14.03.08
Enxergando o óbvio: a tal da idade chegando

A Porra da Velhice Chegando (PVC) é um fenômeno meio dúbio. Por um lado, você até festeja que os hormônios sossegaram e agora você pode se tornar um cidadão respeitável, que não vai ficar por aí que nem cachorro em perna de visita sem intimidade. Mas de outro, os sinais de que seu corpo já está pedindo a revisão dos cinco mil quilômetros são impossíveis de serem ocultos. No meu caso, claro, ainda tem a rebelião capilar, uma guerra entre bulbos e couro cabeludo que se assemelha a Deus e o Diabo no Coração dos Homens, no melhor estilo Dostoievski. Contrariei todas as previsões dos meus 18 anos – um dermatologista rogou uma praga (na verdade, fez um prognóstico) e decretou que aos 30 anos eu seria o Yul Brinner. Hoje, aos 40, não sou de forma alguma o astro de Sete homens e um destino, mas diria que estou ali naquela tensa região entre o Phil Collins e o gramado do Estádio Defensores Del Chaco nos piores dias.
Outro traço de PVC nada desejável é a visão prejudicada. Nada de grave, claro. Mas quando se faz quarenta anos, ter mais de um óculos é absolutamente normal. Um para longe, outro para perto. Bom, eu só tenho para longe (e neste “longe” incluem-se legendas de filmes, lances vistos da arquibancada e cadeiras azuis do Maracanã e televisões aqui de casa). Mas tenho dois, porque a PVC faz com que eu esqueça toda hora onde um deles está – aí tenho o outro.
E era sobre óculos que eu queria falar. Nesta quinta-feira, finalmente fui ao oftalmologista, depois de oito anos, para supostamente fazer novo exame e conseqüentemente novos óculos, já que os meus já tinham a visão de um periscópio de submarino dentro da Baía de Guanabara – pequenas sujeiras, arranhões e manchas de gordura de pizza transformaram a minha miopia em hipermetropia (quando estou de óculos).

Marquei, portanto, o oftalmologista e fui lá, de manhã, em horário de pobre mesmo (assumindo minha condição sócio-financeira). Eu sempre disse a todo mundo que qualquer hora entre 5h e 10h é “horário de pobre fazer exame de vista” – você tem que entrar numa fila cedinho, pegar senha, etc. No meu caso, usei o convênio da Marcele e marquei uma clínica particular.

Ao chegar lá, levei uma hora e meia para ser atendido, depois de uma fila de septuagenários com miopia, metade deles querendo fazer exame para trocar de óculos. Não conversei com ninguém para não criar identificação. O meu nome foi chamado, e, ao ser aberta a porta, conforme já contei para a Marcele, estava uma jovem de seus 23 anos, provavelmente uma residente, no melhor estilo Meredith Grey. Bem branquinha, menor que eu, olhos pretos e cabelos castanhos. E começou a me examinar, abrindo meus olhos com as mãos, etc e tal. Os meus instintos de macho latino e sedutor vieram à tona (mesmo sendo casado, reconheço) sem que eu pudesse controlar. É um fetiche ser examinado por uma médica gatinha. Nunca me esqueço, porém, de “Igual a tudo na vida”, do Woody Allen, em que a personagem de Christina Ricci termina com o médico que a examina no meio do filme.
O fetiche, no entanto, foi se esvaziando com as perguntas: “O SENHOR tem diabetes?”, “O SENHOR já fez alguma cirurgia?”, “O SENHOR tem alergia a algum medicamento?”, “O SENHOR tem histórico familiar de glaucoma?”. A palavra “senhor” sendo pronunciada com a candura e o respeito com que uma netinha pediria ao avô combatente de guerra que lhe contasse a História do Dia D. “O SENHOR tem hipertensão?”.
- Não, mas um dia vou ter – respondi, me lembrando da minha profissão.
Fomos para o exame naqueles aparelhos tortuosos, e a menina-oftalmologista logo descobre o grau dos meus óculos. Tecnologia pura. Inimaginável. E eis que eu faço a pergunta básica:
- Ainda tenho só miopia ou já tenho astigmatismo?
A gatinha-ocular fez um quase muxoxo, arqueou as sobrancelhas e disparou, com a voz delicada como quem diz “The Oscar goes to...”:
- Olha, na verdade, astigmatismo o SENHOR já tem há um tempão. Mas não é nada de mais. É apenas aquele sinal da idade que vai chegando...
Pano rápido, por favor. Logo peguei a receita e encomendei um modelo "prafrentex". De que década deve ser a expressão "prafrentex"? Aposto como vai haver comentários de gente que nunca ouviu falar dessa palavra.
De qualquer maneira, na próxima consulta, vou levar balas Soft para dar à oftalmologista, como um bom vovô deveria fazer.
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Comentários:
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Mas pensa assim, era pq a moça - fetiche era educada e chama todo mundo de senhor ... não por causa da idade!
Ajudou?
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Pior que médica-gatinha é dentista-gatinha.. Você fica literalmente de boca aberta...
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e paula, muito obrigada pelo apoio, hahahahahahaha.
beijos!
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