19.01.08
O Big Brother do Natal e o ano que ainda não começou
Eu sei, 2008 ainda não começou. Digamos que 2008, até a Quarta de Cinzas, seja apenas um bebê que não fala. Só vai começar a berrar um pouco depois do Carnaval, e mesmo assim baixinho. Ainda tem a tal Semana Santa, período que antecede o tempo mágico no qual tudo vai ser resolvido. No Brasil, eu sei, existe a síndrome de “mañana” que atribuímos errônea e injustamente aos mexicanos. Parem e se recordem de anos como 1986 e 2006: Carnaval, Semana Santa, Copa do Mundo, Eleições, Natal e Ano Novo. Sendo que em 1986 ainda teve cometa Halley e a convocação do Elzo para a Seleção Brasileira (sinceramente, adiei todos meus compromissos da época para depois da convocação do Elzo).

Em 1986 teve até Cometa para tumultuar o calendário
Mas hoje, 18 para 19 de janeiro, respiro aliviado diante da constatação de que pelo menos acabaram as festas de fim de 2007 – Natal e Ano Novo. Junto com o Carnaval, estas duas épocas compõem a Santíssima Trindade para nós, jornalistas. “Santíssima” para não dizer outra coisa. Some-se o fato de ser jornalista ao fato de ser casado e, voilá!, fica-se a um passo de ter verdadeira repulsa ao Natal. Se eu não fosse casado com a Marcele (hipótese na qual não gosto nem de pensar), talvez odiasse Natal – mas certamente não há como odiar o Natal sendo casado com a Marcele. Os olhos dela brilham no Natal, ela adora.

Só que as negociações relativas ao Natal envolvem hoje pelo menos quatro núcleos familiares – isto falando por baixo: o meu (eu e Marcele), o da família da mulher do meu irmão, a do núcleo original da Marcele e o do meu núcleo original. Meu pai, vivo fosse, acabaria com as negociações: “Vai ser aqui em casa, não enche o saco”, diria o velho. Mas hoje em dia não.
E digo quatro núcleos por otimismo: ainda tem o da tia da Marcele. A tia dela faz aniversário dia 25 de dezembro (ela e o Joel Santana), o que torna cláusula pétrea a ida da Marcele à casa da tia. Ou seja, imagine negociar Natal com quatro núcleos e ainda com uma cláusula irremovível que é o dia 25 na casa da tia da Marcele. Ah, e detalhe: sendo jornalista e ESTANDO DE PLANTÃO no Natal....
Geralmente, os casados começam os debates do Natal em outubro. A primeira providência para abrir os debates é puxar da memória onde foi a ceia e onde foi o almoço do dia 25 no ano anterior. Não, não é simples assim. Uma das partes sempre terá um argumento para impetrar um pedido de liminar:
- Fernando, a gente não almoçou na sua mãe no dia 25? Este ano quero almoçar na casa do meu pai.
- Mas amor, a minha mãe vai passar a noite do dia 24 na casa do meu irmão.
- Ué, por quê a gente não vai para lá?
- Porquê você quer ir na sua irmã. Epa! É mesmo! Como assim? O almoço é meu.
- É, mas quem escolheu ceia na casa da minha irmã foi você, ué!
- Bom, muda tudo então.
- Minha irmã já encomendou os pratos.
- Pô, mas estamos em outubro!
- Na minha família é assim, a gente é organizado.
- O que você está querendo dizer? Que a minha família é desorganizada?
- Não disse isso, mas bem que a sua mãe podia ser um pouco mais atenta, né? Ano passado ela esqueceu do pernil e a ceia foi terrível!
- Como assim, ceia? Você acabou de me dizer que a gente almoçou na minha mãe dia 25!
- Eu disse? Foi você, Fernando.
- Não, foi você. Aperta a tecla Page Up e vê.
- Ah, mas enfim, teve um ano que ela esqueceu o pernil.
- E daí? Sua família é que é perfeitinha e delicada?
- Não, mas a tua faz muita zona e teus primos são uns primatas.
- (....)
- (....)
Natal é tempo de paz. E os casais, mundo afora, passam dois meses em negociações que parecem as de Churchill, Roosevelt, Stalin e Hitler na Conferência de Munique (aquela de 1938, que acelerou a Segunda Grande Guerra). Aliás, eu mesmo não entendo por quê o Natal é uma festa exclusivamente da família, algo que fecha a humanidade em pequenos blocos humanos, relegando à solidão milhares de pessoas por aí que por um motivo ou outro estão sem família (temporária ou definitivamente). E, o que é mais engraçado, guardaram o Dia da Confraternização Universal para o dia 1ª de Janeiro – não por acaso um dia em que eu gostaria de jamais ver qualquer ser humano na minha frente, tamanha a minha ressaca. Se fosse o Natal uma festa coletiva, acho que todos os problemas estariam resolvidos. Passaríamos o Natal num grande restaurante, numa daquelas mesas gigantescas. Mas não, o Natal foi feito para gerar amplos debates.
Os pais – ou apenas mães ou apenas pais – ficam esperando a decisão. E torcendo muito. Imagino até que eles se reúnam, com telão ou TV de Plasma, e fiquem assistindo, comendo pipocas e bebendo Ice Tea de pêssego. Nós, filhos, discutindo e se atordoando, e eles lá, no ar-condicionado e vendo a gente no Big Brother Brasil do Natal.
- Hmmmm....(mastigando milho que não estourou)...E aí, quem ta ganhando?
- Acho que teu filho vai conseguir a ceia. Que pena. Esse ano eu queria a ceia.
- Ô, dona Marluce. Normal. Tua filha curte mais é almoço na sua casa, tarde do dia seguinte, essas coisas....
- Mas seu Ranulfo, este ano eu tinha preparado um guisado especial...
- Marluce, cala a boca senão ele vai querer que guarde pro almoço do dia seguinte!
- Ô, seu Oswaldo, tou morrendo de fome não.
- Olha lá, olha lá – diz dona Matilde, esposa de Ranulfo e mãe do Homem. – Ele está usando o argumento da vaga na garagem!
- Isso é desleal! – protesta dona Marluce, mãe da Mulher. – Oswaldo, faz alguma coisa! Fala alguma coisa! Vai lá!
- Cala a boca, Marluce. Isto é só um jogo!
- Meu filho é fera, olha ali! Está argumentando que a ceia tem de ser na casa da irmã, na Barra porque lá tem garagem com segurança! – diz Ranulfo, pai do Homem.
- Não adianta, eu vou virar a mesa: digo que pego as crianças de manhã – argumenta Oswaldo, pai da Mulher.
- O senhor não se atreva! – responde Ranulfo, colocando dedo na cara. – Olha a regra!
As mulheres entram no meio separando, até que Marluce, mãe da Mulher, dá um grito:
- Gente! Gente! Olha lá, ela virou o jogo!
- Mas o que ela falou? – pergunta Ranulfo.
Os casais silenciam, Matilde aumenta o volume da TV e ainda ouvem:
- “.....e nenhum jogo da Libertadores...”
O Homem capitula. A ceia é na mãe dela.
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No meu caso, já temos tudo bem definido, e todo ano é igual: a ceia é na casa dos meus pais e o almoço, é nos pais da sogra!
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No meu caso, tudo estaria resolvido se a tia da Marcele
tivesse nascido no dia 26....
abraço
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Não resolve nada se ano que vem tiver Libertadores de novo....
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Prepare terreno para, ao menos quando tiver filhos, fazer como seu pai: "Natal é aqui em casa e ponto final".
Dureza mesmo é quando a patroa transforma no réveillon num evento em família, ou seja, num segundo Natal em menos de dez dias. Ainda bem que não é o nosso caso.
Repare que às vezes é até um alívio poder dizer "Estou de plantão". É uma economia enorme de aborrecimentos, mesmo que durante seu plantão haja desabamento no Rebouças, invasão na Rocinha e guerra na Nova Holanda, simultaneamente.
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