Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









5.02.08

A arte de perder cartas

Alguns dos leitores já leram isso por aqui, mas vou repetir a história: Gustavo e eu nos conhecemos pela internet. Mais especificamente, através de nossos antigos blogs. Eu escrevi um post, ele me enviou um e-mail comentando, começamos uma correspondência eletrônica longa e o resto é a velha história: namoro, noivado e casório.

A parte oculta de tudo é que toda nossa correspondência, com mais ou menos trocentas cartas longas, foram perdidas. Eu gravava no meu computador, ele gravava no computador dele, tentamos fazer backup algumas vezes e até imprimimos alguns dos textos, mas conseguimos realizar a proeza de perder tudo. Absolutamente tudo. Pelo menos, era isso o que eu pensava (e lamentava) até ontem, quando comecei a arrumar nossa estante de livros.

Nossa estante de livros fica na sala e estava completamente abarrotada. E, mesmo abarrotada, ainda não guardava nem metade dos livros que Gustavo e eu temos. Em bagunça, a estante de livros só perde para a nossa estante de DVDs (porque os CDs estão devidamente organizados em uma ordem obscura que o Gustavo inventou, e ele sabe exatamente onde cada álbum está – é assustador). Resolvemos pegar alguns dos livros que não consultamos sempre ou que prezamos menos para guardá-los no armário. Mas antes de alimentarmos o monstro que vive dentro de nosso guarda-roupa, tratamos de examinar os papéis que tínhamos colocado entre as folhas, para não corrermos o risco de perder nenhum documento importante (minha carteira de motorista está dentro de um livro do José Eduardo Agualusa – ou do Dennis Lehane, eu não lembro – que emprestei para uma amiga; ainda bem que emprestei, porque acreditei em tal ponto que nunca mais a encontraria que já tinha tirado a segunda via).

Foi no meio de algum desses livro que encontrei uma parte ínfima da correspondência em que Gustavo e eu nos conhecemos. As folhas estavam amassadas, a tinta de impressão já estava se apagando, mas lá estavam cinco e-mails históricos: quatro eram dele, um era meu. Pelo menos vai ser algo que poderemos mostrar aos nossos filhos. Eu já estava há algum tempo tentando me convencer de que perder cartas -- ainda que eletrônicas -- de amor não era nada demais ou algo grave. Na verdade, na verdade, eu venho tentando me acostumar a perder pequenas coisas, tempo, continentes e até mesmo pessoas. Não tenho tido muito sucesso, por mais do que eu tente me convencer do contrário. E se alguém achou que eu estava plagiando alguém com essa história de "perder continentes", provavelmente esse alguém já leu a poesia "One art", da Elizabeth Bishop:

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.

por Marcele Fernandes as 12:53:57

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Comentários:


Seus comentários

Registrar tudo é neurose moderna. Tiramos, por exemplo, tantas fotos de todos os momentos que às vezes esquecemos de aproveitá-los. Ter apenas alguns registros, como essas cartas amassadas, pode ser mais valioso do que armazenar um arquivo detalhado em terabytes. Essas pistas obrigam a buscar as lembranças no fundo da memória, o que também pode ser uma viagem prazerosa. É como se, em vez de um mapa minucioso que nos induzisse a refazer o caminho da mesma forma, tivéssemos apenas pegadas, que deixassem abertas muitas maneiras de reinventar o trajeto. No casamento de vocês comentei com alguém que, de certa forma, lamentava haver tantas fotos e filmagens. Sugeri que seria mais interessante apenas uma foto, talvez de todos juntos na escada, que congelasse aquele momento e que servisse de referência, no futuro, para que cada um reconstruísse à sua maneira a lembrança daquela noite. Mais tarde, reunidas, essas lembranças, matizadas pela memória subjetiva de cada um, comporiam um quadro único, talvez mais rico do que qualquer álbum.

Não, sei Maloca... Não acho que seja exatamente uma neurose moderna. A questão é que nós realmente temos mais tecnologias agora, o que facilita o registro; mas meus avós, que não tinham grana nenhuma, fizeram questão de registrar o casório com um fotógrafo. E se existem poucas fotos, é porque eles não podiam pagar por mais. Acho, também, que deve existir bom senso: não dá para ficar duas horas tirando fotos no casório, sem aproveitar a festa. E, pode acreditar, não há nenhuma foto ou filmagem que tire as referências ou mude a forma de como lembro daquele dia. É complicado de explicar, depois te falo pessoalmente. Beijos, Marcele
05.02.08 @ 14:40
Nome: Bruno Alves
Url: http://macaxeirageral.net
E se num dia qualquer {espero que nunca} um acidente eletromagnético qualquer {tipo um pulso eletromagnético-PEM}deletar todos os documentos gravados em discos rígidos pelo mundo afora? {tá, eu sei que um PEM só desliga aparelhos eletrônicos, mas o exagero faz parte da metáfora, ok?}.
Iremos dar adeus à textos importantes para nossas vidas, como cartas de amor, dissertções, projetos, aquelas poesias selecionadas para um livro, contos e por aí vai.

Ficamos tão dependentes da tecnologia que normalmente esquecemos de ter uma cópia "analógica" dessas coisas importantes - foi só lendo este post que lembrei de não ter uma cópia da minha dissertação!!!!!!
Fotos: ter um hd lotado não quer dizer nada, né? se o tal PEM acontecer - ou se simplesmente o HD der pau, adeus lembranças.
E alguém tinha dito que com o avanço da tecnologia, o uso do papel diminuiria consideravelmente.
Gostei do blog, parabéns Gustavo e Marcele.

Pois é, Bruno. Eu também sempre esqueço de ter uma cópia "analógica" e sei lá como ainda tinha alguns emails impressos -- ainda bem. E muito obrigada!
Marcele
05.02.08 @ 15:32
ainda to tentando entender q negócio roxão é esse na foto.

Então eu te ajudo: é um envelope, Mateus. :)
05.02.08 @ 23:15
Nome: Mariana
Url: http://vutcha.blogspot.com
Olha que historia legal!
eu gosto e ter todas essas tranqueiras guardadas, apesar de nunca le-las novamente!
Mas realmente é legal pra mostrar para os netinhos!!

Pois é! Acho que vou mandar emoldurar essas cartas, para diminuir o risco de perdê-las.
Marcele
06.02.08 @ 23:28
Nome: Paula Clarice
Url: http://engavetado.blogspot.com/
Depois de ler aqui fui checar com o Mau se ele guardou nossos e-mails, hahahahaha!!

E ele guardou? E você, ainda tem algum?
Beijos,
Marcele
07.02.08 @ 19:23
Nome: Simone Gondim
Url: http://www.interney.net/blogs
Eu guardo um monte de coisas, além das memórias. Cartas, bilhetes, fotos e mil e uma tranqueiras que me remetam a eventos felizes ou a pessoas queridas. Tenho pavor de traças, incêndios, panes de computador ou qualquer outra coisa que me faça perder algo arquivado com carinho... :)

Eu também tenho pavor, mas essas desgraças sempre acontecem por aqui. Sem contar que sou distraída e desorganizada -- ou seja, quase não tenho cartas guardadas comigo (apesar de ter algumas, sim). Minha sogra ainda guarda toda a correspondência dela com o marido. Bem que eu queria ser assim!
Beijos,
Marcele
10.02.08 @ 15:09
Nome: Priscilla Oliveira Xavier
Url: http://www.pittyquepariu.blogger.com.br
Pois então, tudo agora é guardado. Aliás, preciso até aderir alguma técnica de seletividade, visto que tenho e-mails guardados de pessoas que não mais me recordo, e até de pessoas que adoraria não mais recordar.
Há uns dias eu estava dando uma de Ghost Busters, eliminando os fantasmas das minhas caixas de correios.
Do fim ao cabo, adorei o blogger, adorei o post e irei guardar com carinho nos meus favoritos para outras visitas.
26.02.08 @ 19:17
Nome: N.Sara
Url:
Aprendi a 'jogar coisas fora' com um amigo da faculdade, o Canelas. Gay até a última gota, numa turma de medicina da UFRJ, assumido e bem resolvido, me ensinou: "Rasga, rasga tudo e bota fora!". Então começei a engatinhar na arte sábia do 'desapego retroativo'. Claro, desapego das fotos dos ex, das cartas dos ex, das lembranças impressas ou lembranças em forma de objetos, sempre exercendo o 'desapego retrógrado'. "Isso, querida, rasga tudo! Limpa a aura! Limpa a alma!". Inicialmente a gente reluta, mas depois entende que é tudo pau e pedra (o coração lembra mais bonito, sem tantos papéis, porque quiçá lembre de ilusões, a gente esquece a parte ruim). Fui 'desapegando tudo'.
Tudo menos os 2000 emails com a palavra amorosa de Ricardo, a quem escrevi cartas 'de verdade', daquelas de colocar no correio e escolher os selos mais lindos. Todos os emails desordenados guardados 'on line' em 2 contas. Desapego uma ova! No dia em que o Yahoo deu tilti e não pude acessar a conta quase chorei a minha memória póstuma!... É, Marcele: "It's evident
the art of losing's not too hard to master though it may look like (Write it!) a disaster."
Inshalah o Yahoo voltou a funcionar. Não quero desapego do presente não...
26.06.09 @ 17:52

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