12.02.08
Cortar despesas: a Síndrome de Leão Camarada da classe média que aperta o cinto

Uma das coisas interessantes do joguinho viciante Jumpers for Goalposts é a parte do “Socialize!” para o jogador de futebol, que nos mostra o óbvio: para ter vida social é preciso ter grana. Hoje em dia, quando encontro alguém e essa pessoa me diz, “Pô, você tá sumido!”, eu costumo responder, “Sumido nada, tou é sem dinheiro”. O problema nem é meu rendimento atual, e sim o fato de que mudei de emprego. Antes eu ganhava bem mais, mas no entanto não tinha benefício algum, nem FGTS, carteira assinada, vales, etc. Agora ganho um pouco menos, mas com todos os benefícios a coisa quase equilibra. Sem contar as condições de trabalho infinitamente superiores e a mentalidade empresarial absurdamente mais progressista e humanista. Digamos que eu quase saí de uma senzala direto para um cargo no Google. Mas na troca de emprego, minha renda sofreu queda devido a um mês que demorei para a transferência. Ainda fui socorrido pelo 13º proporcional – do atual emprego, claro, já que o antigo não me pagou nem mesmo o 13º do ano passado. Que dirá o deste ano. Mas isto será assunto para a Justiça do Trabalho.
O que trato aqui é de Adaptação. É um espetáculo interessante, o da readaptação de um casal a novos orçamentos. Ainda mais um casal formado por Gustavo e Marcele – pessoas que precisam de livros, música, filmes e vinhos para viver. A parte dos vinhos, reconheço, é 99% minha.
Readaptar o padrão de vida inclui o reconhecimento de que uma despesa você não vai conseguir cortar: o aluguel. Não há como chegar para o proprietário do imóvel (principalmente se este tem 75 anos), dar aquele cumprimento estilo “pós-cesta de três pontos na NBA” e falar, “pô, aí, troquei de emprego, será que não rola uma cortadinha no aluguel, não?”. Creio que nisto há consenso. Logo, o aluguel será mantido mas você vai abaixar o padrão de vida.
O engenheiro Cobra certa vez cunhou a frase definitiva para Queda de Padrão de Vida em um Supermercado: “É quando você deixa de comprar doce de leite nas gôndolas e passa a comprar na seção de laticínios”. No post anterior eu creio que encontrei uma nova definição: quando o jantar depois do cinema (uma instituição quase tão milenar quanto o Matrimônio) passa a ser no McDonald’s em vez de restaurantes more expensives como La Fiorentina ou Pizzaria Stravaganze.

Olhaí: a parte "ASS" do Assolan no nosso armário de limpeza
Outro sinal de que o casal acordou para a realidade financeira do país é: “Ficar feliz quando abre Prezunic perto de casa”. A ida de um casal a um Prezunic é uma experiência antropológica que deveria ser filmada por um diretor do Discovery Channel. Aliás, perdem tempo os psicólogos que ainda não elaboraram teses sobre o comportamento de um homem e de uma mulher, casados um com o outro, diante das gôndolas de um supermercado. Se me detenho por mais do que cinco minutos nas gôndolas de birita, Marcele por sua vez se encanta nas de badulaques que a gente nem sabia que precisava – digamos, tipo “descaroçador de kiwi” (se é que isto existe). Ambos damos importância às gôndolas de material de limpeza. Em supermercado popular, tendem a ser muito mais baratos. Ali se sente bastante a readaptação, quando optamos pelo detergente de pia que está na faixa de preço “Abaixo de um real”. É a Síndrome do Leão Camarada: adeus, Limpol. Viva o Sabão Neutral Pastoso e o suco de Maracujá Pindorama!
Para quem não lembra: nas décadas de 70/80 havia um supermercado chamado Leão aqui no Rio. Uma espécie de antepassado do Guanabara e do Prezunic, os supermercados mais populares. O Leão Camarada, como era conhecido, tinha uma promoção mediante a qual você deveria ter um dentre diversos produtos da cesta básica deles, tinha que ser da marca anunciada por eles. Duas delas eram estas: sabão Neutral Pastoso e Suco de Maracujá Pindorama. A meu ver, marcas mais obscuras e difíceis de encontrar do que aquelas que anunciavam no programa do Alborghetti (alimentos Zaeli! Frigorífico Alvorada! Kuerten Madeiras!).
Para quem não conhece, um pouco de Alborghetti
A Síndrome de Leão Camarada passa a ser exatamente isto: no supermercado, em vez de comprar Bombril, se compra Assolan. Em vez de Coca-Cola, Baré. No lugar de cream cracker Piraquê, aquele em pacote grande que geralmente tem o nome do supermercado. Deixa-se na gôndola o requeijão Poços de Caldas e se abraça o Itambé como se fosse uma tábua de salvação.

Anúncio alternativo de Velho Barreiro
E, mais importante: adeus, Stolichnaya, bem-vindo, Velho Barreiro. Isto, claro, se eu bebesse destilados. Como não bebo, vou mesmo é apelar para o Sangue de Boi garrafão cinco litros.
Só não sei se existe Engov genérico.
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O pior é que essas pesquisas de marketing existem. Curiosamente, estava lendo algo a respeito ontem. O texto falava sobre uma empresa chamada Environsell, especializada em pesquisar o comportamento dos consumidores em lojas. Para eles, consumidor e rato de laboratório são equivalentes, digamos assim. Pois bem, algumas conclusões das pesquisas (que envolvem mais de 70 mil consumidores por ano):
1. Nas lojas, os clientes quase sempre andam para a direita
2. As mulheres tendem, mais do que os homens, a evitar corredores estreitos (talvez para evitar "encochadas" tipo trem da Central).
3. Consumidores andam mais devagar quando encontram superfícies reflexivas e mais rápido quando vêem vazios.
Parece absurdo, mas é bastante razoável. Já notou como são estruturados os shoppings? Por que tudo tem iluminação artificial, escadas rolantes distantes e piso liso? Para que o consumidor não note o passar das horas, percorra mais espaços com vitrines e não acelere o passo.
A jogada do marketing é atribuir mais valor às coisas do que elas realmente têm. Quem compra um Volvo não leva apenas um carro, mas uma sensação de segurança, quem compra sabonete Dove não leva apenas um sabão para limpar os suores e humores do corpo, mas a sensação de adquirir uma substância poderosa que limpa a fundo e rejuvenece, ou algo assim. O Leão Camarada atribuia o real valor das coisas, por isso que as marcas eram aquelas esquisitices. Sabe o real valor das coisas quem batalha muito pela grana para adquiri-las. O marketing é como a psicologia transformada em dinheiro. Vale para quem tem muito no banco, ou pouco na cabeça.
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Adorei a referência ao requeijão Poços de Caldas; eu e marido somos de lá, temos família lá! E é um requeijão maravilhoso!
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