Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









10.03.08

Folk-se quem puder - A idade das Seis Cordas

Música tem 80% a ver com hormônios. De quem a faz e, principalmente, de quem ouve. No caso da adolescência/juventude, então, tal constatação é ainda mais óbvia. Jovens dos 14 aos 22 anos deveriam ter seus podcasts programados por um endocrinologista. É verdade universal a de que o “Nevermind”, do Nirvana, tem de ser receitado a quem tem 16 anos, complexos e espinhas tal e qual a natação é recomendada aos asmáticos. “Nevermind” é um disco que, aos 40, AINDA ouço inteiro, vale registrar.

Em termos de música, a Marcele é uma pessoa muito mais desenvolvida e adulta do que eu, devo reconhecer. Ainda me vejo tocando air guitar quando ouço “Living proof”, do Wishbone Ash, ou “Like a hurricane”, do Neil Young.

Mas é inegável, em um casamento como o nosso, em que nem a idade física (homem de 40 com mulher de 28) e nem a mental (homem de 16 e mulher de 32) conseguem se equivaler, a questão da música mostra saudável desequilíbrio. E, por conta disso, a Marcele acabou me mostrando o caminho da música na maturidade (esta que eu não consigo alcançar): o folk.
Começou com “Daughter”, do Loudon Wainright III, pai do Rufus (que faz uma engraçada participação em “A Era da Inocência”, do Dennys Arcand). A música – realmente extraordinária – toca no fim de “Ligeiramente grávidos” e eu “peguei pelo rabo” o nome do cantor e tasquei no Emule. Bingo. Virou hit dos nossos aparelhos de MP3 e uma das favoritas da Marcele. Tanto que, ao fazer uma homenagem recente a ela, paguei mico tocando violão e cantando, publicando no Youtube e, pior, colocando o vídeo aqui no Eclipse. Não vou cometer o mesmo erro, por isso coloco um vídeo da música feito por um pai orgulhoso da filha, logo abaixo – é até melhor para que o leitor aprecie a música em seu formato original, e não no formato violão desafinado/voz com adenóides/respiração de bronquite, que foi o inaugurado por este que vos escreve.

Marcele tem um adorável instinto para perceber estas associações idade-música. Eu tento imitar, desde que ela proferiu a extraordinária definição para o que é a música de Bon Jovi: “Música para primeira menstruação”, disse ela. Sei que ela vai me assassinar por ter publicado a frase, e sei que as milhares de fãs de Bon Jovi estarão em breve às portas de nosso prédio com tochas, ancinhos e maças (tal como já escreveu o Veríssimo). Mas a definição dela é irresistível.
A partir dali passei a observar melhor esta relação – e, claro, a me observar com mais nitidez. Quando eu era criança, achava que Frank Sinatra, com todos aqueles sopros da fase pós-Columbia Records, era música para coroa que não quer mais nada. Hoje, entendo que aquilo ali é música para quem tem segundas, terceiras e quartas intenções. “Let’s fall in love”, “Cheek-to-cheek” e “(You do) Something to me” são verdadeiras celebrações da relação carnal (independente de que sexos estão se relacionando, deve-se admitir).
Não há como, no caso de quem tem espinhas e complexos, deixar de chegar em casa e urrar ao som de "Riff raff", do AC/DC ou bradar, com dedos em seta apontados para cima, junto com Coverdale na genial "Ain't gonna cry no more" do Whitesnake.

No entanto, a tendência mesmo do envelhecimento é a de se desplugar um pouco a guitarra, diminui o ritmo da bateria e transformar o baixo elétrico em contrabaixo. No caso de quem se detém apenas na música pop, me parece que o folk é a grande parada. E o fenômeno da maturidade acompanhada de violões e vozes chegou à adolescência – já havia, claro, o “Clube da Esquina havaiano”, que é o Jack Johnson (na magistral definição de Silvio Essinger no extraordinário blog Raios Triplos). É normal que num casamento tranqüilo como o nosso, em que o grande programa é ficar lendo em casa, quietos, no ar-condicionado (grande programa de quem está economizando, claro), o folk assume a vanguarda. Isto não tem nada de novo - o violãozinho de um Stephen Stills vai ser sempre o tom do momento.
Mas uma novidade como “Anyone else but you”, dos Moldy Peaches, a música tocada por Ellen Page e Michael Cera em “Juno”, bom, é um sinal forte de que a coisa vai mesmo pelo folk e que em breve vai voltar aquela mania de todo mundo querer tocar violão.
Paro por aqui – e pelo motivo simples: não sei dizer se quero novamente um mundo onde as festas, de madrugada, terminem com um cara tocando um violão inaudível com um coro de moças sussurrando: “Solto a voz....nas estradas....já não posso parar....meu caminho éééé de peeedraasss....”.
Deixo vocês com uma seleção dos 10 folks preferidos do Eclipse:

"Daughter", de Loudon Wainright III (não existe no Youtube o autor tocando)

"Anyone else (but you)", dos Moldy Peaches (versão do filme)

"If not for you", George Harrison

"Just like a woman", Richie Havens

"After the gold rush", Neil Young (esse é no piano)

"Fire and rain", James Taylor

"Father and son", do Cat Stevens (clássico dos clássicos no folk)

"Suite: Judy Blue Eyes", Crosby,Stills and Nash (genial)

"It's all over now baby blue", Bob Dylan (não pode faltar)

"A hard day on the planet", outra do Loudon. Ótima.

por Gustavo de Almeida as 13:37:26

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Comentários:


Seus comentários

Uffa, que sequência!

Difícil tentar calcular minha idade pela música. Tanto quanto imaginar a vida da maioria das pessoas sem ela.
Imagino sim que o rock tenha a ver com hormônios, mas a música em si transcende a idade de todo e qualquer.
10.03.08 @ 22:09
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Priscilla,
sem sombra de dúvidas
tanto é que continuo amarradão em AC/DC mesmo aos 40...

abraços
Gustavo
11.03.08 @ 09:33

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