22.01.08
O bonequinho discute a relação: como decidir qual filme o casal vai ver?

Nestes tempos de escolha da Lista do Oscar, me vêm à cabeça uma batalha silenciosa de quem tem um relacionamento amoroso heterossexual: a difícil decisão de que filme assistir no cinema. E digo "heterossexual" sem nenhum preconceito: hoje em dia estou convencido de que casais gays têm facilidade muito maior para tais tomadas de decisão do que casais formados por um homem e uma mulher. Um casal gay não hesitaria diante de Querelle, Priscilla a Rainha do Deserto, Brokeback Mountain ou La cage aux folles. Aliás, Seinfeld foi o primeiro a destacar a praticidade de ser um casal gay: “É o único casal que economiza ao dividir as roupas e sapatos”.
Agora, coloque qualquer um destes filmes na frente de um casal heterossexual, e terás a possibilidade de um conflito. Não é preconceito, é apenas uma estatística – tenho certeza de que há casais que concordam em ver e concordam em não ver. Mas quando falamos de possibilidades, precisamos buscar as maiores.
É fato que se trancarmos um casal heterossexual em uma sala branca, com uma TV e um DVD player, diante de uma prateleira com 10 DVDs, eles demorarão pelo menos uma hora e 35 minutos para decidir qual filme ver primeiro. E se o filme for chato, o homem passará a segunda metade do filme resmungando: “Bem que eu falei para vermos Sexta-feira 13 Parte VII”.
Tal tipo de conflito já é registrado por Rita Lee e Erasmo Carlos em “Fama de mau” (“Meu bem ir ao cinema é uma coisa normal/Mas é que eu tenho de manter a minha fama de mau”): no fim da música, eles conversam, o Tremendão concorda em ir ao cinema mas com a ressalva esbanjando testosterona: “Só se for para ver um filme de COW-BOY” (ele fala assim, separado mesmo).
Hoje, Rita Lee devolveria na lata, em falsete: “Tá bom, meu bem, vamos ver Brokeback Mountain”. Este fim de semana, a Marcele optou por ver Eu sou a Lenda, do Will Smith. Aliás, achei ótimo. Na verdade, os meus planos eram ver Meu nome não é Johnny, e ela pensou em ver “Desejo e Reparação”.
O conflito foi decidido por um dos amigos do casal, que JÁ tinha visto "Meu nome não é Johnny" e queria ver o filme do Will Smith. Por educação e cortesia (eu sei que foi muito por isso), Marcele topou. Perguntei pela sinopse (sério, sequer sabia que era refilmagem) e, quando me contaram, lembrei de uma restrição que ela havia se auto-imposto recentemente, a de não ver filmes de terror.
- Marcele, você vai ver um filme de terror?
- Gustavinho, não é um filme de terror. A crítica está falando bem. É ficção científica.
Me calei diante da constatação surpreendente da minha mulher de que não é terror um filme onde um sujeito está completamente sozinho em um mundo com pessoas transformadas em monstros e que só saem à noite para caçá-lo. Um filme onde o sujeito mora em uma casa grande e que é obrigado a encerrar as próprias janelas com chumbo quando o sol se põe e dorme em uma banheira com um fuzil. Tudo bem, não é terror não, vamos lá.
Como eu já disse, curti muito o filme, apesar de ter saído de lá com a impressão de ter exercitado o coração com injeções grátis de anfetaminas. Mas me lembro de ter sacaneado a Marcele na escuridão do cinema. No momento em que cachorros-zumbis gigantescos estão sendo impedidos de passar e atacar Will Smith graças a um fiapo de sol prestes a desaparecer, vejo a Marcele com os olhos arregalados e as mãos prontas para serem colocadas neles. E sussurro no ouvido dela:
- “Gustavinho, não é um filme de terror”
Acho que ela nem ouviu.
Ir ver “Eu sou a lenda” foi excelente para quebrar um hábito. O último filme pauleira que nós tínhamos ido ver foi “Os Infiltrados”, com uma violência tal que nos fez sair neuróticos do cinema. Teve também “Munique”, um filme tão barra-pesada do Spielberg que Marcele precisou se sentar novamente e eu precisei beber um chope “vira-vira” depois de sair da sala de projeção. Ambos têm uma violência crua e um clima de angústia difíceis de serem igualados. “Eu sou a lenda”, creio, superou em angústia e sustos, mas não em violência – já que não há pessoas no filme contra as quais Will Smith pudesse praticar violência (a não ser a violência que ele pratica contra nossos ouvidos ao solfejar “I shot the sheriff”).
Por respeitar sobremaneira a decisão da Marcele de não ver filmes de terror, deixo de ver vários que eu gostaria. Por exemplo, não vi nenhum dos “Chamados”, 1 e 2, no cinema. Vi em DVD. O mesmo vale para “O Grito” 1 e 2. E a refilmagem de “A Profecia” – se bem que, sinceramente, perto do original, este é um filme tão engraçado quanto “American Pie”. Vi outro dia a refilmagem da já clássica cena do cemitério com os cachorros, e, na boa, um clipe de Thriller do Michael Jackson me dá mais medo.
Homens e mulheres sempre terão estes problemas na hora de ir ao cinema. Filmes “Meg Ryan” não são prioridades masculinas, porque essencialmente gostamos de explorar as potencialidades dos novos cinemas multiplex da era digital. Convenhamos, não dá vontade de sair de casa para ver um filme em que não há nenhum carro desabando de uma ponte com 40 metros de altura ou um prédio de 30 andares sendo atacado por pterodáctilos flamejantes. A gente precisa ouvir estes sons para relaxar. Filmes em que não há barulho de ossos sendo partidos, sinceramente, não nos seduzem tanto.
É claro que estou brincando – afinal, em 2007, um dos filmes mais bacanas que vimos foi “Saneamento Básico”, nada de ossos quebrando. Mas tais escolhas apenas confirmam que o acordo homem-mulher é raro. “Saneamento básico” está na lista de filmes que eu e Marcele concordamos em ver no ato, na hora. Assim como “Little Miss Sunshine” (um dos melhores filmes de todos os tempos) e “Ligeiramente grávidos” (ótimo também).
Agora, bem que este último poderia terminar com o pai da bebê sendo convocado para a guerra no Iraque e seqüestrado por xiitas. Pelo menos daria gancho para a seqüência.
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SPOILERS
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O cachorro morre em "Eu sou a lenda". Isso já basta para que o filme seja ruim. Até que não é, mas o cachorro não precisava morrer. Cachorros não deveriam morrer em filmes. Só em caso de hecatombe ou para salvar a humanidade de um título mundial do Vasco.
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Só esse mês já assistimos a "P.S Eu te amo", "Desejo e reparação"(ótimo!) e "Meu nome não é Jonhie". Ia assistir "Eu sou a lenda" com o maridão, mas depois da morte do cachorro...
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