28.01.08
Eclipse, The Best Man (and Woman)
Falei deles aqui, no mês passado. Paula e Maurício são para mim a realização de um delírio castañediano, daquele autor de “A Erva do Diabo”, que desbundou muita gente nos anos 70 e início dos anos 80 com o aprendizado através do peiote. Um dos ensinamentos do índio Don Juan Matus, o mestre que inicia Carlos Castañeda nas experiências alucinógenas, é a formação de um duplo. Não um irmão gêmeo, não um clone, mas você mesmo em outro lugar ao mesmo tempo em que você está agora.
Está certo, tais coisas não foram feitas para serem entendidas, e sim conversadas entre uma execução de “Espanhola” e “Blowin in the Wind” em localidades como Mauá ou São Tomé das Letras. E, por mais que dure a conversa, será impossível entender o mundo do apátrida Castañeda (dizem que era brasileiro, aliás). Pois bem: Paula e Maurício um dia vão escrever o Eclipse. É sério. Um dia vai existir um outro blog chamado Eclipse. Assinado por eles. Não clone ou gêmeo, mas outro e ao mesmo tempo este aqui. Eu sei que não dá para entender. Até porque não há entre nós sentimento de “irmandade” – não tenho vontade de pegar coleções de revistas em quadrinhos emprestadas do Mau ou de consertar o computador quebrado dele, coisas freqüentes na relação entre irmãos. Muito menos Marcele usa roupas da Paula e vice-versa, ou divide algum estojinho da Coty Girl, como sói acontecer entre irmãs. Nada disso.
É algo que sequer nos “une” – e isto não quer dizer que não tenhamos os sentimentos comuns de união e amizade. É mais que uma união, é uma identificação. Trata-se de uma conseqüência da Internet: seu campo de ação fica monumentalmente maior, e você obtém milagres – como o que eu obtive ao descobrir a Marcele em meio a toda a humanidade. Sem a Internet eu teria de achar a Marcele procurando por este mundo, provavelmente a cavalo e com uma espada. E com um GPS para andar pelas ruas de Quintino. Não acharia a Marcele. E sem a Internet eu jamais teria discutido a Copa de 2002 com o Mau, até então um dos fundadores do Futebol Brasil.
A Internet faz estes milagres. Sábado passado, folheávamos todos o Almanaque dos Anos 70 da Ana Maria Bahiana, quando vi Rosebud: uma propaganda do autorama Circuito Gávea da Estrela. Eu não tive. Mau disse:
- O meu está inteirinho, até hoje lá. Funciona perfeitamente. Uma Ferrari e um Copersucar.
- Com a pista? Não acredito – respondi, incrédulo mas sabendo que é verdade.
- Troquei os pneus ano passado, ou seja, está tudo novinho.
Houve uma pausa de uns 20 segundos até que eu disse:
- COMO ASSIM “troquei os pneus”?
Aí ele me disse que achou os pneus dos dois carros no Mercado Livre. Protagonizamos um comercial do famoso site de leilões e compras, a bem da verdade. Mas creiam-me: trocar os pneus dos dois carrinhos é algo que eu definitivamente faria.
Nada disto surpreende: nossas coleções de CDs e livros quase não têm diferenças, ao passo que a Paula e a Marcele pensam o mesmo sobre calor e praia e também preferem as massas (canelones, lasanhas, pizzas, nhoques, espaguetes).

Parte da minha coleção de CDs: Mau provavelmente tem todos estes aí
Continuamos o almoço, bebemos mais e mais, assistimos ao Concert for George, e a Paula e a Marcele dormiram em alguns trechos. Marcele sempre acorda em “My sweet lord”, mas veja o vídeo abaixo e diga se você também não acordaria.
Horas e garrafas depois, me lembro de estar descendo o bondinho do Pão de Açúcar. E eles convidaram a mim e à Marcele para sermos “The Best Man”. Padrinhos de casamento. Minha reação: catatonia. Claro, depois de garrafas e mais garrafas de vinho e de conhaque, além de cerveja, eu tinha relações muito próximas com a catatonia, e caso ela tivesse uma casa de veraneio, eu passaria o fim de semana lá e seria o encarregado de levar gelo e carvão. Mas, enfim, fiquei paralisado e adverti: “Olha, não sei como lidar com essa gigantesca responsabilidade”. Na verdade, a alegria e a felicidade eram tantas que eu não sabia o que fazer – e estávamos dentro do bondinho, qualquer comemoração mais forte poderia ser fatal.
Eu só sou padrinho da minha sobrinha Luiza. Ah, e de casamento dos pais dela, claro. Tenho mais um padrinato, mas o casal já se separou, portanto, creio que não tenho mais deveres e direitos sobre os mesmos. Ser padrinho da Luiza é uma responsabilidade gigantesca. Na verdade, creio que o padrinato (nem sei se essa palavra existe mesmo) é algo que inventaram para as pessoas que se formam em Ciências Humanas. Percebam, por mais que sejamos levados a cargos de chefia tais como editor de jornal ou coordenador dos cursos de Origami de um centro cultural, dificilmente temos sob nossa responsabilidade vidas humanas. Não ganhamos nunca o que ganha um piloto de avião, mas ao mesmo tempo passamos a vida sem ter a vertigem de saber que “Ei, é bom você saber aterrisar essa merda, senão morrem 300”. Mas quanto eu soube que iria ser padrinho da Paula e do Mau, e o bondinho começou a chegar à estação da Praia Vermelha, eu me vi cauteloso: “Oooooopa....isso....calma, garota....estamos chegando...abriirrrrr portasss!”.
Por isso, já sei onde vou estar em um fim de semana de maio: em Lages (SC). De terno, gravata e esperança, em uma mesa rubro-negra, com vinhos e felicidade. E vou de avião – calma, vou deixar tudo a cargo do piloto. Afinal, já estarei indo ao encontro de uma grande responsabilidade.
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Que bom que nós vamos ser amigos pra sempre, né?
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Sim, estou me auto-convidando...
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