Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
Siga-nos no Twitter Gustavo de Almeida
Marcele Fernandes









19.03.08

A culpa é sempre do limão - Pequena história de um domingo de ressaca

Não, engana-se quem acha que vou tentar imitar o Luis Fernando Veríssimo e escrever um tratado-geral sobre a ressaca tão bom quanto o feito pelo gaúcho há uns 20 anos. Sim, vocês lembram, particularmente do trecho em que ele dizia “Na ressaca de licor de creme de ovos, a legislação brasileira permite a eutanásia”. É absolutamente genial, e não há chance de eu imitar isso.


A culpa é sempre do limão

Este post é um mea-culpa, uma espécie de “Sim, eu pequei” para a noite de sábado, aniversário da Marcele. Fomos, como ela já anunciara, ao Bar Bukowski, onde encontramos os amigos que tínhamos certeza de que iriam com sol (mesmo à noite) ou chuva. Que estava pesada, aliás. Compreensíveis as ausências, a cidade virou um lodo.
Sei que, ao chegar, enveredei pelo mundo da Vodka Finlândia com gelo. Dose dupla, como é servido no Bukowski. Logo eu participava de um animado debate sobre o Campeonato Estadual de 2008. Bom, nem tão animado assim, já que o problema de todo mundo que não é Flamengo é exatamente o Flamengo. Que posso eu fazer?
Posso pedir uma dose de caipivodka de morango – para quem está numa linha de comer mais frutas e se alimentar melhor, é a bebida fundamental. A do Bukowski, devo dizer, é excelente.
Tudo ia muito bem, até que decidi me aventurar pelos descaminhos do drinque Hemingway, uma mistura de champanhe com absinto. Sei que o consumo de drinques com nomes bonitinhos e intelectuais é algo esquisitão, mas, vá lá. Vamos de Hemingway. “O LSD em copo”, definiu o Marlos, logo ao lado, no momento em que chegava à mesa o Hemingway.
Achei um exagero da parte dele. Na verdade, achei o absinto uma bebida normal, quase um licor de aniz um pouco mais forte. E se alguém duvidar, o unicórnio azul que dividiu o copo comigo pode confirmar. Eu invocaria o testemunho das cinco fadinhas estreladas, mas acho que elas só beberam vodka.
No dia seguinte, o fígado parecia ter parado. Não existe parada cardíaca? Pois acho que tive uma parada hepática. O simples ato de abrir os olhos demandou um esforço digno do Rei Arthur retirando a espada daquela pedra. Minhas lembranças eram como rasgadinhos de fotos amarelecidas em tom sépia, só faltava aparecer bonde e mulher com chapéu grande. Na minha noite de sábado, o Aterro do Flamengo ainda não existia, de tão remotas eram as lembranças. Quando me dei conta – horas depois – de que ainda fui no Cervantes com a Marcele comer um sanduíche, tive a certeza de que só um laboratório de análises clínicas (ou a memória da minha mulher) poderia me esclarecer se eu comi ou não o filé com queijo sem abacaxi (sanduíche tão tradicional quanto roda-gigante).
Passei o dia em estado letárgico. Celular desligado, telefone mantido à distância, sombra e ar-condicionado. Cheguei a bolar um Centro do Dia Seguinte (CDS), onde eu daria toda a infra-estrutura para o sujeito sair bem da ressaca.
O CDS consistiria de quartos refrigerados, com equipamentos seletos para o ressacado grau Hecatombe com Facas: coca-cola com mais gás, gelo em profusão, bolsas geladas térmicas para a testa, música ambiente (opcional) à base de clássicos, televisão (opcional), cama confortável e silêncio absoluto, garantido pelos revestimentos das paredes. E muito serviço de quarto, além de um sujeito para anotar todos os recados de quem ligasse para o celular.
- Alô, CDS, boa noite.
- Hã?
- CDS, boa noite
- O quê? Quem ta falando? Esse é o celular do Magalhães?
- Sim, o sr. Magalhães se encontra no CDS, o Centro do Dia Seguinte.
- Que porra é essa? Ta tomando a pílula?
- Não, senhor. Está cuidando bem de uma grande ressaca, mas assim que sair daqui, inteiro e são, retornará vossa ligação. Agora devo desligar. Não encha o saco do dr. Magalhães porque ele está de ressaca e normalmente mandaria o senhor à merda.
Este seria o atendimento padrão no CDS. Claro, o cliente poderia orientar o rapaz dos recados a atender todo mundo do mesmo jeito que ele atende à própria mãe, mas ninguém ia atender aos apelos de “vir aqui para fazer um cafezinho”.


Ambiente ideal para a implantação do CDS

Minha ressaca de absinto e vodka continuou até altas horas. No dia seguinte, acordei sete e meia da matina. Quem me conhece sabe que eu trabalho e fico acordado até tarde, e eu estar de pé a essa hora é quase um milagre. Ou então houve algo errado. Houve. Na dupla estômago-intestino. Uma intoxicação causada pelo coquetel enorme de bebidas violentas com tira-gostos inocentes como “aquela lingüicinha frita” fez com que eu passasse a segunda-feira inteira no banheiro, em terrível embate com a natureza.


Seleção de "manhãs seguintes" do Youtube, antes de você continuar a ler até o fim:

Você até poderia dizer: “Mas este post também é sobre a Porra da Velhice Chegando”, já que há 20 anos eu poderia beber todas na maior impunidade, embora também tivesse grandes ressacas, dignas de serem filmadas pelo Cecil B.De Mille.
Mas há 20 anos não tinha absinto. E, como vocês sabem, a culpa toda foi do absinto, ué.

por Gustavo de Almeida as 00:26:41

Posts similares:
Ressaca a dois
Das ressacas e gripes de cada dia
Ressaca de Carnaval


Comentários:


Seus comentários

Nome: Gilberto "Knuttz" Soares Filho
Url: http://ueba.com.br
O detalhe é que o absinto que desembaca no Brasil é uma versão batizada...

A versão que fazia a moçada viajar no começo do século passado não pode entrar legalmente no Brasil e tem gradação alcoólica que chega a 75%. A versão brasileira é só de 45% se não me engano.

Como você gosta de aventuras etílicas, eu te indico experimentar o rum austríaco Stroh 80, que tem 80% de álcool. Eu já experimentei o Stroh 60 (o único que encontrei), e o primeiro gole adormeceu a minha boca, a segunda dose me deixou bêbado e a terceira embriagou...
19.03.08 @ 09:53
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Gilberto,
não quero nem imaginar o que aconteceria se eu bebesse o absinto original - ainda mais com tanta vodka antes.
No mínimo, teria composto músicas do Album Branco dos Beatles.
abraço
Gustavo
19.03.08 @ 10:21
Nome: Paulo Vianna
Url:
valeu, genial.........como faço para achar este tratado-geral sobre a ressaca
do Veríssimo..obrigado
19.03.08 @ 14:09
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Paulo, está aqui, divirta-se com um texto magistral:

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO - RESSACA
março 24, 2007 · No Comments

Hoje, existem pílulas milagrosas, mas eu ainda sou do tempo das grandes ressacas. As bebedeiras de antigamente eram mais dignas, porque você as tomava sabendo que no dia seguinte estaria no inferno. Além de saúde era preciso coragem. As novas gerações não conhecem ressaca, o que talvez explique a falência dos velhos valores. A ressaca era a prova de que a retribuição divina existe e que nenhum prazer ficará sem castigo.

Cada porre era um desafio ao céu e às suas feras. E elas vinham: Náusea, Azia, Dor de Cabeça, Dúvidas Existenciais - golfadas. Hoje, as bebedeiras não têm a mesma grandeza. São inconseqüentes, literalmente. Não é que eu fosse um bêbado, mas me lembro de todos os sábados de minha adolescência como uma luta desigual entre a cuba-libre e o meu instinto de autopreservação. A cuba-libre ganhava sempre. Já dos domingos me lembro de muito pouco, salvo a tontura e o desejo de morte.

Jurava que nunca mais ia beber, mas, antes dos trinta, “nunca mais” dura pouco. Ou então o próximo sábado custava tanto a chegar que parecia mesmo uma eternidade. Não sei o que a cuba-libre fez com meu organismo, mas até hoje quando vejo uma garrafa de rum os dedos do meu pé encolhem.

Tentava-se de tudo para evitar a ressaca. Eu preferia um Alka-Seltzer e duas aspirinas antes de dormir. Mas no estado em que chegava nem sempre conseguia completar a operação. Às vezes dissolvia as aspirinas num copo de água, engolia o Alka-Seltzer e ia borbulhando para a cama, quando encontrava a cama. Mas os métodos variavam.

Por exemplo:
Um cálice de azeite antes de começar a beber - O estomago se revoltava, você ficava doente e desistia de beber.
Tomar um copo de água entre cada copo de bebida - O difícil era manter a regularidade. A certa altura, você começava a misturar a água com a bebida, e em proporções cada vez menores. Depois, passava a pedir um copo de outra bebida entre cada copo de bebida.

Suco de tomate, limão, molho inglês, sal e pimenta - Para ser tomado no dia seguinte, de jejum. Adicionando vodca ficava um bloody-mary, mas isto era para mais tarde um pouco.

Sumo de uma batata, sementes de girassol e folhas de gelatina verde dissolvidas em querosene - Misturava-se tudo num prato pirex forrado com velhos cartões do sabonete Eucalol. Embebia-se um algodão na testa e deitava-se com os pés da ilha de Páscoa. Ficava-se imóvel durante três dias, no fim dos quais o tempo já teria curado a ressaca de qualquer maneira.

Uma cerveja bem gelada na hora de acordar - Por alguma razão o método mais popular.

Canja - Acreditava-se que uma boa canja de galinha de madrugada resolveria qualquer problema. Era preciso especificar que a canja era para tomar. No entanto, muitos mergulhavam o rosto no prato e tinham de ser socorridos às pressas antes do afogamento.

Minha experiência maior era com a cuba-libre, mas conheço outros tipos de ressaca, pelo menos de ouvir falar. Você sabia que o uísque escocês que tomara na noite anterior era paraguaio quando acordava se sentindo como uma harpa guarani. Quando a bebedeira com uísque falsificado era muito grande, você acordava se sentindo como uma harpa guarani e no depósito de instrumentos da boate Catito’s em Assunção.

A pior ressaca era de gim.

Na manhã seguinte, você não conseguia abrir os dois olhos ao mesmo tempo. Abria um e quando abria o outro, o primeiro se fechava. Ficava com o ouvido tão aguçado que ouvia até os sinos da catedral de São Pedro, em Roma.

Ressaca de martini doce: você ia se levantar da cama e escorria para o chão como óleo. Pior é que você chamava a sua mãe, ela entrava correndo no quarto, escorregava em você e deslocava a bacia.

Ressaca de vinho. Pior era a sede. Você se arrastava até a cozinha, tentava alcançar a garrafa de água e puxava todo o conteúdo da geladeira em cima de você. Era descoberto na manhã seguinte imobilizado por hortigranjeiros e laticínios e mastigando um chuchu para alcançar a umidade. Era deserdado na hora.

Ressaca de cachaça. Você acordava sem saber como, de pé num canto do quarto. Levava meia hora para chegar até a cama porque se esquecera como se caminhava: era pé ante pé ou mão ante mão? Quando conseguia se deitar, tinha a sensação que deixara as duas orelhas e uma clavícula no canto.

Olhava para cima e via que aquela mancha com uma forma vagamente humana no teto finalmente se definira. Era o Peter Pan e estava piscando para você.

Ressaca de licor de ovos. Um dos poucos casos em que a lei brasileira permite a eutanásia.

Ressaca de conhaque. Você acordava lúcido. Tinha, de repente, resposta para todos os enigmas do universo. A chave de tudo estava no seu cérebro. Devia ser por isso que aqueles homenzinhos estavam tentando arrombar a sua caixa craniana. Você sabia que era alucinação, mas por via das dúvidas, quando ouvia falar em dinamite, saltava da cama ligeiro.

Hoje não existe mais isto. As pessoas bebem, bebem e não acontece nada. No dia seguinte estão saudáveis, bem-dispostas e fazem até piadas a respeito.

De vez em quando alguns dos nossos se encontram e se saúdam em silêncio. Somos como veteranos de velhas guerras lembrando os companheiros caídos e o nosso heroísmo anônimo.

Estivemos no inferno e voltamos, inteiros.

Um brinde.

E um Engov.

do livro “O Suicida e o Computador”, L&PM Editores, Porto Alegre
20.03.08 @ 11:49
Nome: vinicius
Url:

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO genial como sempre.

excelente seu texto tb gustavo.
22.03.08 @ 01:03
Nome: Mauricio Neves
Url:
"Parada hepática" é digno de Verissimo!
22.03.08 @ 16:48
Nome: Maloca
Url:
LSD no copo? Eu falei isso? Cara, lembro que saí da mesa para pegar uma tequila e acordei em casa. Eu saí do corpo ou um Exú tomou conta de mim. Foi temerário.
22.03.08 @ 22:14
Nome: Simone Gondim
Url:
Eu, na qualidade de amiga perigosa, porém gente boa - aquela que não bebe e lembra de tudo no dia seguinte, mas faz delivery de bebum e evita comentários ou, no máximo, zoa a vítima na encolha -ia dizer que, quem precisava mesmo de CDS, era o Maloca. Mas ele já comentou, então... :)
24.03.08 @ 11:34
Nome: Beatrice
Url:
Ja tomei Stroh 80, 80% de alcool. E te digo, nunca achei nada igual! nem parecido!
13.11.09 @ 01:52

Seus comentários::


Tags XHTML permitidas: <p, ul, ol, li, dl, dt, dd, address, blockquote, ins, del, span, bdo, br, em, strong, dfn, code, samp, kdb, var, cite, abbr, acronym, q, sub, sup, tt, i, b, big, small>
(Quebras de linha se tornam <br />)
(Set cookies for name, email and url)