Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









27.02.08

Wonderful tonight - A Festa Perfeita

Após longa ausência, causada por diversos compromissos sociais e anti-sociais, eis que volto a escrever no Eclipse. Claro, não é um fato tão aguardado e nem faz tanta falta assim – é apenas um blog. Tentamos, é claro, atualizar todos os dias. Nem sempre conseguimos. Mas é uma vitória quando por uma semana inteira atualizamos diariamente. No caso, estamos há quase dez dias sem atualizar, pelas minhas contas. É no mínimo motivo para advertência grave por parte do nosso CEO, o Edney Souza. Educado e cordato que é, nem manda a devida bronca. Mas certamente o Eclipse deixa de cumprir sua parte no contrato quando a preguiça domina os dois escribas – marido e mulher – desta forma.
Volto ao Eclipse para ser singelo. Na verdade, volto para ser até utópico – por que não? Já que um dos motivos da minha ausência no fim de semana (quando há mais tempo para atualizar) foi exatamente a festa da utopia. Sim, eu e Marcele, no sábado à noite, fomos à festa tecnicamente perfeita, aquela que busco há décadas em vão. Só havia dois defeitos, sobre um falo agora e sobre outro falarei mais adiante. Um dos defeitos estava logo de cara: com exceção da Marcele, claro, não havia nenhum de meus amigos. Para não dizer “nenhum”, digo que a mulher de um amigo que não vejo há anos estava por lá – o moço ficou em São Paulo, onde mora o casal, cuidando da herdeira.

Mas era fato: tanto eu quanto Marcele não tínhamos amigos na festa, estávamos cumprindo um compromisso social. Por questões de privacidade, não digo qual e por quê. O que importa é saber a descrição da festa.
Em primeiro lugar, as instalações, absolutamente perfeitas para um casamento. A temperatura oscilava entre agradáveis 18 e 21 graus. A noite de sábado, antes da chuva da madrugada, estava enluarada. O espaço era vasto e para quem não havia conseguido mesas grandes redondas havia uma espécie de “barzinho” com bancos altos e uma mesa alta para apoiar os copos.
E que copos.

Primeiro veio champanhe, servida em baldes de gelo. Viúva Cliquot. Garrafas e mais garrafas. Denunciei minha verdadeira classe social e meu terno de R$ 250 ao partir para cima da Veuve Cliquot como um flanelinha para cima de uma van prestes a estacionar. Ali, é batata: ao virar a primeira taça de champanhe (você faz isso porque sabe que tem outras) todo mundo fica sabendo que você é pobre.
Canapés (a comida de cera, poderia ser decorativa até), salgadinhos espetaculares e diversos forravam o estômago. De repente, eis que passa o uísque, igualmente acompanhado de baldes de gelo em profusão e garrafinhas de água mineral. Declinei do uísque porque já sei o que costuma acontecer. É incrível o quanto a idade traz serenidade e acalma o temperamento. Eu não ter detonado uma garrafa inteira de Johnny Walker na festa de sábado é uma demonstração tão grandiosa de amadurecimento quando uma pessoa normal se pós-graduar em Matemática Nuclear no Massaschussets Institute of Tecnology. Mas eu já sabia que a ressaca iria exigir de mim no mínimo uma traqueostomia.

Parti então para um bonito balcão repleto de frutas cortadinhas, geladas e com açúcar e....vodka. Nem vi a marca. Talvez fosse Smirnoff mesmo, o que não é mau, pelo contrário. Comecei a minha experimentação gustativa: caipivodka de morango, caipívodka de abacaxi, caipivodka de caju, caipivodka de limão. Gostei mais da de morango. Repeti. Até esnobei a Skol de garrafa grande que chegava em profusão a uma mesa grande da festa.
E a Viúva Cliquot continuava. Em dado momento, foi servido um jantar. Absolutamente magistral: ravióli de ricota ao creme de alho com filé acebolado, salada e batata rösti. Tudo feito com o esmero de um Celidônio.
Depois de uma lauta refeição, retornei aos trabalhos com a champanhe mesmo, já que meu estômago e meu fígado começaram um debate digno de Carlos Imperial e Gilsse Campos naqueles programas das tardes na CNT.
Marcele, ali pertinho, sempre, bebia champanhe devagarzinho. E eu a olhava. Ela mal me dava atenção, a danada, conversando e ‘fazendo social’ com as outras pessoas da festa que nos conheciam. De vez em quando, dançávamos um pouco. Ah, vale registrar: o DJ tocou rock and roll, basicamente o mesmo repertório que eu costumava usar em festas nas noites do Rio (com exceção, é claro, de músicas do Nirvana, Rory Gallagher, Stones e The Who que, creio, cairiam meio mal num casamento).
Senti falta dos meus amigos, claro, à medida que o porre ia me aproximando daquele estado em que Syd Barret compôs “The Piper at the Gates of Dawn”. Mas fomos curtindo muito a festa.
Até que em dado momento veio o segundo motivo pelo qual a festa não estava 100% perfeita, algo que eu percebi em um relance: as mulheres.
Eu percebi, curiosamente, que para a festa ser perfeita em tudo eu teria que pegar uma mulher. Sim, sim, havia dezenas de mulheres solteiras, lindas, de vestido, bêbadas, numa noite linda. Este pensamento me pegou de repente, me fazendo sentir estranho, como se de repente eu voltasse a um tempo.
E aí lembrei que tempo era aquele: era um tempo em que, sim, a gente até “pegava mulher”, mas nas raras vezes em que isto acontecia, bom, era divertido mas não feliz. Funny but not happy – o inglês ajuda mais neste caso. E isso nas raras vezes – afinal, eu percebi que, mesmo estando sozinho ali naquele casamento, eu não “pegaria” mulher nenhuma. Mesmo que eu fosse solteiro.
Nessa hora eu estava sentado à mesa alta, com o cotovelo encostado, observando todos dançando. Ao meu lado, um homem de seus 60 anos e mais adiante um jovem de 24 ou 25 anos. Todos conversando sobre a decisão do dia seguinte entre Flamengo e Botafogo. Os dois tinham suas amadas na festa. O mais velho, casado e feliz com quatro filhos. O mais novo, namorando firme.
E eu estava ali com a Marcele. Me quedei, mas não me sentindo infiel por ter pensado nas mulheres da festa. Me quedei porque a minha vida já era uma outra e por um momento pareceu não ser. A minha vida, muito melhor, a minha vida. Olhei para a Marcele inteira, com a taça de champanhe na mão, a vi falando. Ora, é a minha menina. A Marcele é o que aparece quando se aperta a tecla “home” na minha vida. Não à emoção da caça, mas nada de dor quando o dia é do caçador. Marcele me fez livre.

Vieram os doces – incríveis – e nós comemos bastante deles e fomos embora. Pensei que eu e Marcele adoramos os doces. Fomos embora com a alma leve, eu sabendo que, sim, tinha sido uma festa perfeita, sem defeitos a não ser o da ausência dos meus amigos. Mulheres? Eu tenho a minha, perfeita, com todos seus defeitos e virtudes, com seu sono no sofá, com suas manias e medos que me cativam, com seu sorriso inimitável. E, acima de tudo, com o amor todo que ela me dá. A festa eterna que é a vida com Marcele.
Ela me fez gostar mais de mim.


Wonderful tonight (Eric Clapton)

(by eric clapton)

Its late in the evening
Shes wondering what clothes to wear
She puts on her make up
And brushes her long blonde hair
And then she asks me
Do I look alright
And I say yes, you look wonderful tonight

We go a party
And everyone turns to see
This beautiful lady
Thats walking around with me
And then she asks me
Do you feel alright
And I say yes, I feel wonderful tonight

I feel wonderful
Because I see the love light in your eyes
And the wonder of it all
Is that you just dont realize
How much I love you

Its time to go home now
And Ive got an aching head
So I give her the car keys
She helps me to bed
And then I tell her
As I turn out the light
I say my darling, you were wonderful tonight
Oh my darling, you were wonderful tonight

por Gustavo de Almeida as 01:10:36

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Seus comentários

Nome: Paula Clarice
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O melhor não é saber que você estava na festa perfeita com a sua companheira definitiva. O melhor é saber que ela é a sua companheira definitiva em tudo, até nas festas mais chatas, até nas piores roubadas. É muito bom não ser sozinho nesse mundo malvado, né?
27.02.08 @ 15:08
Nome: andré machado
Url: http://www.myspace.com/andremachadorock
às vezes eu sinto exatamente a mesma coisa observando Wal de longe, quando estamos no clube que freqüentamos ou numa festa. E lembro que é uma long and winding road, que sempre me deixa na porta de casa.
02.03.08 @ 17:11

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