Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
Siga-nos no Twitter Gustavo de Almeida
Marcele Fernandes









29.02.08

A arte de assustar - Dez filmes que merecem REALMENTE estar na prateleira do terror nas locadoras

Um momento que me chamou bastante a atenção no filme Juno foi a cena em que o personagem Mark Loring, candidato a pai do bebê na barriga da personagem-título, protagoniza, do alto de seus quarenta anos, uma pequena discussão com a adolescente de 16 sobre quem seria o melhor diretor de filme de terror.Não consegui captar qual o diretor preferido de Loring, sei que é algo no estilo do nosso Mojica (ou Zé do Caixão), já que aparecia um vídeo cheio de decapitações, tripas expostas, cortes profundos em carne humana, etc e tal. Juno, mais light, contra-ataca com George Romero, que em 1968 escreveu o primeiro e revolucionário A Noite dos Mortos Vivos, desde sempre um clássico. Mas não de terror.
Me identifiquei com a cena por dois motivos: a discussão com um adolescente sobre algo relacionado a cinema, música ou literatura é algo em que eu certamente me envolveria. E depois, também tenho grande fascínio pela notável arte que é a de fazer um filme de terror.


O poster de um clássico: A Noite dos Mortos Vivos

Nós, fãs de filmes de terror, não somos, no entanto, um grupo homogêneo. Há diversas correntes, e eu definitivamente não me encaixo na de Loring. Não acho que sangue seja necessariamente assustador – jamais vi como filme de Terror os hoje cult A Hora do Pesadelo e Sexta-Feira 13. Um psicopata com lâminas, pelo menos na tela, não é algo que efetivamente me assuste. Nada que tombe com tiros de revólver pode ser muito preocupante em um filme – ainda que as vítimas destes filmes não primem exatamente pela inteligência. Não, não é inteligência destrancar a porta do quarto e descer para ver “o que foi aquele barulho lá embaixo”.
Quando eu e Marcele começamos a namorar, e lá se vão seis anos, ela curtia mais o gênero. Marcele ainda estudava cinema na UFF e pensava até em fazer um projeto experimental sobre o assunto - acabou mudando de curso e a idéia não foi para a frente.
Mas eu e ela temos a mesma opinião: assustar é algo de tanta complexidade quanto fazer rir.


Damien Thorn, um garotinho que é um verdadeiro capeta

O bom filme de terror deve ter um elemento que Richard Donner, do primeiro A Profecia (The Omen), de 1976, soube explorar com maestria – e Stanley Kubrick, o gênio, levou às últimas conseqüências em O Iluminado (The Shining), de 1980. Nos dois filmes, o diretor não deixa você ver alguma coisa direito. A câmera pega de relance o túmulo onde está a verdadeira mãe de Damien. A câmera pega de longe as gêmeas no fundo do corredor longo e acarpetado. Nos dois casos, a ambientação, a tradução do local para o espectador é simplesmente magistral: o som da laje sendo arrastada em A Profecia nos diz, sussurrando, “Sim, eles estão em um cemitério abandonado – tem coisa mais lúgubre que um cemitério abandonado e desativado? – em um fim de tarde e já está escurecendo”. O carpete fazendo barulho quando o garotinho de O Iluminado passa com o velotrol em cima nos diz, “Sim, só está fazendo este barulho neste hotel gigante e isolado entre as montanhas e qualquer barulho ou visão pode nos assustar, a todos”.
Como bons espectadores, ouvimos estes susurros e sentimos a alma gelar nos momentos cruciais.


Jack Nicholson empolgadão, Shelley Duvall nem tanto

Sendo que em A Profecia, Donner ainda contava com a sonoplastia de Jerry Goldsmith, que compôs em latim um canto horrendo chamado Ave Satanis. Me lembro que, por muitos anos, ainda criança, achava que o coro era Carmina Burana – mas, sinceramente, perto do que é cantado em The Omen, Carmina Burana é música para trio elétrico no Carnaval baiano.
Basta dizer que em dado momento, o cão dos infernos, um rotweiller, que tomava conta do filho da besta, tem seu arfar confundido com os primeiros acordes de Ave Satanis. Catzo. É um negócio sério, The Omen.
Ao ver a refilmagem de The Omen outro dia no Telecine, sinceramente, achei que fosse um episódio de Supernatural – não há sequer Ave Satanis no momento em que o embaixador volta à casa para pegar as facas sagradas.
Outra coisa que o bom filme de terror tem de ter é escuridão conjugada com solidão. Massacres dentro de trailers iluminados ou drive-ins com dezenas de adolescentes são, para mim, comédias. Outro dia vi um dos filmes da série Premonição e tem uma cena em que duas adolescentes pagam peitinho e morrem tostadas numa máquina de bronzeamento artificial. Beira a comédia, a cena – se não terminasse direto no enterro das duas, daria até para rir.


"Eles são nossos amigos, Rose!"

Além da escuridão somada à solidão dos personagens, o filme de terror precisa ter uma câmera que respeite a casa dos outros. Como em O Bebê de Rosemary. Roman Polanski nos dá uma aula de cinema neste magistral clássico do horror, colocando a câmera sempre um cômodo antes da cena naquele belo apartamento antigo do Dakota. Rosemary sempre entra em um cômodo vindo do corredor e, bom, a câmera está em um outro para poder captar bem isso. E aí temos de novo o elemento solidão, quando o diretor nos passa a impressão de que todos estão em uma conspiração contra a personagem pela qual torcemos, vivida por uma angustiante Mia Farrow.


"Josh? Joooosh? Josh? Joooooooooooosh!!!"

Talvez o melhor símbolo da diferença entre filme de terror e filme de terrir (ou filme de suspense/violência como a excelente série Jogos Mortais) esteja em A Bruxa de Blair e A Bruxa de Blair 2. O primeiro, um vídeo magistral na minha opinião, que me convenceu a, se um dia produzir um filme de terror, contratar um psicólogo para ajudar no roteiro. A Bruxa de Blair, filme muito atacado na época, explora com agilidade única todos os fatores de um bom filme assustador: a luz de lanterna jogada em um mato escuro, criando a expectativa de algo aparecer, os gritos dos amigos vindo de lugares inalcançáveis, uma casa com manchas na parede mas que a gente dificilmente vê o que é, cenas mal esclarecidas, tensão, angústia, expectativa o tempo todo, sons inexplicáveis como choro de bebê (convenhamos, à noite, um choro ou risada de bebê no meio do mato é de matar), movimentos não esclarecidos, enfim, uma série de eventos assustadores sem que jamais seja mostrada uma cena de violência sequer. E, claro, com aquele componente da cascata marqueteira, de que o vídeo tinha sido “achado” no meio do mato.
Aí fazem o segundo: com roteiro linear, historinha, cenas de feitiçaria mesmo, efeitos especiais. Um lixo, incapaz de assustar uma criança de dois anos.
Terror é isso: algo que você não vê. Algo que faz seu cachorro latir para o vazio. Se você vê e tem sangue, cortes, etc, é terrir ou churrascaria rodízio.

Seguem aí meus 10 preferidos:

1- A Profecia, de Richard Donner

2- O Iluminado, de Stanley Kubrick

3- O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski

4- O Exorcista, de William Friedkin

5- A Profecia 2, de Don Taylor

6- Sexto Sentido, de M.Knight Shyamalan

7- A Bruxa de Blair, de Eduardo Sanchez

8- Terror em Amityville, de Stuart Rosemberg

9- As duas vidas de Audrey Rose, de Robert Wise (não achei o clipe no YouTube)

10- Nightwatch, de Ole Bornedal - este último, filme fraco mas que tem um detalhe que merece entrar para qualquer lista, já que é uma aula de como provocar terror: Ewan McGregor é um guarda-noturno de um necrotério e, para comprovar que está atento, de hora em hora tem que ir até a sala dos mortos (de madrugada), sozinho e virar uma fechadura com uma chave que só o guarda-noturno tem. Para isso ele tem de atravessar a sala toda. Para que ele tem de ficar atento? Porque “se houver algum barulho na sala dos mortos ele tem de ir checar”. Brrrrr....ehehhehe.

por Gustavo de Almeida as 12:42:47

Posts similares:
A Profecia
Esperando pela Festa do Monstro Maluco
O bonequinho discute a relação: como decidir qual filme o casal vai ver?


Comentários, Trackbacks:


Seus comentários

Sabe, foi exatamente por todos esses elementos que eu gostei tanto de Os Outros, mas parece que ninguém concorda comigo. O filme me fez gritar no cinema, achei de matar essa sensação constante de quem tem alguém ali que a gente não consegue ver. Ele só tem o defeito de que as partes não-assustadoras são muuuuuito não-assustadoras...
29.02.08 @ 12:55
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Alessandra, não vi OS OUTROS ainda, mas tenho quase certeza de que ele entraria na minha lista!
Vou ver se pego o DVD para ver...
29.02.08 @ 13:05
Nome: Marcele Fernandes
Url:
Realmente fazer terror é difícil e complexo e existe todo um método (e método, ao contrário do que muita gente pensa, não é tão simples quanto receita de bolo). Mestres como Kubrick conseguem fazê-lo muito bem, outros pobres coitados tentam sem sucesso e por aí vai, como quase tudo na vida. Como já vi todos os filmes de terror que você citou, com exceção de A Bruxa de Blair, como já vi Os Outros (que você ainda não viu, arrá!) mais de uma vez, considero que já tive a minha fatia desse bolo. Pelo menos por enquanto. Tirei uma licença sem prazo determinado dos filmes de terror. Sinto muito, meu bem, mas você terá de ver as sessões desse tipo de filme sem a minha companhia, pelo menos por enquanto.
Beijos,
Marcele
29.02.08 @ 13:36
Nome: Luís Edmundo
Url: http://orlandolele.blogspot.com
A melhor definição que eu já vi para um bom filme de terror.

Só a comparação das bruxas de Blair já diz tudo.

Mas acho que gostei mesmo do texto porque ele foi um dos raros em que vc não tentou dar um jeiro de citar o flamengo.
29.02.08 @ 18:23
Nome: André
Url:
Beleza sua analise, principalmente sobre a Bruxa de Blair. Pra mim tbm uns dos melhores!! só uma coisa, o trailler do Iluminado que você colocou é um trailler-sátira, foi feito como se fosse um filme de romance, eu já tinha visto antes.
Abs
29.02.08 @ 18:53
A lista ficou muito boa ( A PROFECIA - EXORCISTA E O ILUMINADO SÃO CLASSICOS ) Sobre "PSICOPATA COM LAMINAS" tem um que tem que entrar na lista HALLOWEEN de 1978 e o safado do MICHAEL MYERS eu o considero de terror não sei vocês. Bom eu sou um fã de filmes de terror. Não é meu o site mas de um amigo e fã como eu de filmes do genero. BOCADOINFERNO.COM eu ja vi quase todos fazendo minhas consultas no site.
29.02.08 @ 23:31
Nome: Márcio Teruel
Url: http://www.mteruel.zip.net
Uma bela lista, com excelentes nomes de um gênero que há tempos não nos assusta, não acha?
Mas como sempre haverá discórdia, tem um nome na lista que não acho que merece tanto respeito como muitos citados...
Enfim, parabéns pela iniciativa e vai uma pergunta. Qual dos filmes você assiste sozinho a 00:00hrs, ou no lendário 03:00 da matina? hehehe
Nem é bom brincar, né?
29.02.08 @ 23:36
Nome: Mirtes
Url:
O que Sexto Sentido está fazendo nessa lista? O filme, além de ser um Ghost com um sanguinho aqui e acolá, é previsível (pelo menos foi pra mim) e se vale das mesmas "técnicas" infantis de suspense de video game, apelando para takes repentinos sustentados pela trilha sonora.
01.03.08 @ 06:53
Nome: Eros Junior
Url:
Gostei muito da lista, concordo em todos os aspectos com ela mesmo não tendo assistido alguns dos filmes dela.
A comparação entre os dois Bluxa de Blair ficou ótima e qualquer pessoa que assistiu ficou com cara de "gastei meu dinheiro à toa".
01.03.08 @ 11:40
Nome: João Batista da Silva
Url:
O iluminado certamente desponta como um dos principais filmes desta lista .Assisti e achei muito bom o roteiro de Kubrick
01.03.08 @ 17:42
Nome: marcus
Url: http://grandeabobora.com/
Um filme de terror ruim dos anos 80 que adoro é Cemitério Maldito (Pet Cemetary). Acho muito bom!
02.03.08 @ 13:07
Nome: Maloca
Url:
Outro detalhe sobre a Bruxa de Blair. Na época do lançamento, foram contratadas cerca de cem pessoas para distribuir em "ambientes jovens" cartazes sobre os personagens desaparecidos descritos no filme, como se fossem pessoas realmente desaparecidas. Bom exemplo de marketing viral.
02.03.08 @ 19:23
Nome: Cleo
Url:
Procute pesquisar, Gustavo: O Inquilino de Roman Polansky e depois reveja sua lista - que está ótima, por sinal.

Mirtes: Sexto Sentido "Ghost com sanguinho..."?! Só se vc já sabia do final c/antecipação; aí tira mesmo toda graça...
02.03.08 @ 21:12
Bruxa de Blair? Deus me livre, um dos piores filmes que existem, é até sacrilégio chamar isso de filme de terror.

Quanto ao Sexto Sentido, é um bom filme, mas existem outros muito melhores.
03.03.08 @ 00:26
Nome: caniggia
Url:
otimo texto, todos os filmes sao otimos!!!

so uma coisa.. o trailer do ilumidado que vc postou.. é uma parodia feita.. para parecer um filme "feliz".
04.03.08 @ 01:39
Nome: Simone Gondim
Url:
Com exceção de "A bruxa de Blair", que eu acho ruim, e de "Nightwatch", que eu não vi, concordo plenamente com a lista. :)
05.03.08 @ 12:17
Nome: aline
Url:
Realmente "A bruxa de Blair",é um dos melhores filmes que ja vi.Eu e meu irmao ficamos pertubados a madrugada inteira!
aconteceu conosco esse fato estranho: assim como os personagens do filme,estavam sendo assombrados, nos tambem ficamos.
gostaria de saber algun dia o que aconteceu conosco, foi assustador!!!
06.04.08 @ 18:34
Nome: Cezar
Url:
Boa tarde amigo,
So achei que ficou faltando aí, alguns filmes como por exemplo: O Anticristo de 1971, Faust, O Exorcista, Poltergeist 1 e 2, etc e tantos mais.
Mais ficou boa a Lista
26.05.08 @ 11:31
eu nunca vi ate hoje um filme como esse na transformação de um lobisomem muito bom mesmo entrando no site verão algumas fotos espero q gostem porq eu tenho endereço para baixar o filme (legendado)mais esta em boa qualidade meu email é ( anjo-da-guarda32@hotmail.com)
21.08.08 @ 11:28

Seus comentários::


Tags XHTML permitidas: <p, ul, ol, li, dl, dt, dd, address, blockquote, ins, del, span, bdo, br, em, strong, dfn, code, samp, kdb, var, cite, abbr, acronym, q, sub, sup, tt, i, b, big, small>
(Quebras de linha se tornam <br />)
(Set cookies for name, email and url)

Trackback:

http://www.interney.net/blogs/htsrv/trackback.php/18791







[ La Brute - Jogo Online em Flash Grátis ]