16.01.08
Neuroses tecnológicas - A ciência a serviço da aporrinhação
Apesar de estar muito longe de ter me formado em psicologia ou mesmo ter lido até mesmo autores mais básicos da área como R.D.Laing, tenho lá minhas teses sobre o comportamento neurótico. A bem da verdade, eu deveria receber o pHD em Neurose, já que até – em tese – perdi um emprego certa vez, supostamente por ter enviado um email por engano chamando um colega de profissão de “neurótico de guerra”. É evidente que o email foi enviado para o ofendido sem querer. É o perigo da maledicência: pelas costas, sempre gera riscos como a vingança ou a hemorróida.
Tenho a tese sobre Neurose de que elas estão diretamente relacionadas aos bens e serviços de suas épocas específicas, i.e., muitas delas são geradas por peculiaridades do tempo em que vive o paciente. É fato que hoje não encontraremos pessoas com irritabilidade específica com discagem telefônica naquele disquinho que antecedeu os teclados – bem como não havia em 1950 gente que odiasse música eletrônica e jingles baseados em músicas baianas.
Eu conversava outro dia com um roteirista de famoso filme de sucesso e reparei o quanto era difícil manter cinco minutos de conversa com o mesmo (aliás, um cara que é uma excelente conversa): como dezenas de pessoas o ligam a cada hora, constantemente ele tem de sair da minha ligação – pedindo licença – para atender outra em espera. E senti saudade do tempo em que não havia “chamada em espera”. De fato, quando é comigo é algo extremamente neurotizante: estou falando com sabe-se lá que secretário ou investigador, e ouço o “beep, beep, beep” constante, olho no visor e vejo “Marcele”. E penso: “Se eu não atender, ela vai ficar preocupada”. “Diacho”, diria o Capitão Marvel que não era da Marvel.
Sendo assim, mais uma lista: a de 10 modernidades que vão gerar neuroses.

1- O CELULAR – Esta é manjada, mas não poderia faltar em uma lista decente, e em primeiro lugar. Nos tempos em que não existia o fantástico telefone móvel (sem dúvida um dos maiores avanços da civilização, mas neurotizante), a Marcele me telefonaria no parágrafo anterior e ouviria o velho sinal de OCUPADO. Velho e saudoso. Aliás, nem isso, já que ela não me ligaria ao celular. Tentaria me achar no trabalho. Nos tempos pré-telemóvel, se deixava recado e não se dizia “Vou tentar o celular” para o infeliz que teve o trabalho de atender o telefone, como se diséssemos, “Tentar ligar pro celular é uma alternativa melhor do que deixar recado com você, seu imbecil”. E bons tempos aqueles em que não éramos achados e isso não gerava imagens na cabeça de nossos entes queridos como "corpo deitado no chão sobre poça de sangue com o celular tocando em vão do lado e prestes a ser atendido pelo bombeiro do rabecão".
Hoje, o cara não ser achado é visto como criminoso ou vítima de crime. Se sumiu e não atende celular, ou o cara despreza o emprego ou está cometendo adultério, dependendo de quem ligar. O quê? Você NÃO TEM CELULAR? – esta é a frase-chave desta neurose.
2-A CHAMADA EM ESPERA – Seja em celular, seja em telefone fixo, a chamada em espera é algo feito para neurastênicos de carteirinha. “Só um minutinho” e lá vai o cara para a outra ligação. Comédias invariavelmente usam este recurso. Em “The Holiday”, comediazinha romântica bem interessante com Cameron Diaz. Kate Winslet, Jack Black e Jude Law, há esta troca involuntária de chamadas, gerando mal-estar. Na vida real, é um porre. Para jornalistas então, é um suplício: numa ligação, está o promotor público que cuida da chacina da Baixada Fluminense. Na outra, minha mãe perguntando se eu troquei o filtro da pia nos últimos três meses. Os assuntos se misturam. Não me pergunte como.
3- SONS RANDÔMICOS – Hoje em dia o sujeito programa sons para tudo: recebimento de mensagens no celular, erro no uso do mouse, chegada de emails no computador, mensagem na caixa postal, alerta do celular para hora de tomar remédio – isto tudo sem contar o breepbreep dos rádios Nextel, a última onda entre os mais avançados tecnologicamente e economicamente. Considerando que cada indivíduo num local de trabalho “gera” três sons diferentes (e rezando para que seus flatos sejam do tipo bufa e não barulhentos), e em um escritório com 30 funcionários, pode-se entender que, em um dia de trabalho, você ouvirá pelo menos noventa sonzinhos diferentes para as mais variadas modalidades.
4-O ORKUT -Vai gerar neurose, aviso logo. Hoje em dia, você conhece alguém em um ambiente de trabalho e vai logo no Orkut da pessoa para ver que amigo seu a conhece. No dia seguinte, liga pro amigo: “Aí, conheci fulano. Vi no orkut que você é amigo dele. Qual é a do cara?”. Resposta neurótica do amigo: “Cara, não é tão meu amigo assim não, o cara me enviou convite e eu aceitei. Saí com a irmã dele um vez, não comi, mas ele foi ao boliche na mesma noite e viu a gente na fila do milk-shake” (boliche? Milk shake? Havia Orkut na década de 50?). O Orkut basicamente fez de todos nós uns arapongas. Fuxicamos as fotos, olhamos os depoimentos, e até lemos os recados alheios. Bonde neurose total. Aguardem: em mais dois anos, os consultórios de psicologia terão pacientes com problemas psíquicos gerados pelo Orkut.

5-AS MILHARES DE BRINCADEIRINHAS DO FACEBOOK – Isto é neurose total. A cada vez que entro no site de relacionamentos Facebook, tem lá alguém com tempo de sobra para mandar convite para uma brincadeira em que você vira zumbi ou vampiro e ganha pontos se morder alguém. Sim, é preciso ter tempo de sobra e uma expectativa de vida de 900 anos para usar todas as babaquicezinhas do Facebook. Incrível ver homens adultos, professores, advogados, médicos, enviando “uma mordida” para você ou então um “chopinho virtual”. Isso aí me lembra brincar de casinha, quando minha sobrinha Luiza está brincando de fazer chazinho e eu pego a xícara de brinquedo, viro na boca e digo, “Que chazinho gostoso, Luíza”. Imagine que todos os dias malucos do Facebook estão enviado cervejas, drinks com nomes gays (“sex on the beach”, “tom collins”) e brindes simbólicos uns aos outros. O que significa tudo isso?
6-O CONVERSOR SEM OPÇÃO MANUAL DA NET DIGITAL – A neurose será para internação em manicômio judiciário. Já me imagino no alto de um prédio, com um rifle e ouvindo Alá me orientando a derrubar os cães infiéis – pelo menos se acontecer mais uma vez de o controle remoto se perder e eu precisar trocar de canal rápido para o SporTv porque ouvi na TV do vizinho um gol. Um gol, claro, no clássico entre Ipiranga x XV de Piracicaba na Copa SP de Futebol Junior (ou evento de grandeza equivalente). O novo conversor digital da NET não é como aquele antigo, que permite ir clicando até o canal chegar. Inexiste tal opção. Eles nos fizeram escravos para sempre do controle remoto. Para um casamento não amadurecido, inclusive, isto pode ser fatal.
Não é nosso caso, graças a Deus – já que fomos sábios e obtivemos duas televisões.
7-O MESSENGER – Neste caso, as consultas clínicas, além da área de psiquiatria, serão feitas também, claro, aos reumatologistas e ortopedistas que tenham especialização em ergonomia. O messenger é outro fator de “aproximação” entre os amigos com um diferencial: seu amigo nunca sabe como é seu dia-a-dia, o que faz com que ele te considere sempre disponível. Não raro recebo perguntas como “E aí?” (questionamento que deveria ser respondido por Sófocles ou Platão) no período de tempo compreendido entre as 18h30 e as 22h30. Não há dúvidas que o cidadão normal, bem ajustado na vida e sem traumas está, neste horário, completamente à toa e pronto para uma boa conversa. Não tem a menor obrigação de saber que das 18h30 às 22h30 eu torço para ter prisão de ventre a fim de não precisar nem ir ao banheiro. Neste horário, somente uma atriz pornô de filmes de gangbangs com mais de 20 homens atinge o mesmo nível de ocupação que eu. Trabalho em um jornal, é apenas isso. Mas se eu não respondo ao amigo que está no GMAIL me perguntando se eu lembro quem compunha com Capitão e Careca o ataque do Guarani de 1978 (respondo logo, era Bozó) é óbvio – e normal – que o cara fique chateado. No MSN então, é pior ainda. A neurose é: entrou no MSN, alguém logo te aborda. Ninguém quer saber de usar o messenger como telefone, porque, afinal de contas, o seu telefone não fica dizendo para todos os outros telefones amigos “Ei, meu dono está em casa, caso precisem falar com ele”. E seria uma loucura eu plugar meu telefone e telefonar para a casa de um amigo meu e dizer “Qualé, maluco” para a primeira pessoa que atendesse.
Vejam bem, considero normal, a tecnologia é para isto mesmo. E ninguém precisa parar de me abordar nos messengers – para mim é suficiente que entendam apenas que, se eu não responder, é porque estou longe da mesa ou então discutindo ao telefone com alguém que está na emergência de um hospital fotografando policiais do Bope carregando corpos ensangüentados para atendimento. It´s the business’s bones, my friend.
Posts similares:
GOSTO X NÃO GOSTO: TELEFONIA
JOGO DA MEMÓRIA: TELEFONE X SENHAS
Disque-Freud
Comentários:
Seus comentários
Url: http://maroma.wordpress.com
E odeio chamada em espera!!!
Url:
Url:
Url: http://www.mlm.com.br/james
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Paulo Cesar, sem dúvida: eu mesmo ainda
tenho dois cartões de plano de saúde
para qualquer emergência
Luiz,
me esqueci das senhas:
a quantidade absurda
de senhas a serem decoradas
James,
SEM DÚVIDA
o ótimo Twitter
vai gerar neurose,
assim como os feeds....
abraços
Url:
Url:
Senhas! Senhas! Senhas! Senhas!...
Url: http://trottolices.blogspot.com/
Muito bom o texto, não é a toa que ouvi elogios de Marmota e Doni sobre seu blog. Vou voltar mais vezes. ^_^
Abraço!
Url: http://www.fotolog.com/lesivo
Tive que parar de ler uma hora porque eu lembrei que precisava carregar a bateria do meu celular e se eu não resolvesse não ia poder ligar pra minha mae a noite pra dizer que finalmente troquei o filtro do ralo da pia e comprei um daqueles rodos pequenininhos. coisa que se ela não soubesse talvez não dormisse direito.
Uma neurose só !Eu estou no trabalho Derrepente o texto se tornou como um narrador para os eventos ao meu redor. só que eu tive que conter as rizadas disfarçando com uma tosse falsa
Url:
Url: http://www.mundovoip.org
Quem aqui que lida constantemente com celular em momentos de stress não teve a terrivel sindrome do celular tocando, aonde nem importa se o celular esta com você, mas você sente ele vibrando/tocando do mesmo jeito?!?
Url: http://www.marceloneurosee.blogspot.com
Url: http://shopping.uol.com.br/nextel.html
Url: http://yahoo.com
Url: http://www.powerkitesdirect.com/kiteboarding-gear-essentials/
Url: http://www.anyvan.com/courier-services
Url: http://classic-eg.com
Url: http://classic-eg.com
Url: http://www.emploi-travail-domicile.fr
Url: http://www.jobsfor7.com/
Url: http://www.jobsfor7.com/
Url: http://collectunited.com/pg/blog/new/bluesky123
Url: http://www.jobsfor7.com/
Url: http://topafricanmango.com/
Url: http://kiralyno2009.blog.hu
Seus comentários::


