10.03.08
Folk-se quem puder - A idade das Seis Cordas
Música tem 80% a ver com hormônios. De quem a faz e, principalmente, de quem ouve. No caso da adolescência/juventude, então, tal constatação é ainda mais óbvia. Jovens dos 14 aos 22 anos deveriam ter seus podcasts programados por um endocrinologista. É verdade universal a de que o “Nevermind”, do Nirvana, tem de ser receitado a quem tem 16 anos, complexos e espinhas tal e qual a natação é recomendada aos asmáticos. “Nevermind” é um disco que, aos 40, AINDA ouço inteiro, vale registrar.

Em termos de música, a Marcele é uma pessoa muito mais desenvolvida e adulta do que eu, devo reconhecer. Ainda me vejo tocando air guitar quando ouço “Living proof”, do Wishbone Ash, ou “Like a hurricane”, do Neil Young.
Mas é inegável, em um casamento como o nosso, em que nem a idade física (homem de 40 com mulher de 28) e nem a mental (homem de 16 e mulher de 32) conseguem se equivaler, a questão da música mostra saudável desequilíbrio. E, por conta disso, a Marcele acabou me mostrando o caminho da música na maturidade (esta que eu não consigo alcançar): o folk.
Começou com “Daughter”, do Loudon Wainright III, pai do Rufus (que faz uma engraçada participação em “A Era da Inocência”, do Dennys Arcand). A música – realmente extraordinária – toca no fim de “Ligeiramente grávidos” e eu “peguei pelo rabo” o nome do cantor e tasquei no Emule. Bingo. Virou hit dos nossos aparelhos de MP3 e uma das favoritas da Marcele. Tanto que, ao fazer uma homenagem recente a ela, paguei mico tocando violão e cantando, publicando no Youtube e, pior, colocando o vídeo aqui no Eclipse. Não vou cometer o mesmo erro, por isso coloco um vídeo da música feito por um pai orgulhoso da filha, logo abaixo – é até melhor para que o leitor aprecie a música em seu formato original, e não no formato violão desafinado/voz com adenóides/respiração de bronquite, que foi o inaugurado por este que vos escreve.
Marcele tem um adorável instinto para perceber estas associações idade-música. Eu tento imitar, desde que ela proferiu a extraordinária definição para o que é a música de Bon Jovi: “Música para primeira menstruação”, disse ela. Sei que ela vai me assassinar por ter publicado a frase, e sei que as milhares de fãs de Bon Jovi estarão em breve às portas de nosso prédio com tochas, ancinhos e maças (tal como já escreveu o Veríssimo). Mas a definição dela é irresistível.
A partir dali passei a observar melhor esta relação – e, claro, a me observar com mais nitidez. Quando eu era criança, achava que Frank Sinatra, com todos aqueles sopros da fase pós-Columbia Records, era música para coroa que não quer mais nada. Hoje, entendo que aquilo ali é música para quem tem segundas, terceiras e quartas intenções. “Let’s fall in love”, “Cheek-to-cheek” e “(You do) Something to me” são verdadeiras celebrações da relação carnal (independente de que sexos estão se relacionando, deve-se admitir).
Não há como, no caso de quem tem espinhas e complexos, deixar de chegar em casa e urrar ao som de "Riff raff", do AC/DC ou bradar, com dedos em seta apontados para cima, junto com Coverdale na genial "Ain't gonna cry no more" do Whitesnake.
No entanto, a tendência mesmo do envelhecimento é a de se desplugar um pouco a guitarra, diminui o ritmo da bateria e transformar o baixo elétrico em contrabaixo. No caso de quem se detém apenas na música pop, me parece que o folk é a grande parada. E o fenômeno da maturidade acompanhada de violões e vozes chegou à adolescência – já havia, claro, o “Clube da Esquina havaiano”, que é o Jack Johnson (na magistral definição de Silvio Essinger no extraordinário blog Raios Triplos). É normal que num casamento tranqüilo como o nosso, em que o grande programa é ficar lendo em casa, quietos, no ar-condicionado (grande programa de quem está economizando, claro), o folk assume a vanguarda. Isto não tem nada de novo - o violãozinho de um Stephen Stills vai ser sempre o tom do momento.
Mas uma novidade como “Anyone else but you”, dos Moldy Peaches, a música tocada por Ellen Page e Michael Cera em “Juno”, bom, é um sinal forte de que a coisa vai mesmo pelo folk e que em breve vai voltar aquela mania de todo mundo querer tocar violão.
Paro por aqui – e pelo motivo simples: não sei dizer se quero novamente um mundo onde as festas, de madrugada, terminem com um cara tocando um violão inaudível com um coro de moças sussurrando: “Solto a voz....nas estradas....já não posso parar....meu caminho éééé de peeedraasss....”.
Deixo vocês com uma seleção dos 10 folks preferidos do Eclipse:
"Daughter", de Loudon Wainright III (não existe no Youtube o autor tocando)
"Anyone else (but you)", dos Moldy Peaches (versão do filme)
"If not for you", George Harrison
"Just like a woman", Richie Havens
"After the gold rush", Neil Young (esse é no piano)
"Fire and rain", James Taylor
"Father and son", do Cat Stevens (clássico dos clássicos no folk)
"Suite: Judy Blue Eyes", Crosby,Stills and Nash (genial)
"It's all over now baby blue", Bob Dylan (não pode faltar)
"A hard day on the planet", outra do Loudon. Ótima.
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Comentários:
Seus comentários
Url: http://www.pittyquepariu.blogger.com.br
Difícil tentar calcular minha idade pela música. Tanto quanto imaginar a vida da maioria das pessoas sem ela.
Imagino sim que o rock tenha a ver com hormônios, mas a música em si transcende a idade de todo e qualquer.
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
sem sombra de dúvidas
tanto é que continuo amarradão em AC/DC mesmo aos 40...
abraços
Gustavo
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