Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









4.03.08

O controle remoto do casamento: elas estão vencendo

As mulheres se vingaram. Sim, desta vez elas encontraram a vingança ideal para as tardes e noites de futebol e gols da rodada. Todos aqueles emocionantes jogos entre Racing Santander x Mallorca, ou mesmo as rodadas da Série B, ou debates longos sobre qual é a melhor seleção brasileira (70 e 82), tudo aquilo que fizemos elas assistirem incólumes, encontra agora sua vingança terrível. E saibam que, no meu caso, nem é tão grave assim – Marcele gosta de futebol e quando tem Flamengo envolvido não esquenta a cabeça com a TV ligada e um maníaco urrando em frente. Mas, como a grande maioria das mulheres, não consegue entender por quê diabos eu PRECISO ver aquele Charlton x Aston Villa que vale vaga na Copa da Inglaterra. E muito menos acha razoável que eu queira, sim, dar uma olhada em Hortolândia x Iraty pela Copa São Paulo de Juniores (para saber se tem algum garoto que possa brilhar na Gávea).
Minha mulher, portanto, nem é das mais radicais quando o tema é Futebol na TV. Mas foi, curiosamente, a Marcele quem me mostrou onde está a grande Vingança Feminina pelos Domingos à Noite: os canais Home and Health e People and Arts e seus assustadores programas de reality shows diversos e documentários bizarros. Se há algo que me faz achar a eutanásia um programa cultural relaxante, é ouvir aquela voz falando em inglês por baixo de uma dublagem tosca em português e, pior, com exclamações forçadas que não acontecem no texto original (“Você quer mesmo este tipo de tinta para sua parede? Quer mesmo? É linda! Sim, sua parede vai ficar linda! E que tal esta mesinha com pátina aqui? Linda!”).


Horror: "The Kenny Rogers Reality Show". É de rir muito...

É interessante o fenômeno; quando a Marcele NÃO QUER assistir TV, coloca num desses dois canais. E começa a ler um livro, levantando lentamente o olhar em direção à tela por alguns segundos, e logo depois retornando ao livro. Geralmente porque lá na tela está um reality show no qual o sujeito está em busca de peças originais de veículos antigos ou outro sujeito precisa se arrumar bem para seu primeiro encontro com um caminhoneiro (ou algo do tipo). E quase tudo com dublagem – a bem da justiça, diga-se que eles estão usando legendas cada vez mais.


Caramba: "The Howard Stern Reality Show"

Um dia a psicologia moderna vai se deter neste assunto: por que diabos interessa tanto à alma feminina (pesquisei com outros amigos casados) saber que uma sala e dois quartos podem se transformar - depois de obras feitas por operários que poderiam estar no Village People - em um loft? Por que às mulheres interessa tanto ver longas preparações de noivas se elas JÁ casaram?

Runway Project: tortura na forma de um reality show sobre a carreira de modelo

Claro, tem um programa que a Marcele assiste para aprendizado a fim de usar em futuro próximo: “Enquanto ele não vem”, sobre grávidas de primeira viagem. Mas não duvido que mulheres com as trompas ligadas e seis filhos assistam a este programa com a mesma curiosidade com que folheio um exemplar da Placar dos anos 70.
Até mesmo programas como Extreme Makeover, que antes eram da Sony, parecem ter se deslocado para um dos dois canais. E, não duvido, em breve será a vez de Queer eye for the straight guy (que, se eu trabalhasse no SBT, traduziria como “Afrescalhando os toscos”). Todos têm a mesma dinâmica: educar, ensinar, mostrando o desespero de quem tenta aprender. Não duvido que os canais pornô um dia façam isso com os adolescentes espinhudos das high scholl americanas sob o título “My first time” ou algo assim.


Queer Eye for the straight guy: abertura do programa

As temáticas dos programas nos dois canais são absolutamente livres. E reconheço: variadíssimas, como poucos. Um dos reality shows é sobre uma família de anões. Segue o modelo americano clássico: imagens com narração em off, imagens com voz ambiente no local/ação, corte para depoimento de protagonista da cena em local produzido, retorna para narração em off e ação. Como no Big Brother, aliás.
Anão pai e anão filho vão à downtown porque Anão pai ganha fortunas com contratos de vendas. Neste ponto, o programa é positivo para mostrar que nesse vale de lágrimas, poder mesmo vem é do conhecimento, não da aparência. Conhecer é poder. Anão pai tem um carrão adaptado, último tipo. Junto com o Anão filho, um adolescente comum que vai no banco do carona comendo fast-food, eles visitam uma faculdade. Lá, tem um velho amigo anão do Anão pai que cursou universidade e virou advogado e um baita professor de Direito. Depois de um bate-papo, o filho pergunta ao Anão professor se não foi difícil nos primeiros dias dar aula para um bando de pessoas não-anãs. O professor diz que não deu tempo para eles estranharem, que o negócio é chegar batendo, etc. Corta para o moleque falando que se sentiu aliviado, pois ele também enfrenta humilhações por ser anão, etc.
Em seguida, o Anão pai e bem sucedido comenta com o filho que não fez faculdade porque achava que “aquilo não era pra ele”. Mas que, depois de ver o anão professor, teve vontade de voltar à escola.
Enquanto eu via isso, Marcele lia “Fama e Anonimato”, do Gay Talese.
A vingança da mulherada se consolida: nos fizeram parar de assistir aos ídolos do esporte e agora volta e meia nos flagramos observando os anônimos que ELAS deveriam estar assistindo.
Cadê o controle remoto? Acho que está na hora dos gols da rodada.

por Gustavo de Almeida as 11:53:43

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Seus comentários

Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Ô, meu bem. O Runway é um programa sobre estilistas, não sobre modelos... E não é "Enquanto ele não vem". É "Enquanto você não vem", que... não é sobre grávidas! É sobre transformações de cômodos -- ou seja, obras e decoração. O programa sobre bebês é o "Diário do bebê" ou algo assim. E é, eu confesso que sou completamente alucinada por programas sobre noivas e casamentos. Quanto ao reality show de anões, eu só dei uma espiada enquanto lia Gay Talese, mesmo. E o nome é "Pequena Grande Família", acho eu.
Beijos,
Marcele
04.03.08 @ 23:48
Nome: Mariana
Url: http://vutcha.blogspot.com
hahahaha
não sei se gostei mais do texto, ou do comentário de sua esposa, que demonstra que você não consegue nem prestar atenção nos programas! hahaha
mas esse dos anões deve ter algo interessante ... pq é bem bizarro mesmo ...

Agora explica qual é a graça de assistir jogo da segunda divisão?!?!
E os homens TEM mesmo q ver todas as mesas redondas quadradas triangulares, justamente de domingo a noite, noite da depressão total no qual precisamos de um carinho? hahaha
Dificil vai ...
05.03.08 @ 13:01
Nome: Paula Clarice
Url: http://engavetado.blogspot.com
Adorei a didática da Marcele!! heheheh
05.03.08 @ 20:13

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