua. Agora, como não gostar de uma nação que se alimenta daquela forma, com filés, patês, saladas e vinhos espetaculares? Como vou ter raiva da terra de Asterix, Platini, Charles Aznavour, Piaf e Alain Prost?
O único problema é esse biquinho na hora de falar, essa total incapacidade minha de sequer ter uma idéia do que se está falando. Ligo na BBC ou na CNN e tenho pelo menos vaga idéia – ainda que na BBC muitas vezes eu tenha entendido ser o campeonato inglês de cricket o tema da matéria e o âncora chamar imagens da venda ilegal de coalas na Indonésia.
A minha técnica para falar francês é parecida com a de Luis Edmundo Araújo para falar espanhol. Para quem não sabe, é dele a frase “Espanhol não é uma língua, é um estado de espírito”. Sobrevivi sete dias em Buenos Aires baseado na frase de Luis Edmundo – e Marcele que não venha implicar comigo, porque mudamos para um quarto melhor no hotel quando eu perguntei ao atendente:
- Usted no tiene una habitación más grande? Jo tengo la plata para ‘pagare’ más!
O cara riu tanto do meu sotaque que nem cobrou. E nos demos bem.
O francês, portanto, segue as seguintes regras: é só transformar todas as palavras com E em E com chapeuzinho (ou circunflexo), trocar O por lê, mudar qualquer palavra que tem um R para dois RR e qualquer substantivo com A no fim em oxítona. Sendo assim, como eu diria “Marcele, quero sair hoje para ver o novo filme com a biografia do Bob Dylan. A gente pode comer uma pizza depois e encontrar os amigos”? Fácil:
- Mi Marcele, querro sair parra ver lê filmê com biografiá de Bob Dylan. A gente podê comerr la pizzá depois e encontrarrr lês amigo”
Duvido que em Paris ela não respondesse:
- Oui, mi marrí.
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15 de março
Comentários:
Seus comentários
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E eu quero aprender francês para poder falar com a Nina (ou outro nome, eu ainda não sei) ora bolas!
Beijos,
Marcele
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Acabo de fazerr um chimarrón baseadá num tutorrial da interrnê (e ficou bão). Beijôs da tua gemeá do sú.
OBS: to com saudadê
Url: http://anaraquel.12@hotmail.com
levo 15 euros por hora
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