1.03.08
Rio de Janeiro: onde a Saudade se casou com a Esperança
Hoje, aniversário da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, vi nos jornais mais um assassinato na Linha Amarela. Um sargento da Polícia Militar levou 30 tiros de traficantes em uma área conflagrada, um cenário de guerra, em uma madrugada de confrontos – entre tantas outras. O sargento tinha acabado de sair de casa e ia até a Barra da Tijuca para buscar o secretário de Segurança do Rio. Deixou mulher e filhos porque teve o azar de estar no meio da guerra do tráfico.
No dia do aniversário do Rio, destes 443 anos, eu queria escrever algo sem falar daquilo que se vinculou ao Rio e lá se vão quase trinta anos: a violência.
Isso dá saudade de um tempo que eu não vivi

Bandeira do Brasil no alto do Leme
Mas é tão díficil quanto falar do Rio e não se falar também de amor. A cidade é como um amigo seu, ou um amor que você perdeu mas sempre reencontra, no meio da rua, vê que ainda há beleza. A saudade se tornou um sentimento obrigatório do carioca com o Rio de Janeiro – quem não tem saudade, não ama de verdade.
É o lugar comum de todo carioca, ter saudade e dizer: “Como a minha cidade foi ficar assim?”. Ora, não é difícil entender.
A violência no Rio tem origem, sim, nas décadas de 70 e 80, no processo de desequilíbrio econômico que se seguiu à perda do status de capital federal em 1961. Uma vez me disse o paulista (e rubro-negro) Luis Mir, escritor e médico, autor dos ótimos Guerra Civil e O Partido da Fé: “Se eu fosse carioca, jogaria o cadáver do JK aos tubarões”. Óbvio que era uma brincadeira mórbida, e depois ele acrescentou: “Com uma só canetada, Juscelino extinguiu milhares de empregos públicos, transferindo órgãos e autarquias para Brasília. Não tem economia que resista a isso. Quando a capital da Alemanha Unificada se tornou Berlim em definitivo, sabe quando saiu de Bonn o último funcionário público em direção à nova sede de governo?”, perguntou Mir.
“Não sei. Quando?”, eu respondi.
“2050”, arrematou o escritor, na lata, me mostrando o quão gradual era o processo alemão.
Esse Rio eu QUASE conheci. Mas lembro do Palácio Monroe na infância

Depois vieram governos não-republicanos de uma democracia ainda acordando, sem café da manhã ou água no rosto. Na verdade, uma democracia que até hoje ainda dorme. Em 1982, o governo do Rio cumpriu a missão de reforçar o nome de Leonel Brizola politicamente em âmbito nacional. Não governou o Rio, mas lançou Brizola. Ao preço de grande estímulo nas imigrações, com a propaganda do sistema “revolucionário” de educação no Rio por todo o Brasil. Isso dava voto. Enquanto isso, a favelização era tolerada. Isso também dava voto. A polícia não subia os morros. Isso garantia voto.
Veio Moreira Franco e prometeu acabar com a violência em seis meses. Isso deu voto, junto com o Plano Cruzado. A violência não acabou e o governo Moreira Franco terminou esvaziado, massacrado nas urnas. Brizola voltou, e trouxe tudo de volta: ainda havia a eleição de 1994 para presidência. Mais política assistencialista, mais anti-desenvolvimentismo, menos empresas, mais seqüestros, crimes, tolerância.

O concreto e o abstrato de braços abertos
Marcello Alencar endureceu o discurso e a prática, trazendo o Chefe Pena Verde, o general Nilton Cerqueira. Àquela altura, se enxugava gelo porque era necessário enxugar o gelo. Mas, todos estavam cientes: era enxugar gelo.
O Estado do Rio, paquidérmico e baseado numa agricultura de subsistência, então já não era um bolo com massa suficiente para ser dividido. Um aparelho estatal inchado e mal pago, uma população favelizada gigantesca, o banditismo cada vez mais armado. A receita do caos social. Garotinho e Rosinha completaram o serviço.
A política do É dando que se recebe, as distribuições de cargos, o agir pela privada e não pelo público. Eleições de dois em dois anos viciam os políticos na droga chamada casuísmo.
Fotos de ônibus dos tempos de outrora
E o Rio foi se perdendo, se esvaziando economicamente – e economia está para um estado-nação tal e qual o sangue para nossos corpos. As forças se esvaem.

Mas eis que a cidade em coma não se cansa de abrir os olhos e nos dirigir olhares embevecidos. O Rio com sol ainda é a capital da vida. A caminhada no calçadão, o encontro casual, a despedida com a carioquíssima frase “Vamos marcar um chope” (que nunca é marcado), o calor dando refresco no fim do dia. A caminhada no Centro, no Arco do Teles, as andanças pelos sebos da Praça Tiradentes, a bicicleta na Lagoa Rodrigo de Freitas, o chope no Bar Brasil na Mem de Sá ainda são sinais de que há vida no corpo tão maltratado. Sim, o Rio de Janeiro tem os velhos símbolos de sempre – e quase todo carioca já escreveu um texto-lista com as coisas maravilhosas da cidade, nestes momentos da vida em que a gente vira turista na própria terra. Quer fazer turismo? Faz uma doideira, vai na CADEG de manhã e toma um vinho. Ou o chope do Adonis em Benfica, acompanhado de um filé. Ou, quem sabe, subir a Rua das Laranjeiras para um chope no Serafim.
Vai, minha tristeza, e diz a ela que sem ela não pode ser...
O Rio de Janeiro é uma cidade que precisa da esquina como o barco precisa da corda. Nós, cariocas, ficamos eternamente atracados nas esquinas, navegando aqui e ali mas sempre atracados em alguma esquina – volta e meia ficamos confusos quando vamos visitar ou morar na Barra da Tijuca por causa disto. Na esquina podemos ser, sim, assaltados, baleados, mortos, chacinados. Mas sem ir à esquina não podemos ser cariocas. Ser um carioca é encontrar alguém, sempre. Ouvir uma história e passar adiante.
O Rio nos abre os olhos, e trocamos um olhar de esperança. Todo carioca acredita que a cidade sai dessa. A gente acha mesmo que um dia não haverá quadrilhas armadas até os dentes, como guerrilheiros urbanos, assassinando pessoas inocentes como o sargento Natan. Sim, chamem-nos de malucos, mas achamos mesmo que um dia isso vai ser passado.
Não sei se isto é otimismo ou carioquismo – mas talvez seja a forma carioca de misturar saudade e esperança.
Dizem que não combina, saudade com esperança. Mas, ora, nos acusam de termos inventado a pizza com catchup, por que não misturar saudade com esperança?
O Rio de Janeiro nos abre os olhos, e neste 1º de março, nos sorri, cúmplice. Estaremos sempre juntos. Esperando. E com muita saudade.
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