29.02.08
A arte de assustar - Dez filmes que merecem REALMENTE estar na prateleira do terror nas locadoras

Um momento que me chamou bastante a atenção no filme Juno foi a cena em que o personagem Mark Loring, candidato a pai do bebê na barriga da personagem-título, protagoniza, do alto de seus quarenta anos, uma pequena discussão com a adolescente de 16 sobre quem seria o melhor diretor de filme de terror.Não consegui captar qual o diretor preferido de Loring, sei que é algo no estilo do nosso Mojica (ou Zé do Caixão), já que aparecia um vídeo cheio de decapitações, tripas expostas, cortes profundos em carne humana, etc e tal. Juno, mais light, contra-ataca com George Romero, que em 1968 escreveu o primeiro e revolucionário A Noite dos Mortos Vivos, desde sempre um clássico. Mas não de terror.
Me identifiquei com a cena por dois motivos: a discussão com um adolescente sobre algo relacionado a cinema, música ou literatura é algo em que eu certamente me envolveria. E depois, também tenho grande fascínio pela notável arte que é a de fazer um filme de terror.

O poster de um clássico: A Noite dos Mortos Vivos
Nós, fãs de filmes de terror, não somos, no entanto, um grupo homogêneo. Há diversas correntes, e eu definitivamente não me encaixo na de Loring. Não acho que sangue seja necessariamente assustador – jamais vi como filme de Terror os hoje cult A Hora do Pesadelo e Sexta-Feira 13. Um psicopata com lâminas, pelo menos na tela, não é algo que efetivamente me assuste. Nada que tombe com tiros de revólver pode ser muito preocupante em um filme – ainda que as vítimas destes filmes não primem exatamente pela inteligência. Não, não é inteligência destrancar a porta do quarto e descer para ver “o que foi aquele barulho lá embaixo”.
Quando eu e Marcele começamos a namorar, e lá se vão seis anos, ela curtia mais o gênero. Marcele ainda estudava cinema na UFF e pensava até em fazer um projeto experimental sobre o assunto - acabou mudando de curso e a idéia não foi para a frente.
Mas eu e ela temos a mesma opinião: assustar é algo de tanta complexidade quanto fazer rir.

Damien Thorn, um garotinho que é um verdadeiro capeta
O bom filme de terror deve ter um elemento que Richard Donner, do primeiro A Profecia (The Omen), de 1976, soube explorar com maestria – e Stanley Kubrick, o gênio, levou às últimas conseqüências em O Iluminado (The Shining), de 1980. Nos dois filmes, o diretor não deixa você ver alguma coisa direito. A câmera pega de relance o túmulo onde está a verdadeira mãe de Damien. A câmera pega de longe as gêmeas no fundo do corredor longo e acarpetado. Nos dois casos, a ambientação, a tradução do local para o espectador é simplesmente magistral: o som da laje sendo arrastada em A Profecia nos diz, sussurrando, “Sim, eles estão em um cemitério abandonado – tem coisa mais lúgubre que um cemitério abandonado e desativado? – em um fim de tarde e já está escurecendo”. O carpete fazendo barulho quando o garotinho de O Iluminado passa com o velotrol em cima nos diz, “Sim, só está fazendo este barulho neste hotel gigante e isolado entre as montanhas e qualquer barulho ou visão pode nos assustar, a todos”.
Como bons espectadores, ouvimos estes susurros e sentimos a alma gelar nos momentos cruciais.

Jack Nicholson empolgadão, Shelley Duvall nem tanto
Sendo que em A Profecia, Donner ainda contava com a sonoplastia de Jerry Goldsmith, que compôs em latim um canto horrendo chamado Ave Satanis. Me lembro que, por muitos anos, ainda criança, achava que o coro era Carmina Burana – mas, sinceramente, perto do que é cantado em The Omen, Carmina Burana é música para trio elétrico no Carnaval baiano.
Basta dizer que em dado momento, o cão dos infernos, um rotweiller, que tomava conta do filho da besta, tem seu arfar confundido com os primeiros acordes de Ave Satanis. Catzo. É um negócio sério, The Omen.
Ao ver a refilmagem de The Omen outro dia no Telecine, sinceramente, achei que fosse um episódio de Supernatural – não há sequer Ave Satanis no momento em que o embaixador volta à casa para pegar as facas sagradas.
Outra coisa que o bom filme de terror tem de ter é escuridão conjugada com solidão. Massacres dentro de trailers iluminados ou drive-ins com dezenas de adolescentes são, para mim, comédias. Outro dia vi um dos filmes da série Premonição e tem uma cena em que duas adolescentes pagam peitinho e morrem tostadas numa máquina de bronzeamento artificial. Beira a comédia, a cena – se não terminasse direto no enterro das duas, daria até para rir.

"Eles são nossos amigos, Rose!"
Além da escuridão somada à solidão dos personagens, o filme de terror precisa ter uma câmera que respeite a casa dos outros. Como em O Bebê de Rosemary. Roman Polanski nos dá uma aula de cinema neste magistral clássico do horror, colocando a câmera sempre um cômodo antes da cena naquele belo apartamento antigo do Dakota. Rosemary sempre entra em um cômodo vindo do corredor e, bom, a câmera está em um outro para poder captar bem isso. E aí temos de novo o elemento solidão, quando o diretor nos passa a impressão de que todos estão em uma conspiração contra a personagem pela qual torcemos, vivida por uma angustiante Mia Farrow.

"Josh? Joooosh? Josh? Joooooooooooosh!!!"
Talvez o melhor símbolo da diferença entre filme de terror e filme de terrir (ou filme de suspense/violência como a excelente série Jogos Mortais) esteja em A Bruxa de Blair e A Bruxa de Blair 2. O primeiro, um vídeo magistral na minha opinião, que me convenceu a, se um dia produzir um filme de terror, contratar um psicólogo para ajudar no roteiro. A Bruxa de Blair, filme muito atacado na época, explora com agilidade única todos os fatores de um bom filme assustador: a luz de lanterna jogada em um mato escuro, criando a expectativa de algo aparecer, os gritos dos amigos vindo de lugares inalcançáveis, uma casa com manchas na parede mas que a gente dificilmente vê o que é, cenas mal esclarecidas, tensão, angústia, expectativa o tempo todo, sons inexplicáveis como choro de bebê (convenhamos, à noite, um choro ou risada de bebê no meio do mato é de matar), movimentos não esclarecidos, enfim, uma série de eventos assustadores sem que jamais seja mostrada uma cena de violência sequer. E, claro, com aquele componente da cascata marqueteira, de que o vídeo tinha sido “achado” no meio do mato.
Aí fazem o segundo: com roteiro linear, historinha, cenas de feitiçaria mesmo, efeitos especiais. Um lixo, incapaz de assustar uma criança de dois anos.
Terror é isso: algo que você não vê. Algo que faz seu cachorro latir para o vazio. Se você vê e tem sangue, cortes, etc, é terrir ou churrascaria rodízio.
Seguem aí meus 10 preferidos:
1- A Profecia, de Richard Donner
2- O Iluminado, de Stanley Kubrick
3- O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski
4- O Exorcista, de William Friedkin
5- A Profecia 2, de Don Taylor
6- Sexto Sentido, de M.Knight Shyamalan
7- A Bruxa de Blair, de Eduardo Sanchez
8- Terror em Amityville, de Stuart Rosemberg
9- As duas vidas de Audrey Rose, de Robert Wise (não achei o clipe no YouTube)
10- Nightwatch, de Ole Bornedal - este último, filme fraco mas que tem um detalhe que merece entrar para qualquer lista, já que é uma aula de como provocar terror: Ewan McGregor é um guarda-noturno de um necrotério e, para comprovar que está atento, de hora em hora tem que ir até a sala dos mortos (de madrugada), sozinho e virar uma fechadura com uma chave que só o guarda-noturno tem. Para isso ele tem de atravessar a sala toda. Para que ele tem de ficar atento? Porque “se houver algum barulho na sala dos mortos ele tem de ir checar”. Brrrrr....ehehhehe.
27.02.08
Wonderful tonight - A Festa Perfeita

Após longa ausência, causada por diversos compromissos sociais e anti-sociais, eis que volto a escrever no Eclipse. Claro, não é um fato tão aguardado e nem faz tanta falta assim – é apenas um blog. Tentamos, é claro, atualizar todos os dias. Nem sempre conseguimos. Mas é uma vitória quando por uma semana inteira atualizamos diariamente. No caso, estamos há quase dez dias sem atualizar, pelas minhas contas. É no mínimo motivo para advertência grave por parte do nosso CEO, o Edney Souza. Educado e cordato que é, nem manda a devida bronca. Mas certamente o Eclipse deixa de cumprir sua parte no contrato quando a preguiça domina os dois escribas – marido e mulher – desta forma.
Volto ao Eclipse para ser singelo. Na verdade, volto para ser até utópico – por que não? Já que um dos motivos da minha ausência no fim de semana (quando há mais tempo para atualizar) foi exatamente a festa da utopia. Sim, eu e Marcele, no sábado à noite, fomos à festa tecnicamente perfeita, aquela que busco há décadas em vão. Só havia dois defeitos, sobre um falo agora e sobre outro falarei mais adiante. Um dos defeitos estava logo de cara: com exceção da Marcele, claro, não havia nenhum de meus amigos. Para não dizer “nenhum”, digo que a mulher de um amigo que não vejo há anos estava por lá – o moço ficou em São Paulo, onde mora o casal, cuidando da herdeira.
Mas era fato: tanto eu quanto Marcele não tínhamos amigos na festa, estávamos cumprindo um compromisso social. Por questões de privacidade, não digo qual e por quê. O que importa é saber a descrição da festa.
Em primeiro lugar, as instalações, absolutamente perfeitas para um casamento. A temperatura oscilava entre agradáveis 18 e 21 graus. A noite de sábado, antes da chuva da madrugada, estava enluarada. O espaço era vasto e para quem não havia conseguido mesas grandes redondas havia uma espécie de “barzinho” com bancos altos e uma mesa alta para apoiar os copos.
E que copos.
Primeiro veio champanhe, servida em baldes de gelo. Viúva Cliquot. Garrafas e mais garrafas. Denunciei minha verdadeira classe social e meu terno de R$ 250 ao partir para cima da Veuve Cliquot como um flanelinha para cima de uma van prestes a estacionar. Ali, é batata: ao virar a primeira taça de champanhe (você faz isso porque sabe que tem outras) todo mundo fica sabendo que você é pobre.
Canapés (a comida de cera, poderia ser decorativa até), salgadinhos espetaculares e diversos forravam o estômago. De repente, eis que passa o uísque, igualmente acompanhado de baldes de gelo em profusão e garrafinhas de água mineral. Declinei do uísque porque já sei o que costuma acontecer. É incrível o quanto a idade traz serenidade e acalma o temperamento. Eu não ter detonado uma garrafa inteira de Johnny Walker na festa de sábado é uma demonstração tão grandiosa de amadurecimento quando uma pessoa normal se pós-graduar em Matemática Nuclear no Massaschussets Institute of Tecnology. Mas eu já sabia que a ressaca iria exigir de mim no mínimo uma traqueostomia.
Parti então para um bonito balcão repleto de frutas cortadinhas, geladas e com açúcar e....vodka. Nem vi a marca. Talvez fosse Smirnoff mesmo, o que não é mau, pelo contrário. Comecei a minha experimentação gustativa: caipivodka de morango, caipívodka de abacaxi, caipivodka de caju, caipivodka de limão. Gostei mais da de morango. Repeti. Até esnobei a Skol de garrafa grande que chegava em profusão a uma mesa grande da festa.
E a Viúva Cliquot continuava. Em dado momento, foi servido um jantar. Absolutamente magistral: ravióli de ricota ao creme de alho com filé acebolado, salada e batata rösti. Tudo feito com o esmero de um Celidônio.
Depois de uma lauta refeição, retornei aos trabalhos com a champanhe mesmo, já que meu estômago e meu fígado começaram um debate digno de Carlos Imperial e Gilsse Campos naqueles programas das tardes na CNT.
Marcele, ali pertinho, sempre, bebia champanhe devagarzinho. E eu a olhava. Ela mal me dava atenção, a danada, conversando e ‘fazendo social’ com as outras pessoas da festa que nos conheciam. De vez em quando, dançávamos um pouco. Ah, vale registrar: o DJ tocou rock and roll, basicamente o mesmo repertório que eu costumava usar em festas nas noites do Rio (com exceção, é claro, de músicas do Nirvana, Rory Gallagher, Stones e The Who que, creio, cairiam meio mal num casamento).
Senti falta dos meus amigos, claro, à medida que o porre ia me aproximando daquele estado em que Syd Barret compôs “The Piper at the Gates of Dawn”. Mas fomos curtindo muito a festa.
Até que em dado momento veio o segundo motivo pelo qual a festa não estava 100% perfeita, algo que eu percebi em um relance: as mulheres.
Eu percebi, curiosamente, que para a festa ser perfeita em tudo eu teria que pegar uma mulher. Sim, sim, havia dezenas de mulheres solteiras, lindas, de vestido, bêbadas, numa noite linda. Este pensamento me pegou de repente, me fazendo sentir estranho, como se de repente eu voltasse a um tempo.
E aí lembrei que tempo era aquele: era um tempo em que, sim, a gente até “pegava mulher”, mas nas raras vezes em que isto acontecia, bom, era divertido mas não feliz. Funny but not happy – o inglês ajuda mais neste caso. E isso nas raras vezes – afinal, eu percebi que, mesmo estando sozinho ali naquele casamento, eu não “pegaria” mulher nenhuma. Mesmo que eu fosse solteiro.
Nessa hora eu estava sentado à mesa alta, com o cotovelo encostado, observando todos dançando. Ao meu lado, um homem de seus 60 anos e mais adiante um jovem de 24 ou 25 anos. Todos conversando sobre a decisão do dia seguinte entre Flamengo e Botafogo. Os dois tinham suas amadas na festa. O mais velho, casado e feliz com quatro filhos. O mais novo, namorando firme.
E eu estava ali com a Marcele. Me quedei, mas não me sentindo infiel por ter pensado nas mulheres da festa. Me quedei porque a minha vida já era uma outra e por um momento pareceu não ser. A minha vida, muito melhor, a minha vida. Olhei para a Marcele inteira, com a taça de champanhe na mão, a vi falando. Ora, é a minha menina. A Marcele é o que aparece quando se aperta a tecla “home” na minha vida. Não à emoção da caça, mas nada de dor quando o dia é do caçador. Marcele me fez livre.
Vieram os doces – incríveis – e nós comemos bastante deles e fomos embora. Pensei que eu e Marcele adoramos os doces. Fomos embora com a alma leve, eu sabendo que, sim, tinha sido uma festa perfeita, sem defeitos a não ser o da ausência dos meus amigos. Mulheres? Eu tenho a minha, perfeita, com todos seus defeitos e virtudes, com seu sono no sofá, com suas manias e medos que me cativam, com seu sorriso inimitável. E, acima de tudo, com o amor todo que ela me dá. A festa eterna que é a vida com Marcele.
Ela me fez gostar mais de mim.
Wonderful tonight (Eric Clapton)
(by eric clapton)
Its late in the evening
Shes wondering what clothes to wear
She puts on her make up
And brushes her long blonde hair
And then she asks me
Do I look alright
And I say yes, you look wonderful tonight
We go a party
And everyone turns to see
This beautiful lady
Thats walking around with me
And then she asks me
Do you feel alright
And I say yes, I feel wonderful tonight
I feel wonderful
Because I see the love light in your eyes
And the wonder of it all
Is that you just dont realize
How much I love you
Its time to go home now
And Ive got an aching head
So I give her the car keys
She helps me to bed
And then I tell her
As I turn out the light
I say my darling, you were wonderful tonight
Oh my darling, you were wonderful tonight
19.02.08
Tropa de Elite está de parabéns, mas não deixe de ver Juno por causa disso
Acredito que tudo é cíclico. No futebol, por exemplo, um conhecido meu desenvolveu a tese – muito sábia, por sinal – de que os ciclos correspondem ao time que no momento tem rivalidade com o Flamengo. E é fato: o meu pai tinha implicância com o Botafogo, eu cresci tendo com o Fluminense e posteriormente com o Vasco, e hoje estamos voltando ao Fluminense, a cada ano que passa. O cinema também é a mesma coisa: houve o ciclo de westerns estarem na vanguarda da Academia, com John Ford, George Stevens e a posteriori Sam Peckimpah. Houve o ciclo da máfia e dos gângsteres, puxado pelo sucesso estrondoso do Godfather e dos dois sacanas Paul Newman e Robert Redford em obras-primas como Golpe de Mestre e o maravilhoso Butch Cassidy. E houve o ciclo estelar, em que a saga Star Wars de George Lucas logo deu origem a Galáctica – Astronave de Combate e aos seriados subseqüentes.

Hoje, pelo que entendi ao ver o excelente filme "Juno" – uma coqueluche no Rio de Janeiro e infelizmente em poucas salas e sessões lotadas – estamos vivendo um novo ciclo, que é o do cinema bem-humorado, inteligente como Seinfeld, irônico e cínico como Rob Gordon (de Nick Hornby), que trata de um tema excepcional: crescimento. Sei que voltaremos ao ciclo de Tropa de Elite, a monumental obra de José Padilha, mas creio que um tema "interior" para o cinema eleva a Sétima Arte à categoria de bem espiritual.
Obras de Jason Reitman (que escreveu e dirigiu o ótimo “Obrigado por fumar”) e da turma de Judd Apatow (“Ligeiramente grávidos”, “Superbad”, “Virgem de 40 anos”) mostram que é o pacote é da melhor qualidade. Pela primeira vez, Hollywood vai falar das nossas vidas – ainda que não necessariamente tenhamos 15 anos ou tenhamos chegado aos 40 anos “invictos”.
“Juno” é uma pequena obra-prima, um filme extraordinariamente simples sem grandes firulas. Ellen Page, menina que atua em X-Men 3 como Kitty Pride, é Juno MacGuff, jovem estudante de 16 anos que teve uma transa com seu amigo Paulie Bleeker (Michael Cera, de Superbad, e, bom, aconteceu: ficou grávida.
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Os dois conversam e “concluem”: gravidez é algo que acontece com nossas mães e professoras, e, tudo indica, ao fim dela surge...um bebê.
Juno deixa Paulie de lado, já que ele se demonstra estupefacto demais, e resolve decidir pelos dois: vai a uma clínica de abortos (legalizada). Paulie já não está mais nem aí. Na verdade, os dois entendem que não querem ainda ser uma família ou mesmo um casal de namorados fixos. O que reforça ainda mais em Juno a intenção de ser pragmática.
Juno decide não fazer o aborto – e o motivo de sua decisão é até divertido (não vou estragar o filme contando). Decide então, ainda com um mês de gravidez, arrumar um bom casal para doar o filho quando ele nascer. Conhece, por meio de anúncio em jornal, o casal Loring – Vanessa e Mark. Bem sucedidos, habitantes de uma casa de dois andares, os dois tentaram um filho por cinco anos e decidiram, num rompante, colocar o anúncio no jornal, sem esperar muito resultado. Até que a devastadora Juno surge em suas vidas, ao lado de um pai sensacional, vivido por J.K.Simmons, um daqueles atores em que a gente quase não repara. Graças ao IMDB, no entanto, lembrei de que filme conhecia o rosto dele: ele é o J.Jonah Jameson, tresloucado editor do Clarim onde trabalha Peter Parker (um sujeito meio nerd, fotógrafo, que tem como hobby vestir uma roupa estranha, esguichar teia pelos pulsos e pular de prédio em prédio).
Todos estes personagens citados compõem de forma simples e sem mistérios o espetacular drama de Jason Reitman – o texto de Juno é da roteirista Diablo Cody. Que, aliás, merece uma menção especial, uma pequena apresentação que pode até explicar a ética sempre pragmática de seus personagens. Diablo, ou Brooke Busey, morava em Chicago até que conheceu John, seu atual marido, pela Internet (nada tenho contra relacionamentos que começam pela Internet). Por amor, ela se mudou de Chicago para a cidade onde John morava (ignoro qual seja). Lá, resolveu ser stripper por hobby, enquanto trabalhava em uma agência de publicidade à tarde. Logo teve ótimo desempenho e ganhou uma promoção, que implicava em trabalhar de manhã.
Ela e John então se reuniram, conversaram, para decidir o que seria o melhor para o casal. E decidiram: Diablo largou a agência e passou a tirar a roupa em público inclusive durante o dia. Meses mais tarde, encarou uma agência de sexo por telefone, mas logo voltaria a ser stripper. Largou para se dedicar aos roteiros e acabou escrevendo a pequena obra-prima.
Costumo recomendar um personagem específico quando escrevo sobre cinema. No caso, peço atenção para o personagem Mark Loring, que vem a ser o marido do casal que vai adotar o bebê de Juno.

Diablo Cody com a baixinha Ellen Page
Mark tem uma profissão lúdica (como Diablo Cody), que é a de compor jingles. Tem um estúdio em casa, mas suas coisas ficam num quartinho pequeno, como se não fizessem parte da casa que seu dinheiro ajudou a comprar. Coisas da Vanessa, que também não gosta que ele fique vendo seus filmes de horror, hábito bem adolescente que ele compartilha com Juno, fã incondicional do horror de Dario Argento.
Mark é um adolescente de 40 anos. Talvez como Paulie, que correu da raia. Que é como Juno, parece evidente. Os dois trocam CDs e DVDs e passam horas ao telefone.
Me vi em Mark, e senti seu medo, admito. O filme é tão bom que os olhos do ator que vive Mark (Jason Bateman) transmitem sua insegurança, sua angústia.
Um filho. Uma pessoa nova que você vai fazer. Brrrr. Sinto a alma cair num abismo ao ter consciência de que ainda em 2009 vai existir alguém novo que eu vou fazer.
Mark Loring, eu te entendo. Mas tenho certeza: DVDs de filmes de horror podem ser perfeitamente compatíveis com bebês andando pela casa.
É só crescer, como Juno e Paulie fizeram no filme. Vejam e digam se não é aquilo mesmo.
Juno é um filme que ninguém deve deixar de assistir.
15.02.08
Bujica, o eterno caçador de Marajás

Hoje peço licença neste blog de casal para falar do mais importante de todos os assuntos menos importantes: o futebol. Na verdade, ao assistir os dois vídeos que divulgo neste post, o leitor vai ter a impressão de que não há vida além das quatro linhas.
É o futebol que muda o sentido dos ponteiros do relógio (acho que daqui a alguns anos, um garoto de 10 anos vai me perguntar, "Tio, o que é ponteiro de relógio?", mas tudo bem). O ponteiro deixa de ir para a direita e vai para dentro do tempo, do relógio, faz com que tempo, de inexorável passe a caber em uma caixinha da memória.
Em 1989, a imensa torcida do Flamengo sofreu um choque com a ida do então ídolo Bebeto para seu maior rival, o Vasco da Gama. Era a supremacia do dinheiro, a primeira grande vitória do dinheiro sobre o futebol - Bebeto não renovara contrato e seu passe estava à disposição de quem pagasse por meio da Federação Carioca de Futebol. Foi feito, e aí veio o choque, o primeiro grande choque de uma série que já não choca mais: hoje em dia é normal mesmo o cara ter passagem pelos quatro grandes e não ter identificação com nenhum.

Bujica marcando um dos dois gols fatais
A expectativa para o primeiro clássico com os dois jogadores era grande. A Sele-Vasco passou a semana menosprezando. Até que, do anonimato, o menino que viera de Marataízes foi escalado e fez dois gols de oportunismo.
Bujica depois seria vendido, teria uma carreira complicada, por times do interior brasileiro, além do Peru e da Venezuela, mas volta e meia seria lembrado pelo feito daquela tarde. Foi naquela tarde que, graças a Bujica, foi possível entender que a instituição é maior. Foi-se Bebeto, mas o Manto Sagrado pôde, por um dia pelo menos, encontrar um substituto à altura. Por um instante, naquele ano de 1989 em que o candidato a presidente vitorioso consagraria o bordão "Caçador de Marajás", Bujica daria a resposta ao poderio financeiro. O que viria depois em sua carreira não importa.


Flagrantes da infância de Bujica no Espírito Santo
Fato é que um dia, um jovem vindo do Espírito Santo passou pelo Maracanã lotado, fez História, vingou uma Nação e depois voltou a seu anonimato. E lá ficaria, se não fosse um grupo de malucos (eu incluso) que, tendo batizado como Fla-Bujica sua lista de emails, resolvesse trazê-lo, sozinho, de longe, justamente no dia de seu aniversário - 21 de janeiro - para uma festa com completos desconhecidos. Bujica ousou fazer isto, e nos deu momentos de grandiosa emoção: vibramos juntos vendo o tape do jogo, cantamos parabéns para um Bujica que pela primeira vez se viu comemorando o aniversário só com pessoas que ele nunca tinha visto e levamos o ídolo ao palco onde ele nunca mais quis voltar - a Gávea - justamente por ter sido vendido de forma apressada ( o dinheiro, o dinheiro...).

O cineasta Pedro Asbeg filma o artilheiro, na arquibancada da Gávea
Deste grande dia 21 de janeiro de 2006 nasceria o filme O CAÇADOR DE MARAJÁS, de Arthur Muhlemberg e Pedro Asbeg, uma pequena obra-prima sobre futebol e o quanto ele pode ser importante.
Mesmo entre as coisas mais importantes da vida.
Esta é a parte 1:
Esta é a parte 2:
12.02.08
Cortar despesas: a Síndrome de Leão Camarada da classe média que aperta o cinto

Uma das coisas interessantes do joguinho viciante Jumpers for Goalposts é a parte do “Socialize!” para o jogador de futebol, que nos mostra o óbvio: para ter vida social é preciso ter grana. Hoje em dia, quando encontro alguém e essa pessoa me diz, “Pô, você tá sumido!”, eu costumo responder, “Sumido nada, tou é sem dinheiro”. O problema nem é meu rendimento atual, e sim o fato de que mudei de emprego. Antes eu ganhava bem mais, mas no entanto não tinha benefício algum, nem FGTS, carteira assinada, vales, etc. Agora ganho um pouco menos, mas com todos os benefícios a coisa quase equilibra. Sem contar as condições de trabalho infinitamente superiores e a mentalidade empresarial absurdamente mais progressista e humanista. Digamos que eu quase saí de uma senzala direto para um cargo no Google. Mas na troca de emprego, minha renda sofreu queda devido a um mês que demorei para a transferência. Ainda fui socorrido pelo 13º proporcional – do atual emprego, claro, já que o antigo não me pagou nem mesmo o 13º do ano passado. Que dirá o deste ano. Mas isto será assunto para a Justiça do Trabalho.
O que trato aqui é de Adaptação. É um espetáculo interessante, o da readaptação de um casal a novos orçamentos. Ainda mais um casal formado por Gustavo e Marcele – pessoas que precisam de livros, música, filmes e vinhos para viver. A parte dos vinhos, reconheço, é 99% minha.
Readaptar o padrão de vida inclui o reconhecimento de que uma despesa você não vai conseguir cortar: o aluguel. Não há como chegar para o proprietário do imóvel (principalmente se este tem 75 anos), dar aquele cumprimento estilo “pós-cesta de três pontos na NBA” e falar, “pô, aí, troquei de emprego, será que não rola uma cortadinha no aluguel, não?”. Creio que nisto há consenso. Logo, o aluguel será mantido mas você vai abaixar o padrão de vida.
O engenheiro Cobra certa vez cunhou a frase definitiva para Queda de Padrão de Vida em um Supermercado: “É quando você deixa de comprar doce de leite nas gôndolas e passa a comprar na seção de laticínios”. No post anterior eu creio que encontrei uma nova definição: quando o jantar depois do cinema (uma instituição quase tão milenar quanto o Matrimônio) passa a ser no McDonald’s em vez de restaurantes more expensives como La Fiorentina ou Pizzaria Stravaganze.

Olhaí: a parte "ASS" do Assolan no nosso armário de limpeza
Outro sinal de que o casal acordou para a realidade financeira do país é: “Ficar feliz quando abre Prezunic perto de casa”. A ida de um casal a um Prezunic é uma experiência antropológica que deveria ser filmada por um diretor do Discovery Channel. Aliás, perdem tempo os psicólogos que ainda não elaboraram teses sobre o comportamento de um homem e de uma mulher, casados um com o outro, diante das gôndolas de um supermercado. Se me detenho por mais do que cinco minutos nas gôndolas de birita, Marcele por sua vez se encanta nas de badulaques que a gente nem sabia que precisava – digamos, tipo “descaroçador de kiwi” (se é que isto existe). Ambos damos importância às gôndolas de material de limpeza. Em supermercado popular, tendem a ser muito mais baratos. Ali se sente bastante a readaptação, quando optamos pelo detergente de pia que está na faixa de preço “Abaixo de um real”. É a Síndrome do Leão Camarada: adeus, Limpol. Viva o Sabão Neutral Pastoso e o suco de Maracujá Pindorama!
Para quem não lembra: nas décadas de 70/80 havia um supermercado chamado Leão aqui no Rio. Uma espécie de antepassado do Guanabara e do Prezunic, os supermercados mais populares. O Leão Camarada, como era conhecido, tinha uma promoção mediante a qual você deveria ter um dentre diversos produtos da cesta básica deles, tinha que ser da marca anunciada por eles. Duas delas eram estas: sabão Neutral Pastoso e Suco de Maracujá Pindorama. A meu ver, marcas mais obscuras e difíceis de encontrar do que aquelas que anunciavam no programa do Alborghetti (alimentos Zaeli! Frigorífico Alvorada! Kuerten Madeiras!).
Para quem não conhece, um pouco de Alborghetti
A Síndrome de Leão Camarada passa a ser exatamente isto: no supermercado, em vez de comprar Bombril, se compra Assolan. Em vez de Coca-Cola, Baré. No lugar de cream cracker Piraquê, aquele em pacote grande que geralmente tem o nome do supermercado. Deixa-se na gôndola o requeijão Poços de Caldas e se abraça o Itambé como se fosse uma tábua de salvação.

Anúncio alternativo de Velho Barreiro
E, mais importante: adeus, Stolichnaya, bem-vindo, Velho Barreiro. Isto, claro, se eu bebesse destilados. Como não bebo, vou mesmo é apelar para o Sangue de Boi garrafão cinco litros.
Só não sei se existe Engov genérico.
11.02.08
Cães e filhos

Vou cometer um ato de indiscrição aqui e revelar um plano do casal: a gravidez marceleana ainda este ano, se as coi$a$ se encaixarem direito. Na verdade, já era para ter saído essa gravidez, mas vida de jornalista não é fácil – uma mudança de um emprego onde levei calote (e tive de sair sem que me pagassem uma dívida que fez seu primeiro aniversário ontem) fez com que tivéssemos de segurar a onda em vários pontos. Nosso último fim de semana, por exemplo, foi um primor de contenção de despesas: no sábado, saímos de casa para eu cortar o cabelo. Comprei dois DVDs, o director’s cut de Blade Runner (um dos melhores filmes superestimados de todos os tempos) e a comédia romântica (mas bem bacana) Letra e Música, com Hugh Grant e Drew Barrymore.
No domingo, fomos ver Meu nome não é Johnny (ótimo filme, diga-se) e na saída, em vez de irmos a um restaurante, comemos no McDonald’s. Me lembrei dos tempos de adolescente, onde a grana dava era pra isso mesmo: cinema e McDonald’s.
Tudo isto, de economia, é visando ao terceiro integrante do nosso time, que já tem mais ou menos nomes definidos. Joaquim, se for homem, Nelly, se for mulher. Ambos os nomes estão sujeitos a mudanças. Beatriz é um nome muito bonito de mulher, assim como Zico ou Rondinelli são nomes espetaculares para homem – mas quanto a estes, curiosamente, Marcele oferece certa resistência. Marcele acha que “Zico” não é um nome, e sim um apelido ou corruptela de “Arthur”. Eu tento explicar a ela que Deus também tem quatro letras e não é apelido, mas, enfim, vá entender as mulheres.
Pois em meio a todos estes planos – que vão inclusive paralisar o Eclipse por algum tempo, mas daqui a alguns meses, não por enquanto – me lembrei de que os planos de engravidar adiaram, na cabeça da Marcele, um outro plano: ter um bicho de estimação. Para muita gente, é algo que implica na dedicação e no amor que se daria a um filho. Não à toa há casais que se intitulam "pai" e "mãe" diante de um animal de estimação.
Os amores são diferentes, claro. O amor pelo filho é amor pela luz. Ter um filho é como usar um indulto que Deus nos dá para passar um tempo fora do gigantesco campo de concentração que é a mortalidade humana. Argh. Que frase terrível.

Marcele (direita) com um bicho feroz e ameaçador
Me lembro, no entanto, que Marcele quis mesmo um bicho. Aliás, ainda quer, mas depois dos filhos. E nada de peixes ou pássaros. Aliás, principalmente nada de peixes - e isto é por minha conta. Já tive aquário duas vezes e sei que é preciso ter paciência de Jó e estômago de avestruz. Paciência de Jó para encarar a troca de água, trabalho equivalente muitas vezes a construir um cômodo novo na casa, se formos comparar a quantidade de energia gasta. E estômago de avestruz para tirar peixes mortos da água, algo que sempre me desagradou. Não gosto de peixe. Nada contra observá-los, muito pelo contrário, é relaxante. Mas peixes mortos, sei lá porquê, tenho algum bloqueio psicológico que me faz ter repulsa até a esbarrar em suas peles. Se você algum dia limpar um peixe perto de mim, com as mãos, saiba que estará praticando uma atividade que, para mim, causa a mesma sensação que teria em você se eu, de uma hora para a outra, invertesse meu corpo todo, colocando para dentro a minha pele e para fora meus órgãos, vísceras e capilares.
Pássaro? Tive um canário belga no passado. Passado muito passado – em um tempo no qual Supra Sumo era novidade, e não expressão da língua portuguesa. Um dia, morreu o canário belga. Para mim, “morrer” passou a ser algo equivalente a parar de cantar e ficar deitado no chão de uma gaiola. Meus pais ou a empregada retiraram o corpo do pequeno canário antes que eu, criança, descobrisse que “morrer” também significa “feder e se decompor”. Pois bem. Não vi o enterro, mas soube que o canário foi jogado...no lixo.
Argh.
Depois dessa informação, decidi não ter mais pássaros, até porque me causa extrema agonia ver um pássaro engaiolado dando pulinhos em poleiros, em vez de estar batendo as asas vigorosamente e despejando fezes nas cabeças das pessoas sem sorte.

Bom, depois deste trauma do pássaro, é normal eu nunca ter desejado cães ou gatos lá em casa. Eu confesso a vocês: não sei o que fazer diante de um cachorro morto, PRINCIPALMENTE se for meu. E provavelmente vou me apegar tanto ao bicho que sua morte será o equivalente para mim a uma queda para a segunda divisão do Rubro-Negro da Gávea. Não. Não tanto assim. Digamos que seja equivalente à morte de um parente.
Calma, Marcele, eu estou brincando.
Um cachorro morto pode ser, sim, equivalente ao mal maior, que é a morte de um parente. Um cão doente já causa extrema agonia. E descobri isto ao conversar com uma moça que trabalha no mesmo jornal que eu, uma conversa via google talk, que me fez entender um pouco mais sobre as histórias de amor que cães e gatos podem gerar. Vamos chamar a moça de Renata (ela me chamava de “chefe” só para encher o saco, eu estava de chefe interino):
- Chefe, se eu conseguir sair mais ou menos no meu horário, eu agradeço. Acabei de chamar a veterinária para ir ver minha cachorra que está em Petrópolis. A caseira disse que ela está mal e vou pegar a estrada, quando sair daqui, para vê-la.
- Pode deixar que eu estou de olho no seu horário canino.
- Tô triste. Amo meus cachorros. Falei para a veterinária que não se preocupasse com os gastos.
- Eu sei, eu sei. Não tenho nenhuma dúvida disso.
- Você não conhece minha história de loucura pelos meus cachorros.
- Não conheço mas percebo. É diferente de conhecer. A gente não sabe do que acontece, mas percebe o suficiente para entender a importância.
- Tem razão. Eram meus e do meu ex-noivo. Ficamos juntos sete anos e, quando terminamos, peguei a ‘guarda’ para mim. Aluguei uma casa em Piratininga, Niterói, só para ficar com eles. Eles estavam na casa dele, em Teresópolis. A casa em Piratininga acabou pesando no bolso e tive de entregá-la. Meu ex-noivo não quis recebê-los de novo até que eu conseguisse um lugar. Disse que agora era problema meu. E uma amiga-anjo acabou ficando com eles em seu sítio, em Petrópolis.
- É uma história forte – eu disse.
- História de amor. Forte como todas as outras – finalizou Renata.
Pelo que pude perceber em Renata, o lance é mesmo com os cachorros. Nada a ver, como eu poderia até supor, com o “preservar de um romance de sete anos por meio dos cachorros”. Nada mesmo. Renata já tem outro namorado e está feliz. Mas sua felicidade tem a ver com os cachorros.
Trabalhando em um jornal, é claro que ela não conseguiu sair, pois teve de acrescentar dados à pauta que eu passei para ela de manhã. Na manhã seguinte, ela chegou nervosíssima. Como é uma criatura muito calma, estava contida. O “áspero” de Renata equivale ao meu supercalmo, ouvindo Mozart e tomando sorvete no ar-condicionado, mas respondendo a uma pergunta sobre algum título perdido pelo Flamengo. Percebi que Renata não se concentrar no trabalho e ia se confundir demais. E dei a seguinte ordem:
- Sua pauta é telefonar para a veterinária e saber como estão seus cachorros. E apurar o máximo possível.
Ela ficou (olhei no relógio do computador) 45 minutos no telefone. Ligou para Deus e o mundo. Acho até que para parentes, falando da doença dos cães (acho que é “cinomose” ou algo assim). No fim, parecia um pouco aliviada.
Ainda não sei como estão os cachorros de Renata. Mas eles me ensinaram muito sobre essa relação de bichos e seres humanos. O amor é quase tão grande quanto o maternal.
Eu diria até que cachorros estão para filhos como o compacto com melhores momentos está para o videotape do jogo inteiro.
Tanto um como outro são enormes responsabilidades. Mas fico com o jogo inteiro, o compacto fica para depois. Que venha a Nelly (ou o Zico).
9.02.08
Quando o tempo vira um abismo e a gente voa em vez de cair

Mariana está grávida. Minha prima, que eu conheci em 15 de fevereiro de 1973, eu então com cinco anos e segurando intrigado um pequeno cartão vermelho com uma estrela pingada no “I” de Mariana. Sei que ela conseguiu umas férias de um mês e veio de Paris para ficar na casa dos meus tios, no interior de Minas – e por extrema consideração e carinho, reservou uns dias para se hospedar aqui em casa. Continua praticamente a mesma pessoa. Ou eu é que não fico tempo suficiente com ela para perceber alguma mudança. O humor, o mesmo de 25 anos atrás. A risada arrastada de sempre. Só que ela deu o passo mais gigantesco de todos, que é trazer alguém ao mundo.

Mariana, pelos idos de 1974, de fitinha no cabelo
A barriga de Mariana já começa a dar sinais de gravidez. Em seu corpo sempre magro, deve ter mostrado sinais com uma semana de gravidez. A irmã dela, Maria Clara, já teve duas filhas. Lindas de tirar o fôlego. Eu achava que a Mariana não iria querer filhos. Talvez um dia ela tenha me falado isso, não sei. Por isso a gravidez dela, além de todos os motivos, me deixou tão maravilhado a ponto de ainda não ter entendido o que aconteceu.
Quando eu soube, imaginei que iria às lágrimas ao encontrar Mariana. Depois esta sensação foi passando, dando lugar a uma espécie de torpor. Aquele que faz a pessoa dizer “A ficha não caiu”.
Eu e Mariana sempre sentimos e percebemos as coisas de maneira extremamente semelhante. Houve quem achasse que nós, primos, seríamos namorados. Volta e meia a gente tinha uma atração física que não era física. O que seria isso? Talvez a “necessidade” de abraçar o próximo sem estar de olho na base 5. É como se eu sempre tivesse 10 anos de idade e ela sempre tivesse cinco. Mas sem as brigas e puxões de cabelos que tivemos nessas idades.

Da direita para a esquerda, Maria Clara e Mariana. A mais nova ainda não havia nascido. Ao fundo, com os braços levantados tentando fazer zona, eu
Estas coisas sempre fizeram os outros pensar bobagens como “vão namorar” ou “que nada, é a prima que ele mais gosta” ou “ele é o primo favorito dela”. Todas estas conjecturas eram uma perda de tempo tão grande quanto fazer um ranking dos melhor cobradores de arremesso lateral no futebol. A questão nunca foi essa, para mim. Nem para ela. A questão é que sempre fomos uma espécie de gêmeos emocionais. O filme que devastou o coração de Mariana é o mesmo que devastou o meu: “It´s a wonderful life” (A Felicidade não se compra), do Frank Capra. Quando assisti, logicamente quem me mostrou foi ela. Viu antes. Como pode? Ora, não “engravidou” antes? Mariana é como um anjo que eu tive de esperar cinco anos – o anjo nasceu no mesmo lugar que eu (a Maternidade Clara Basbaum, em Botafogo) e foi me mostrando caminhos.
A cena que sempre nos fez chorar
Mariana hoje está com um cara que tem nome de jogador de futebol do Hattrick: Nicolas. É o pai da criança. Não sabemos se é menino ou menina. Sei lá por quê cargas d’água, estou com a sensação de que é menina. “Homem não tem intuição”, me disse Marcele rindo, quando estávamos jantando e falando do assunto com o casal. Eu quase citei Jorge Kajuru: "eu não sou homem, sou jornalista". Mas qual o quê. Sempre digo que sou várias coisas antes de ser jornalista.
Ao longo da nossa convivência, das vezes em que nos encontrávamos em alguma cidade do interior ou mesmo no verão aqui do Rio, Mariana me mostrava os namorados. Ou trazia junto, ou falava de, ou arrumava por aqui. Sei lá por que cargas d’água, todos tinham alguma ranhetice. A maior parte, do tipo ciumenta. Não é para menos – Mariana é muito bonita, e ainda tem o azul mais extraordinário que já vi em olhos. Um dia ela se casou. Com um francês. Muito boa gente, extremamente freak, era do tipo popularizado pela Casseta e Planeta: “Eu faço vídeo, e vagabundo é a PQP”. Anos depois, se separava. Sem filhos. Mas logo conheceu o Nicolas. Desde então, já vieram quatro vezes ao Rio. Nicolas foi o único namorado gringo (ela teve outros, inclusive um alemão) de Mariana com quem eu não tentei falar inglês. Curiosamente, por cortesia: Nicolas queria aprender o português e pedia isso. O sonho dele é trabalhar na Petrobrás, no Brasil. Nossa comunicação sempre foi precária. Passei a me comunicar com ele por meio da birita. “Cerveja, Nicolas?”. “Caipirinha, Nicolas?”. “Vinho, Nicolas?”. Ele sabe todos os nomes de birita em português.
A profissão dele: mergulhador. Sua empresa cuida de cabos de comunicação. Em uma época, Mariana estava um ou dois meses sozinha em casa, em Paris, porque Nicolas estava instalando cabos submarinos no Mar do Norte. Eu saquei na hora que tinha chegado o Messias. Alguém que instala cabos submarinos no Mar do Norte, bom, com todas aquelas coisas que o Mar do Norte insufla em nossa imaginação, essa pessoa, definitivamente, serve para Mariana. Era um casal de freaks perfeitinho. Quando não trabalhavam, bebiam. E aqui no Rio, de férias, bebiam o tempo todo. Mariana, claro, muito menos. Nicolas enfiava os dois pés nas jacas. E misturando os tipos de jacas, claro.
Até que veio a gravidez. Essa, que eu ainda não percebi que está acontecendo. Outro dia eu estava tentando pensar na gravidez da Mariana, e tentei localizar o dia em que nós deixamos de ser apenas primos. Em suma, o dia em que percebemos que éramos mais que primos, e sim amigos gêmeos, que sentiam coisas parecidas e percebiam a vida de forma parecida, entendiam (?) a existência como um eterno cuidar de horas e minutos.
Foi difícil. Cinco anos de diferença na idade fizeram com que passássemos um bom tempo trocando tapas e puxões de cabelo. Mas eu acho que um dia, eu com 18 anos, Mariana com 13, todos fora de casa, à noite, em Belo Horizonte, começamos a bater papo. Mais de 10 minutos de conversa eram raros. E ficamos conversando, conversando. E ao fundo, tocava uma música que ela adorava: Stuck on you, do Lionel Richie.
Falamos da música – “stuck” quer dizer “preso”, “ligado”. Começamos a falar de amor, de gente que nos despertava paixões. Fomos iludidos pela música e convencidos a ter saudades de outras pessoas. Naquela noite, o acaso estava nos explicando o que é ser ligado a alguém, e explicando que de maneira nenhuma precisa ser uma ligação carnal, ou de maneira nenhuma emoções se hierarquizam (“gosto mais de” ou “amo mais fulano”).
Voltei para o Rio e Mariana me escreveu uma cartinha. Eu estava aprendendo violão e ela me mandou “Stuck on you” em cifras. No fim, escreve uma pergunta, sobre uma palavra que ela inventara naquela noite, “Termosé”. Curioso é que é francês – numa época em que sequer sabíamos que Mariana falaria outra língua ou teria um namorado francês. Termosé é um termo tecnológico (o que é exatamente eu não sei).
Tecnologia, das ciências exatas. Eu, até agora, sem entender que Mariana está grávida. No dia em que eles foram embora (na verdade, foram embora para Barbacena e só voam para a França no sábado em que escrevo), eu disse:
- Mariana, quero que você saiba que ainda não sei, ainda não entendi isto que está acontecendo, tá?
- Eu também não.
Mais de 20 anos depois, agora sei o que é “termosé”.
Melhor não ver se você não for a Mariana. Tá horrível.
5.02.08
A arte de perder cartas
Alguns dos leitores já leram isso por aqui, mas vou repetir a história: Gustavo e eu nos conhecemos pela internet. Mais especificamente, através de nossos antigos blogs. Eu escrevi um post, ele me enviou um e-mail comentando, começamos uma correspondência eletrônica longa e o resto é a velha história: namoro, noivado e casório.

A parte oculta de tudo é que toda nossa correspondência, com mais ou menos trocentas cartas longas, foram perdidas. Eu gravava no meu computador, ele gravava no computador dele, tentamos fazer backup algumas vezes e até imprimimos alguns dos textos, mas conseguimos realizar a proeza de perder tudo. Absolutamente tudo. Pelo menos, era isso o que eu pensava (e lamentava) até ontem, quando comecei a arrumar nossa estante de livros.
Nossa estante de livros fica na sala e estava completamente abarrotada. E, mesmo abarrotada, ainda não guardava nem metade dos livros que Gustavo e eu temos. Em bagunça, a estante de livros só perde para a nossa estante de DVDs (porque os CDs estão devidamente organizados em uma ordem obscura que o Gustavo inventou, e ele sabe exatamente onde cada álbum está – é assustador). Resolvemos pegar alguns dos livros que não consultamos sempre ou que prezamos menos para guardá-los no armário. Mas antes de alimentarmos o monstro que vive dentro de nosso guarda-roupa, tratamos de examinar os papéis que tínhamos colocado entre as folhas, para não corrermos o risco de perder nenhum documento importante (minha carteira de motorista está dentro de um livro do José Eduardo Agualusa – ou do Dennis Lehane, eu não lembro – que emprestei para uma amiga; ainda bem que emprestei, porque acreditei em tal ponto que nunca mais a encontraria que já tinha tirado a segunda via).
Foi no meio de algum desses livro que encontrei uma parte ínfima da correspondência em que Gustavo e eu nos conhecemos. As folhas estavam amassadas, a tinta de impressão já estava se apagando, mas lá estavam cinco e-mails históricos: quatro eram dele, um era meu. Pelo menos vai ser algo que poderemos mostrar aos nossos filhos. Eu já estava há algum tempo tentando me convencer de que perder cartas -- ainda que eletrônicas -- de amor não era nada demais ou algo grave. Na verdade, na verdade, eu venho tentando me acostumar a perder pequenas coisas, tempo, continentes e até mesmo pessoas. Não tenho tido muito sucesso, por mais do que eu tente me convencer do contrário. E se alguém achou que eu estava plagiando alguém com essa história de "perder continentes", provavelmente esse alguém já leu a poesia "One art", da Elizabeth Bishop:
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.
2.02.08
A pane do Eclipse

Deu pane no Eclipse. Aliás, num período que varia de quatro a seis meses, pelo menos uma vez o Eclipse sofre pane. Na verdade, nem falo do blog, localizado aqui no mundo virtual e imprescindível, que ficará intocado no limbo da web até 1000 anos depois que eu passar pela Terra. Nada disso. Deu pane mesmo é no computador que produz o Eclipse.
Para quem não sabe –e é bom que os apreciadores de cervejas artesanais e esteiras de palha hippie o saibam – o Eclipse também é artesanal, totalmente feito em casa. Afinal, a possibilidade de eu ou a Marcele conseguirmos escrever um texto nos computadores dos nossos trabalhos é tão grande quanto a de um sujeito fritar um ovo enquanto cobra um escanteio. Eu escrevo textos, é verdade – mas jornalísticos e, mesmo assim, de memória rápida, tênue. Uma libélula costuma durar mais tempo do que o efeito de um texto que eu tenha escrito para qualquer jornal do mundo (e pasme: já escrevi sobre a Seleção Brasileira para um jornal da Costa Rica). A bem da verdade, os textos da Marcele no Eclipse costumam deixar impressão mais duradoura do que os meus textos escritos há uns seis anos atrás, em que eu analisava o poderio defensivo de uma zaga formada por Gilmar e Leonardo Valença (adianto aos senhores que é Nenhum).
Voltando à vaca fria, o computador em que produzimos o Eclipse, o de casa, pifou. E não pensem que foi aquela pifada light, em que de repente surgem avisos de Windows dizendo que a memória virtual está gasta. Nem mesmo aqueles avisos informando que é preciso reinstalar o drive (a meu ver, algo equivalente a dizer “Ligue para nosso representante em Marte”). Nada disso. Marcele estava escrevendo e de repente, puf!, o computador desligou e assim permaneceu. Assim mesmo.
Eu e Marcele somos apenas ½ nerds, isto é, da “porta” do computador para fora, sabemos bastante (ela muito mais do que eu, claro). Sabemos o que é o Facebook e seus milhares de recursos chatos e de sexualidade suspeita (acho esquisito um homem brincar que é um vampirinho e um zumbi e “morder” o outro via Facebook – com todo respeito), sabemos dos recursos do YouTube e temos contas no Orangotag, o site de relacionamentos para quem curte séries. Já aprendi a fazer podcast, embora nem sonhe em postar aqui no Eclipse.
Agora, quando o negócio é interno, me sinto tão à vontade quanto ficaria dentro de uma trincheira diante de um soldado ferido a tiros. E vejam bem, com outros defeitos, eu até já me arrisquei no mundo estranho do DOS. Ou daquele setup assustador que aparece no início, logo depois que a gente liga. “Aperte F3 se você quiser ir pro Setup”. Soa como uma ameaça, daquelas terríveis, de mãe: “Coma chocolate se você quiser ficar com espinha”.
Geralmente, o Private HelpDesk do Eclipse é o meu irmão, mas de uns tempos para cá, com os dois pequeninos Matheus e Luiza, ficou mais difícil para ele. Arrumei um técnico extraordinário, que me cobrou uma merreca depois de 10 dias com meu computador, Mas com a minha “sorte”, o cara logo teve de se mudar para uma cidade obscura do interior paulista e desapareceu.
Mas a sorte mudou e o nosso Private HelpDesk pôde pelo menos dar uma monitorada via tel. Eu sugeri:
- Pode ser aquela tal bateriazinha?
- Acho difícil, não dá um ‘crash’ como este.
- Bom, de qualquer maneira, vou comprar outra. O que eu compro?
- Compra CR- (número que esqueci)
Este é outro capítulo de quem não entende chongas do computador por dentro: o novo mundo de siglas que se abre. Depois de comprar a pilha CR, colocamos e....”parla”! O computador ficou mudo. Nada aconteceu. Veio a minha suspeita:
- Foi o processador.

No estranho mundo das siglas e números
Como ando meio quebrado de grana (eu e 99% do povo brasileiro), já temi logo pelo preço da peça que, dizem, é a mais cara do computador. E, pior, já me vi entrando numa loja de informática com a missão tenebrosa de comprar um processador – e usando apenas as informações do Private HelpDesk e a minha cara de otário mais do que evidente. Me perdoem, mas eu não consigo estar em uma loja de informática sem que o vendedor perceba que eu não sei absolutamente nada daquilo que estou falando e estou apenas repetindo siglas. Imaginem a cena, que é real:
- Meu amigo, tem HD Seagate de 80? – disse Gustavo, cheio de marra, em uma loja de Copacabana no ano passado.
- Olha, não tem Seagate mas tem do (nome que esqueci). Agora, essa marca não tem nunca de 80, fica em falta. Os caras oferecem um de 120 mas com garantia embutida no preço. A tua placa é onboard? Tem que comprar o cabo para a placa? Você já tem o cabo? Nós vendemos.

CD de instalação: outro exemplo de terror, mas não vem muito ao caso - por sorte
Adivinhou, amigo leitor: eu não fazia a menor idéia se a placa era on-board. Me lembro de pegar o celular para ligar pro técnico e dentro da loja não ter sinal. Claro que eu ia fingir que o telefone tocou e eu estava apenas atendendo. Mas tive de sair, pedindo licença. O técnico não atendia o celular e não estava em casa. Me deu vontade de entrar na loja com os dois braços para o alto, o celular aberto, gritando:
- Ok, ok, perdi mas não esculacha! Não sei porra nenhuma dessa merda! Pode me extorquir à vontade! Me vende um cabo desnecessário!
Sei que desta vez, para nossa felicidade, não teve nada disso, nada de processador, nada de HD. É uma felicidade equivalente a – usando as palavras de Veríssimo – passe de calcanhar que dá certo. Mas meu irmão diagnosticou que era a Fonte (uso maiúscula porque é coisa nova). E lá veio outra sigla:
- Compra a fonte ATX 450. De 300 talvez desse, mas garantido é 450.

Onde o Eclipse é feito, de forma artesanal e caseira
Fui a um shopping que tem três lojas diferentes. Corrijo: fui a um shopping que tem três lojas diferentes e era SEXTA-FEIRA DE CARNAVAL. 16h30. Na primeira loja, uma vendedora olhou no fundo dos meus olhos quando perguntei se tinha fonte. Percebi que aquilo para ela seria melhor que sexo. Se ela me entregasse um amortecedor Cofap dizendo que aquilo era a fonte, eu compraria. Lambendo os lábios, ela detonou, às cinco da tarde de uma sexta-feira de Carnaval:
- Olha, não temos e adianto: não tem em nenhuma outra loja do shopping. Você vai achar isso no Shopping Avenida Central.
Para quem não é do Rio, explico: é um antigo centro comercial na Avenida Rio Branco, em frente ao Largo da Carioca, que virou referência em material para informática. Mas de onde eu estava, ir para o Avenida Central significava acompanhar milhões de pessoas que estavam indo para casa ou para a folia. E encarar engarrafamentos de DNA paulistano.
Saí desesperado para as outras lojas do shopping, com o desejo simples de achar a tal fonte e voltar na vendedora. Agarrar pelo pescoço e sacudir a fonte diante dos olhos dela:
- Você não disse que não tinha? Olha aqui, porra!
Mas a vendedora estava absolutamente certa. E os dois nerds assumidos na outra loja disseram:
- Em loja de shopping tu não acha isso não.
Aí me deram o endereço de uma loja em Copacabana. Rua Barata Ribeiro. Lá fui eu de ônibus para a loja, que pelo menos era em um endereço mais próximo. Arfando, suando em bicas, esmigalhado pela jornada matinal de trabalho, entrei na loja, minúscula. Um móbile daqueles sonoros, de chamar a atenção de quem está dentro, acionou sininhos quando movi a porta. Veio uma vendedora com um jeito meio tímido. Eu balbuciei, esperançoso e resignado:
- Tem fonte ATX?
- Tem.
- 450?
- 450 não. Só 500.
Antes de pedir a de 500 e cravar meus dentes na fonte, na esperança de dela retirar os 50 excedentes, liguei pro nosso Personal HelpDesk.
- Tem problema ser de 500?
- Não.
Paguei os 49 reais como quem compra uma carta de alforria. Voltei para casa em meio a uma Copacabana caótica, de pessoas bêbadas, prontas para o Carnaval do Rio. E eu só pensava no quanto eu estava feliz com a minha fonte ATX 500. Acho que virei mesmo um nerd.


