29.02.08
A arte de assustar - Dez filmes que merecem REALMENTE estar na prateleira do terror nas locadoras

Um momento que me chamou bastante a atenção no filme Juno foi a cena em que o personagem Mark Loring, candidato a pai do bebê na barriga da personagem-título, protagoniza, do alto de seus quarenta anos, uma pequena discussão com a adolescente de 16 sobre quem seria o melhor diretor de filme de terror.Não consegui captar qual o diretor preferido de Loring, sei que é algo no estilo do nosso Mojica (ou Zé do Caixão), já que aparecia um vídeo cheio de decapitações, tripas expostas, cortes profundos em carne humana, etc e tal. Juno, mais light, contra-ataca com George Romero, que em 1968 escreveu o primeiro e revolucionário A Noite dos Mortos Vivos, desde sempre um clássico. Mas não de terror.
Me identifiquei com a cena por dois motivos: a discussão com um adolescente sobre algo relacionado a cinema, música ou literatura é algo em que eu certamente me envolveria. E depois, também tenho grande fascínio pela notável arte que é a de fazer um filme de terror.

O poster de um clássico: A Noite dos Mortos Vivos
Nós, fãs de filmes de terror, não somos, no entanto, um grupo homogêneo. Há diversas correntes, e eu definitivamente não me encaixo na de Loring. Não acho que sangue seja necessariamente assustador – jamais vi como filme de Terror os hoje cult A Hora do Pesadelo e Sexta-Feira 13. Um psicopata com lâminas, pelo menos na tela, não é algo que efetivamente me assuste. Nada que tombe com tiros de revólver pode ser muito preocupante em um filme – ainda que as vítimas destes filmes não primem exatamente pela inteligência. Não, não é inteligência destrancar a porta do quarto e descer para ver “o que foi aquele barulho lá embaixo”.
Quando eu e Marcele começamos a namorar, e lá se vão seis anos, ela curtia mais o gênero. Marcele ainda estudava cinema na UFF e pensava até em fazer um projeto experimental sobre o assunto - acabou mudando de curso e a idéia não foi para a frente.
Mas eu e ela temos a mesma opinião: assustar é algo de tanta complexidade quanto fazer rir.

Damien Thorn, um garotinho que é um verdadeiro capeta
O bom filme de terror deve ter um elemento que Richard Donner, do primeiro A Profecia (The Omen), de 1976, soube explorar com maestria – e Stanley Kubrick, o gênio, levou às últimas conseqüências em O Iluminado (The Shining), de 1980. Nos dois filmes, o diretor não deixa você ver alguma coisa direito. A câmera pega de relance o túmulo onde está a verdadeira mãe de Damien. A câmera pega de longe as gêmeas no fundo do corredor longo e acarpetado. Nos dois casos, a ambientação, a tradução do local para o espectador é simplesmente magistral: o som da laje sendo arrastada em A Profecia nos diz, sussurrando, “Sim, eles estão em um cemitério abandonado – tem coisa mais lúgubre que um cemitério abandonado e desativado? – em um fim de tarde e já está escurecendo”. O carpete fazendo barulho quando o garotinho de O Iluminado passa com o velotrol em cima nos diz, “Sim, só está fazendo este barulho neste hotel gigante e isolado entre as montanhas e qualquer barulho ou visão pode nos assustar, a todos”.
Como bons espectadores, ouvimos estes susurros e sentimos a alma gelar nos momentos cruciais.

Jack Nicholson empolgadão, Shelley Duvall nem tanto
Sendo que em A Profecia, Donner ainda contava com a sonoplastia de Jerry Goldsmith, que compôs em latim um canto horrendo chamado Ave Satanis. Me lembro que, por muitos anos, ainda criança, achava que o coro era Carmina Burana – mas, sinceramente, perto do que é cantado em The Omen, Carmina Burana é música para trio elétrico no Carnaval baiano.
Basta dizer que em dado momento, o cão dos infernos, um rotweiller, que tomava conta do filho da besta, tem seu arfar confundido com os primeiros acordes de Ave Satanis. Catzo. É um negócio sério, The Omen.
Ao ver a refilmagem de The Omen outro dia no Telecine, sinceramente, achei que fosse um episódio de Supernatural – não há sequer Ave Satanis no momento em que o embaixador volta à casa para pegar as facas sagradas.
Outra coisa que o bom filme de terror tem de ter é escuridão conjugada com solidão. Massacres dentro de trailers iluminados ou drive-ins com dezenas de adolescentes são, para mim, comédias. Outro dia vi um dos filmes da série Premonição e tem uma cena em que duas adolescentes pagam peitinho e morrem tostadas numa máquina de bronzeamento artificial. Beira a comédia, a cena – se não terminasse direto no enterro das duas, daria até para rir.

"Eles são nossos amigos, Rose!"
Além da escuridão somada à solidão dos personagens, o filme de terror precisa ter uma câmera que respeite a casa dos outros. Como em O Bebê de Rosemary. Roman Polanski nos dá uma aula de cinema neste magistral clássico do horror, colocando a câmera sempre um cômodo antes da cena naquele belo apartamento antigo do Dakota. Rosemary sempre entra em um cômodo vindo do corredor e, bom, a câmera está em um outro para poder captar bem isso. E aí temos de novo o elemento solidão, quando o diretor nos passa a impressão de que todos estão em uma conspiração contra a personagem pela qual torcemos, vivida por uma angustiante Mia Farrow.

"Josh? Joooosh? Josh? Joooooooooooosh!!!"
Talvez o melhor símbolo da diferença entre filme de terror e filme de terrir (ou filme de suspense/violência como a excelente série Jogos Mortais) esteja em A Bruxa de Blair e A Bruxa de Blair 2. O primeiro, um vídeo magistral na minha opinião, que me convenceu a, se um dia produzir um filme de terror, contratar um psicólogo para ajudar no roteiro. A Bruxa de Blair, filme muito atacado na época, explora com agilidade única todos os fatores de um bom filme assustador: a luz de lanterna jogada em um mato escuro, criando a expectativa de algo aparecer, os gritos dos amigos vindo de lugares inalcançáveis, uma casa com manchas na parede mas que a gente dificilmente vê o que é, cenas mal esclarecidas, tensão, angústia, expectativa o tempo todo, sons inexplicáveis como choro de bebê (convenhamos, à noite, um choro ou risada de bebê no meio do mato é de matar), movimentos não esclarecidos, enfim, uma série de eventos assustadores sem que jamais seja mostrada uma cena de violência sequer. E, claro, com aquele componente da cascata marqueteira, de que o vídeo tinha sido “achado” no meio do mato.
Aí fazem o segundo: com roteiro linear, historinha, cenas de feitiçaria mesmo, efeitos especiais. Um lixo, incapaz de assustar uma criança de dois anos.
Terror é isso: algo que você não vê. Algo que faz seu cachorro latir para o vazio. Se você vê e tem sangue, cortes, etc, é terrir ou churrascaria rodízio.
Seguem aí meus 10 preferidos:
1- A Profecia, de Richard Donner
2- O Iluminado, de Stanley Kubrick
3- O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski
4- O Exorcista, de William Friedkin
5- A Profecia 2, de Don Taylor
6- Sexto Sentido, de M.Knight Shyamalan
7- A Bruxa de Blair, de Eduardo Sanchez
8- Terror em Amityville, de Stuart Rosemberg
9- As duas vidas de Audrey Rose, de Robert Wise (não achei o clipe no YouTube)
10- Nightwatch, de Ole Bornedal - este último, filme fraco mas que tem um detalhe que merece entrar para qualquer lista, já que é uma aula de como provocar terror: Ewan McGregor é um guarda-noturno de um necrotério e, para comprovar que está atento, de hora em hora tem que ir até a sala dos mortos (de madrugada), sozinho e virar uma fechadura com uma chave que só o guarda-noturno tem. Para isso ele tem de atravessar a sala toda. Para que ele tem de ficar atento? Porque “se houver algum barulho na sala dos mortos ele tem de ir checar”. Brrrrr....ehehhehe.
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Vou ver se pego o DVD para ver...
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Beijos,
Marcele
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Só a comparação das bruxas de Blair já diz tudo.
Mas acho que gostei mesmo do texto porque ele foi um dos raros em que vc não tentou dar um jeiro de citar o flamengo.
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Abs
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Mas como sempre haverá discórdia, tem um nome na lista que não acho que merece tanto respeito como muitos citados...
Enfim, parabéns pela iniciativa e vai uma pergunta. Qual dos filmes você assiste sozinho a 00:00hrs, ou no lendário 03:00 da matina? hehehe
Nem é bom brincar, né?
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A comparação entre os dois Bluxa de Blair ficou ótima e qualquer pessoa que assistiu ficou com cara de "gastei meu dinheiro à toa".
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Mirtes: Sexto Sentido "Ghost com sanguinho..."?! Só se vc já sabia do final c/antecipação; aí tira mesmo toda graça...
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Quanto ao Sexto Sentido, é um bom filme, mas existem outros muito melhores.
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so uma coisa.. o trailer do ilumidado que vc postou.. é uma parodia feita.. para parecer um filme "feliz".
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aconteceu conosco esse fato estranho: assim como os personagens do filme,estavam sendo assombrados, nos tambem ficamos.
gostaria de saber algun dia o que aconteceu conosco, foi assustador!!!
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So achei que ficou faltando aí, alguns filmes como por exemplo: O Anticristo de 1971, Faust, O Exorcista, Poltergeist 1 e 2, etc e tantos mais.
Mais ficou boa a Lista
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