Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes são cariocas, casados e rubro-negros. Ele tem 40 anos e trabalha de noite. Ela tem 27 anos e trabalha de dia. Os dois se encontram nas poucas folgas que restam, nos posts do blog e, quase sempre, nos sonhos também.
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Marcele Fernandes









6.01.08

“Como recuperar 40 bilhões sem ter de aumentar os impostos” ou “A terrível história da CPMF” (a Contribuição provisória sobre movimentação ou transmissão de valores e de créditos e direitos de natureza financeira)

Eu trabalho numa instituição financeira pública. Ou, como gostam de dizer por lá, de “economia mista”. Atendendo ao público em uma instituição financeira pública, o que mais escuto são reclamações. Não só reclamações sobre a empresa, mas sobre o governo. Vocês não têm idéia da quantidade de vezes que eu escuto coisas como, por exemplo, “O meu empréstimo não é aprovado porque eu tenho o nome no Serasa, mas aquele desgraçado do Renan é inocente, né?” ou, uma das minhas favoritas, “Eu não vou pagar essa CPMF! Devolve o meu dinheiro!”.

CPMF

Eu também quero o meu dinheiro de volta. Tudo o que eu já paguei em CPMF, desde 1996, e que tenho certeza de que foi mal aproveitado, eu quero de volta. É por isso que toda vez que um cliente pedia o dinheiro da CPMF de volta eu tentava explicar calmamente que eu, por mais que quisesse, não tinha como devolver. E que eu também detestava o imposto e que só de pensar em pagá-lo por mais alguns anos os meus olhos ardiam e eu achava que ia desmaiar.

Quando o Congresso deu um basta na Contribuição provisória mais permanente que eu já vi, fiquei bastante aliviada. E, durante alguns minutos, até não acreditei. Mas confesso que desde que esse novo “não-pacote” do governo foi lançado, estou começando a sentir saudades do velho imposto (para não dizer que estou com saudades do Collor). O Governo e trocentos políticos corruptos recebiam uns sete reais meus a cada dez dias, mas o que é isso perto da grana que eu pago de Imposto de Renda ou, até mesmo, de todo o dinheiro que eles recebiam da CPMF das contas milionárias que existem por aí?

Se a CPMF era o “imposto dos justos”, o “imposto que atinge a todos”, o “imposto que protege os pobres”, o “imposto que sustenta o SUS” (mesmo o congresso tendo aprovado há anos uma lei que desvinculava o dinheiro recebido através da CPMF da Saúde) o quê é esse “novo” IOF? Será que o IOF é um Imposto sobre Operações Financeiras que quer se vingar dos pobres coitados que rezavam para a CPMF acabar? Pobres coitados que pagam cartão de crédito atrasado, que precisam pedir dinheiro emprestado para pagar as contas e que tem de fazer financiamentos para poder plantar e colher a safra de feijão?

Eu não sei o que é pior. Esse novo IOF atingir principalmente quem o governo dizia tanto que tentava proteger com a continuidade do CPMF, ou as declarações estapafúrdias que eu tive de escutar desde o dia primeiro de janeiro, quando aconteceu o lançamento do “não-pacote”. Como o senhor Guido Mantega, que teve a pachorra de dizer: “O presidente não está deixando de cumprir uma promessa. Ele realmente prometeu que não aumentaria nenhum imposto para compensar a falta da CPMF, mas essa promessa era para o ano de 2007. Ele não se referiu a 2008”.

Sem contar que eu não precisava ouvir do presidente em que votei (deve ter soado uma voz dos céus, logo que entrei na cabine de votação em 2006 e apertei o 13: “perdoai, senhor, ela não sabe o que faz”) dizer que não vai reajustar o salário dos funcionários públicos, nem abrir mais concursos. Raciocinem comigo: pra quê mais concursos, né, gente? As repartições públicas já estão lotadas de gente que não faz nada o dia inteiro (já que funcionário público não faz porcaria nenhuma). E existem outros métodos mais proveitosos para selecionar pessoal, como o teste do sofá e o nepotismo. Os funcionários públicos também não precisam ter seus salários reajustados, porque eles já ganham bem demais e durante os últimos dez anos, principalmente na era FHC, tiveram aumentos de salários estupendos! Eu, particularmente, acredito que os funcionários públicos que menos trabalham e mais ganham são aqueles dos hospitais e das escolas. E ah, também acredito em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e Políticos Honestos.

Enfim, o motivo desse texto é aliviar a raiva e dar algumas sugestões para o Presidente, que está precisando de ajuda para arranjar os 40 bilhões de reais que vão faltar para a CPMF:

1) Acabar com a corrupção. Diminuindo a quantidade de propinodutos da vida, eu aposto que o dinheiro vai render mais, presidente. É só o senhor deixar de ser distraído e reparar quando alguém de confiança distribuí mesadas para deputados.

2) Diminuir realmente as despesas. Inclusive as pessoais. Afinal de contas, se a fatura do cartão de crédito corporativo era de quase 10 milhões em 2005, quanto deve ser hoje em dia? Presidente, é melhor tirar esse cartão da mão da dona Marisa e dos seus assessores e guardar em um lugar bem escondido. E esquecer de onde colocou, pro senhor não usar também!

3) Criar uma lei que institua que quem quer ser deputado ou senador, tem de trabalhar de graça. Nada de salário de 22,5 mil reais e trocentos reais em mordomias. Se você quer realmente ajudar o seu país, só precisa de uma ajuda de custo. Se o povão consegue sobreviver com um salário mínimo de 380 reais por mês, porque os deputados não conseguem? Os gastos anuais de quase 1 bilhão de reais acabariam e a IOF não precisaria aumentar tanto.

4) Parar de criar datas de validade para promessas. Essa sugestão é importante, presidente. Se não o povo simplesmente passa a achar que tudo o que senhor fala daqui por diante é mentira. Ou então, que só é válido para este ano. Ou pra esta semana, ou pra este dia. Nunca se sabe... já pensaram se esses novos prazos de validade para promessas são decrescentes, como o IOF era antigamente, e expirem cada vez mais rápido? Só espero que essa nova modalidade de promessa criada pelo Governo não seja adotada pelas pessoas comuns (principalmente se essas pessoas comuns forem casadas, porque o número de divórcios cresceria brutalmente; pena que nós, cidadãos, não podemos nos divorciar de nosso querido presidente).

Mais sugestões para o presidente:

5) O leitor Heitor Reis sugere nos comentários o cancelamento da venda da Vale do Rio Doce, que renderia algumas dezenas de bilhões de dólares ao governo (e que pagaria alguns anos de ausência de CPMF).

6) A Janaína sugere um estoque de óleo de peroba. Com a cara de pau deles, Naína, bem que eles estão precisando...!

Serviço: Se você precisa aprender como calcular os impostos que tem de pagar, aqui está um bom site para isso.

por Marcele Fernandes as 22:08:35

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Comentários:


Seus comentários

Nome: FLAVIO FAGUNDES FERREIRA
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Enquanto a republica brasileira for organizada de modo que os integrantes dos tres poderes forem principes, principalmente os do poder executivo, com prefeitos, governadores e o presidente fazendo o que bem entendem e ""otimizando" incontaveis quantias de dinheiro, o pais nunca mudara.
06.01.08 @ 23:30
Nome: Heitor Reis
Url: http://www.HeitorReis.fr.fm
Favor incluir algumas dezenas de bilhões de dólares a ser recuperado com o cancelamento da venda da Vale do Rio Doce.

Mais detalhes em:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Companhia_Vale_do_Rio_Doce

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especial.2007-08-24.9265285827
07.01.08 @ 00:04
Nome: Naína
Url:
Eles precisam tb de um estoque de óleo de peroba.
07.01.08 @ 00:28
Nome: Gustavo de Almeida
Url: http://www.interney.net/blogs/eclipse
Como diz o Cake,em "Friend is a FOUR LETTER word", governar é uma FOUR LETTER WORD (FUCK)

não tem um F (CPM) vai outro (IO)
07.01.08 @ 01:54
Nome: Paulo Cesar
Url:
Isso aí é uma vaca ou uma girafa?
07.01.08 @ 16:24
Nome: Thássius V.
Url: http://memoriasfracas.com
Eu queria que nossos políticos fossem avaliados anualmente, e não de quatro em quatro anos. Tipo mini-plebiscitos, para validar o pleito que os elegeu.

Muita gente cairia um ou dois anos depois.
09.01.08 @ 07:23
Nome: Rodrigo Cobra
Url:
Existe um meio tão cretino quanto a anulação do leilão da Vale. Deveríamos anular a privatização das telefônicas e obrigar cada brasileiro que tem celular a pagar o que eles custavam antes da privatização. Daria para pagar a dívida interna e externa algumas vezes. Poderíamos produzir novos "Eikes Batista" filhos de novos "Eliezeres Batista" e exportarmos "Lumas" de Oliveira. Certamente melhoraríamos a balança comercial.
16.01.08 @ 21:17
Nome: Eduardo Buys
Url: http://www.varejototal.zip.net
Marcele e Gustavo, do Eclipse,
seus textos e assuntos são de ótimo nível. Só assustei quando vi a defasagem de postagem. Primeiro achei que estava confuso, um texto de 1º de março, meu aniversário, e o de nossa CIDADE MARAVILHOSA, com texto de Janeiro embaixo, e Abril em cima, ou algo assim.
Só depois ví que os posts são mesmo super espassados. Melhor assim, do que nada.
Quando publicarem diariamente, aí ninguém segura.
Na verdade, tive muita sorte em conhece-los, quando estava em busca de imagens para colar em um post do meu, blog do Varejo, para ilustrar uma notícia terrível.
Nada mais, nada menos do que a tentativa de alguns parlamentares, caras de pau, que têm a coragem de se dizerem nossos representantes, de articulação, como quem não quer nada, do retorno da CPMF.
Acreditem se quiserem.
São uns desabusados, que só vão aprender depois que o próprio Povo aprender primeiro, e se impuser, através do voto, como é numa democracia saudável. Enfim, achei perfeita a figura do tridente - de onde mais pode vir este assunto? - e colei no meu post.
Vão lá conferir, e se conscientizar deste assunto, para repassar, se for o caso.
Vou copiar esta msg no Blog do Varejo.
Saudações, Eduardo Buys Blog do Varejo
-se navegar é preciso, então www.varejototal.zip.net
17.05.08 @ 08:44
Eu, particularmente, acredito que os funcionários públicos que menos trabalham e mais ganham são aqueles dos hospitais e das escolas


Exceto os professores... pra que pagá-los bem se eles têm que executar um trabalho, não é?
24.01.09 @ 21:36
Nome: Andre Nascimento
Url: http://www.hinosevangelicos.net
Como a amigo Thassius postou num comentario acima, eu queria que os politicos fossem avaliados de ano em ano, tivessem metas a se cumprir. Ontem mesmo estive pensando, seria melhor privatizarem a politica. O Brasil cresceria MUITO mais.

E outra, se é necessário provas e mais provas para entrar num emprego público, ou numa universidade, seria necessario e obrigatorio tambem uma prova, e das boas, para poder ingressar na carreira política.

Iremos separar o joio do trigo em boa parte.
30.12.09 @ 15:53

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