8.03.08
Saudades do 4-3-3 (a vida passada em revista)
A Placar de hoje, acima. A Placar de ontem, abaixo
Esta semana, no meu trabalho, rolou uma conversa que eu classificaria como “O Rosebud de cada um”. Sim, quando atingimos a faixa dos 30/40, aquele insterstício que cumprimos antes de podermos entrar de graças nos ônibus, é a hora de buscar nos escombros da memória aquilo de mais precioso que perdemos na infância. No meu caso, reconheço, há vários elementos como este. Mas nenhum supera a expectativa das terças-feiras – dia da semana em que a Placar chegava às bancas. Não a Placar que temos hoje (francamente, parei de ler a atual depois que percebi que um certo colunista continuaria sendo colunista), que reflete exatamente o que é o futebol atual – calcado em imagem, dinheiro e uma potência individualista que para mim estaria reservado aos lutadores de boxe no nível de Cassius Clay. Mas a Placar daqueles tempos, a década de 70, alguma coisa da de 80 sim (pelo menos até 1983, que é quando assinalo o fim da minha era de ouro no futebol, com a ida de Zico para a Udinese). Uma Placar voltada apenas para futebol – tanto que mulher era um assunto extremamente paralelo. Hoje em dia, uma revista de futebol tem que falar obrigatoriamente das cachorras e marias chuteiras – e algumas delas vão parar mesmo é na Playboy, como se percebeu no caso da ex-mulher do Richarlyson.
Na minha Placar, as mulheres entrava para eleger o jogador mais bonito do Brasil. Me lembro da Sônia Braga votando no Leão por causa das pernas. Me lembro que o Falcão acabou ganhando. E é impossível negar: o Inter de Falcão, graças à Placar, era um mito da minha infância rubro-negra: Manga, Cláudio Duarte, Figueiroa, Hermínio e Vacaria; Caçapava, Carpegiani e Falcão; Valdomiro, Dario e Lula. Timaço campeão brasileiro de 1975, conforme o vídeo abaixo (no qual, ao que parece, tem Chico Fraga em vez de Vacaria na lateral):
Pois eu falava deste Rosebud, até que denunciei minha própria mãe (e sei que ela jamais faria isso de propósito, sem saber o significado – minha mãe é alguém que preza muito o “significado” dos objetos): foi ela quem, numa das faxinas de reestruturação – quase um downsizing doméstico – atirou ao lixo e à eternidade as minhas duas sacolas de supermercado cheias de Placares daqueles anos. Corria lá o ano de 1986 ou 1987, vivíamos a amargura da Copa do México, que perdemos por culpa do Sócrates e do zagueiro Júlio César, que no fim das contas erraram a série decisiva de pênaltis (ninguém garante que a França não empataria se Zico, frio ainda, tivesse acertado o pênalti no tempo de jogo).
A bem da verdade, à parte essas provocações (da minha parte também, admito...) reconheçamos: ninguém tiraria de Maradona aquela Copa. Nem Zico, nem Sócrates, nem Júlio César.
Mas voltando à velha Placar, eu diria que ela fazia o papel de “testamento” do futebol daqueles tempos. É da Placar a maioria dos meus mitos futebolísticos de infância. Eu às vezes prefiro não rever os vídeos para não descobrir ao acaso que o meio-campo formado por Clodoaldo, Aílton Lira e Pita não era tão bom assim. Ou que Rubens Feijão seria banco do Toró fácil, fácil – como esquecer a manchete histórica, “Nem Pelé, nem Pagão: Rubens Feijão”? Naquele tempo, o Santos era o time paulista que mais angariava simpatias entre os cariocas, por causa dos Meninos da Vila, treinados pelo Formiga: Marola, Nelson, Toninho Carlos, Neto e Gilberto Sorriso; Toninho Vieira, Aílton Lira e Pita; Nilton Batata, Juari e João Paulo.
Para mim, desilusão de infância mesmo será o dia em que um santista da minha idade me dizer que Juari não era cracaço e sim apenas um velocista e Nilton Batata não merecia aquela convocação para a Seleção Brasileira que disputou a malograda Copa América de 1979.
A Placar é um localizador, para mim. Nascido em 1968, eu sei hoje que, numa terça-feira de agosto de 1975, com sete anos de idade, eu estava com a Placar abaixo nas mãos, que prometia revelar os “segredos do Rei do Rio”: Zico.

Eu simplesmente adorava estes mitos que a Placar criava. No exemplo abaixo, na capa da revista (as capas eram sempre marcantes), estava lá, um absurdo que hoje os palmeirenses mais empedernidos condenariam ao degredo: “Os herdeiros de Dudu e Ademir: Pires e Zé Mário”. Tal título equivale mais ou menos a escrever em uma matéria sobre o Flamengo: “Os herdeiros de Domingos da Guia e Leônidas da Silva: Ronaldo Angelim e Obina”.

Não que algum dos jogadores mais recentes citados não tenham valor – mas é porque Dudu, Ademir, Domingos e Leônidas são definitivamente Monstros Sagrados do Futebol Brasileiro.
Me lembro de, anos antes, ver essa mitologia paulista tomar conta da minha memória, com a capa de Placar relatando a venda do zagueiro Luis Pereira e do meia-atacante Leivinha para o Atlético de Madrid. “VENDIDOS”, alertava a manchete abaixo.

A matéria me convenceu de que o time que tivesse Luis Pereira estaria irremediavelmente condenado a ser campeão. Anos depois, em 1984, o Luisão Pereirão jogou no Flamengo. Gordíssimo, apesar de muito talentoso. O talento não serviu para impedir que fosse criada a Avenida Luis Pereira na defesa rubro-negra – avenida asfaltada e devidamente sinalizada.
Saber as datas de épocas nebulosas da aurora de nossas vidas (obrigado, Casimiro de Abreu) é como a visão de um trenó queimando, algo que voa em direção ao infinito e você sempre tentando segurar.
Uma parte do site da Placar tem uma louvável iniciativa: a reprodução das velhas capas, que é de onde fiz esta seleção. A Placar, semanal, seria certamente deficitária nos dias de hoje – não teria anunciantes para sustentar tal periodicidade. Mas certamente a revista prolongava a segunda-feira pós-rodada de domingo, aquele momento que é céu ou inferno. Era ali que líamos a crônica mais saborosa do jogo, recheada da visão de alguém que teve mais tempo para acompanhar a manhã seguinte. Era na Placar que percebíamos as apostas do futebol brasileiro, como a que incensou Carpegiani, o grande volante e técnico campeão do mundo pelo Flamengo(e lamentável técnico de futebol dos tempos de hoje, completamente perdido), à condição de “craque e líder da seleção”. Na capa abaixo, uma reportagem que eu sempre vou lembrar: “Carpegiani tem fôlego para mais seis anos”.

A revista levou Carpegiani ao que havia de mais moderno em testes fisiológicos, e o cracaço correu na esteira, tirou sangue, fez dezenas de exercícios.
Mal sabia a Placar em 1979 que no ano seguinte o gaúcho de Erechim largaria o futebol e em 1981 comandaria o Esquadrão Rubro-Negro. Esquadrão este que tinha, conforme a capa abaixo de 1980, “um craque virgem”. Era incrível isto: a questão “Futebol” era tão centrada no tema “Futebol” que um jogador podia se declarar virgem aos 21 anos (como o mórmon Milton Queiroz da Paixão, o Tita) sem que isso fosse tema de dezenas de matérias subseqüentes.

Ainda do esquadrão é a linda manchete MENGO TU É O MAIOR, com erro de português e tudo, refletindo um povo excluído socialmente, de um país com a educação falida – um povo que se refugia até hoje no Ser Flamengo para ser alguma coisa nesta vida.

O tempo é, sim, contar dias e horas, e não há quem o segure. A Placar também sabia disto – tanto que na capa abaixo previa Zico e Sócrates aos 50 anos. Zico, um respeitável e aristocrático empresário. Sócrates, um médico de renome.

Maravilhosas previsões furadas. Zico aos 55 anos parece ter 45 e veste um agasalho do Fenerbahce fazendo história na Turquia. Sócrates não exerce a Medicina, mas escreve para diversas publicações – entre elas a revista Carta Capital – e continua parecendo ter 40 anos.
Mas este era o grande lance da Placar: saber brincar com as coisas do futebol que são realmente do futebol – como a idade, o tempo, a memória, essas coisas do futebol que são de toda a gente.
Hoje, a terça-feira é apenas um dia sem graça. E sem rodada de campeonato.
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Para quem entrou direto neste post pelo Permalink: já tem um mais novo que este, escrito pela Marcele, com uma história sobre um forninho que é impressionante. O que não faz o Marketing direto hoje...
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Beijos,
Marcele
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Se não me falha a memória...
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Pereirão deve ter chegado depois da conquista do Brasileirão (acabou no meio do ano).
Gustavo
Url: http://www.djmangueira.com.br
Comecei mais ou menos em 81, com meus sete anos, e depois acabei adquirindo muitas antigas, com a ajuda do meu saudoso pai.
O meu "downsize" foi um pouco mais doloroso: foi em uma enchente, que, além da coleção com mais de 300 revistas Placar, levou grande parte de documentos, fotos e eletrodomésticos, há uns cinco anos.
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mas a memória vc não perdeu. Memória é praticamente tudo
Quanto à matéria do Chulapa, me lembrou aquela sobre o Beijoca que CELEBRAVA o fato dele ser baiano e metido a porradeiro
Sensacional
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A PLACAR DO HELINHO DO BOTAFOGO
(PONTA DIREITA)DESTA ÉPOCA VALEU.
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