Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









8.03.08

Saudades do 4-3-3 (a vida passada em revista)

A Placar de hoje, acima. A Placar de ontem, abaixo

Esta semana, no meu trabalho, rolou uma conversa que eu classificaria como “O Rosebud de cada um”. Sim, quando atingimos a faixa dos 30/40, aquele insterstício que cumprimos antes de podermos entrar de graças nos ônibus, é a hora de buscar nos escombros da memória aquilo de mais precioso que perdemos na infância. No meu caso, reconheço, há vários elementos como este. Mas nenhum supera a expectativa das terças-feiras – dia da semana em que a Placar chegava às bancas. Não a Placar que temos hoje (francamente, parei de ler a atual depois que percebi que um certo colunista continuaria sendo colunista), que reflete exatamente o que é o futebol atual – calcado em imagem, dinheiro e uma potência individualista que para mim estaria reservado aos lutadores de boxe no nível de Cassius Clay. Mas a Placar daqueles tempos, a década de 70, alguma coisa da de 80 sim (pelo menos até 1983, que é quando assinalo o fim da minha era de ouro no futebol, com a ida de Zico para a Udinese). Uma Placar voltada apenas para futebol – tanto que mulher era um assunto extremamente paralelo. Hoje em dia, uma revista de futebol tem que falar obrigatoriamente das cachorras e marias chuteiras – e algumas delas vão parar mesmo é na Playboy, como se percebeu no caso da ex-mulher do Richarlyson.
Na minha Placar, as mulheres entrava para eleger o jogador mais bonito do Brasil. Me lembro da Sônia Braga votando no Leão por causa das pernas. Me lembro que o Falcão acabou ganhando. E é impossível negar: o Inter de Falcão, graças à Placar, era um mito da minha infância rubro-negra: Manga, Cláudio Duarte, Figueiroa, Hermínio e Vacaria; Caçapava, Carpegiani e Falcão; Valdomiro, Dario e Lula. Timaço campeão brasileiro de 1975, conforme o vídeo abaixo (no qual, ao que parece, tem Chico Fraga em vez de Vacaria na lateral):

Pois eu falava deste Rosebud, até que denunciei minha própria mãe (e sei que ela jamais faria isso de propósito, sem saber o significado – minha mãe é alguém que preza muito o “significado” dos objetos): foi ela quem, numa das faxinas de reestruturação – quase um downsizing doméstico – atirou ao lixo e à eternidade as minhas duas sacolas de supermercado cheias de Placares daqueles anos. Corria lá o ano de 1986 ou 1987, vivíamos a amargura da Copa do México, que perdemos por culpa do Sócrates e do zagueiro Júlio César, que no fim das contas erraram a série decisiva de pênaltis (ninguém garante que a França não empataria se Zico, frio ainda, tivesse acertado o pênalti no tempo de jogo).
A bem da verdade, à parte essas provocações (da minha parte também, admito...) reconheçamos: ninguém tiraria de Maradona aquela Copa. Nem Zico, nem Sócrates, nem Júlio César.
Mas voltando à velha Placar, eu diria que ela fazia o papel de “testamento” do futebol daqueles tempos. É da Placar a maioria dos meus mitos futebolísticos de infância. Eu às vezes prefiro não rever os vídeos para não descobrir ao acaso que o meio-campo formado por Clodoaldo, Aílton Lira e Pita não era tão bom assim. Ou que Rubens Feijão seria banco do Toró fácil, fácil – como esquecer a manchete histórica, “Nem Pelé, nem Pagão: Rubens Feijão”? Naquele tempo, o Santos era o time paulista que mais angariava simpatias entre os cariocas, por causa dos Meninos da Vila, treinados pelo Formiga: Marola, Nelson, Toninho Carlos, Neto e Gilberto Sorriso; Toninho Vieira, Aílton Lira e Pita; Nilton Batata, Juari e João Paulo.

Para mim, desilusão de infância mesmo será o dia em que um santista da minha idade me dizer que Juari não era cracaço e sim apenas um velocista e Nilton Batata não merecia aquela convocação para a Seleção Brasileira que disputou a malograda Copa América de 1979.
A Placar é um localizador, para mim. Nascido em 1968, eu sei hoje que, numa terça-feira de agosto de 1975, com sete anos de idade, eu estava com a Placar abaixo nas mãos, que prometia revelar os “segredos do Rei do Rio”: Zico.

Eu simplesmente adorava estes mitos que a Placar criava. No exemplo abaixo, na capa da revista (as capas eram sempre marcantes), estava lá, um absurdo que hoje os palmeirenses mais empedernidos condenariam ao degredo: “Os herdeiros de Dudu e Ademir: Pires e Zé Mário”. Tal título equivale mais ou menos a escrever em uma matéria sobre o Flamengo: “Os herdeiros de Domingos da Guia e Leônidas da Silva: Ronaldo Angelim e Obina”.

Não que algum dos jogadores mais recentes citados não tenham valor – mas é porque Dudu, Ademir, Domingos e Leônidas são definitivamente Monstros Sagrados do Futebol Brasileiro.
Me lembro de, anos antes, ver essa mitologia paulista tomar conta da minha memória, com a capa de Placar relatando a venda do zagueiro Luis Pereira e do meia-atacante Leivinha para o Atlético de Madrid. “VENDIDOS”, alertava a manchete abaixo.

A matéria me convenceu de que o time que tivesse Luis Pereira estaria irremediavelmente condenado a ser campeão. Anos depois, em 1984, o Luisão Pereirão jogou no Flamengo. Gordíssimo, apesar de muito talentoso. O talento não serviu para impedir que fosse criada a Avenida Luis Pereira na defesa rubro-negra – avenida asfaltada e devidamente sinalizada.
Saber as datas de épocas nebulosas da aurora de nossas vidas (obrigado, Casimiro de Abreu) é como a visão de um trenó queimando, algo que voa em direção ao infinito e você sempre tentando segurar.
Uma parte do site da Placar tem uma louvável iniciativa: a reprodução das velhas capas, que é de onde fiz esta seleção. A Placar, semanal, seria certamente deficitária nos dias de hoje – não teria anunciantes para sustentar tal periodicidade. Mas certamente a revista prolongava a segunda-feira pós-rodada de domingo, aquele momento que é céu ou inferno. Era ali que líamos a crônica mais saborosa do jogo, recheada da visão de alguém que teve mais tempo para acompanhar a manhã seguinte. Era na Placar que percebíamos as apostas do futebol brasileiro, como a que incensou Carpegiani, o grande volante e técnico campeão do mundo pelo Flamengo(e lamentável técnico de futebol dos tempos de hoje, completamente perdido), à condição de “craque e líder da seleção”. Na capa abaixo, uma reportagem que eu sempre vou lembrar: “Carpegiani tem fôlego para mais seis anos”.

A revista levou Carpegiani ao que havia de mais moderno em testes fisiológicos, e o cracaço correu na esteira, tirou sangue, fez dezenas de exercícios.
Mal sabia a Placar em 1979 que no ano seguinte o gaúcho de Erechim largaria o futebol e em 1981 comandaria o Esquadrão Rubro-Negro. Esquadrão este que tinha, conforme a capa abaixo de 1980, “um craque virgem”. Era incrível isto: a questão “Futebol” era tão centrada no tema “Futebol” que um jogador podia se declarar virgem aos 21 anos (como o mórmon Milton Queiroz da Paixão, o Tita) sem que isso fosse tema de dezenas de matérias subseqüentes.

Ainda do esquadrão é a linda manchete MENGO TU É O MAIOR, com erro de português e tudo, refletindo um povo excluído socialmente, de um país com a educação falida – um povo que se refugia até hoje no Ser Flamengo para ser alguma coisa nesta vida.

O tempo é, sim, contar dias e horas, e não há quem o segure. A Placar também sabia disto – tanto que na capa abaixo previa Zico e Sócrates aos 50 anos. Zico, um respeitável e aristocrático empresário. Sócrates, um médico de renome.

Maravilhosas previsões furadas. Zico aos 55 anos parece ter 45 e veste um agasalho do Fenerbahce fazendo história na Turquia. Sócrates não exerce a Medicina, mas escreve para diversas publicações – entre elas a revista Carta Capital – e continua parecendo ter 40 anos.
Mas este era o grande lance da Placar: saber brincar com as coisas do futebol que são realmente do futebol – como a idade, o tempo, a memória, essas coisas do futebol que são de toda a gente.
Hoje, a terça-feira é apenas um dia sem graça. E sem rodada de campeonato.
*****
Para quem entrou direto neste post pelo Permalink: já tem um mais novo que este, escrito pela Marcele, com uma história sobre um forninho que é impressionante. O que não faz o Marketing direto hoje...

por Gustavo de Almeida as 14:12:31

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Comentários:


Seus comentários

Nome: Marcele Fernandes
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A capa da Placar com a foto do Zico e do Sócrates é sensacional. Eu não tive nenhuma revista que fosse referência para mim, durante toda a minha infância e adolescência (com exceção de revista em quadrinho). Acho que isso diz muita coisa sobre o mundo editorial da década de 90 -- pelo menos o mundo que concerne à banca de jornal.
Beijos,
Marcele
09.03.08 @ 13:43
Nome: Mauricio Neves
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A minha capa mais marcante é "Deus no céu, Mengo na terra", do segundo dos nossos cinco campeonatos brasileiros. Um balão branco com o escudo do Flamengo contra um fundo de céu azul. A segunda é a da edição após a estréia na Copa de 82, Éder ensandecido comemorando a vitória. E a Placar de hoje é lixo.
09.03.08 @ 18:24
Nome: Carlos VAsconcellos
Url: http://www.mandrake-somepalavra.zip.net
Acho que o Luis Pereira jogou no Flamengo em 1980. Ele era uma grande esperança para a conquista do tetra estadual, sepultado na serra pelo malfadado Anapolina! A estréia, se não me engano, foi num Fla 1 x 1 Flu, com gol do Júlio César Uri Geller.

Se não me falha a memória...
09.03.08 @ 18:57
Nome: Carlos VAsconcellos
Url: http://www.mandrake-somepalavra.zip.net
Não, não me falha a memória. Foi isso mesmo, inclusive os detalhes do gol do Uri Geller e do placar do jogo, conforme acabo de verificar no Almanaque do Flamengo, lançado em 2001 pelo Placar com as fichas de todos os jogos do time até julho de 2001. Sabe como é, nós obsessivos somos assim mesmo...
10.03.08 @ 12:12
Nome: Marcele Fernandes
Url:
É o mal de escrever sem o Google aberto na outra janela, confundi os dois períodos.
Pereirão deve ter chegado depois da conquista do Brasileirão (acabou no meio do ano).
Gustavo
10.03.08 @ 12:22
Nome: Anderson Mangueira Lopes
Url: http://www.djmangueira.com.br
Grande Gustavo, belíssimo post. Vou botar um link para o Eclipse no meu blog. Eu sou um pouco mais novo que você (sou de 74), mas também me lembro que juntava as moedinhas do troco do recreio pra comprar a Placar às terças-feiras.

Comecei mais ou menos em 81, com meus sete anos, e depois acabei adquirindo muitas antigas, com a ajuda do meu saudoso pai.

O meu "downsize" foi um pouco mais doloroso: foi em uma enchente, que, além da coleção com mais de 300 revistas Placar, levou grande parte de documentos, fotos e eletrodomésticos, há uns cinco anos.
10.03.08 @ 14:23
Nome: Luís Edmundo
Url: http://orlandolele.blogspot.com
Eu me desfiz da maioria da minha coleção, numa mudança forçada de um apê de três quartos para um de dois, bem apertado. Mas me lembro ainda de matérias inesquecíveis, como a que traçava o perfil dos melhores amigos do Serginho Chulapa, lá pelos idos de 1983. A foto, em duas páginas, parecia a abertura de Cães de Aluguel. Chulapa andando na frente, e atrás dele uma parede com uns seis sujeitos, todos com cara de vilão dos Trapalhões. Só faltavam os ternos pretos. Um deles usava boina, outro combinava cavanhaque e colete jeans, e por aí vai...
10.03.08 @ 16:59
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Mangueira,
mas a memória vc não perdeu. Memória é praticamente tudo

Quanto à matéria do Chulapa, me lembrou aquela sobre o Beijoca que CELEBRAVA o fato dele ser baiano e metido a porradeiro

Sensacional
11.03.08 @ 09:36
Nome: ygor vinicius paraizo dos santos
Url: http://trabalho curitiba eu quero um trabalho
quero um trabalho para mim tenho11anos obrigado
02.04.08 @ 15:12
Nome: ivan britto
Url:
SHOW,MAS QUERO SABER SE TEM
A PLACAR DO HELINHO DO BOTAFOGO
(PONTA DIREITA)DESTA ÉPOCA VALEU.
09.06.08 @ 14:37

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