Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









9.02.08

Quando o tempo vira um abismo e a gente voa em vez de cair

Mariana está grávida. Minha prima, que eu conheci em 15 de fevereiro de 1973, eu então com cinco anos e segurando intrigado um pequeno cartão vermelho com uma estrela pingada no “I” de Mariana. Sei que ela conseguiu umas férias de um mês e veio de Paris para ficar na casa dos meus tios, no interior de Minas – e por extrema consideração e carinho, reservou uns dias para se hospedar aqui em casa. Continua praticamente a mesma pessoa. Ou eu é que não fico tempo suficiente com ela para perceber alguma mudança. O humor, o mesmo de 25 anos atrás. A risada arrastada de sempre. Só que ela deu o passo mais gigantesco de todos, que é trazer alguém ao mundo.


Mariana, pelos idos de 1974, de fitinha no cabelo

A barriga de Mariana já começa a dar sinais de gravidez. Em seu corpo sempre magro, deve ter mostrado sinais com uma semana de gravidez. A irmã dela, Maria Clara, já teve duas filhas. Lindas de tirar o fôlego. Eu achava que a Mariana não iria querer filhos. Talvez um dia ela tenha me falado isso, não sei. Por isso a gravidez dela, além de todos os motivos, me deixou tão maravilhado a ponto de ainda não ter entendido o que aconteceu.

Quando eu soube, imaginei que iria às lágrimas ao encontrar Mariana. Depois esta sensação foi passando, dando lugar a uma espécie de torpor. Aquele que faz a pessoa dizer “A ficha não caiu”.

Eu e Mariana sempre sentimos e percebemos as coisas de maneira extremamente semelhante. Houve quem achasse que nós, primos, seríamos namorados. Volta e meia a gente tinha uma atração física que não era física. O que seria isso? Talvez a “necessidade” de abraçar o próximo sem estar de olho na base 5. É como se eu sempre tivesse 10 anos de idade e ela sempre tivesse cinco. Mas sem as brigas e puxões de cabelos que tivemos nessas idades.


Da direita para a esquerda, Maria Clara e Mariana. A mais nova ainda não havia nascido. Ao fundo, com os braços levantados tentando fazer zona, eu

Estas coisas sempre fizeram os outros pensar bobagens como “vão namorar” ou “que nada, é a prima que ele mais gosta” ou “ele é o primo favorito dela”. Todas estas conjecturas eram uma perda de tempo tão grande quanto fazer um ranking dos melhor cobradores de arremesso lateral no futebol. A questão nunca foi essa, para mim. Nem para ela. A questão é que sempre fomos uma espécie de gêmeos emocionais. O filme que devastou o coração de Mariana é o mesmo que devastou o meu: “It´s a wonderful life” (A Felicidade não se compra), do Frank Capra. Quando assisti, logicamente quem me mostrou foi ela. Viu antes. Como pode? Ora, não “engravidou” antes? Mariana é como um anjo que eu tive de esperar cinco anos – o anjo nasceu no mesmo lugar que eu (a Maternidade Clara Basbaum, em Botafogo) e foi me mostrando caminhos.


A cena que sempre nos fez chorar

Mariana hoje está com um cara que tem nome de jogador de futebol do Hattrick: Nicolas. É o pai da criança. Não sabemos se é menino ou menina. Sei lá por quê cargas d’água, estou com a sensação de que é menina. “Homem não tem intuição”, me disse Marcele rindo, quando estávamos jantando e falando do assunto com o casal. Eu quase citei Jorge Kajuru: "eu não sou homem, sou jornalista". Mas qual o quê. Sempre digo que sou várias coisas antes de ser jornalista.

Ao longo da nossa convivência, das vezes em que nos encontrávamos em alguma cidade do interior ou mesmo no verão aqui do Rio, Mariana me mostrava os namorados. Ou trazia junto, ou falava de, ou arrumava por aqui. Sei lá por que cargas d’água, todos tinham alguma ranhetice. A maior parte, do tipo ciumenta. Não é para menos – Mariana é muito bonita, e ainda tem o azul mais extraordinário que já vi em olhos. Um dia ela se casou. Com um francês. Muito boa gente, extremamente freak, era do tipo popularizado pela Casseta e Planeta: “Eu faço vídeo, e vagabundo é a PQP”. Anos depois, se separava. Sem filhos. Mas logo conheceu o Nicolas. Desde então, já vieram quatro vezes ao Rio. Nicolas foi o único namorado gringo (ela teve outros, inclusive um alemão) de Mariana com quem eu não tentei falar inglês. Curiosamente, por cortesia: Nicolas queria aprender o português e pedia isso. O sonho dele é trabalhar na Petrobrás, no Brasil. Nossa comunicação sempre foi precária. Passei a me comunicar com ele por meio da birita. “Cerveja, Nicolas?”. “Caipirinha, Nicolas?”. “Vinho, Nicolas?”. Ele sabe todos os nomes de birita em português.

A profissão dele: mergulhador. Sua empresa cuida de cabos de comunicação. Em uma época, Mariana estava um ou dois meses sozinha em casa, em Paris, porque Nicolas estava instalando cabos submarinos no Mar do Norte. Eu saquei na hora que tinha chegado o Messias. Alguém que instala cabos submarinos no Mar do Norte, bom, com todas aquelas coisas que o Mar do Norte insufla em nossa imaginação, essa pessoa, definitivamente, serve para Mariana. Era um casal de freaks perfeitinho. Quando não trabalhavam, bebiam. E aqui no Rio, de férias, bebiam o tempo todo. Mariana, claro, muito menos. Nicolas enfiava os dois pés nas jacas. E misturando os tipos de jacas, claro.

Até que veio a gravidez. Essa, que eu ainda não percebi que está acontecendo. Outro dia eu estava tentando pensar na gravidez da Mariana, e tentei localizar o dia em que nós deixamos de ser apenas primos. Em suma, o dia em que percebemos que éramos mais que primos, e sim amigos gêmeos, que sentiam coisas parecidas e percebiam a vida de forma parecida, entendiam (?) a existência como um eterno cuidar de horas e minutos.

Foi difícil. Cinco anos de diferença na idade fizeram com que passássemos um bom tempo trocando tapas e puxões de cabelo. Mas eu acho que um dia, eu com 18 anos, Mariana com 13, todos fora de casa, à noite, em Belo Horizonte, começamos a bater papo. Mais de 10 minutos de conversa eram raros. E ficamos conversando, conversando. E ao fundo, tocava uma música que ela adorava: Stuck on you, do Lionel Richie.
Falamos da música – “stuck” quer dizer “preso”, “ligado”. Começamos a falar de amor, de gente que nos despertava paixões. Fomos iludidos pela música e convencidos a ter saudades de outras pessoas. Naquela noite, o acaso estava nos explicando o que é ser ligado a alguém, e explicando que de maneira nenhuma precisa ser uma ligação carnal, ou de maneira nenhuma emoções se hierarquizam (“gosto mais de” ou “amo mais fulano”).

Voltei para o Rio e Mariana me escreveu uma cartinha. Eu estava aprendendo violão e ela me mandou “Stuck on you” em cifras. No fim, escreve uma pergunta, sobre uma palavra que ela inventara naquela noite, “Termosé”. Curioso é que é francês – numa época em que sequer sabíamos que Mariana falaria outra língua ou teria um namorado francês. Termosé é um termo tecnológico (o que é exatamente eu não sei).
Tecnologia, das ciências exatas. Eu, até agora, sem entender que Mariana está grávida. No dia em que eles foram embora (na verdade, foram embora para Barbacena e só voam para a França no sábado em que escrevo), eu disse:

- Mariana, quero que você saiba que ainda não sei, ainda não entendi isto que está acontecendo, tá?

- Eu também não.

Mais de 20 anos depois, agora sei o que é “termosé”.


Melhor não ver se você não for a Mariana. Tá horrível.

por Gustavo de Almeida as 14:31:12

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Comentários:


Seus comentários

Muito bacana e comovente o post, Gustavo. Espero que a Mariana tenha uma gravidez tranquila e feliz.
09.02.08 @ 16:01

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