11.02.08
Cães e filhos

Vou cometer um ato de indiscrição aqui e revelar um plano do casal: a gravidez marceleana ainda este ano, se as coi$a$ se encaixarem direito. Na verdade, já era para ter saído essa gravidez, mas vida de jornalista não é fácil – uma mudança de um emprego onde levei calote (e tive de sair sem que me pagassem uma dívida que fez seu primeiro aniversário ontem) fez com que tivéssemos de segurar a onda em vários pontos. Nosso último fim de semana, por exemplo, foi um primor de contenção de despesas: no sábado, saímos de casa para eu cortar o cabelo. Comprei dois DVDs, o director’s cut de Blade Runner (um dos melhores filmes superestimados de todos os tempos) e a comédia romântica (mas bem bacana) Letra e Música, com Hugh Grant e Drew Barrymore.
No domingo, fomos ver Meu nome não é Johnny (ótimo filme, diga-se) e na saída, em vez de irmos a um restaurante, comemos no McDonald’s. Me lembrei dos tempos de adolescente, onde a grana dava era pra isso mesmo: cinema e McDonald’s.
Tudo isto, de economia, é visando ao terceiro integrante do nosso time, que já tem mais ou menos nomes definidos. Joaquim, se for homem, Nelly, se for mulher. Ambos os nomes estão sujeitos a mudanças. Beatriz é um nome muito bonito de mulher, assim como Zico ou Rondinelli são nomes espetaculares para homem – mas quanto a estes, curiosamente, Marcele oferece certa resistência. Marcele acha que “Zico” não é um nome, e sim um apelido ou corruptela de “Arthur”. Eu tento explicar a ela que Deus também tem quatro letras e não é apelido, mas, enfim, vá entender as mulheres.
Pois em meio a todos estes planos – que vão inclusive paralisar o Eclipse por algum tempo, mas daqui a alguns meses, não por enquanto – me lembrei de que os planos de engravidar adiaram, na cabeça da Marcele, um outro plano: ter um bicho de estimação. Para muita gente, é algo que implica na dedicação e no amor que se daria a um filho. Não à toa há casais que se intitulam "pai" e "mãe" diante de um animal de estimação.
Os amores são diferentes, claro. O amor pelo filho é amor pela luz. Ter um filho é como usar um indulto que Deus nos dá para passar um tempo fora do gigantesco campo de concentração que é a mortalidade humana. Argh. Que frase terrível.

Marcele (direita) com um bicho feroz e ameaçador
Me lembro, no entanto, que Marcele quis mesmo um bicho. Aliás, ainda quer, mas depois dos filhos. E nada de peixes ou pássaros. Aliás, principalmente nada de peixes - e isto é por minha conta. Já tive aquário duas vezes e sei que é preciso ter paciência de Jó e estômago de avestruz. Paciência de Jó para encarar a troca de água, trabalho equivalente muitas vezes a construir um cômodo novo na casa, se formos comparar a quantidade de energia gasta. E estômago de avestruz para tirar peixes mortos da água, algo que sempre me desagradou. Não gosto de peixe. Nada contra observá-los, muito pelo contrário, é relaxante. Mas peixes mortos, sei lá porquê, tenho algum bloqueio psicológico que me faz ter repulsa até a esbarrar em suas peles. Se você algum dia limpar um peixe perto de mim, com as mãos, saiba que estará praticando uma atividade que, para mim, causa a mesma sensação que teria em você se eu, de uma hora para a outra, invertesse meu corpo todo, colocando para dentro a minha pele e para fora meus órgãos, vísceras e capilares.
Pássaro? Tive um canário belga no passado. Passado muito passado – em um tempo no qual Supra Sumo era novidade, e não expressão da língua portuguesa. Um dia, morreu o canário belga. Para mim, “morrer” passou a ser algo equivalente a parar de cantar e ficar deitado no chão de uma gaiola. Meus pais ou a empregada retiraram o corpo do pequeno canário antes que eu, criança, descobrisse que “morrer” também significa “feder e se decompor”. Pois bem. Não vi o enterro, mas soube que o canário foi jogado...no lixo.
Argh.
Depois dessa informação, decidi não ter mais pássaros, até porque me causa extrema agonia ver um pássaro engaiolado dando pulinhos em poleiros, em vez de estar batendo as asas vigorosamente e despejando fezes nas cabeças das pessoas sem sorte.

Bom, depois deste trauma do pássaro, é normal eu nunca ter desejado cães ou gatos lá em casa. Eu confesso a vocês: não sei o que fazer diante de um cachorro morto, PRINCIPALMENTE se for meu. E provavelmente vou me apegar tanto ao bicho que sua morte será o equivalente para mim a uma queda para a segunda divisão do Rubro-Negro da Gávea. Não. Não tanto assim. Digamos que seja equivalente à morte de um parente.
Calma, Marcele, eu estou brincando.
Um cachorro morto pode ser, sim, equivalente ao mal maior, que é a morte de um parente. Um cão doente já causa extrema agonia. E descobri isto ao conversar com uma moça que trabalha no mesmo jornal que eu, uma conversa via google talk, que me fez entender um pouco mais sobre as histórias de amor que cães e gatos podem gerar. Vamos chamar a moça de Renata (ela me chamava de “chefe” só para encher o saco, eu estava de chefe interino):
- Chefe, se eu conseguir sair mais ou menos no meu horário, eu agradeço. Acabei de chamar a veterinária para ir ver minha cachorra que está em Petrópolis. A caseira disse que ela está mal e vou pegar a estrada, quando sair daqui, para vê-la.
- Pode deixar que eu estou de olho no seu horário canino.
- Tô triste. Amo meus cachorros. Falei para a veterinária que não se preocupasse com os gastos.
- Eu sei, eu sei. Não tenho nenhuma dúvida disso.
- Você não conhece minha história de loucura pelos meus cachorros.
- Não conheço mas percebo. É diferente de conhecer. A gente não sabe do que acontece, mas percebe o suficiente para entender a importância.
- Tem razão. Eram meus e do meu ex-noivo. Ficamos juntos sete anos e, quando terminamos, peguei a ‘guarda’ para mim. Aluguei uma casa em Piratininga, Niterói, só para ficar com eles. Eles estavam na casa dele, em Teresópolis. A casa em Piratininga acabou pesando no bolso e tive de entregá-la. Meu ex-noivo não quis recebê-los de novo até que eu conseguisse um lugar. Disse que agora era problema meu. E uma amiga-anjo acabou ficando com eles em seu sítio, em Petrópolis.
- É uma história forte – eu disse.
- História de amor. Forte como todas as outras – finalizou Renata.
Pelo que pude perceber em Renata, o lance é mesmo com os cachorros. Nada a ver, como eu poderia até supor, com o “preservar de um romance de sete anos por meio dos cachorros”. Nada mesmo. Renata já tem outro namorado e está feliz. Mas sua felicidade tem a ver com os cachorros.
Trabalhando em um jornal, é claro que ela não conseguiu sair, pois teve de acrescentar dados à pauta que eu passei para ela de manhã. Na manhã seguinte, ela chegou nervosíssima. Como é uma criatura muito calma, estava contida. O “áspero” de Renata equivale ao meu supercalmo, ouvindo Mozart e tomando sorvete no ar-condicionado, mas respondendo a uma pergunta sobre algum título perdido pelo Flamengo. Percebi que Renata não se concentrar no trabalho e ia se confundir demais. E dei a seguinte ordem:
- Sua pauta é telefonar para a veterinária e saber como estão seus cachorros. E apurar o máximo possível.
Ela ficou (olhei no relógio do computador) 45 minutos no telefone. Ligou para Deus e o mundo. Acho até que para parentes, falando da doença dos cães (acho que é “cinomose” ou algo assim). No fim, parecia um pouco aliviada.
Ainda não sei como estão os cachorros de Renata. Mas eles me ensinaram muito sobre essa relação de bichos e seres humanos. O amor é quase tão grande quanto o maternal.
Eu diria até que cachorros estão para filhos como o compacto com melhores momentos está para o videotape do jogo inteiro.
Tanto um como outro são enormes responsabilidades. Mas fico com o jogo inteiro, o compacto fica para depois. Que venha a Nelly (ou o Zico).
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Pois é... eu também ando torcendo pra essa chegada. E já disse pro Gustavo que aceito Artur (ou Arthur) de bom grado, mas Zico... Zico não. Posso até chamar de Arturzico para virar Zico depois, sem problemas!

Beijos,
Marcele
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Marília, um dia eu adoto o meu cachorro. Ah, se não adoto!
Beijos,
Marcele
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