6.03.08
A sorte de ter um amor Flamengo - Casais que torcem quase unidos permanecem unidos
Quando escrevo sobre o controle remoto da TV, como no texto abaixo, corro sempre o risco de cometer uma injustiça. Qual seria? A de dar a entender que a Marcele é uma dessas esposas completamente alheias ao espaço em grama entre quatro linhas onde o destino da humanidade acaba sendo decidido. Pelo contrário. A Marcele tem o que eu classificaria como uma preocupação randômica com futebol. Ela tanto é capaz de me telefonar no meio do expediente para me perguntar se é verdade que o Romário vem pro Flamengo (claro, pergunta em tom de preocupação com a má notícia) como pode, no meio de uma semifiinal da Taça Guanabara entre Flamengo x Vasco, ficar no MSN. E, uma vez no MSN, conversar com a Paula Clarice sobre o mesmo assunto: maridos rubro-negros fanáticos. No dia dessa decisão, as duas ficavam comentando uma com a outra no MSN quando o marido/noivo urrava ou mandava juiz/zagueiro nosso/atacante nosso/atacante deles/zagueiro deles/Edmundo para a PQP ou TNC. “Ih, ele também xingou neste lance!”, era a frase mais trocada entre as duas. Pudera: o noivo da Paula Clarice é mais rubro-negro do que eu (é difícil admitir, mas há três pessoas mais rubro-negras do que eu: Mauricio Neves de Jesus, o famoso Eduardo Vinícius e Arthur Muhlemberg).

Zico, Marcele e eu
Uma vez, Marcele me ligou do trabalho dela, fazendo uma voz de muxôxo inigualável, daquelas que só ela consegue fazer. Era fim de temporada e os times decidiam seus técnicos. O Flamengo não sonhava muito alto. E Marcele, quase vertendo lágrimas:
- É verdade que o técnico do Flamengo vai ser o Marcos Paquetá?
Tranqüilizei dizendo que não ia, e realmente desta vez o Paquetá foi para a Arábia. Mas veio o Espinosa, que eu me lembre.
No dia 15 de março de 2003, eu e a Marcele vivemos o primeiro aniversário dela juntos. Programação: ir à semifinal da Taça Rio (ou Guanabara, confesso que não lembro) entre Flamengo x Fluminense. Não podia dar errado. Era aniversário da minha namorada Marcele, que tinha nascido em Quintino, o campo santo.
Foi um desastre. No terceiro gol do Fluminense, eu me levantei, dedo em riste, aos berros:
- NÃO FICO MAIS NESTA PALHAÇADA.
Mas me lembro de um detalhe deste jogo: até então, eu tinha ido duas vezes ao Maracanã com a Marcele, e sempre segurando a onda. Sempre na maior educação, limitando-me a levantar e chamar o juiz de “moleque”. Perdi as estribeiras apenas em casa, numa arbitragem de Márcio Rezende Freitas em um Portuguesa x Flamengo pelo Brasileiro de 2002. Mas no Maracanã eu era um lorde inglês, condenado a no máximo expressar desagrado com algum “bloody’hell”.
Quando o Fluminense vencia por 2 a 0, eu ainda via uma chance de empatar, levar para os pênaltis. Mas o time não evoluía, não criava, só buscava os contra-ataques. O técnico Evaristo de Macedo não tinha mexido bem.
Até que veio uma bola rebatida da nossa área, que passou pela lateral e caiu nos pés de Fábio Baiano. Havia dois zagueiros do Fluminense, apenas eles, para segurar um contra-ataque, que já contava com pelo menos três opções de passe de jogadores do Flamengo que saíram correndo de frente da área e das laterais. O contra-ataque terminaria dentro do gol, e começaríamos uma reação monumental, imortal.
Foi quando Fábio Baiano ridícula e bisonhamente deu um toquinho para a frente, fazendo a bola adormecer nos pés do zagueiro tricolor.
Marcele me viu diferente. Por cerca de dois minutos e alguns segundos, tudo o que eu conseguia fazer era gritar “filho da puta”, e em seqüência, sem intervalos para respirar. Devem ter sido uns 35 FDPs, veja aí quantos dá para gritar em dois minutos.
Claro que meses depois teve um Fla-Flu pelo Campeonato Brasileiro que vencemos por 4 a 1, com Marcele ali do lado, uma grande atuação do time e um gol que começou com um drible de lambreta do mesmo Fábio Baiano. Naturalmente, saímos do Maracanã questionando porquê, afinal, Fábio Baiano não tinha sido convocado para a Seleção Brasileira que tinha ganho o Penta um ano antes.
Como as outras mulheres, Marcele não aprova realmente a minha busca por jogos excitantes como Málaga x Rayo Vallecano ou Eintracht Frankfurt x Borussia Moenchengladbach na televisão. Aliás, acreditam que eu escrevo no Word e o Word está dizendo que Moenchengladbach está escrito errado?

Eu e Marcele com o ídolo Bujica
Mas, por exemplo, se eu disser que o Fenerbahce é o time treinado pelo Zicão, a Marcele não se importa em ficar assistindo, sempre com um livro nas mãos, claro, de onde ela só levantará os olhos quando eu soltar um palavrão direcionado à tela.
No último estadual conquistado pelo rubro-negro, eu, Marcele e a mãe dela fomos a Quintino, no apartamento em que elas moraram. Fomos lá no dia da decisão contra o Botafogo. Mandei de lá mensagens SMS para a minha confraria de rubro-negros. Todos responderam: “Vamos ganhar. Você peregrinou à Terra Santa”. E não deu outra.
No entanto, Marcele não gosta muito de me ver secando os outros clubes cariocas. Não por bairrismo, mas por achar – acredito eu – que, ao secar um, estou automaticamente torcendo pelo outro, e para ela, torcer para outro clube a não ser o Flamengo é crime de lesa-pátria. Num dia desses, eu secava o Botafogo contra o Atlético Mineiro (aquele jogo em que teve um pênalti não-marcado a favor dos mineiros no fim do jogo) quando ela se aproximou e começou a cantarolar uma musiquinha cuja letra reclamava a minha presença carinhosa perto dela e ao mesmo tempo lamentava que eu estivesse naquele momento torcendo para, bom, um clube que nunca foi da minha simpatia – o Galo das Alterosas.
Mas nada foi tão terrível quanto o dia em que, já noivos e com data de casamento marcado, ela se aproximou de mim e disse:
- Gustavo, tenho uma coisa a te dizer.
- O que é, meu amor – eu respondi, enquanto mudava o canal da televisão da Sony para o SporTv.
- Eu sou Vasco.
Estaquei paralisado, senti a vista escurecer e meu braço esquerdo ficar dormente. Como assim, Vasco?
- Eu sou Vasco, Gustavo. Você nunca percebeu isso? Minha irmã é Vasco (nota do blogueiro: isso é verdade), por que eu não seria? Eu achei melhor, no início, te esconder, mas acho que é a hora de te dizer, eu sou Vasco.
Me limitei a dizer:
- Marcele: se for pilha, pare agora. Não continue. Se for verdade, tudo bem, a gente vai discutir isso. Mas se for brincadeira, pare agora, imediatamente, ou vamos ter uma briga séria.
Ela deu aquela risada alta e eu senti o alívio que me fez lembrar do Woody Allen quando diz que a frase mais linda que existe não é “Eu te amo” e sim “É benigno”. O alívio foi comparável.
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